Nas primeiras duas horas, Rui, Carlos e eu passamos indo de barraca em barraca, provando especiarias e algumas comidas que eu já conhecia, como morango com chocolate no palito e maçã do amor.
Por vários motivos idiotas, Rui maltratava Carlos em momentos aleatórios e era muito cômico ver que mesmo também sendo um cara importante para um país, Carlos não se deixava ofender nem nada do tipo. Claro que ele ameaçou começar uma guerra duas ou três vezes, mas ficava quieto assim que levava uns tapinhas bem fortes de Rui nas costas.
Depois de eu estar completamente satisfeita - Rui comentou que nunca viu uma garota comer tanto em toda sua vida, principalmente levando em consideração que eu tomei café antes de sair... mas eu não comi nada desde sábado e eu descobri que fiquei dois dias inconsciente antes da manhã em que encontrei Rui, então hoje foi a primeira vez que como em três dias (as frutas que ganhei enquanto as meninas me arrumavam na primeira vez não contam muito e eu sequer jantei ontem por estar mal) - fomos até uma praça principal, onde alguns malabaristas faziam seus shows usando fogo e coisas normais como bolas e garrafas.
Carlos tentou se esgueirar pela multidão, mas o segurei pela gola da camisa antes que se afastasse muito, ele se virou para mim indignado.
-Onde você está indo? - perguntei notando que quase o enforquei.
-Eu vou... - ele procurou uma desculpa. Eu o declaro culpado! Não sei o que ele ia fazer mas essa reação é suspeita.
-Ao bordel. - Rui completou, pude sentir a veia saltar na minha testa.
-Isso é verdade? - perguntei arregaçando as mangas do vestido, vou ensinar esse cara a não brincar com o coração de uma mulher. - Pensei que você estivesse saindo com a Ana!
-N-não, você entendeu errado! - ele recuou alguns passos.
-Ah é? Então me explica! - pedi acompanhando seus passos, quanto mais eu andava, mais ele se afastava. - Só porque ela é uma empregada você acha que pode usar ela e jogar fora? Lixo!
-E-ei, Rui! Me ajuda aqui! - ele pediu, mas Rui fingiu estar concentrado na apresentação.
Carlos começou a correr e eu, como a bela e comportada dama que sou, rasguei a barra do vestido até pouco acima dos joelhos e depois de amarrar de um modo que não me atrapalhasse, fui atrás dele. Algumas pessoas me olharam como se eu fosse a garota mais vulgar que já viram, mas eu caguei. Não quero nem ver a cara de Rui.
Após de alguns minutos correndo, eu o encurralei depois de ter entrado em um navio qualquer. Me lancei para cima dele e, quando consegui ficar instável, sentada na barriga dele e segurando suas mão para que ele não conseguisse me afastar, me senti enjoada. Muito enjoada.
Estamos dentro do que parece um armazém, assimilei enquanto buscava qualquer lugar para vomitar, como não encontrei nada, corri para fora e o que eu vi me fez ficar totalmente paralisada, esqueci até mesmo que queria vomitar.
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-Então vocês são cidadãos comuns que sem querer entraram no nosso navio? - o capitão gancho perguntou.
Não gosto de apelidar os outros mas esse cara tem um gancho e é um pirata, então qualquer pessoa normal relacionaria.
-Exatamente! - falei sentindo o suor frio escorrer pelas minhas costas. Eu e Carlos estamos amarrados ao mastro do navio, mas aquele inútil só está olhando para a capital, que agora já é só um pontinho no horizonte e murmurando que é muito jovem e bonito para morrer.
-Vocês sem dúvidas não são normais! - alguém comentou, fazendo o capitão acenar com a cabeça.
-Ninguém do país dos selvagens que consegue chegar aqui sem ter uma marca de escravo é comum. - outro comentou.
-Esses dois vão valer uma grana para serem resgatados! Aposto que o pai deles está preocupado. - o capitão parecia ter gostado da ideia.
-Você entendeu errado! Nós somos desconhecidos e talvez ele realmente valha muito, mas não tem ninguém esperando por mim! - protestei tentando parecer convincente.
Carlos que me desculpe mas se eu puder escapar pelo preço da cabeça dele, eu vou. Aposto que os "selvagens" pagariam uma grana preta pelo mestre deles.
-Mestre Rui ficaria chateado se ouvisse isso. - ouvi uma voz muito familiar dizer, saído do meio dos outros piratas, vi Kim sorrir convencido. Que cachorro! - Não caia na dela, Capitão, essa mulher é muito importante para o mestre Rui e provavelmente vale bem mais que esse Viajante imundo.
Ei! O que está rolando?! Eu sou a Viajante e ele é o mestre de um país! Fala sério. Eu estranhei mesmo que não tenha visto Kim mais, pensei que Rui tivesse feito algo mas aparentemente ele fugiu.
-Devia ter deixado Rui te castrar! - praguejei e vi ele ficar vermelho enquanto os outros homens riram. - Eu quero fazer uma aposta!
Okay, eu entendo que minha situação é ruim mas talvez existam piratas legais que cumprem sua palavra, por isso tenho que tentar ganhar uma aposta que tenha minha liberdade como resultado, caso eu ganhe.
-Interessante... - o Capitão considerou por uns segundos. - O que você quer apostar?
-Que esse saco de batatas aqui atrás pode vencer o seu melhor homem em um duelo de espadas. - falei tentando parecer confiante. Se todos os "mestres" forem tão bons com a espada quanto Rui, Carlos ganhará facilmente desses caras. É arriscado mas é minha única chance. - Se ele ganhar, vocês não podem nos machucar e vão nos deixar no próximo porto que encontrarem... se perdermos, eu vou ser a empregada de vocês pelo resto da minha vida. Eu vi o cara que usa chapéu de cozinheiro e ele não tem cara de quem cozinha bem.
O Capitão encarou seus homens e todos pareciam concordar, estavam ansiosos para ver Carlos perder, eu acho.
-Aceito. - ele finalmente aceitou e usou a própria espada para cortar as cordas que nos prendiam.
Fiz com que Carlos ficasse de pé e ele me olhou com um sorriso vazio. Patético!
-Acorda, marica! - falei lhe dando um tapa forte no rosto, ele me olhou parecendo finalmente estar prestando atenção. - Eu fiz a parte mais importante, agora prove que você não é um inútil e ganhe daquele cara.
Ele seguiu a direção que eu apontava com o dedo e analisou demoradamente o rapaz em pé que segurava duas espadas mas ele não pareceu assustado com o oponente. Que minha dedução esteja certa e ele seja bom com a espada...
-Me diz que sabe lutar! - implorei, não tenho nenhum outro plano em mente para nos salvar.
-Eu nunca perdi para o Rui. - ele comentou pegando a espada que o rapaz de cabelos negros ofereceu.
Meio fora de hora mas, esqueci de dizer: Por algum motivo misterioso, cada país só tem descendentes com certo padrão na cor dos olhos e cabelo. No país de Carlos as pessoas quase sempre nascem de cabelos castanhos e olhos claros; já no de Rui (com excessão do próprio), todos tem cabelos negros e olhos castanhos. Bom, isso é bem diferente do que acontece no meu mundo, onde dependemos totalmente dos genes para definir nossa aparência, independente da região.
-Sério? - Perguntei surpresa, eu nunca vi Rui lutar mas para ter rendido o chefão dos soldados lá em menos de dois segundos, ele deve ser muito bom.
-Também nunca ganhei. - ele falou pouco antes de o cara que vai servir como juiz anunciar o início do duelo.
Estou torcendo para que isso tudo ocorra bem.
Quanto tempo se passou? Meia hora? não sei, mas o adversário de Carlos está ofegante e cai no chão, exausto. Em todo esse tempo Carlos se defendeu e recuou, brincando com o outro cara, que parecia dar tudo de si em ataques que Carlos facilmente bloqueou, no fim Carlos sequer suou e o outro cara já está no chão. Ele disse que desiste.
Assim que o juiz declara nossa vitória, Carlos solta a espada parecendo indiferente, enquanto eu corria para o abraçar. Sem nenhuma reserva, envolvi sua cintura com minhas pernas enquanto o abraçava pelo pescoço e quase o derrubei.
-Ei, você é pesada!- ele reclamou com a voz abafada no meu colo.
-Você deveria é me agradecer! - falei enquanto ele me segurava pela cintura para que pudesse ir para o chão de forma segura. - E eu não estou tão gorda!
Ele riu enquanto o Capitão se aproximava, parecendo muito animado.
-Isso foi incrível! Nunca, em vinte anos nos mares, vi um duelo mais emocionante e engraçado! - ele parabenizou. - Vou manter minha palavra... mas posso saber quem são vocês?
-Eu sou o mestre do país vizinho. - Carlos respondeu apertando a mão que o Capitão estendeu,o deixando tão assustado quanto seus homens pareciam. Ou esse idiota é muito ingênuo ou está com o ego grande de mais para achar que pode acabar com esses caras sozinho se não cumprirem o acordo e tentaram nos vender de novo.
-Eu sei que vocês perderam, mas enquanto estivermos aqui, quero cuidar da cozinha, me recuso a deixar aquele monstro cozinhar! - cortei o clima ruim ao falar, apontando para o gorila peludo.
-Não ousaremos em deixar a irmã do mestre cozinhar! - o Capitão falou transtornado.
-Eu não sou irmã desse cara! - falei como se fosse maluco. Eu, irmã do mestre do país vizinho? Eu sou uma viajante!
O capitão parecia confuso, ele pediu para um de seus homens buscar um espelho e logo ele estava de volta com um espelho de tamanho médio.
-Se vocês não são irmãos, são o que? - ele perguntou quando fez um sinal para o homem se aproximar. Olhei para o espelho e, de repente, eu estou rindo muito.
Eu realmente sou parecida com Carlos. Juro que se ele colocar uma peruca, eu mesma não saberia quem eu sou mas... isso é pura coincidência, certo? Eu não consigo deixar de rir, só que de nervosismo mesmo. Carlos me olhou sem graça.
-Me diz que todos no seu país se parecem. - pedi.
-Hm... sim. - ele respondeu parecendo não se importar muito. Me sinto tão aliviada que de deitei no chão. O céu está tão lindo hoje.
É assustador pensar que eu poderia ser irmã dele. Eu sei que sou uma Viajante mas quando parei para pensar que sequer sei como cheguei aqui, comecei a duvidar das minhas próprias memórias. Eduardo fingiu não me conhecer ou realmente não me conhece? O quanto de mim seria real se eu realmente fizesse parte desse mundo? Sequer quero acreditar que tudo isso é real.
Aliás, eu esqueci que Eduardo foi preso! Bom, duvido que esteja pior que eu.
Consegui convencer o Capitão a me deixar ficar na cozinha, mas ele me deu dois aprendizes (incluindo o monstro) porque disse que se eu realmente for boa, vai ser bom que eles aprendam comigo, ele está cansado de sopa de peixe.
Eu mandei o Monstro ir se depilar e o ameacei jogar no mar. O outro aprendiz era Kim, ele parecia realmente sem graça ao me seguir até a cozinha para ajudar no almoço.
-Então você era um espião? - perguntei enquanto cortava cenouras com uma faca incrivelmente afiada.
-N-não! Se eu fosse o mestre saberia na hora! - ele respondeu assustado. - Depois que me levaram para ser castrado, eu fiquei um tempo esperando e... depois de algumas hora o mestre apareceu e me pediu para sumir da frente dele e que não deveria me aproximar de você nem para me despedir.
-Sério que ele fez isso?! - perguntei jogando as coisas que já tinha picado em uma panela e colocando para ferver.
-Sim! Eu não entendi bem mas acho que ele sente ciúmes... de alguma forma. - ele me ajudou a continuar com os preparativos para fazer uma sopa de verdade.
Eu já havia pensado nisso antes mas Rui sente ciúmes de mim com outros caras? Primeiro foi aquele negócio com o cara que me machucou na cela, depois ele surtou quando pedi para não machucar Kim e hoje de manhã ele mandou seu amigo preso só por umas poucas palavras. Mas se isso é verdade, por que ele não reagiu quando foi com Carlos? E por que ele sentiria ciúmes de mim, em específico? Faz apenas um dia que nos conhecemos, não tem como ele estar com ciúmes de uma estranha. Por hora, o melhor é esquecer esse assunto.
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Atualizado até capítulo 46
Comments
Laudilene Alex Neves
acho que ela tem um irmão gemio
2020-03-18
7
Lorena Ribeiro
já saquei a história toda. estou amando
2020-02-24
5
Bárbara Gabrielly
ahhhhhhh tô surtando, por favor continua, tá muito bom ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💖💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💗💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💞💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💕💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💟💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💝💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💚💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛💛
2020-01-09
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