Cap. 17 (sem revisão)

Faz cerca de vinte dias que estou aqui mas sinto como se estivesse ficando mais velha rápido de mais, de tão cansativo que tudo é. Surgem uns papéis do além para eu assinar, propostas para a melhoria da infraestrutura e implementação de coisas que ainda não são muito comuns, como alfabetização para os cidadãos plebeus e saneamento básico em áreas mais distantes da capital. Como Rui aguenta tudo isso e ainda por cima consegue tirar tempo para mim? Não que eu esteja reclamando, mas nunca vi ele me deixar pelo trabalho, com exceção do dia em que me anunciou como conselheira de assuntos militares.

Além de todas essas coisas políticas, eu ainda tive que dar conta de alguns nobres que estavam incitando o povo a ser contra mim e precisei mandar Ana e a família dela para um lugar mais seguro e próximo a capital para não tentarem descontar nela depois da minha afronta sobre aquilo dos impostos.

Aos poucos ela está ficando melhor, eu não posso visitá-la mas ontem ouvi de Stephanie que está tudo bem e que ela havia até se animado um pouco depois de uma visita surpresa que Valquíria fez. 

Sobre o traficante de escravos, não conseguimos pegá-lo. Meus homens já o viram mais de uma vez no norte, mas como são agentes à ”paisana” eles só podem me informar para que eu peça para os soldados locais fazerem algo a respeito, se de repente outra unidade começasse a agir lá, eles iriam perceber que já sabemos de onde eles estão transportando as pessoas. Já os perdemos três vezes e me deprime muito pensar que nessas três falhas, dezenas de pessoas podem estar tendo sua clavícula marcada pela marca de escravo.

 Resolvi que não posso usar meios convencionais e mandar a marinha perseguir eles mas já tenho um segundo plano e sei o que tenho que fazer, mas não sei exatamente como. 

 São duas da manhã e eu estou no nosso lugar - nem sei quando passei a chamar aquele pátio de “nosso” -, eu venho aqui quase sempre para tentar evitar de ficar deprimida, mesmo assim é difícil. Em casa… na casa dos meus pais adotivos, eu costumava cantar para aliviar o que eu estava sentindo, já que a música sempre consegue descrever nossos sentimento, mas desde que vim para Nyur, a última coisa que quero fazer é cantar. Não há música no mundo que consiga descrever essa mistura de sentimentos e sensações. 

 No céu eu tem algo estranho, apesar de não ter me importado muito com isso, faz um tempo que tem um passáro rodeando o lugar onde eu estou. Seria engraçado se ele estivesse esperando que eu estenda o braço para ele, como naqueles filmes onde…

 Eu berro.

Tipo, eu não queria ser exagerada mas quando fiz o teste (estendendo meu braço), de repente o pássaro voou na minha direção e agarrou meu braço. Ele é tão grande e gordo que eu me assustei MUITO, aliás, duvido que exista algo parecido no nosso mundo; ele é como uma coruja, mas é azul escuro, seus olhos são tão grandes quantos os de filhotes de cachorro de desenho animado, verdes, e os dedos das patas um pouco mais longos. 

Esse

Bicho

É

Sinistro!!

Alguns soldados bateram na porta e perguntaram se estava tudo bem entrar (ou melhor, sair, porque quem está fora sou eu), eles agora me chamam de Amélia porque, aparentemente, a muito tempo atrás Rui decretou que isso não seria apenas um nome como também um título que é tão importante quanto o dele, qualquer criança nascida depois desse decreto não poderia ser registrada com esse nome, pois ele era exclusivo da mulheres da família. No começo ser chamada assim me incomodava, agora eu só ignoro.

-Tudo bem! Eh… não deixe ninguém passar, nem que seja a pessoa mais importante do universo. - pedi enquanto tentava me levantar, depois de agarrar o meu braço e eu cair, o pássaro gordo ficou na minha barriga. 

 

Não faço ideia do que essa coisa é, mas seja oque for não acho que possa ser vista por qualquer um. Ela pesa o que? Uns vinte quilos? Mais?

-Saí de cima de mim! - implorei tentando a empurrar, meu medo é que ela me rasgasse com as unhas mas notei que estão cortadas de modo que não machuquem.

 Obedientemente ela deu alguns passos para trás e ficou sobre minhas pernas, pelo menos consigo sentar. A olhei um pouco atordoada, ela é realmente bizarra mas eu tenho vontade de a apertar como se fosse de pelúcia. 

 Não consegui mais me segurar quando ela de repente começou a esfregar a cabeça em mim, como está nas minhas pernas ela fica mais ou menos da minha altura e consegue alcançar o meu pescoço. Eu a abracei enquanto ria, isso faz cócegas.

-Afinal, quem é você? - perguntei quando ela parou de se esfregar em mim e me olhou com seus olhos gigantes enquanto piava estranho. Ela virou a cabecinha de lado e eu notei que um pouco oculta pela plumagem dela havia uma fita azul. 

 Lentamente eu estendi minha mão, ela seguiu com os olhos mas não parecia ir contra a ideia de eu tocar seu pescoço. Eu fiquei apreensiva porque não sei o que essa...ave é, vai que ela não gosta que peguem no pescoço dela e me bica até a morte. Peguei a fita e a desamarrei, depois dei uma olhada, estava escrito “Asumi”* em letras pretas e meio trêmulas. 

-Asumi então, hein? Se a fita é azul é provável que signifique que você é macho. - amarrei a fita no pescoço dele de novo. - Você parece ter dono, então deveria voltar.

 

-Puo? - ele fez me se aproximando mais. 

-Ei! Assim você torna as coisas difíceis para mim, garotão. - eu consegui me levantar com muita dificuldade, carregando ele até o parabeito, o coloquei de pé ali e respirei fundo, aliviada. - Vai lá, vai!

-Puo, puo… - ele me olhou sem parecer querer ir embora. 

-Eu… vou entrar! - corri até a porta, passei por ela, a fechei e espiei lá fora pela fechadura, os soldados/guardas que estavam vigiando a porta pareciam surpresos, mas não disseram nada.

  Asumi ficou olhando nessa direção e caminhou pesadamente até a porta, então começou a bicar ela. 

 O que eu faço? Eu não posso levar ele para dentro… posso? Ah, que se dane!

-Vocês, liberem todos os corredores até o quarto de Rui, não quero que exatamente ninguém tenha acesso, entendido? - pedi, eles bateram continência e saíram das escadas, indo avisar os outros e bloquear as passagens. 

 Abri a porta e Asumi me olhou com seus olhos inocentes, tão fofo que eu quase esqueci da minha missão de levá-lo logo para o quarto e não deixar que ninguém o veja. E se o dono dele vim buscar ele? Não sei, vou esperar para ver.

 -Vamos! - chamei correndo, ele me seguiu sem ficar para trás, eu não sei como uma ave tão grande e gorda consegue ser tão rápida. 

 Chegamos em frente ao quarto de Rui e eu abri a porta, Asumi correu lá para dentro no mesmo instante e se jogou na cama, tão alegre que eu queria ter um celular para gravar isso. 

-O que será que você come, mocinho? - perguntei o vendo rolar sobre as cobertas, já tá tudo uma bagunça. 

 -Puo? - ele parou a festa por um momento e me olhou com a cabeça inclinada para o lado, nessa perspectiva seus pelos são tão escuros quanto os cabelos de Rui, até apertou o coração. 

-Eu vou te trazer algo, não saia daí! 

 Andei rapidamente até a cozinha, mesmo que sempre quisessem me servir eu quase nunca permito que as serventes o façam, nem que as cozinheiras cozinhem algo para mim. 

 Eu não sei como ou quando a droga foi dada a Ana mas se estivesse na comida eu não posso me dar ao luxo de deixar que algo que eu não conheço seja usado como ingrediente ou permitir que alguém sabote a comida no meio do caminho.

 Entrei na cozinha e pedi para os guardas voltarem para os seus postos, mas designei alguém para cuidar de porta do quarto, eu tranquei por segurança, mas vai saber se alguém vai tentar entrar… esse soldado é um dos poucos que tinha o dever de cuidar de Eduardo na prisão, o que significa que Rui confia nele.

 Peguei peixe, frango e carne de boi na geladeira (sim, isso eles têm aqui) e coloquei no balcão. Depois de cortar a carne de boi e colocar para cozinhar para fazer sopa, fritei peixe e filé de frango empanado.

-Hoje você está com apetite! - Valquíria falou me pegando de surpresa, apenas sorri e dei de ombros.- Você não precisa se preocupar em fazer isso...

-Eu estou me acostumando a esse mundo mas tem hábitos que não mudam. Posso me adaptar à falta de tecnologia, ao clima sempre ameno e o tratamento estranho mas tenho que cozinhar minha própria comida. - ela se aproximou arregaçando as mangas. 

 -Como você quase nunca come, vou abrir uma exceção e te ajudar, mesmo que cozinhar não seja meu forte. - ela riu abrindo a panela de sopa.- Hmm… o cheiro está ótimo!

-Obrigada. - eu sorri para ela e me concentrei na frigideira. - Esse mundo é tão repleto de coisas estranhas… sinto como se lendas do meu mundo aqui sejam realidades.

-Que tipo de lenda? - ela perguntou curiosa.

-Coisas com unicórnios… - eu a olhei e ela parecia mais confusa ainda. - São cavalos que tem um chifre bonito na testa. 

 -Ah! Até onde eu sei nada assim existe… - ela riu.

-Imaginei… - eu ri também. - Aparentemente as coisas que para vocês são normais para nós são estranhas. Você já ouviu sobre o Dodô? 

-Dodô? - ela parecia sincera ao fazer que não. Te peguei. 

-Eles são lendas desde muito tempo, eles eram umas aves bem gordas. - eu enchi as bochechas e abri os braços, ela riu da minha imitação. Tenho que mentir para alguém tão boa só por causa das minhas paranóias, isso me deixa mal... - Mas nós só temos os ossos deles em museus. Dizem que eles eram dóceis e tinham penas coloridas, além de serem enormes. Muitos deles tinham olhos grandes e dedos longos… é uma coisa tão surreal que eu nunca acreditei nós documentários. 

-Isso seria algo tipo um Asu? - ela perguntou pensativa. - Mas nunca ouvi sobre serem dóceis. 

 -Asu?

 Asumi… Asu… tenho um pressentimento sobre, espero que não pareça que estou muito interessada no assunto, mesmo que Rui e eu confiemos em Valquíria, se Asumi for perigoso ou um tabu como a Lâseja, não quero que ela se envolva nisso.

-Ele é um pássaro muito raro, ninguém nunca conseguiu provar a existência dele. Supostamente, eles têm penas coloridas escuras e são grandes… dizem que a muito tempo atrás ele era o símbolo da família Nyur e ouve um boato de que eles sabem o local do habitat deles mas por ficar nas montanhas é um local proibido para as pessoas normais.- ela sem querer derrubou um pouco da sopa no chão.- Desculpa! 

-Tudo bem! - eu corri pegar um pano. 

-Sabe, eu não acredito na existência deles, são convenientes de mais. - ela continuou sem eu precisar achar um jeito de a fazer falar.

-Por quê? - comecei a limpar a bagunça. 

-Você e o mestre são beeem próximos, você já deve ter notado que ele tem olhos mais escuros que os nossos. - ela falou com um sorriso de quem sabe de algo. - Aposto que você fica olhando e pensando um monte de coisas fofas. 

 -Nada a ver! - tenho certeza que corei agora mas tento disfarçar indo colocar o pano para fora. 

-A Asu é uma ave que se alimenta de gerin, elas são especialistas em encontrar e separar em graus de pureza. - ela explicou se encostando no balcão.- Quanto mais alto na montanha elas estiverem, mais puras são. Quando nosso povo começou a usar gerin como medicina, eles usavam as de fácil acesso, ou seja, as mais impuras que tinham, por isso houve um efeito colateral tão grande nos nossos genes.

-Então essas Asu são tão inteligentes? 

 Nunca imaginei que aquele gordo do Asumi fosse tão útil.

-Sim, os Nyur naquela época conseguiram domar essas supostas criaturas e em troca de carinho, as Asu davam gerin com 100% de pureza como presente. O corpo e as penas delas são preparados para suportar o frio extremo e os fortes ventos lá em cima, por isso para elas não seria problema coletar as plantas ou as comer. - ela respirou fundo para não rir, ela parecia acreditar que é um absurdo. - O gerin é muito sensível e absorve as impurezas do ar, por isso os do topo são mais puros. Dizem que os Nyurs são os únicos a não sofrerem a mutação dos olhos por terem usado gerin puro desde o início. 

 -Então existe uma diferença nos efeitos? - perguntei surpresa. 

  -Claro. Os olhos de nós plebeus são sensíveis e é dito que a partir de, no máximo, os 40 anos de idade nós perdemos a visão, por isso aqui no castelo não há muitos funcionários idosos, no máximo existe uma ou outra exceção a regra dos olhos: como o Li. - ela olhou para o chão. - Desde que nascemos, nós não conseguimos ver muito bem as coisas, tudo para nós é borrado. É uma coisa que nem os… como era o nome daquilo? Óculos? Acho que sim… enfim, nem essas coisas arrumam. 

-Isso é horrível! - falei sentindo vontade de chorar. 

-Não sinta pena, para nós esse mundo borrado já é tão normal quanto é para você enxergar tudo nítido. - ela sorriu, seus olhos castanhos me pareceram bem mais tristes.

 Esse é o motivo para Rui me garantir de que apenas ele pode reconhecer a mim e Carlos como irmãos.

-No fim, foi culpa de nossos ancestrais usarem medicina estranha sem pesquisar antes. Nós também exportamos para Maram, então a maior parte das pessoas lá tem a mesma doença, mas a mutação que sofreram foi diferente da nossa, acreditamos que é porque não chegaram a utilizar tanto quanto. 

-... Como estava Ana? - perguntei para mudar de assunto. 

-Ahn? Como soube que visitei ela?! - ela perguntou em um tom estranho.

-Como você não estava aqui mais cedo, eu deduzi que você havia ido até lá. - nem sei porque menti, talvez seja por achar que ela ficaria chateada de ter sido seguida por Stephanie.

 Ela sorriu e me disse sobre como Ana está se sentindo entediada por estar presa na própria casa mas está se recuperando bem. Seus pais me mandaram palavras de gratidão e de incentivo. 

 Não fazia muito tempo que rumores sobre mim haviam se espalhados, de que eu tomei o lugar de Rui ou que estou apenas por aparências, mas as coisas que eu estou fazendo para ajudar a população está cobrindo os boatos e pessoas como eles sempre expressão gratidão.

 Depois de colocar as coisas no carrinho, eu o empurrei até o meu quarto e dispensei Valquíria, bem como o soldado na porta do quarto. 

 Asumi estava dormindo de barriga para cima, mas assim que fechei a porta, ele abriu os olhos e olhou para o carrinho em expectativa. 

-Aqui, garotão! - dei um pedaço de frango a ele, que comeu o filé todo em uma bocada só. 

 Deixei o prato com os filés no chão e abri a panela de sopa. Antes de eu sequer a provar, Asumi se empoleirou no carrinho e enfiou a cara gorda na panela.

-Okay, pode ficar! - eu não vou comer onde ele enfiou o bico, me desculpem.

 Comi peixe mesmo, apesar de não sentir fome e depois fui me deitar. Asumi tem um cheiro estranho de terra molhada que se misturou com o de Rui quando ele rolou na cama, mas não me importei com isso e dormi, logo eu vou precisar acordar de novo. 

___________💕Recado da Autora💕____________

*Olá galerinha!

Tenho umas coisinhas para dizer:

*Asumi - vem da junção de Asu (que se lê com "Asu" em Asuna, ou seja, Assu) e Midori (Verde, por causa dos olhos dele)

Segundo, a formatação pode estar estranha porque atualmente eu estou escrevendo no Google Documentos, então quando colo aqui vai assim... maaas em breve eu vou editar, já arrumei os dois primeiros capítulos nós erros que tinham e agora só falta o resto.

E por último: quem quiser me seguir, pode seguir que eu sigo de volta e vocês podem mandar msgm caso queriam conversar ou coisa assim.

Beijos, galerinha ❤*

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Comments

Lorena Ribeiro

Lorena Ribeiro

eu tenho pra mim que é essa Valquíria que tá envenenando a comida

2020-02-24

1

Vall

Vall

Não estou mais aguentando a ansiedade

2020-02-13

2

Sarah Nunes

Sarah Nunes

sempre inovando, e nos deixando loucos de ansiedade por mais capítulos.

2020-02-13

3

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