Eu deveria ter calçado minhas pantufas, meus pés estão congelando nesse chão frio.
Consegui passar facilmente pela porta que dava para o lugar onde fiquei presa pela última vez e (provavelmente por causa do anúncio de Rui) nenhum guarda tentou me impedir de entrar. Achei a cela de Eduardo e o vi deitado em uma cama muito boa enquanto lia um livro qualquer... que prisioneiro privilegiado.
-Eu quero ir para casa. - falei rapidamente.
Eduardo sequer desviou os olhos das páginas do livro. Isso foi rude da parte dele mas só comprova minha teoria de que ele é o meu irmão. Quando estava para terminar o ensino médio, antes de ir morar em uma república, ele também fazia isso.
-Ei, não me ignore! - eu segurei com as mãos na grade e colei meu rosto no vão. - Eu quero voltar pra casa!
-Você sabe o quão tedioso é ficar aqui? - ele perguntou virando a página.
-Você fingiu não me conhecer! - acusei irritada.
-Aquele cara é meu amigo mas é maluco! - Eduardo colocou o livro de lado e se aproximou da grade. - Você queria que eu fizesse o que? Dissesse "Oi maninha, tudo em cima? Oh, você quer que eu mostre para o seu namorado o quão íntimos somos? Me dê um abraço, vamos festejar e colocar a minha cabeça em espetos da praça principal como exemplo do porque não cortejar a garota dos outros!"
-Não! Mas você sabe o quão confusa eu me sinto? Eu quase pensei que estivesse louca e realmente não te conhecesse! - coloquei minhas mãos sobre as dele, na grade. - Por favor, eu quero ir embora!
-Rui vai me matar se eu te mandar de volta... - ele puxou as mãos, se afastando um pouco.
-E eu vou matar ele se continuar aqui. - retruquei quase chorando. - Eu não sei o que está acontecendo... de repente eu acordei aqui, depois um cara boa pinta flerta comigo, em menos de duas semanas eu sou sequestrada por um navio pirata, perco meu BV e tenho sonhos estranhos que envolvem outras pessoas me usando para atingir um idiota que por algum motivo significa muito para mim! Se coloca no meu lugar! Eu só quero... estar sozinha de novo, em casa, sem atrapalhar ninguém.
-Rui não acha que você atrapalha...
-Eu acho que vou enlouquecer! - falei desesperada, me abaixei e escondi minha cabeça nas mãos. Sinto meu autocontrole indo para o brejo. - Só quero voltar a ser uma garota normal do século XXI...
- Você realmente quer abandonar Rui? Okay, vou te dizer o que tem que fazer. - ele se abaixou também e sussurrou por entre as grades. - Você chegou aqui graças a algum dispositivo estranho, certo?
-... um relógio, acho... - respondi o olhando sem me importar com as lágrimas.
-O encontre de novo e ajuste a hora e a data, é bem simples. Mas não ajuste para o passado, somente coloque a mesma data e hora atual, porque o relógio só grava quando você deve ser mandada de volta, não vai te fazer voltar no tempo nem nada. - ele explicou. - Não me responsabilizo por nada que acontecer depois disso. Também não te conheço mais, se o Rui te encontrar e você citar meu nome ou querer por a culpa em mim, vou ter certeza de que nunca mais você vai conseguir voltar "para casa".
-Obrigada... - respondi pensando onde poderia estar o tal relógio.
Eduardo voltou a se sentar na cama e ler enquanto eu me afastava, agora... eu acho que deveria perguntar a alguém.
A imagem de Rui dormindo não sai da minha cabeça. Ele vai ficar chateado? Acho que não.
Irônico, ele me agradeceu por não ir embora e aqui estou eu, ameaçando um guarda para descobrir onde me encontraram da primeira vez. Parece que eu já estava na cela, por isso todos estranharam quando eu apareci e o Rui foi chamado.
Voltei para aquele lugar nostálgico e procurei em todos os cantos, até encontrar o relógio estranho perto da janela.
Que estranho. Parece que foi deixado ali de propósito, ninguém o encontraria a menos que estivesse realmente procurando. O peguei e senti seu peso, ele era leve e ao mesmo tempo me fazia sentir como se fosse algo "pesado" de mais.
Depois de fuçar um pouco, consegui ajustar a hora e a data e esperei, nada aconteceu. Será que coloquei a hora errada? Eu deduzi pela claridade lá fora, mas talvez eu tenha me equivocado e colocado a mais.
Resolvi andar para esperar o efeito e, quando notei, estava naquele pátio estranho que Rui havia me levado a algumas horas atrás. Ainda está ventando bastante, mas o frio me faz sentir um pouco real.
Com esse relógio estranho no braço, eu sinto como se estivesse em um jogo ou um sonho e que agora estivesse prestes a acordar, mas não quero esquecer totalmente o que aconteceu aqui. No mundo "real" talvez eu consiga chegar a uma conclusão sobre o porquê estar apegada a Rui tão rápido e o motivo de eu me sentir estranha (incompleta, talvez?) perto dele. Não quero que quando chegue na minha realidade, leve isso como um sonho do qual eu facilmente me esquecerei assim que abrir os olhos, só a possibilidade me assusta.
Subi no parapeito onde Rui havia me colocado antes e fiquei em pé, sentindo o vento gelado beijar meu rosto e esperando por algo que nem sei se vai acontecer.
Agora já está um pouco claro, deve ser umas quatro horas da madrugada e o chão lá em baixo está só um pouco visível. Se o relógio não funcionar, eu posso pular, certo? O que aconteceria se, ao em vez de sumir, eu virasse um cadáver? O que Rui pensaria e diria? Posso não conseguir chegar a uma resposta, mas por algum motivo sinto que ele ficaria triste. Eu não quero vê-lo triste, então é bom que isso funcione.
As luzes já não são tantas quanto antes, posso ver apenas algumas acesas na área dos nobres. Acho que eles se sentiriam felizes se eu desaparecesse, o que é bom. Pelo menos alguém tem que estar feliz.
Sinto meus olhos pesarem... uau, o sentimento é o mesmo do meu sonho, mas um pouco mais real. Vejo tudo borrado e, de repente, não estou mais no parapeito e sim no lugar onde havia encontrado o idoso suspeito.
Um guarda passava por aí e me perguntou se eu estava bem, respondi que sim e ignorei o fato de ele estar corado, é provavelmente por causa das minhas roupas, mas estou tão surpresa por estar de volta que não tem como sentir outra coisa.
Eu caminhei para casa encarando todos os pontos familiares, apesar de sentir que não eram tão reconfortantes assim. Eu estou de volta, mas não sinto que aqui é onde deveria estar.
Chego em casa meia hora depois de ter começado a caminhar, está tudo escuro e eu não consigo pensar em uma desculpa para estar chegando nesse estado em casa, depois de tanto tempo.
O cachorro feio da tia começou a latir para mim... fala sério! Eu planejava entrar escondida pelo janela e me vestir decentemente, pelo menos, mas graças a esse rato engasgado (odeio o latido dele), as luzes se acenderam e a tia e o tio saíram para fora, ver o que estava acontecendo.
- Luna?! - minha tia olhou para mim meio horrorizada e de repente me grudou pelo cabelo. - Que pouca vergonha é essa?! Entre agora!
Eu pensei em tentar me soltar, mas acompanhá-la faria doer menos. Nós entramos e ela me empurrou no sofá, o tio me olhava com tanto nojo que eu me senti como um cocô no sapato dele.
- Onde esteve e porque está andando assim?! - ele perguntou irritado.
- Eu estava... não posso contar. - falei me encolhendo quando a tia se aproximou com os punhos fechados.
- Você não sente vergonha de se vender e depois aparecer assim?! - ela gritou.
- Eu não... eu estava... - eu não consegui responder, eu aprendi desde pequena a nunca responder minha tia, ou a surra era maior. Mas eu não posso deixar ela me injustiçar assim, posso?
- Vai me dizer que não estava com um homem? - ela perguntou se aproximando e pegando amigo no meu pescoço. Aquilo estava ali antes? É uma jóia, feita do material misterioso que parece gelo, ouvi da Número 1 que ele é tão caro que quase ninguém além de Rui o possuí. O pingente do colar imita três pequenas borboletas. Como ele sabia que gosto de borboletas? Foi coincidência?
Sem notar, estou sorrindo e como consequência ganho um tapa na cara.
- Você acha engraçado que seu preço seja um colar tão barato?! Você acha que eu e Paul lhe adotamos para trazer vergonha a nossa família?! - ela berrou, eu ainda estou um pouco chocada com a rapidez dos acontecimentos, com relação a tudo o que aconteceu quando estava no outro mundo, aqui as coisas são tão normais e... sei lá.
- Barato? - perguntei soltando uma gargalhada. - Esse colar vale bem mais do que qualquer coisa que você e Paul podem conseguir em toda a vida de vocês!
Menti? Não, mas também não sei de onde saiu a coragem para dizer tudo isso. Eu me levantei do sofá e fui para a entrada do corredor, os dois haviam calado a boca e me olhavam apavorados.
- Eu vou ir me trocar, já que vocês só ouvem o que querem ouvir e não vão me deixar explicar. - fui para o meu quarto sem pressa, temendo que a qualquer momento eles viesse atrás de mim para continuar a briga, mas não o fizeram.
Me sinto tão leve que queria voltar e gritar umas verdades, mas não acho que esse sentimento de satisfação seja causado pelo fato de ter os respondido. Infelizmente é pelo fato de ter algo que me lembre de Rui mesmo aqui nesse mundo.
É certo que eu não devo estar ao seu lado, mas ter um pedacinho que seja dele comigo, me faz sentir um pouco melhor.
"Perdão, mas não posso ficar ao seu lado." gostaria de dizer a ele.
Escolhi roupas descentes e fui tomar um banho enquanto me perguntava qual seria a reação de Rui ao acordar e não me ver. Acho que ele pode superar. Existem muitas garotas de cabelo castanho no país de Carlos, duvido que se ele quiser não vai achar alguém bem mais bonita e inteligente para ficar ao lado dele.
O que...? Lágrimas?
É, sem dúvida eu estou chorando, minhas lágrimas estão se misturando com a água do chuveiro e eu não posso mais me controlar.
Ele vai estar bem sem mim? Espero que não.
É egoísta querer que ele sinta minha falta, eu sei. Mas é ainda mais egoísta da parte dele despertar em mim tantos sentimentos que não entendo.
Se vamos culpar alguém, por que não culpamos o idoso suspeito que me fez ir parar lá? Ah, simples: É por que não é por ele que meu coração bate mais rápido e minha barriga gela. (Ainda bem, já pensou se apaixonar por um idoso noiado?)
Saí do meu banho vestida com a minha velha camiseta de SAO e minha legging preta que sempre uso para dormir nos dias frios assim.
Antes de dormir, eu podia ouvir o choro da tia no quarto ao lado perguntando ao tio o que seria deles agora que eu havia sujado sua reputação, mas não me importei muito com isso.
Espero que Rui não desconte nada na Número 1 ou na Ana, seria horrível se ele declarasse que elas não cuidaram direito de mim. Depois de ter dispensado Kim, ele havia decidido que nenhum homem precisava estar ao meu lado e que quem ia cuidar de mim eram as duas.
Espero que Carlos não magoe a Ana, eu o fiz prometer (depois que fomos "acolhidos" pelos piratas) que não a traíra indo a bordéis ou nada do tipo e ele jurou que quando tentou fugir durante a visita na capital, era para encontrar um anel para ela.
Ela vai ficar feliz com o pedido, quase posso ver aquela garota séria e rígida dando pulinhos de alegria. Inclusive, descobri que ela é dois anos mais nova que eu, apesar da aparência de quatorze anos. É uma boa idade para se apaixonar.
Tentei não pensar em Rui, mas foi automático que seu sorriso me veio a mente e as lágrimas escaparam. Okay, é a última vez que choro pela minha decisão de ir embora.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 46
Comments