Seria Esse Lugar Parte do Mundo Que Conheço?

    -Rui... - ele me olhou meio estranho, que diabos está acontecendo?

    Eu reparo que ele não usou a mão direita até agora, pode ser que ele seja canhoto mas... ele realmente está bem depois de ter quebrado um copo com mãos nuas? Para falar a verdade, nem sei se isso seria possível mas como vi acontecer não posso evitar de me preocupar.

    Não me levem a mal, qualquer um se preocuparia... certo?

    -Sua mão... - ele a escondeu rapidamente. - Então realmente tem algo de errado.

    Olhei para Número 1 (tenho que perguntar o nome dela logo) e ela entendeu imediatamente.

    Alguns segundos depois ela chegou com uma caixa de primeiros socorros. Estranho, eu me sinto como se esse lugar fosse uma enorme bagunça histórica.

    Eu me levantei e me ajoelhei ao lado dele, puxando seu braço sem nem pedir. Pela cara que fez quando citei sua mão, ele não me deixaria olhar se pedisse gentilmente.

    -Você...

    -Cala a boca! - olhei brava para ele, porque tem que se fazer de durão?

    -Parece que você não aprendeu a lição da noite passada. - ele comentou, evitei olhar para as serventes que sem dúvida devem ter entendido isso errado enquanto nos assistem.

    Incrível como ele pode soar tão inocente e ao mesmo tempo dizer coisas que poderiam causar mal entendidos.

    -Por favor! - pedi enquanto abria o vidrinho de soro fisiológico e lavava os poucos cortes, depois de observar bem de não havia nenhum caco preso ainda (felizmente não tinha). - Sei que você só fez isso porque acha que sou sua propriedade ou animal de estimação, sei lá... mas ainda assim, se machucou por algo que eu disse.

    -Eu não acho que você é minha propriedade ou animal de estimação! - Ele parecia indignado.

    -O que foi que você disse quando me libertou mesmo? - ele desviou os olhos. - Hm... acho que foi algo como: "vou domesticar ela".

    -Isso é... - ele parecia sem graça, depois de usar as gazes para secar a ferida, usei outras para fazer um curativo. - Desculpa.

    -Não, não desculpo. - respondi me levantando, Número 1 pegou imediatamente as coisas que usei e as levou embora. - Quero que você carregue a culpa pelo resto da vida.

    Escutei alguns burburinhos entre as quatro serventes que nos observavam (aparentemente elas estavam ali para nos servir se houvesse necessidade), uma delas disse que não acreditava que eu estivesse falando daquele jeito com o "mestre" e outra disse que provavelmente eu estava o subornando e por isso ele era tão bom comigo.

    Antes que eu pudesse acabar com elas usando minha Gomu Gomu no Pistol, notei que Rui apertava a mão não enfaixada com tanta força que a ponta dos seus dedos estavam brancas. Quase falei "Omae wa mou shindeiru" para elas, mas meu bom senso me fez sentir simpatia.

    -Vocês podem calar a boca? - perguntei encarando-as com uma arrogância que não faz parte do meu personagem, mas eu preciso agir antes que Rui mande cortar a língua delas. - Se não aprenderem a ter controle sobre o que pensam e dizem, vou ter certeza de que consigam dois caixões para vocês, um pro corpo e outro para a língua.

    Elas olharam assustadas. Olha, piada de grupo de família sobre fofoqueiras também serve como ameaça.

    -Por favor, podem deixar eu e o... - mordi os lábios, é a primeira vez que vou o chamar pelo título ridículo dele.- ... "mestre" sozinhos, ou a cara de vocês vai tirar nosso apetite.

    Elas abaixaram a cabeça, apesar de ter notado que a mulher que comentou sobre o suborno parecia querer me responder, e saíram rapidamente. Nem mesmo a Número 1 (que havia acabado de voltar) se atreveu a entrar.

    Me sentei novamente em meu lugar e encarei Rui, que me olhou de uma forma estranha. Terminamos de comer enquanto eu explicava a ele que "rei" não era um nome e sim um título, mas ele ainda parecia meio incomodado com alguma coisa.

    Eu sinto que estou esquecendo algo... deve ser só impressão.

    Ele me avisou que ia me levar para conhecer um pouco da capital e por isso eu estava vestida como plebeia (não acredito que mesmo a plebeia mais rica poderia comprar um vestido desses, mas...).

    Fomos para fora, onde uma carruagem puxada por dois grandes e lindos cavalos de pelo negro nos esperava. Antes que chegássemos muito perto senti a mão de Rui me deter ao segurar meu braço, me virei para ele entediada e percebi que estava bem sério. O que fiz dessa vez?

    -Nunca mais me chame de "mestre". - pediu, parecendo ter percebido minha surpresa ele ficou meio desconcertado. - Pode me chamar de Rui, mesmo na frente de outras pessoas.

    -E aí vão entender errado nossa "relação". - refutei puxando meu braço de volta antes que alguém visse.

    -Ninguém tem que entender nada. O importante é que nós dois entendamos. - ele fez birra. - Me prometa.

    -N...

    -Se você disser que não, vou te beijar aqui e agora, assim você nunca escapará dos rumores. - ele parecia tão sério que eu recuei alguns passos.

    -Por que importa como te chamo? - e eu fiz a pergunta que não quer calar.

    Sério, não é como se eu tivesse o objetivo de continuar usando o título ridículo dele! Ainda assim, sua reação é bem interessante.

    -Rui! Seu mesquinho, traidor de uma figa! Como se atreve a ir para a capital e não me avisar...?

    Antes de ele me responder, senti alguém me atropelar (literalmente) e acabei caindo no chão, a pessoa que me atropelou caiu em cima de mim e... cara, porque eu sofri dois kabedons em menos de 24 horas?

    O garoto que caiu em cima de mim também é bem bonito, mas de um jeito diferente de Rui. Ele tem cabelos castanhos e olhos também castanhos mas claros como mel, além dos traços de seu rosto serem bem mais delicados do que o de qualquer garoto que já conheci, um verdadeiro bishounen*... já vi esse rosto em algum lugar.

    Ele saiu de cima de mim... correção, foi arrancado de cima de mim por Rui e praticamente jogado para o lado, onde caiu sentado com uma expressão dramaticamente incrédula.

    -Você está bem? - perguntou preocupado, estendendo uma mão para me ajudar a levantar.

    -Estou sim, mestre. - respondi aceitando sua ajuda mas quando toquei sua mão, ele a recolheu. - Ei!

    -Vai continuar me chamando de...?

    Por alguns instantes vi um brilho diferente em seus olhos quando ele olhou de mim para o garoto estranho ao meu lado, ele parecia sem saber o que estava acontecendo ao redor ou como terminar a frase. Ele vai surtar de novo?

    O rapaz bonito ao meu lado se levantou e me estendeu a mão, para me ajudar. Aceitei com receio de que ele me soltasse, tipo aquelas coisas de criança do primário, mas ele foi gentil o bastante para não fazer isso.

    -Me desculpe, bela dama, por ter te feito cair. Eu não tinha te visto. - ele beijou minha mão em um gesto antiquado, mas tenho a impressão de que a ideia era ser engraçado. - Desculpe também o meu amigo ali, ele é um bruto!

    -Faz só um dia que o conheço mas concordo com você. - falei dando um soco leve no braço de Rui, que finalmente acordou pra vida. - Vou te empurrar de um penhasco assim que tiver chance.

    -Tenta! - ele desafiou me dando um leve peteleco na testa, faço um bico e coloco a mão no lugar onde ele acertou.

    -Mesquinho... - murmurei o fazendo sorrir.

    -Wow! Nunca pensei que viveria para ver o grandioso e frio Rui abaixar a cabeça para uma mulher! Tiro o chapéu para você! - o rapaz bonito falou rindo.

    É só coincidência, certo? Essa gíria sem dúvidas não deveria existir nesse lugar, mesmo que seja um tipo de bagunça histórica. Esse garoto veio do mesmo lugar/mundo que eu? Impossível!

    -Vamos, Lua. - Rui chamou colocando a mão na minha cintura para me conduzir até a carruagem.

    -Meu nome é... - suspirei. - Quem se importa? Vamos.

    -Ei! Me deixem ir junto! - o rapaz bonito subiu na carruagem logo depois de nós dois, Rui parecia querer empurrar ele para fora, mas eu toquei seu braço para o impedir. Ele me olhou de um jeito estranho e depois de dar de ombros, apoiou o cotovelo na janela e ficou encarando a paisagem lá fora.

    O que será que ele está pensando? Bom, me pergunto isso desde que cheguei aqui. É um fato que até o momento em que ele disse que ia me "domesticar" ele parecia disposto a me tratar como um brinquedinho, mas porque depois do ontem à noite ele está me tratando melhor? Ele até ouve o que eu digo e se esforça para não se irritar comigo. Para falar a verdade, desde ontem quando eu fui até a sala de audiências, ele começou a me tratar diferente.

    Ouvi que as "selvagens" eram domesticadas por serem tratadas como um acessório, quase todo nobre tem uma e elas normalmente ficam em pé ao seu lado durante reuniões importantes e a maioria delas são com concubinas. Se um nobre se cansa delas, simplesmente as mata para que os segredos que ouviu nas reuniões não vazem.

    Quando ouvi isso, não acreditei que mulheres são realmente tratadas assim nesse lugar... mas e se for verdade? Por que ele me trata mais como uma amiga do que como uma dessas "selvagens"? Eu sei que Rui é excêntrico, mas tanto assim?

    Pensar me deixa apavorada, porque não consigo achar nenhuma resposta.

    -Uma moeda por seus pensamentos. - o garoto bonito falou me olhando com um sorriso.

    -Queria saber o porquê você parece tão diferente das outras pessoas nesse lugar. - menti, mas não totalmente.

    -Eu? Como seria? - ele perguntou curioso.

    -Essa calça skinny não me engana! - ele ergueu os ombros como uma criança pega no flagra. A calça era parecida mas não chegava nem perto de ser como as de Rui. - E você usa gírias e frases famosas.

    Ele olhou para Rui, que continuava meio perdido na paisagem... ele está bem?

    -Isso é bullying. - ele acusou vendo que não receberia ajuda.

    -Quem é você? - perguntei semicerrando os olhos.

    -Eu me chamo Carlos, sou algo tipo o mestre do país vizinho. - ele se apresentou contrariado. - Lá nós temos muito mais tecnologia que aqui, esse país é praticamente isolado... somente as pessoas que não conseguiram acompanhar a evolução tecnológica de 1000 anos atrás vieram para cá, que é basicamente uma enorme ilha isolada.

    -E como é o nome do seu país? - eu tenho esperanças de que seja um nome que eu reconheça, quando ele falou isso de ilha isolada não me surpreendi muito porque já vi muita coisa aqui que me faz não duvidar de nada.

    -Ele não tem nome. - ele explicou gesticulando. - Aqui os países são classificados por números.

    -Então qual é o número do seu país?

    -Esqueci... - ele deu de ombros como se pedisse desculpas por ser tão inútil, isso me cheira a mentira.- Mas fiquei realmente chocado quando visitei Rui e descobri que aqui nós somos conhecidos como selvagens, enquanto são eles que nem sabem a existência do celular.

    -Então... o seu país é tão evoluído assim? - perguntei mais esperançosa ainda. Poderia ser que esse lugar maluco onde eu estou realmente exista e seja parte do mundo que eu conheço?

    -Sim, ele é. - o rapaz parecia orgulhoso, mas de repente ficou preocupado. - Mas não conte a ninguém. Quando consigo fugir do meu mordomo, eu venho para cá me passando por um Viajante... sabe, as pessoas aqui não se dão bem com nós, "selvagens".

    -Nem me diga! - falei lembrando do cara que me chutou como se fosse algo que nem merecia ser chamado de humano, só de lembrar me deu raiva.

    -Você não é do meu país, é? - ele perguntou se inclinando na minha direção para analisar meu rosto. Não sei se é o carisma dele mas seu rosto faz eu me sentir aconchegada, como se pudesse confiar a ele qualquer coisa sem precisar me preocupar com nada depois disso. - Você pode tem o cabelo castanho e os olhos claros como um dos nossos mas seu jeito de agir é de um Viajante, como aquele cara.

    Ele fez uma expressão de desgosto enquanto abraçava a si mesmo... ele disse que se chama Carlos, não é o cara que ia encontrar a Ana (Número 2)?

    - Sinto até um calafrio de pensar nele. - Carlos olhou para Rui. - Onde ele está?

    -...- Rui finalmente parecia ter se inteirado da conversa e fechou forte a mão, uau, ele parece querer surtar. De novo. - Ele está em um lugar muito confortável.

    Antes que eu pudesse perguntar a quem estavam se referindo, o cocheiro avisou que havíamos chegado. Desci da carruagem por último, recebendo ajuda de Rui para isso. Quando ergui meus olhos, tive uma das visões mais belas do mundo, uma rua comercial cheia de pessoas vendendo coisas aleatórias mas, ao mesmo tempo, continha uma certa beleza cultural africana, medieval europeia. Pela primeira vez a mistureba histórica/cultural deste país me encantou.

_________________💕Nota💕__________________

*bishounen\= garoto bonito

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Comments

Coffee Islainer

Coffee Islainer

amei esse capítulo tá arrasando miga também gosto de referência de animes ❤️❤️😉

2020-09-23

3

Kauane Araujo

Kauane Araujo

adoro as referências com animes

2020-01-13

23

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