Eu abri os olhos e tentei me acostumar à mudança de paisagem, eu tinha acabado de teletransportar Ana e eu de volta para o que eu achava que fosse ser a mansão de Rui, mas como já deveria imaginar, eu estou bem longe de lá. Eu já deveria imaginar porque é meio óbvio que ele não me deixaria ir para o local onde está o fogo cruzado.
A minha volta eu vejo casas simples, parece um vilarejo de filmes antigos e várias crianças correm para todos os lados. Os poucos adultos presentes não parecem ter notado nosso aparecimento repentino, Ana me disse que esse vilarejo é onde ela nasceu e que a casa da sua família não deve estar muito longe.
Faz dois dias desde que ela desmaiou e teve alucinações e nesse pouco período de tempo ela emagreceu mais do que eu achava possível em um curto período de tempo e também começou a ficar com os cabelos brancos. Deve ser efeito colateral por causa da droga ou algo assim.
Antes de eu vim para cá com ela, tentamos a fazer nós dizer qualquer coisa que nos ajudasse a descubrir quem diabos a drogou, mas no fim ela só disse que não sabia e ficou extremamente deprimida, por isso paramos de perguntar.
Atualmente está anoitecendo, por isso eu me apresso para levá-la para a sua casa, ela me indicou o caminho e eu a ajudei a andar até lá. A casa não é muito grande, deve ter uns quatro cômodos no máximo, mas o cheirinho de tempero caseiro que vem de lá me dá água na boca.
- Eu acho... cof, cof... - ela se apoiou na cerca, envergando ao tossir, seus ossos já estavam bem salientes nas costelas e eu me sinto tão mal por ela que quero chorar. - Eu acho melhor você ir na frente e explicar tudo antes. Você já é bem estranha, se eles nos verem ao mesmo tempo deve ser difícil de aceitar.
- Você tem razão, mas...
- Eu vou ficar bem. - ela sentou na grama, encostada contra a cerca e massageou as têmporas. - Vai, por favor.
- O-okay. - respondi decidindo que seria melhor se eu fizesse o mais rápido o possível para a tirar dali.
Caminhei até a porta em passos largos. Hoje eu escolhi um jeans rasgado nas coxas, All Stars amarelos e um moletom que eu considero a minha preferida (tive que chorar muito para que Rui me deixasse voltar para a cada dos pais de Edu para pegá-la) ela é amarela e tem "I ❤ Imanity" escrito no peito, referência a um anime que eu amo.
Realmente, se eu passasse minha vida toda vendo só roupas "medievais" e de repente uma maluca vestida desse jeito aparecesse, eu teria um treco.
Bati na porta algumas vezes e ouvi o som de alguém mancando vindo atender, logo um homem alto e de cabelos negros grisalhos abriu a porta e me olhou com certo estranhamento.
- Pois não? - ele perguntou com um pouco surpreso quando seus olhos notaram que eu tinha um colar de gerin.
- Oi, tudo bem? Eu me chamo Lun... Lua, sou da mansão do mestre Rui. - eu tenho que me acostumar com o meu suposto nome verdadeiro. Sinto um sorriso tomar meus lábios ao pensar o quão irritado Rui vai ficar se souber que estou o chamando de "mestre".
- Oh, entendo! - ele olhou para dentro da casa rapidamente e me deu passagem, notei que ele estava segurando uma espingarda na mão que estava escondida pela porta.- Entre, por favor.
- ... Tudo bem. - eu passei por ele com bastante cautela e ele me indicou o fim do corredor com a mão livre, depois trancou a porta.
Eu andei para onde ele havia indicado e me encontrei em uma cozinha pequena, onde uma mulher muito bonita de cabelos loiros estava preparando a janta. Minha barriga ganhou vida própria, espero que eles não tenham ouvido.
- May, tem alguém da Mansão aqui. - o homem veio atrás de mim mancando e se sentou à mesa.
O local é bem simples, a casa em si é feita de madeira e os móveis (um armário, a mesa e as cadeiras) também, o fogão é a lenha e suponho que as louças são lavadas na fora em algum lugar, pois não há pia.
A mulher me olhou um pouco apreensiva, abandonando as panelas e correndo para me servir um suco.
- Não precisa se incomodar... - falei surpresa, eles parecem ter medo de mim.
- Não é incômodo! - ela sorriu. Parece que não é medo é... admiração? - Como o mestre está?
- Mau, não seja rude! - o homem advertiu parecendo preocupado. - Desculpe por não podermos oferecer muito.
- Não se preocupem! Eh... - eu peguei o copo de suco por estar inquieta e não saber o que fazer com as mãos. - O mestre está muito bem... mas sinto em lhes informar que o motivo da minha visita não é tão bom quanto para informar isso.
- O que aconteceu?! - a mulher começou a ficar nervosa.
Eu me levantei e me ajoelhei em frente aos dois, que soltaram sons de espanto. Não sei se aqui isso é normal mas nos animes sempre funciona.
- Eu peço perdão, pelo meu irmão, pelo mestre e por mim mesma! Nós não fomos capaz de cuidar da sua filha, sei que nada nesse mundo pode compensar a dor de um pai ou uma mãe em ver seu filho mal, mas prometo fazer o máximo para ajudar ela a ficar boa de novo! - eu senti uma mão no meu ombro.
- Por favor, não se curve diante de nós! - a mulher, May, pediu meio sem graça.
Eu me levantei fitando os olhos confusos deles, sinto que a qualquer hora posso chorar. É por minha culpa que Ana está daquele jeito, ela estava apenas trabalhando e tentando conseguir um pouco de felicidade mas acabou envolvida nisso tudo. Okay, que é mais por Carlos do que por mim, mas eu também sou de Maram e tenho minha parcela de culpa.
- Onde está a minha filha? - o pai dela parecia desesperado.
- Ela está lá fora, disse que eu deveria explicar a situação para vocês antes...
Ele saiu o mais rápido que podia, mancando e passou reto pelo local onde ela estava, ele olhou de relance para ela e depois começou a procurar em todos os lados. Eu havia o seguido para tentar explicar melhor e preparar ele para o que estava prestes a ver, mas não consegui chegar a tempo.
- Cadê a minha filha?! - ele perguntou apavorado, olhando para todos os lados.
- Papai... - ela chamou do local onde estava sentada e ele finalmente se tocou de que aquela garota magra e doente era a sua filha.
- Ana? - ele se ajoelhou chorando e colocou as mãos no rosto magro dela. - O que...
- Inimigos do mestre usaram Lâseja em mim como adverte... - ele fez um sinal pedindo silêncio e a abraçou.
- Tudo bem, eu entendi. Pelo menos o mestre está bem e nós não perdemos você. - ela sorriu, acho que se tivesse forças ela choraria. - Eu ouvi falar que já existe um tratamento seguro para a droga...
- Mas esse tratamento é caro... - a mãe dela apareceu de repente, também parecendo bem preocupada.
- Eu falei para vocês, eu vou cobrir tudo e fazer o que for preciso para salvar a Ana. - falei com um sorriso forçado, eu não queria que eles precisassem passar por isso.
- Eu não acho que...
- Ora, ora, ora... então finalmente deixaram de se esconder? - alguém interrompeu a fala de May e se aproximou, como já está meio escuro eu só pude reconhecer que era um homem pela voz e estatura.
- Nós não estávamos nos escondendo! - May correu para se colocar na frente do marido e da filha.
- Parece que vocês não aprenderam a lição da última vez. Será que vou precisar cortar mais do que alguns dedos ? - ele riu, agora que estava mais perto eu pude notar o olhar cruel que ele lançou para o pé do pai de Ana.
- Você veio aqui só para nos ameaçar?! - o pai de Ana se soltou dela e pediu para a esposa a levar para dentro.
May passou por mim e pediu que eu a seguisse, mas eu não o fiz, estou preocupada com o rumo que as coisas estão tomando.
O homem se aproximou do pai de Ana e sacou uma faca. Eu me aproximei e vi a expressão de surpresa do homem por me ver.
- Quem é você?! - ele perguntou quando me coloquei na frente do pai de Ana, sob protestos do mesmo.
- Eu?! Se eu te contar você não vai acreditar. - falei buscando algo no bolso do meu casaco, Rui me obrigou a trazer comigo um anel estranho e feio pra caramba e disse que se tivesse problemas deveria usar para intimidar as pessoas.
- O que você está procurando, pirralha?! - ele gritou cauteloso, apontando a faca para mim.
Eu finalmente encontrei o anel e depois de o encaixar no meu anelar esquerdo (como Rui mandou) retirei a mão do bolso e exibir o anel. No mesmo segundo, ele largou a faca e me olhou com respeito e medo ao mesmo tempo. Uau, vou usar isso mais vezes.
- M-me desculpa eu só... estava cobrando esses plebeus a taxa semanal. - ele falou forçando um sorriso.
- Taxa semanal o caramba! - o pai de Ana se recuperou do susto inicial de ver o anel rebateu. - O mestre colocou uma proibição para que não cobrasse taxas dos cidadãos só por morarem em um território que um nobre possuí!
- Eu já disse a vocês que o mestre não está mais aqui! - o homem debateu como uma criança birrenta.
- O mestre nunca abandonaria o povo...
- Calem-se! - pedi irritada e eles me obedeceram.
Não sei muito bem o que está acontecendo mas sinto que deveria resolver isso. Olhei para o homem estranho com a minha cara mais séria e coloquei as mãos na cintura.
- Diga ao nobre covarde que te enviou que, se desejar, pode enviar a "conta" para a mansão mas talvez a única coisa que eu possa dar a ele é misericórdia e o deixar vivo, porque pessoas traiçoeiras que assim que Rui vira as costas vai contra as ordens dele, não merecem ter nada. - ele arregalou os olhos. - Diga a ele que se ele tiver coragem, que venha resolver COMIGO e pessoalmente, de preferência. Meu nome é Lua Nyur, guarde bem isso!
Okay, usar o sobrenome de Rui foi horrível. Nunca. Mais. Faço. Isso.
Me dá uma sensação muito estranha, apesar de ter sido ele quem me instruiu a não utilizar meu sobrenome verdadeiro (Maram) nem o que tinha no outro mundo. A primeira coisa que me veio a mente foi o sobrenome dele.
- S-sim, senhora! - ele voltou quase correndo por onde tinha vindo.
O pai de Ana não comentou nada, ele também parecia assustado e me pediu para entrar novamente, o que eu fiz com certa dúvida.
- Então você é mesmo a esposa do mestre! - ele comentou quando estava à mesa, devorando uma sopa maravilhosa feita por May junto com todos.
Eu engasguei e Ana riu da situação, que engraçadinha ela.
- Claro que não! Eu sou só... - eu não sei como completar.
- Eu posso ser velho, mas eu ainda sei o significado do Anel da Senhora Amélia. - ele falou como se fosse óbvio que eu estava mentindo. Amélia não é o nome do meu quarto?! - E você também tem o mesmo sobrenome que ele.
- Tem?! - Ana riu com a nova informação, fico feliz que ela esteja se divertindo.
- Shhh, senhora Maram. - provoquei a fazendo corar, eu fiz Carlos me contar tudo, parece que Ana e ele se casaram quando ele estava bêbado.
Ele havia acabado de chegar em Nyur há uns dois anos e havia flertado com ela e a convencido a beber com ele, nisso - num ato de loucura - ele pediu para ficar com ela mas ela disse que isso era imoral, por isso ele disse "então vamos nos casar AGORA... ela aceitou e eles acordaram juntos no quarto dele com a certidão de casamento em cima do criado mudo. Eles discutiram a situação e ele decidiu que para não prejudicar a imagem dela, eles iam ficar juntos por seis meses e depois se divorciaram, caso alguém descobrisse sobre os dois ele ia pegar toda a culpa para si para que não quisessem a machucar nem nada, ou seja, ele seria o vilão.
Mas o tempo passou e eles foram adiando o dia do divórcio e um ano depois estavam totalmente apaixonados um pelo outro, mas eu e Rui somos os únicos que sabemos. Valquíria (finalmente sei o nome da Número 1) acha que eles só tem um caso, ninguém sabe ao certo como ela soube, mas parece que ela acabou vendo os dois juntos em um de seus encontros.
Mesmo com tudo isso, Carlos decidiu a pedir descentemente em casamento e agora que estão "noivos" ele vai apresentar ela ao nossos pais e fazer um casamento simples para chamar apenas as duas famílias, algo bem discreto porque combina com ela.
- Então, senhora Nyur... - ela devolveu a provocação.- Quando o mestre te deu o Anel da Senhora Amélia e você o usou, os dois declararam publicamente o compromisso de vocês.
- Não brinca que ele fez isso comigo! - pela cara que ela fez, era bem sério. Bati de leve a mão na testa e perguntei, sem mais nenhum ânimo: - E quem diabos é Amélia?
- Oh, é a mãe do mestre. - Mau respondeu como se fosse muito estranho eu não saber.
- A Senhora Amélia foi muito importante para o nosso país, ela é uma pessoa muito amada por todos e até hoje muitas pessoas choram a morte dela. - O pai de Ana me explicou, ele parece ser uma dessas pessoas. - Ela foi uma mulher incrível, ela tinha tanto poder quanto o mestre Jin e juntos eles fizeram o nosso país passar pela melhor fase da sua existência.
- Antes as mulheres sequer tinham voz, elas só podiam ser donas de casa e qualquer uma qie saísse na rua estava sendo exposta a perigos inimagináveis na mão de homens egoístas. - May enrolou uma mecha de cabelo no dedo. Aliás, por que ele é loiro? - Mas depois que a Senhora Amélia ganhou destaque, as coisas mudaram muito para a gente e existem algumas leis que nos protegem... ela dizia que era só o começo, que queria muito mais para nós, mulheres. Mas aí ela foi assassinada com o marido e todos esqueceram da promessa dela, apesar das mudanças permanecerem.
- O mestre deve confiar muito em você para te dar esse anel, ele representa todo o poder que Amélia podia exercer, o poder que a igualava com o marido. - Ana falou com um sorriso terno, mesmo estando tão magra e doente ela pareceu muito bonita nesse momento. - Acredito que Rui esteja confiando à você o legado da mãe dele.
- Que desrespeito é esse, garota?! - o pai de Ana a repreendeu, como não sabem que Ana é praticamente cunhada de Rui, eles acham que ela deve se dirigir a ele pelo título.
É surpreendente o que acabei de descobrir.
Nunca, na minha vida toda, eu havia imaginado que teria um peso tão grande sobre mim, mas... eu gosto. Eu me sinto tão feliz por Rui confiar tanto em mim que gostaria de dançar aqui mesmo de felicidade e de voltar apenas para dizer que não vou decepcionar as espectativas dele.
Amélia não era só a esposa submissa, nem a governante absoluta. Ela era a companheira do marido e o ajudava... saber que ele me acha confiável o bastante para me confiar o poder que essa grande mulher teve só me motiva ainda mais a fazer algo para ajudá-lo, mesmo que seja arriscado.
Eu não sei exatamente o que Amélia queria para nós, mulheres, mas se eu puder, vou fazer o máximo para alcançar esse objetivo e eu duvido que Rui vá tentar me impedir... não foi ele quem disse que nunca me diz "não"?
___________💕Recado da Autora💕____________
Olá, galerinha do bem!
Tudo em cima?
Então, queria dizer a vocês que eu não revisei esse capítulo, mas prometo que logo faço isso. Os motivos são:
• O MangaToon está apagando automáticamente os espaços depois dos pontos
• Agora são duas da madrugada e eu vou acordar às seis para sair
• Eu tô escrevendo pelo celular mas vou tentar editar todos os capítulos pelo PC pra ver se os espaços voltam ao normal e se eu consigo colocar as coisas em negrito/itálico, porque às vezes aí o texto aparece pra vocês com um "*" antes e é porque eu coloquei aquela parte em negrito e o MangaToon não aceitou e trocou por "*".
Peço desculpas pela demora, espero que tenha gostado desse capítulo ❤
Bjos, joaninhas ❤😚
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 46
Comments
Kethelyn Maforte
#amelhornoveldomangatoon
2020-02-03
3
Sarah Nunes
Não se preocupe, fazendo meus olhos brilharem com sua história já é o suficiente. E eu duvido que todos que vem a sua hostoria só tenha ela pra se distrair, enquanto a sua não sai logo né kkk, fazemos outras coisas. Mas a sua é privilégio ouvio, só não se sinta pressionada.
2020-01-31
2
Alice Moraes
Você tem dias marcados para postar? eu amando a história
2020-01-30
4