"Resgate" e Entrega de Títulos

 

Depois de um mês sendo pirata, eu fiquei totalmente exausta.

Esses

Monstros

Não

Ficam

Satisfeitos

!!!!

Três refeições por dia eram muito além da minha capacidade e minha sorte é que o Capitão me deu mais três ajudantes, logo eles podiam se virar e eu fiquei só supervisionando, em um calor dos infernos.

Eu consegui convencer o capitão a me dar roupas de algum de seus homens, no começo muitos deles me olhavam estranho e acabavam apanhando de Carlos como advertência, então no segundo dia eles já estavam um pouco acostumados a verem uma garota em calça apertada e camiseta regata (eu personalizei ela usando uma tesoura, era muito grande e no meu mundo eu costumava cortar ou decorar camisetas que já não queria mais).

Falando nele, Carlos passou fugindo de mim todos os dias. Sempre que eu ia para perguntar algo sobre isso de "Viajante" ou sobre qualquer coisa que não fosse muito comum, ele dava a desculpa de ter que ajudar os outros a praticar. Mesquinho.

Assim, os dias passaram entediantes e divertidos ao mesmo tempo, foi engraçado ver alguns piratas confessarem seu amor por mim e me pedirem para ficar mais tempo. Mas eu tenho um lugar para voltar...

Eu não sei... não sei a partir de quando aconteceu mas, eu não consigo deixar de pensar em Rui quando penso em "voltar". Eu deveria pensar na minha família, mas ela nunca me deixou confortável para tal e agora, parece que eu sou idiota o bastante para considerar um lar qualquer lugar onde eu tenha o mínimo de carinho. Se é que eu posso chamar de carinho o comportamento estranho de Rui.

Ou eu sou carente ou masoquista, mas seja como for eu me sinto frustrada de pensar em como minha mente está aceitando tudo fácil de mais.

Eu nunca tive amigos, sempre achei que eram perca de tempo e não consegui achar alguém com quem me identificasse. Por isso, me acostumei a viver sozinha, amando/odiando meu irmão mais velho e assistindo animes/séries/filmes no tempo livre. Então porque de repente eu me sinto tão bem em pensar em alguém que sequer conheço? Eu sinto que algo está fora do lugar.

-Então estamos chegando. - Carlos comentou enquanto se aproximava.

-É. - nem o olhei, não tenho mais força de vontade o suficiente para tentar fazer com que ele me diga algo que quero saber.

-Rui está surtando, aposto que vai te prender assim que chegarmos em terra firme. - ele se debruçou ao meu lado, eu estou olhando o porto se aproximar lentamente, está um vento tão bom que poderia ficar assim para sempre.

-Como você sabe?

-Você lembra de ter visto um pássaro marrom voando em algum momento? - ele pergunto e, agora que penso sobre isso, lembro sim. - Todos os dias eu tinha que enviar relatórios, ele me disse para manter qualquer homem estranho longe de você.

-Por que? - me irritei. Okay, eu estou me sentindo mais estranha que nunca com relação a ele, mas estou cansada de não saber porquê ele me controla tanto.

-Por que ele precisa de você para nos ajudar com uma coisa...

-Que coisa? - prendi meu cabelo em um rabo de cabelo, sempre que eu falo entra cabelo na minha boca por causa do vento.

-Acho que ele gosta de você. - Carlos não parecia muito feliz ao dizer isso, chegou a fechar o punho por alguns segundos. Uau, dois estranhos brigando por mim. - É provável que ele te peça em casamento.

-Quê?! - okay, foi longe de mais! - Isso é um absurdo!

-Bom, para nos ajudar você vai precisar estar em um relacionamento com ele, mas só fui desconfiar de que ele planeja realmente ficar com você quando vi vocês na cidade. - ele me puxou de repente para um abraço. - Se você não quiser se casar com ele, me avisa. Mesmo que precise iniciar uma guerra, eu vou impedir que ele te force a ficar do lado dele.

\-Por que você começaria uma guerra por mim? \- eu perguntei o afastando, que maluco.

-Porque você é... bem... - ele coçou a cabeça. - Você me lembra alguém que eu conheço, alguém muito importante para mim. Seria estranho ver você sendo obrigada a casar com alguém como o Rui.

-... - eu dei alguns passos para o lado, mantendo uma distância segura. - Acho que você entendeu errado, Rui só acha que eu sou um animal de estimação ou algo assim.

-Ah... o tempo dirá. - ele pareceu chateado que eu tenha me afastado, mas fazer o que? Eu não sou esse tipinho que saí abraçando qualquer um. - Olha, e lá estão eles...

Muitos soldados e navios nos esperavam perto do porto... estavam tratando como uma questão de resgate, ou algo do tipo? Rui não sabe que esses piratas são nossos amigos?

Quando vou perguntar isso ao Carlos, o vejo sendo feito de refém pelo Capitão, que está com a ponta - incrivelmente afiada - do seu gancho perto de mais da garganta dele.

Meu Deus!

Eles nos traíram!

Mas eles pareciam estar sendo sinceros!

Eles disseram que...

Eles iam... iam cumprir o nosso acordo.

Eu não acredito nisso.

-Se vocês dispararem os canhões ou tentarem alguma gracinha, o conselheiro de vocês morre! - o capitão gritou.

Conselheiro? Ele não sabia que Carlos era o mestre do país vizinho? Não importa.

Aquele gancho me deixa nervosa e... por quê não fui feita de refém?

Não sei.

Vejo uma espada dando sopa ali perto e a pego, é estranhamente pesada em minhas mãos, mas eu amei a sensação de usar uma espada novamente. Espera... novamente?

Eu andei discretamente até o capitão, o lugar está um caos e os piratas estão se preparando para a luta, então é fácil passar despercebida.

-Se vocês soltarem os reféns... - quando a resposta à ameaça do capitão estava sendo proferida, eu afastei um pouco meus pés e ergui a espada na altura do meu rosto, vi o fio brilhar com o sol.

Rapidamente eu usei minha mãos direita para fazer um movimento que lembra uma meia lua, ao mesmo tempo em que virava o tronco para ter um bom equilíbrio já que foi rápido de mais, e eu não estou acostumada a fazer movimentos complexos com uma espada que não foi feita para mim. Agora minha espada estava ameaçadoramente perto do pescoço do Capitão.

Todos pareciam paralisados, até mesmo os que estavam nos navios que se aproximavam haviam perdido o foco e só me encaravam. Eu acho que isso foi rápido... certo? Eu senti que tudo foi em câmera lenta, mas sei que não foi, até por que isso é impossível. Como eu consegui fazer isso? Não faço ideia.

Um tufo do cabelo cumprido do Capitão caiu no chão, deixando os piratas em pânico, mas eles não se aproximaram se mim. É possível que essa espada seja tão afiada? Quase tremi. Quase.

-Vocês aí no porto! - gritei o mais firme que podia, uau, que acústica incrível, eu senti como se minha voz realmente os tivesse alcançado... espero que tenha mesmo. - Eu estou do lado de vocês, mas esses caras nos acolheram e por isso, vou dar a vida deles como despojo. Se alguém tiver algo contra, que venham conversar com seus punhos e então eu garanto que não serei mais aliada de vocês e o que acontecer com o mes... com o conselheiro, não será mais culpa minha ou dos piratas, será culpa de vocês!

Silêncio.

Não sei porquê não chamei Carlos pelo seu título, mas meu sexto sentido me diz que eu deveria estar na do Capitão. Se ele realmente quisesse dinheiro ou coisa do tipo, seria mais viável ter me feito de refém, fazendo isso com Carlos a única coisa que ele conseguiria é uma guerra. Sem contar que Carlos provavelmente conseguiria sair dali.

O que me assusta é que quando empunhei a espada, eu estava disposta a matar cada um dos piratas por Carlos e foi no momento em que ela estava indo em direção ao pescoço do Capitão que eu raciocinei direito que essa cena está toda errada.

-Aquela técnica... - eu ouvi alguém sussurrar. O quê?

Os navios da marinha pararam de avançar e depois disso foi muito fácil "negociar" a liberdade minha e de Carlos em troca de deixar os piratas irem sem serem atacados. Logo nós dois estávamos em um barco pequeno, esperando o barco de resgate da marinha vim nos buscar. O Capitão já havia partido e acho que o vi acenar para mim. Mas foi impressão, acho.

Carlos está me encarando desde que fomos largados aqui, meia hora atrás, mas mesmo que eu fale com ele parece que está completamente fora de órbita, ele sequer me ouve.

 

_____________💕_____________💕_____________

 

Eu não fui ameaçada pela Marinha nem nada, pelo contrário, fui tratada como uma heroína ou algo do tipo. Devem ter sido ordens do Rui, porque apesar de não terem me prendido, vejo que quando acham que não estou vendo, eles estão bem hostis.

Eu fui levada para a casa de Rui e enquanto Carlos foi levado para encontrar\-lo, eu fui escoltada para um quarto de hóspedes diferente do quarto Amélia e bem inferior em beleza também. Foi me dada roupas limpas mas Número 1 e Ana não parecem terem sido chamadas, por isso tomei banho e me troquei sozinha.

 

Nunca pensei que ficaria feliz por poder tomar banho sozinha.

As roupas não foram nada normais, foi me dada uma calça (!) preta feita de um tecido que acredito ser rip stop, uma camiseta regata da mesma cor, camisa social e botas militares. Calma, se eu olhar bem, isso é uma farda militar... talvez. Não tenho certeza, mas parece algo que os homens usam... tipo, era esse tipo de uniforme que o cara que me chutou aquela vez usava. Ele tinha três estrelas presas no bolso, mas não sei exatamente o que isso significa nesse mundo.

 

Aliás, eu não tenho nenhuma. O quê está acontecendo? Acho que posso adivinhar mais ou menos. Eu vou ganhar uma medalha?

Se sim, como vão fazer isso? Vão dizer algo tipo: "Em honra a sua bravura, a mulher de estimação do mestre Rui recebe uma medalha" ? Seria cômico.

 

Aliás, Rui me pediu (no dia em que fomos à capital) para esquecer isso de ele dizer que eu ia ser domesticada, mas é meio difícil. Não estou chateada, porque ele não me tratou mal, mas ainda acho bom lembrar a mim mesma que para ele, eu sou só de estimação, apesar de agora ele parecer querer me tratar normalmente.

O que Carlos disse me vem a cabeça de novo. Rui realmente iria querer se casar com uma Viajante? Eu não consegui mais informações sobre, mas parece que os Viajantes são bem vistos apenas no país vizinho, aqui eles são mais como a escória, algo pior que os selvagens. Tanto que poucas pessoas sabem da existência de Carlos e elas acham que ele é um Viajante, mas só o respeitam por causa do título de "amigo" de Rui.

Se parar para pensar, Rui trata a Número 1 e a Ana muito bem, apesar de estarem "me servindo" elas devem ter a confiança dele, já que sabem sobre Carlos. Ah... eu acho que sou a única que sabe quem ele é de verdade (as duas ainda acham que ele é só um viajante), mas deve ter sido alguma coincidência eles terem me contado. Ou confiam em mim.

As duas ideias são engraçadas.

-O mestre está pronto para receber você.- um homem desconhecido apareceu e disse abrindo a porta.

Eu já estou pronta e resolvi deixar o cabelo solto, porque nesse lugar não tem um laço descente que não me faça parecer num desfile de pessoas bizarras, e o que usei no navio escorregou do meu cabelo no caminho para cá e se perdeu.

Segui o homem por corredores e mais corredores, alguns ficaram bem familiares e de repente me vi novamente em frente a sala que achava só ser utilizada para audiências.

 

 

O homem abriu as portas. O salão estava cheio de pessoas com cara de nobres e todos estavam sentados em assentos alinhados dos lados da sala, apenas Rui está em uma plataforma elevada onde está seu "trono".

 

Hoje Rui está sentado em uma postura elegante e tão autoritária que até eu senti a opressão do seu "poder". Ele estava vestido de modo elegante, os cabelos negros compridos até a altura da cintura presos para trás o davam um ar mais maduro do que quando estavam soltos. Nunca tinha me importado muito com o fato de serem cumpridos ou cosa do tipo, mas agora que penso nisso, tenho um pouco de inveja do cabelo dele... bom, eu quero acariciar eles novamente, mas me sinto desencoraja até de pensar nisso o vendo desse jeito tão sério.

 

Ele olhou friamente para o homem que me trouxe e o dispensou com um aceno de mão, depois me olhou. Eu me endireitei e coloquei as mãos para trás, parecia a melhor postura no momento. Sentia medo de receber o mesmo olhar, mas eu percebi que discretamente seu olhar se tornou mais suave.

-Então vamos ver... pode se apresentar, por favor. - ele pediu olhando para os nobres demoradamente. - Muitos aqui ainda não te conhecem, mas não se preocupe com impressões e faça isso de maneira breve.

Eu acho que todo mundo pode escutar as batidas descontroladas do meu coração, eu estou tão nervosa que tenho que fazer um enorme esforço para falar. O que eu devo dizer?

-Sim, mes... - ele ergueu uma sobrancelha. Ah, certo, eu prometi que ia parar de chamar ele de "mestre" se fosse alimentada, lá no passeio pela capital, na hora pareceu uma troca justa mas agora eu temo que tenha sido besteira. Ele quer que eu o chame pelo nome na frente de todos aqueles nobres? - Sim, Rui.

Eu sabia. Fecho os olhos, esperando os nobres se acalmarem. Como previ, eles estão comentando o fato indignados. Abri os olhos para encontrar a cena de Rui erguendo a mão para pedir silêncio, surpreendendo a todos com um sorriso tão lindo que quase esqueci que não me apresentei. Ele gosta tanto de ser chamado pelo nome a ponto de sorrir daquele jeito?

Sabe aquelas cenas onde o personagem começa a ficar com o rosto vermelho e de repente "sobrecarrega" e fica atordoada? Ou quando um personagem sofre um golpe crítico? Então, sou eu diante daquele sorriso. Nem sei porque me sinto assim mas é melhor não pensar muito nisso.

-Boa tarde, a todos. - eu me curvei um pouco, é uma mania minha que adquiri depois de assistir muitos animes.- Eu me chamo Luna e... bom, é isso.

Eu quase falei minha idade e formação mas me dei conta de que isso só deixaria evidente que eu não sou daqui e talvez causasse mais alvoroço.

-A Lua é, à partir de hoje, minha segunda conselheira e também a pessoa da qual os militares irão receber ordens diretas. O que ela disser, vai ser cumprido a menos que eu diga não. - ele parecia alheio a incredulidade de todos, olhando só para mim, ele deu outro sorriso, mas um bem diferente do anterior, esse foi mais presunçoso. - E eu nunca digo não para ela.

 

 

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Comments

Coffee Islainer

Coffee Islainer

gente que casal e esse?

2020-09-24

3

Lorena Ribeiro

Lorena Ribeiro

"eu nunca digo não a ela"
EU TO TENDO UM ATAQUE COM ESSE CARAAA. PERFEITOOOOO ESSE CASAL. CASEM MSM

2020-02-24

10

Kethelyn Maforte

Kethelyn Maforte

comecei a ler agora, estou apaixonada pela história, ao consigo parar de ler, meus parabéns, você é incrível, simplesmente uma das minhas melhores leituras ❤

2020-02-02

4

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