Faíscas de Sentimentos Estranhos

Encarei meu reflexo no espelho enquanto me lembrava do que havia acontecido mais cedo.

Depois de Rui ter anunciado que eu iria cuidar de assuntos militares, todos (sem exceção) protestaram. Muito disseram que ele estava louco, outros disseram que eu era "apenas uma mulher", alguns apontaram que pelo meu cabelo eu devo ser uma selvagem imigrante ou coisa do tipo.

Qual o problema com meu cabelo? Não são eles os anormais que nascem apenas com cabelos pretos? Apesar de estar irritada, eu também me senti bem magoada e depois de pedir licença, saí da sala sem deixar que Rui me impedisse pedindo para ficar. Sem nem perceber, eu havia vindo parar no quarto Amélia.

O estranho é que senti meu rosto molhado e notei que estava chorando só quando Número 1 me perguntou sobre. Eu não sabia responder. Até agora eu ainda não sei o que está acontecendo comigo ultimamente, sinto como se estivesse lutando contra algo que não consigo distinguir.

Depois de passar a tarde toda olhando para a parede, me perguntando o porquê de estar me sentindo tão mal, não cheguei a conclusão nenhuma. Tomei banho e vestir uma camisola. Agora estou sentada sobre as minhas pernas, me encarando no espelho como uma coitada. Droga, odeio meu cabelo.

Não, eu não odeio realmente, eu só... não sei. Quero acreditar que o que ouvi mais cedo não me afetou, que o que vou fazer é só porque agora que estou sem secador, meu cabelo vai ficar muito feio com a química saindo.

Peguei a tesoura e antes que pudesse pensar demais, cortei meu cabelo um pouco a cima dos ombros. Os fios caindo me deram uma sensação estranha mas me sinto estranhamente leve.

Quando era menor eu cortava o cabelo para me sentir bem, mas depois que Eduardo disse que preferia ele cumprido, larguei esse hábito... agora entendo porque gostava de cortar.

Quando notei, Rui estava parado me olhando da entrada da porta que liga nossos quartos, ele parecia incrédulo e, por um segundo, pensei que ele fosse gritar comigo.

-O que você fez? - porque me sinto pior ainda com ele falando assim tão calmamente?

-Cortei meu cabelo? - dei de ombros, fugindo assim que o vi se aproximar.

Ele se abaixou e segurou um pouco do meu cabelo nas mãos, depois me olhou novamente parecendo tão chateado que eu tive que lutar para não pedir desculpas. Não que eu tivesse a obrigação de pedir, mas foi horrível vê-lo daquele jeito.

-Por que fez isso?

-Por que? Não sei, ele me atrapalha e...

-Foi por hoje mais cedo? - ele interrompeu minha desculpa.

-Não. - respondi sem o olhar.

-Não minta. - falou autoritário enquanto se aproximava de mim mais rápido do que eu podia fugir.

-Aaaaah... - resmunguei quando ele me pegou e jogou sobre os ombros. - Me larga!

Ele não respondeu, saiu do quarto me carregando como um saco de batatas e mandou todos os guardas irem para outro canto e não ficarem por perto.

-Ei, o que você vai fazer?! Por quê mandou eles embora? - perguntei batendo em vão nas suas costas como forma de protesto.

-Você quer que todos te vejam tão exposta? - ele não parecia irritado, mas um pouco chateado ao dizer.

-O que?!

-Eu não quero que ninguém veja seu corpo. - ele explicou como se fosse simples.

Oh, certo, a camisola é transparente... mas isso não significa que ele viu o meu corpo? Essa ideia me faz ficar muito envergonhada.

-E você pode? - perguntei revoltada, voltando a bater em suas costas.

-Claro que posso, você é minha.

-Ahn? - okay, eu devo estar muito vermelha agora, e não é só pelo fato de estar "de cabeça para baixo".

-Você é minha conselheira. - ele completou enquanto subíamos algumas escadas que nunca vi antes.

-Idiota!

De repente, nós terminamos de subir e ele abriu uma porta. No mesmo instante senti todos os pelos do meu corpo se arrepiarem com o vento gelado vindo de fora, ele caminhou para seja lá onde for aquilo e me colocou sentada no parapeito de algo estilo um pátio, mas isso fica muito alto para um pátio.

Olhar para baixo me dá náuseas, eu sequer consigo enxergar o chão no meio de toda a escuridão, mas olhar para frente me faz perder o fôlego. Milhares, talvez milhões, de luzes brilham lá em baixo, até onde os meus olhos conseguem enxergar e o amarelo das luzes chega a se confundir com o começo do cinza das estrelas do céu, é uma vista tão linda que me faz querer chorar.

-Você vê aquela área? - ele apontou para uma região que brilha mais que às outras, ele está com os cotovelos apoiados no parapeito, bem ao meu lado.

-... vejo. - demorei um pouco para conseguir responder. Sentada aqui, eu fico só um pouco mais alta que ele ali em pé.

-Aquela é a região nobre do nosso país, onde as pessoas que você conheceu hoje vivem... eles acham que são alguma coisa. - ele colocou a mão no meu rosto e virou minha cabeça, para o olhar nos olhos.- Mas no fim, eles são apenas pontinhos brilhantes minúsculos e, a qualquer momento, eu posso apaga-los.

Eu fiquei surpresa com o quão ameaçador ele soou, ele está falando sério mesmo?!

-Se você apenas me disser, nem que vagamente, que aqueles caras de alguma forma te incomodam, eu acabo com eles sem nem um problema. - ele aproximou seu rosto do meu, surpreendentemente eu não quis recuar, estava vidrada em quão lindo seu rosto fica iluminado pela lua.- Nunca mais mude você mesma pelo que eles disserem, se eu precisar os apagar um por um para que você seja aceita do jeito que é, eu vou fazer isso.

Eu fechei os olhos, porque ele diz isso? Nunca ninguém se importou com como eu me sinto com relação a minha aparência, mesmo Eduardo apenas dizia como achava que eu ficaria melhor... mas nunca, em toda a minha vida ouvi dizerem que está bom ser como eu sou.

Sem hesitar um segundo, eu tomei uma atitude que talvez tenha sido precipitada, mas da qual eu não me arrependo. Eu encostei meus lábios nos dele suavemente e me senti em queda livre quando ele o transformou em um beijo de língua.

Okay, estou perdendo meu BV com um louco de pedra, que diz poder assassinar o equivalente a uma pequena vila de pessoas por mim. Isso é muito estranho... e bom. Eu sinto como se meu estômago estivesse congelando e a adrenalina que me afeta nesse momento talvez tenha sido o que me fez perder o resto do bom senso e gostar do beijo. Gostar tanto que quando ele se afastou, prestes a pedir desculpas, eu o puxei de volta e iniciei outro beijo.

-Lua, você não presta. - ele me fez virar o corpo e descer do parapeito, me abraçando quando mal tinha colocado os pés no chão. Ele aproximou sua boca do meu ouvido e continuou em uma voz rouca que me fez duvidar de que podia permanecer de pé: - Se me provocar assim, vai sofrer as consequências.

Eu poderia dizer que não ligo para as consequências, mas a minha sanidade estava voltando aos pouco e junto com ela o meu bom senso.

-Então acho que é melhor voltar agora. - respondi lhe dando um beijo no pescoço.

Ele ficou completamente sem palavras enquanto eu me afastava e corria de volta pelo caminho que eu achava que tínhamos feito para chegar lá.

Okay, eu disse que não ia me arrepender, mas e agora? Como vou encarar ele amanhã? Ou melhor, e se ele usar a porta que liga nossos quartos e vim falar comigo de novo? Eu vou conseguir me controlar? Claro que vou, o "efeito retardado" passou e eu consigo pensar claramente agora que estou longe dele.

Entrei no meu quarto e fui direto para a cama, me cobrindo toda, até a cabeça, e torcendo para que o barulho que eu ouvi cinco minutos depois não ter sido de Rui entrando aqui.

-Você fugiu de mim. - ele comentou, senti o colchão abaixar um pouco do lado esquerdo, ele deitou de frente para mim? Abri uma uma brecha no edredom para espiar e encontrei seus olhos negros me fitando. - Não se preocupe, eu prometi que não ia fazer nada com você.

Oi? Pra quem? Quando? Onde? Por quê?

Eu queria perguntar, mas fiquei quieta e descobri a cabeça. Ele estendeu a mão e tocou meus cabelos recém cortados, parecia muito triste.

-Ele era lindo cumprido, apesar de você ficar linda também de cabelo curto. - ele comentou se aproximando para me abraçar. Sabe aquele bom senso que achei que tinha recuperado? Me equivoquei. Me alinhei em seus braços, meu rosto está bem próximo ao seu peito e posso sentir um cheiro maravilhoso de perfume amadeirado. - Me desculpa, eu deveria ter te defendido mais cedo.

-Não foi culpa sua, eu cortei porque quis. - retruquei fechando meus olhos, ele é tão quentinho... - Não se ache de mais.

-... - ele começou a fazer cafuné em mim, o que só piorou o meu sono.- Obrigada por aceitar estar aqui.

- Ahn?

-Você sabe que se quiser pode ir embora, certo? Aposto que já notou isso, mas você ainda está aqui. - sua voz era suave. - Obrigada por ainda não ter me deixado.

-Eu... - eu não posso dizer isso, eu não posso dizer isso, eu não... - ... sempre vou estar com você.

De onde diabos isso saiu? Não sei, mas estou tão sonolenta que nem fico acordada tempo o suficiente para ouvir a resposta.

_____________💕_____________💕_____________

-Lua, se você ir embora, prometa que um dia vai voltar! - o garoto estranho me pediu, quantos anos ele tem? Doze?

-Eu prometo que quando voltar, vamos nos casar e... - essa é minha voz? Que estranha, ela parece fina de mais. - Ei, me solta!

-Lua?! - o garoto tentou se aproximar enquanto alguém me arrastava para longe. - Soltem ela! Eu estou mandando!

-Quem você acha que é, "jovem mestre"? - alguns guardas seguraram o garoto, um homem vestido de modo elegante se aproximou dele e riu maliciosamente. - Um órfão fraco, que em dois ou três anos vai morrer, seja por minhas mãos ou pelas mãos de outro nobre. Não deveria tentar nos enfrentar.

Sinto que tudo isso não é algo que deveria estar acontecendo mas estou fraca demais para escapar, meu corpo está muito pesado e eu quero lutar, mas tenho certeza que minhas habilidades foram reduzidas para menos do triplo da força original. Isso é tão... frustrante.

-Lua! - o garoto gritou, eu senti meus olhos enxerem de lágrimas por ter, enfim, o reconhecido. - Por favor, não a levem! Eu deixo o país para vocês, mas por favor, não levem ela!

-O país vai ser nosso cedo ou tarde e aquela garota não nos traz nenhum benefício, por isso vamos nos livrar dela. - o cara bem vestido me olhou com repulsa enquanto vi a cena ir embaçando, ficando longe.

-Não! Por favor! Eu imploro!

_____________💕_____________💕_____________

Eu estou chorando quando acordo, meu peito dói tanto que sinto que posso morrer, olho para o lado e Rui está dormindo tranquilamente. Sua mão está na minha cintura e ele está sorrindo durante o sono mas ainda não me sinto bem.

Eu não sei porque, mas sinto que nunca em toda a minha vida poderia estar mais triste, como se não conseguisse pensar em nada com clareza, como se meu mundo estivesse desabando e eu não pudesse encontrar nada para me apoiar.

Eu deveria estar aqui? Não, não deveria.

Não sei como sei disso mas minha existência é como um veneno, se eu continuar aqui, verei Rui chorar como fez no meu sonho. Depois do que ele disse hoje de noite, está comprovado de que ele faria loucuras por mim. O que aconteceria se alguém que o quisesse prejudicar me usasse? Eu o conheço a pouco tempo mas algo me diz que ele daria até mesmo a própria vida por mim.

Posso estar me achando mas não quero arriscar. Pode ter sido um sonho, mas essa dor no meu peito não é nada ilusória e eu não estou afim de ver ela ter bases reais.

Me desculpa, Rui, eu não quero que se machuque por mim.

"De novo" algo dentro de mim completou enquanto eu me esgueirava para fora da cama. Ignorei o que quer que isso pudesse significar antes que perdesse a coragem para fazer o que devo fazer.

Eu sinto que sou a pior pessoa do mundo por quebrar a promessa que fiz a menos de cinco horas atrás, sobre sempre estar ao lado dele.

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Comments

Laudilene Alex Neves

Laudilene Alex Neves

volta

2020-03-18

5

Lorena Ribeiro

Lorena Ribeiro

beloved??? não vai embora assim não moça

2020-02-24

4

STAR

STAR

vc é minha escritora favorita😘😍💟 forever

2020-02-08

4

Ver todos

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