-Olha, lá vem a baranga! - eu ouço alguém dizer, de alguma forma sei que estão falando de mim.
-O que é uma baranga? - eu pergunto ao meu irmão mais velho... uau, foi ontem a última vez que eu o vi mas parecem décadas! Eu tento estender a mão para tocar seu rosto, mas não tenho controle sobre o meu corpo.
-Nada, Lu. - ele passa um braço em volta dos meus ombros e me dá um beijo no rosto. - Não dê ouvidos ao que essas garotas dizem.
-Tá bom! - falo enquanto andamos juntos, algumas garotas o olham admirando sua beleza mas ele as ignora.
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Eu vi sangue... ele está escorrendo do nariz de um garoto mais novo, quem fez isso? Edu me olha com um sorriso e diz que não preciso mais me preocupar.
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A minha tia me dá um tapa e depois também acerta Edu, dizendo que desde que eu cheguei o desempenho dele piorou na escola e agora ele se metia em brigas também.
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... Edu está me ignorando por quase um mês. O que eu fiz? Ele ficou bravo de ter apanhado por minha culpa? Não sei... por que ninguém mais pega no meu pé? Por que meu irmão me odeia? Me sinto vazia.
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Levanto assustada e sinto o suor escorrer pelo meu rosto, minhas lágrimas também ameaçam cair... onde eu estou?
Essas roupas antiquadas, esse dossel... não sei o que é pior, ter um sonho com o que aconteceu no passado ou acordar e descobrir que eu realmente estou mais longe de casa do que nunca.
Eu odeio quando sonho com tudo aquilo. Meu irmão sempre foi meu herói e quando ele passou a me ignorar eu fiquei totalmente sem chão. Apesar de eu entender que ele fez isso para me proteger das garotas, que apenas pegavam no meu pé por ter atenção dele, e também da minha tia que sempre achava um motivo para me criticar pela nossa amizade. Mesmo assim, se me perguntassem hoje sobre aquilo, eu diria que preferia ter continuado a sofrer bullying se isso me permitisse ficar ao lado dele.
Não entendam errado, é só que a lembrança mais antiga que eu tenho é a dele, por isso quando estou com ele consigo fingir que sou normal e que não sou alguém que sequer se lembra da família verdadeira, ele é o único que eu consigo tratar como se fosse um irmão, talvez porque é o único que me olhe de verdade.
Deixo meu corpo cair novamente em meio ao colchão e os travesseiros macios, gostaria de entender o que aconteceu mas só consigo lembrar daquele idoso suspeito e o bracelete que, aliás, não está mais no meu braço.
Ouço a porta conjugada abrir e meu coração acelera apavorado. Rui se provou ser um campo minado, qualquer coisa pode fazê-lo ficar assustador. Sequer me mexo quando ele aparece no meu campo de visão, não vou fingir dormir porque sinto que ele me descobriria fácil. Ele para ao lado da minha cama e nos encaramos, olho no olho.
Rui estendeu a mão e tocou minha bochecha, não o impeço, nem mesmo pisco. Não diria que fui corajosa e bati de frente, apenas fiquei chocada demais para reagir. Ele apertou os lábios, formando uma linha fina e limpou minhas lágrimas.
-Você está assim por causa de mais cedo... por minha causa? - ele perguntou tentando parecer calmo, mas vi algo parecido com preocupação em seus olhos.
Sério? Não, impossível ele estar preocupado, com certeza foi impressão, está escuro demais. Neguei com a cabeça em resposta.
- Então o que aconteceu?
Mesmo que eu fale, esse troglodita provavelmente só vai surtar de novo. Vou ignorar. Eu cobri a cabeça com o edredom sem responder.
-Você está me ignorando? Me ignorando? - ele perguntou dramaticamente, de repente senti um vento gelado nas pernas e quando notei ele havia arrancado o edredom e estava em cima de mim.
Sabe aqueles mangás shoujos onde a garota cai e o garoto fica por cima, num tipo de kabedon? É algo assim, com a diferença de que normalmente isso acontece entre pessoas que se gostam e a protagonista não sente raiva ou medo dele. No meu caso, eu sinto tanto medo quanto raiva.
-Me diz o que está acontecendo ou eu vou te castigar. - ele ameaçou, mas não senti toda a pressão de antes, era mais como uma ameaça que ele não tinha intenção de cumprir.
O ignorei, virando meu rosto pro lado para não o encarar.
Eu me arrependo profundamente disso, pois alguns segundos depois, eu me senti totalmente fraca e não pude o afastar nem que tentasse. Me debati mesmo sabendo ser inútil, já que ele é mundos mais forte que eu.
-Não! Por favor, não faça isso! - implorei sentindo as lágrimas escaparem, eu definitivamente sou fraca para cócegas.
-Será que você merece clemência? - perguntou parando repentinamente, aposto que meu rosto está vermelho como um pimentão e devo estar toda descabelada. - Nah, você foi insolente demais!
Ele voltou a fazer cócegas em mim e eu gargalhei enquanto implorava para ele parar, juro que se isso continuar eu vou acabar mijando nas calças. Não que eu esteja de calças, estou de camisola mas... vocês entenderam.
-Por favor, Rui! - pedi sem pensar, surpreendentemente funcionou, ele me olhou de um modo estranho e... é impressão minha ou ele está vermelho? Não, impossível.
Está escuro, a única luz é a da lua que entra pela porta da varanda que está aberta, mesmo que ele ficasse vermelho eu não conseguiria notar. Ele jogou o corpo para o lado, saindo de cima de mim e deitando no espaço livre ao meu lado esquerdo, a cama é tão enorme que tem, tipo, muuuuuito espaço.
-Vai me falar agora? - perguntou me fazendo virar pro lado para poder o encarar... que sono.
-Eu só estou com saudades da minha família. - respondi. Ele levantou uma sobrancelha, duvidando. - Mais especificamente do meu irmão mais velho.
-Então você tem família. - ele comentou mais para si mesmo do que qualquer outra coisa, senti sua mão se enlaçar na minha mas estranhamente não quis que ele deixasse de tocar minha mão. - Como é o seu irmão?
-Bom, ele é bem incrível. Ele é inteligente e bonito, mas nunca me menosprezou, ele sempre me defendeu da tia e das meninas... apesar de não termos laços de sangue, ele é muito importante pra mim. - respondi com sinceridade. Até alguns segundos atrás eu não estava irritada? Então porque estou falando tão abertamente?
-E você gosta dele? - me perguntou parecendo realmente curioso.
-Não do jeito que essa sua mente excêntrica pensa, ele é só como um irmão para mim. - respondi bocejando.
Ele concordou e ficou me encarando. Sinto meus olhos tão pesados... ouvi ele dizer "durma bem" e acho que senti um beijo na testa, mas não estou consciente o bastante para dizer com certeza.
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Acordei com o grito de surpresa da Número 1... tão claro! Volto a fechar os olhos, meio cega. O que é esse peso na minha barriga?
-Desculpa, eu já vou indo... - a Número 1 falou de uma maneira meio envergonhada.
-Volta aqui e fecha a cortina, por favor.- pedi.
Hm... é um braço... um braço muito bem definido aliás. Espera, um braço?
Olho rapidamente para o lado. Lá está Rui, que dormiu ao meu lado essa noite e está com um dos braços na minha barriga.
Ele fica tão bonitinho dormindo que dá até dó de o acordar. Ei, espera! Ele é o cara que diz que vai me "domesticar", não caia nesse genjutsu, Luna.
-Ei, acorda! - chamei cutucando sua bochecha, ele abriu os olhos lentamente parecendo alheio a toda nossa situação atual. - Bom, acho que não é muito adequado que você fique assim na frente das outras pessoas.
Eu me sentei jogando o braço dele para o lado, mas ele me abraçou pela cintura e apoiou a testa na minha coxa.
-Ei, o que você está fazendo? Não ouviu o que eu disse? Não é legal que você faça essas coisas na frente dos outros. - repreendi tentando sair da cama, mas foi em vão.
-Não tem problema se for quando não tiver ninguém? - ele perguntou lançando um olhar para Número 1 que a fez sair imediatamente do quarto.
-Eu te conheci ontem, você está achando que é quem? - perguntei. Óbvio que eu sei que ele acha que é algo como meu dono, mas neste momento parece mais uma criança mimada. - Me solta!
-Não! - ele respondeu apenas.
-Por quê? - coloquei a mão no cabelo dele, pensando que talvez se eu puxar ele solte. Mas isso pode fazer ele surtar e... hm, que macio.
-Ei, o-o que você está fazendo? - ele me soltou, se afastou com os olhos bem abertos e o rosto começando a ficar vermelho.
-Eu só estava mexendo no seu cabelo, ele é incrivelmente bom. - falei me levantando e indo em direção ao banheiro para ele não se recuperar do choque e me abraçar de novo. - Aliás, o que você é?
A visão de seus olhos (ou a que eu acredito ter visto) ontem à noite tiraram qualquer medo que eu tivesse antes, mas espero que esse tipo de pergunta não o faça mudar de repente. Ele sentou na cama em "perna de índio" e colocou a mão no queixo, como se estivesse pensando na resposta.
-Eu sou algo tipo o homem mais importante desse país, entende? - ele sorriu convencido, modo narcisista ligado. - Eu quem cuido para que as coisas fiquem bem e se eu mandar algo, todos precisam fazer o impossível para cumprir.
-Então você é rei? - perguntei sem acreditar muito. Sério, um cara assim ser rei.
-Ahn? "Rei" não é como falam em Maram? - ele perguntou confuso.
-Maram...? bom, eu vou me trocar porque sinto que é muito vergonhoso usar... "isso"... na sua frente. - Cruzei os braços em frente ao peito, antes eu não tinha me importado porque estava escuro mas a camisola que me obrigaram a vestir é muito transparente. - Depois eu te explico.
-Hm... okay, vou mandar preparar nosso café. - ele se levantou parecendo ter entendido minha preocupação e foi até a porta.
-Ei, se você vai sair faça isso pelo seu quarto, não quero que fiquem espalhando coisas sobre mim. - o adverti. Ele respirou fundo e abriu a porta assim mesmo.
-Se alguém falar algo que não seja verdade, eu corto a língua dele. - falou em tom de brincadeira mas tenho certeza que ele realmente planeja fazer isso.
Mostrei a língua para ele enquanto o via pedir para Número 1 voltar para dentro, ela riu baixinho mas logo tomou uma postura séria ao notar que deu a entender que estava caçoando dele. Depois de se desculpar, ela me seguiu até o banheiro e me pediu para sentar em um banco enquanto desembaraça os meus cabelos.
Graças ao poder da química, meu cabelo é liso, a única coisa natural nele é a cor castanho escura. Eu o deixei crescer até a altura da minha cintura mais ou menos e desde meus 15 anos venho mantendo ele assim, o difícil é cuidar de tanto cabelo, fico feliz que alguém o penteie para mim.
-Cadê sua amiga? - perguntei encarando o reflexo da Número 1 pelo espelho, ela estava amarrando meu cabelo em um coque para eu poder entrar na banheira.
-A Ana está em um encontro. - respondeu com um sorriso sonhador. - O mestre Carlos a pediu para ir encontrá-lo no jardim, então ela fingiu estar doente para ir... mas por favor, não conte ao mestre Rui!
-Relaxa, eu não sou X9. - Ela ficou confusa mas concordou. - Quem é esse Carlos?
-Oh, é um dos dois melhores amigos do mestre Rui. - ela comentou me ajudando a tirar a roupa, minha dignidade já foi pro ralo mesmo. - Ele é um viajante de outro mundo.
-Outro mundo?
-Sinto muito, mas não sei muito sobre o assunto, só sei que lá as pessoas são selvagens. - ela falou enquanto eu entrava na banheira e relaxava. - Estranho que você pergunte, ouvi dizer que você era uma selvagem antes de ser capturada.
Resolvi não entrar mais no assunto, qualquer coisa eu pergunto pra aquele cara.
Depois de ter uma briga severa com Número 1 ela cedeu e deixou que eu não usasse o espartilho, depois me enfiou em um vestido branco bem mais simples do que o de ontem.
Fui para a sala de jantar tomar café mais plena que nunca.
-E quando você vai ir embora? - ouvi Rui perguntar, mas não era comigo que ele estava falando, era com um cara MUITO familiar sentado à mesa, junto com ele.
Número 1 me indicou o lugar ao lado de Rui, mas eu ainda estava chocada demais para me mexer.
-Eduardo? - perguntei batendo as mãos na mesa e o encarando, Rui estava na cabeceira e o rapaz na lateral oposta a qual Número 1 me disse para ocupar. - O que você está fazendo aqui?!
Ele olhou rapidamente para Rui, sem reação e depois me olhou de novo, como se eu fosse louca.
-Eu não te conheço.
Ele não disse isso. Definitivamente não.
Depois que terminou a escola, Eduardo continuou meio frio comigo, mas pelo menos conversávamos. Se bem que na maior parte do tempo eu estava brigando com ele.
-Depois de tudo o que você me fez? - perguntei propositalmente sem ser clara.- Eu não acredito!
-O que você fez?! - O copo estourou na mão de Rui, ele estava com aquela mesma sede de sangue de ontem, mas não era direcionada a mim.
-Não é o que você está pensando! - ele se levantou dando desculpas, mas Rui já não estava mais ouvindo, em dois segundos uns guardas chegaram e o levaram embora arrastado.
Rui fez um sinal para eu me sentar, alguma criada já havia limpado toda a bagunça por causa do copo que ele estourou. Eu me sentei e comecei a comer em silêncio.
Eduardo vai ficar bem? Bom, bem feito! Quem manda me ignorar?
Se bem que é estranho. Como ele veio parar aqui e porque parece já conhecer Rui à muito tempo?
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Atualizado até capítulo 46
Comments
😎mimin do hot♎
eitaaaa toda vingativa ela kkk
2021-03-18
1
Eulania Ferreira
adorooooooo essa história a n vai me dizer q é básiada em fatos reais kkkkkk
2020-02-24
4
Sarah Nunes
bem criativa mesmo, fui pega de surpresa e tudo que imaginava que pudesse acontece vôo pela janela, amei esse seu jeito de cativar com a sua história.
2020-01-09
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