Tentei não fazer muito barulho ao sair e acho que já podem me chamar de a ninja, é realmente difícil não fazer ruído em uma casa toda feita de madeira.
Os pais de Ana me deram o seu quarto e se disponibilizaram a ir para a sala, mesmo eu negando várias vezes, me vi obrigada a aceitar depois de ver o quão importante era para eles que eu aceitasse. Depois que viram o Anel Amélia (abreviando) eles ficaram ainda mais admirados e honrados (essas foram as palavras deles) com a minha presença.
Eu não queria fazer desfeita indo embora assim do nada, mas segundo Carlos, leva umas três horas ir daqui até a mansão e ele enviaria em segredo um de seus homens de confiança para me buscar às duas da madrugada.
Andando um pouco na direção sul, ainda não havia visto nem sinal da tal pessoa e quando eu estava para desistir, dois cavalos enormes puxando uma carruagem apareceran.
O cocheiro era uma garota só alguns anos mais velha que eu e o modo como ela me olhou foi um pouco misterioso, logo de cara eu sinto que ela está me escondendo algo, mas pode ser só preconceito. Seus cabelos são castanhos e seus olhos são azuis, diferentes dos meus e os de Carlos, que são de um tom de verde bem claro. Ela é de Maram? Se sim, ela não deveria ter os olhos verdes? Ouvi que lá todos são iguais, assim como em Nyur...
- Senhorita Lua, eu sou Stephanie, fui mandada pelo seu irmão para lhe servir. - ela desceu da carruagem e abaixou a cabeça.
- Mas ele me disse que mandaria um homem... - argumentei desconfiada, ela me lançou um sorriso presunçoso.
- Me perdoe mas em Maram não existem muitos homens capazes e os que têm a confiança de Carlos são solteiros e não agradaram muito ao seu noivo. - ela respondeu em um tom que eu não gostei. Por que tudo nela me irrita?
- Rui não sabe que eu estou indo para a mansão e ele não é meu noivo. - comecei a me afastar, tem algo de muito estranho nela.
- Sim, mas ele acredita que a senhorita precisa ser supervisionada exatamente para não ir à mansão. - agora ela estava séria. - Por favor, seria melhor se você entrasse na carruagem e evitasse se cansar a toa.
- Eu só vou ir com você se antes me disser a senha. - minha última jogada.
- Não existe nenhuma senha. - ela respondeu sem hesitar. - A senha é "não existe nenhuma senha".
Eu concordei contragosto, ela me ajudou a entrar na carruagem e voltou a conduzir. Eu usei uma janela que ligava a parte onde eu estou com o lugar onde ela está.
- Por que existem pessoas loiras em Nyur? - perguntei, ela não pareceu nem um pouco surpresa com a pergunta, é tão estranho não saber o que ela pensa ou sente.
- Você está falando dos mestiços? - ela perguntou retóricamente. - São filhos de pessoas de Maram com pessoas de Nyur.
- E porque pessoas que nascem em Maram tem a pele um pouco mais escura, olhos claros e cabelos castanhos enquanto pessoas de Nyur tem olhos escuros, cabelos pretos e pele clara? - vamos ver se ela realmente sabe tudo mesmo.
- Tem a ver com a genética. Normalmente todos desse mundo seriam como nós, mas nossos descendentes que vieram para cá tiveram os genes modificados por ação da Lâseja. - ela me olhou de relance. - Antes ela era usada como remédio, mas os efeitos colaterais eram grandes e as pessoas passaram a usar com muita imprudência, por isso o consumo dela foi proibida.
- Mas... se a mudança neles é causada pela Lâseja, significa que é como uma "doença" hereditária? As pessoas não deveriam se tornar dependentes dela ou algo do tipo? - sim, eu sei que estou me sentindo em uma novela onde tudo pode acontecer mas... esses últimos dias só provaram que tudo realmente pode acontecer.
- Com o passar do tempo isso foi ficando fraco e hoje os nyurianos apenas precisam receber uma pequena quantidade dela, o que acontece quando eles nascem. Após receberem uma vacina especial, eles podem crescer normalmente sem precisar de mais doses. - Ela parou a carruagem de repente e fez um sinal para que eu entrasse de volta, o que eu fiz rapidamente.
Demorou pelo menos cinco minutos para eu começar a ouvir o som de outra carruagem se aproximando e a nossa já havia voltado a andar, mas com bem menos velocidade. O barulho da outra carruagem parou bem perto da nossa e Stephanie também parou a nossa carruagem, prendi a respiração e tentei ouvir o que estava se passando lá fora.
- Oh, se não é a Comandante! - alguém falou em um tom de alerta.- Não queria ter interrompido a sua viagem, me perdoe.
Eu espiei pela janela lateral, a outra "carruagem"" é bem mais simples e está coberta por um pano branco. Para falar a verdade olhar para ela me dá mais a sensação de estar olhando para uma daquelas jaulas de circo. Tem uma pequena fresta, já que o pano não a cobre inteira, mas não consigo ver o que tem lá.
- Tudo bem. - Ouvi Stephanie rebater impaciente.
- Então, se me dá licença...
Antes de ele terminar de falar, escutei o barulho de algo se debatendo e de repente um rosto apareceu me olhando pela fresta, a pessoa estava com a boca amordaçada e parecia apavorada.
Me afastei rapidamente da janela, o homem voltou a fazer seu caminho e a carruagem na qual estou também voltou a andar.
O que diabos...?
Okay, eu estou realmente paralizada, aquilo é tipo um sequestro?! Stephanie não viu aquilo?!
- Ei, aquele cara... - eu apareci na janela pela qual conversava com ela antes.
- Eu tinha esperanças de que você continuasse interessada em ciência. - ela falou indiferente. - Aquele homem é um traficante de escravos.
- Que?! - perguntei revoltada. - E você o deixou ir?!
Como assim? E eu que pensava que as pessoas nesse mundo eram mais inocentes, mas essa mulher consegue ignorar o fato de que um traficante de escravos está a solta.
- Não tem nada a ver com a minha missão atual que é te proteger e levar até a mansão. - ela bocejou, isso me irritou tanto que eu quase a empurrei do assento dela para a rua.
- Eu preciso mijar. - falei repentinamente, ela me olhou com uma careta e relutantemente parou a carruagem, eu desci e fui para o bosque, sem esperar que ela me explicasse que não existe banheiros no meio do caminho.
Eu prestei atenção no caminho enquanto conversava com ela, se aquele cara continuar seguindo a estrada, em meia hora ele vai estar do outro lado desse bosque, a minha sorte é que ele é de cumprido, então leva menos tempo para chegar ao outro lado em linha reta do que se eu desse a volta, que é o que a estrada faz.
Olhei para trás por alguns segundos, me preparando. Eu sei que vou me odiar por ser uma sedentária depois que terminar de correr , mas vamos ignorar o fato de que meus pulmões vão ser perdidos nos primeiros segundos. Comecei a correr como se a minha vida dependesse disso, mas uns dois minutos depois notei que estava sendo perseguida por Stephanie.
Eu me sinto incrivelmente leve, mas não sei exatamente porque, talvez seja a adrenalina por estar fazendo algo tão arriscado, vai saber. Passado um tempo correndo, Stephanie me alcançou depois que virei para ver a distância entre nós e bati a cabeça em um galho que eu não tinha visto antes. Sim, eu estou caída no chão com a cabeça doendo MUITO.
- Boa tentativa, senhorita. - ela me ajudou a levantar, aposto que estou fazendo bico agora mas... eu falhei tão miseravelmente!
- Você é uma pedra de gelo? - perguntei sendo obrigada a voltar por onde vim, ela estava indo ao meu lado e mantinha uma mão nas minhas costas, pensei que fosse para me agarrar pela roupa se fugisse, mas parece ser só um tipo de precaução/proteção, notei após um bom tempo fazendo o caminho de volta.
- Não, eu sou racional. - ela estalou a língua. - Me diz, o que você poderia fazer se o alcançasse?
- Isso é...
- Ele não te ouviria, provavelmente só iria querer te adicionar ao "catálogo" dele. Desde a mansão você pode fazer muito mais do que aqui no meio do nada. - chegamos à carruagem e ela me ajudou a sentar ao seu lado, estava cansada de ficar lá dentro.
Meu coração se aperta mas não consigo argumentar, ela tem um ponto. Um ponto muito bom. Tenho que pensar no que fazer sobre isso quando estiver na mansão e não no que não consigo fazer agora, ou eu só vou me extressada.
- Você acha que as pessoas são levadas para onde? - pergunto porque o silêncio entre nós é meio sufocante.
- Maram, provavelmente. Assim como os nobres aqui gostam de domesticar maranianos, em Maram algumas pessoas compram escravos nyurianos.
- E os pais do Carlos deixam? - perguntei ainda mais revoltada.
- Os seus pais fazem o máximo para acabar com isso, mas ainda assim não é 100% controlado. - ela deu ênfase nós "seus", como se estivesse me recriminando.
Não que eu queira pagar de filha renegada e rebelde nem nada mas eu acho mais fácil chamar eles de pais na minha cabeça do que verbalizar isso. É estranho chamar de pais pessoas que nem me lembro como são, e ainda mais estranho ter que confiar que eles podem resolver esses assuntos revoltantes, eu tenho que fazer algo assim que chegar na mansão, talvez dê tempo de parar esse cara e os seus companheiros (parece razoável pensar que ele não faria uma coisa perigosa dessas sozinho) antes de chegarem a Maram, onde o Anel Amélia não vale de nada. E tá que eu sou supostamente a herdeira de Maram, mas se eu expor isso para abusar de poder lá, só vai alertar ainda mais a pessoa por trás de tudo sobre a minha existência.
Segundo Rui, apenas Carlos, Ana e meus pais sabem meu paradeiro. Ele me garantiu que ninguém além dele consegue notar a semelhança entre mim e Carlos mas não sei exatamente o porquê dessa certeza toda. Qualquer um notaria que temos o mesmo tom de pele, os mesmos olhos e cabelo, além do rosto ser bem parecido também.
Oh, e se eu... é, não é uma má ideia. Vou providenciar assim que eu tiver certeza do êxito no meu plano principal, não posso esquecer o porquê de eu estar aqui.
- Você está com sede? Se sim, lá dentro tem uma cesta com água e algumas frutas. - ela parou os cavalos e sem responder eu desci e entrei na carruagem.
Achei a cesta em cima do banco, nem tinha visto antes, qual o nível da minha cegueira?
Dentro do cesta tem maçãs, bananas e uvas, mas o que mais me interessa é a garrafa de água. Será que foi trazida de Maram? São poucas as coisas feitas de plástico aqui em Nyur.
Dei de ombros e tomei tudo, nem tinha notado antes, mas a corrida me deixou exausta. Acho que não tem problema se eu me deitar aqui nesse banco só um pouco...
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- Você tem que ser tão mesquinha?! - Rui me pegou pelo braço para me afastar do material de pintura.
- Eu não sou uma mosca!- pisei no pé dele e saí correndo.
- Mas que pirralha! - eu ouvi ele esbravejar, mas não me importei, saí do quarto dele e me escondi em baixo da cama da tia Amélia.
- Lua, eu... - ele começou a falar, consigo ver seus pés parados ao lado da cama, depois de um momento de hesitação ele se abaixa e vejo seu rosto bem mais jovem do que conheço aparecer, me fitando com aqueles olhos negros penetrantes. - Sinto muito por...
Eu me virei para o outro lado. Pacientemente ele deu a volta e voltou a se abaixar no meu campo de visão.
- Não quero te magoar, mas você sabe que não deve mexer nas coisa do meu pai... - eu tapei os olhos com as minhas mãozinhas de criança, quantos anos eu tenho? Sete? Se sim o Rui tem por volta dos nove.
Ele suspira, sabe que quando faço isso (nem sei como eu sei disso), eu acredito que ninguém vá me encontrar ou me enxergar, então vou fingir não ouvir o que dizem.
- Pelo menos saia daí, eu não quero que você fique doente por ficar no chão. - ouvi os sons de bota dele quando deu passos para ir até a porta conjugada. - Pode usar a cama da mamãe...
"Mas é da tia Amélia!" pensei, ainda não ia ceder e falar com ele, mas me arrastei para fora de de baixo da cama e o encarei confusa.
- ... tudo bem se for você. - ele desviou os olhos, envergonhado. - Só não mexa nas coisas do papai, eu sinto que se algo acontecer com elas vou perder a única coisa que me liga a ele.
Vê-lo assim me deixou triste mas não consego entender o que ele ele estava querendo dizer. O titio estava morto e eu o respeitava muito ele... mas os materiais de pintura dele eram tão interessantes! Por que Rui queria deixá-los só como enfeite?!
Sentei na cama em posição fetal e passei o dia todo olhando para o quadro da titia Amélia na parede. Pelo que Rui me contou, o titio mesmo o pintou e deu a ela de presente.
A mãe do Rui é a mulher mais linda que já conheci. No quadro seus cabelos, tão negros quanto os de Rui, caíam em cascatas pelas costas em hipnotizantes e suaves ondas. Seu corpo com as curvas muito bem acentuadas pelo vestido simples branco, junto com seus olhos dourados e seus lábios com um sorriso brincalhão, ela parece uma fada, uma criatura delicada e de beleza sem igual.
Sinto as lágrimas escorrerem por minhas bochechas, sinto tanta saudade dos dois quanto Rui, porque ele tem que ser sempre tão chato e indiferente aos meus sentimentos, como se ele fosse o único a sofrer?
Quando noto, já é noite e eu sequer toquei a comida que me trouxeram no almoço, agora uma criada veio e trocou os pratos pelo do jantar, mas também não sinto vontade de comer.
Rui abre a porta conjugada e não preciso nem olha-lo para saber que quer me repreender.
- Venha, vou te levar à um lugar. - ele me puxou pela mão, eu queria resistir mas ele é bem mais forte que eu e confesso que andei fugindo de alguns dias de treino, por isso não estou em tão boa forma quanto ele. - Você nunca deve contar à ninguém sobre ele. Agora que a mãe e o papai morreram, eu sou o único que sabe da existência dele. Se um dia estiver em perigo, se esconda lá que eu sem dúvidas irei te buscar.
- Eh?!
Eu não falei mais nada, nem sabia o que fazer com aquela curiosidade crescente. Um lugar secreto! Um esconderijo só nosso!
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Acordei com a minha cabeça latejando e as costas doendo, que droga de sonho foi esse?
Olho pela janela e vejo que estamos chegando exatamente agora na mansão. Não tenho tempo para pensar no sonho ou em qualquer coisa, agora é hora de agir.
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Atualizado até capítulo 46
Comments
Sarah Nunes
bora fazer uma sociedade para homenagear a nossa autora.
2020-02-09
3
dikhh
queroo ler maiss pfvv, essa história é muito boa q criatividade em!
2020-02-03
3
Kethelyn Maforte
aah estou apaixonada pela história ♥️ lugar secreto, minha mente vai explodir só acho, meu Deus você é muito incrível, estou amando de verdade não canso de falar isso,
2020-02-03
5