Esclarecimentos Sobre Quem Sou

 Uma semana inteira se passou, mas ainda não me acostumei com estar de volta.

 Meus tios continuam os mesmos, uma cachorra feia da minha tia também... eu acabei tendo que ir para a auto-escola, mas mesmo com essa "nova" rotina, eu ainda me sinto deslocada.

Esse lugar é tão comum, sei lá.

 Não que seja bonito esbarrar em servos em cada canto ou ver Rui surtar, mas ainda sinto que tudo lá tem ou seu próprio encanto.

As mulheres podem não ter muita voz, mas o segundo número 1, elas são bem remuneradas e às vezes ganham até mais que os homens, dependendo de onde trabalham. Parece que isso foi implementado durante o governo do mestre antigo que era, provavelmente, o pai de Rui mas não tive a oportunidade de perguntar.

  Caminhei pela rua de casa e quando estava perto do portão, observei algo estranho. Um carro estava parado em frente ao portão... bem, ninguém nunca vem aqui. É estranho termos visitas.

 Entrei em casa e, de repente, senti como se estivesse caindo. Sabe aquela sensação estranha que faz o mundo girar? Então. 

 A cena estava toda errada. Meus tios estavam sorrindo, os biscoitos estavam na mesinha do centro e cachorro feio não estava a vista. O mais estranho era ver Rui sentado no sofá, sorrindo para os meus tios como se fosse a coisa mais natural do mundo.

 -Ah, Luna, você chegou um pouco atrasada hoje!c- minha tia falou me abraçando alegremente.

 Okay, eu realmente estava atrasada, mas normalmente eu estaria sendo repreendida por isso, não ganhando um abraço. 

 Rui me olha demoradamente e eu faço o mesmo, observando seu rosto tão perfeito, seus olhos escuros e cabelos longos que me fazem querer passar meus dedos por eles. Se for uma ilusão, quero memorizar todos os seus detalhes, porque quero poder fingir que foi real depois. 

 -Eu estava te esperando. - ele se levantou e veio até mim, me dando um abraço. Esse cheiro é tão familiar e único, agora tenho certeza de que não é uma alucinação.

 -Como você chegou até aqui?! - perguntei sem conseguir evitar abraçá-lo de volta. Vamos fingir que estou séria e que esse abraço não é tudo que eu mais quero no mundo.

 -Bom, tinha um dragão, uns elfos e... - ele parou quando eu ri, podia sentir sua respiração quente no meu ouvido. - Eduardo deu um jeito. Depois de tentar encontrar um portal que não existe, resolvi o libertar em troca de ajuda para vim para cá.

 - Entendi ... - eu me afastei e percebi que meus tios nos deixaram sozinhos.- Você deveria estar cuidando do país e ...

 Ele colocou um dedo nos meus lábios para eu ficar em silêncio.

 -Preciso te contar algumas coisas. - eu ia recusar mas ele me puxou para fora de casa. - Se eu não disser agora, posso acabar mudando de ideia.

_____________💕_____________💕_____________

 Nós estamos em uma praça não muito longe de casa. Quem nos trouxe foi Carlos (eu nunca imaginei que ele estava esperando no carro, mesmo sendo óbvio que Rui não pode dirigir) mas agora estamos sozinhos. E eu estou chocada, passada, bege e todos os sinônimos que consigam imaginar.

 Vou enumerar as informações que acabei de receber:

 1 - Eu não sou desse mundo, sou um lugar chamado Maram. Esse tal Maram é bem parecido com o meu mundo (ou que eu achava que era meu), mas a tecnologia é tão mais a frente que muitas coisas ainda estão sendo mantidas em segredo para serem mostradas quando as pessoas conseguirem lidar, a viagem entre dimensões é um dessas coisas.

 2 - Meu nome é Lua Maram, eu sou filha dos governantes do país que leva meu sobrenome, irmã gêmea de Carlos e a próxima governante.

3 - Minha família e a de Rui eram amigas, quando eu tinha cerca de seis anos, seus pais foram assassinados por nobres e os dois povos se separavam (a mistura cultural e a pouca "tecnologia" que eles têm no país de Rui é devido a essa época em que eles mantinham uma boa relação com Maram, mas eu e Carlos continuamos nossa "amizade" com o Rui mirim, às vezes sendo mandados secretamente pelos nossos pais para visitá-lo. Eles querem restaurar uma paz entre os países futuramente, para isso nos mandavam como uma "garantia" de confiança. Ninguém manda os filhos desprotegidos para o país inimigo e atacam o país depois. Se Rui ficasse com nós lá, seria o mesmo de ter reféns.Era uma prova de lealdade que ele precisava, visto que era pequeno e não podia confiar nem nos nobres do próprio país.

  4 - Quando eu tinha 8 anos fui prometido em casamento à Rui como mais uma prova de confiança e lealdade, sendo esposa dele e goverte de Maram, não havia como atacarmos um ao outro e, aparentemente, tínhamos uma boa relação apesar de para uma idade que não pode ser considerada uma relação romântica.

 5 - Nessa mesma época as pessoas que mataram os pais de Rui armaram para me matar, visto que apenas eu estava visitando Rui e eles descobriram sobre quem eu era, os casamento e em que ele implicaria. Nós fomos separados e ele me viu sumir diante dos seus próprios olhos. Depois de surtar e mandar executar alguns nobres, os que restaram queriam a cabeça dele mas ele não se importou e viajou sozinho para Maram, onde queria ser morto por falhar em me proteger. Minha mãe disse que duvidava que eu estava morta (talvez ela já soubesse sobre a viagem no tempo) e que ele poderia conviver com um erro e se tornar forte para me trazer de volta. Ele ficou por oito anos em Maram, aprendendo artes marciais e também a usar armas de fogo (ainda assim prefere usar espadas, nunca deixou de treinar sua técnica enquanto estava fora).

 6 - Eduardo foi contratado por uma organização secreta cujo os integrantes são, na sua maior parte, nativos de Maram e tinham como objetivo me proteger. Rui disse que não me contaria algumas coisas para não me sobrecarregar.

 Fala sério. 

 Depois disso tudo, ainda tem mais? 

 Eu não duvido que Maram seja real, nem que o país de Rui seja em outro mundo. Mas se eu realmente sou a herdeira de alguma coisa, eles não deveriam vim por mim antes desses dez anos? Se meus pais se importam não me protegeriam melhor, mantemos contato ou sei lá?  

 Oh sim, e essa organização? Eles me protegeram me fazendo ser adotada por uma família que só é tão boa nas aparências mas que me agrediu física e mentalmente? Não tem nenhum sentido. 

 O maior furo de todos é: Por que eu não me lembro de nada? 

 -Isso é meio complicado ... - ele respondeu quando fiz essa última pergunta, as outras eu mantive para mim mesma.- Eu perguntei a Eduardo e ele tem uma teoria.

 -Qual? - pergunteu curiosa, se ele responder de um jeito satisfatório, vou tentar acreditar no resto.

 -Quando uma pessoa viaja pela primeira vez, ocorre alguns lapsos de memória.- ele explicou, estamos sentados na grama, debaixo da sombra de uma árvore e à nossa frente há um lago muito bonito, apesar disso não fazer muita diferença agora.- Segundo a teoria dele, quando você chegou aqui e acordou em um orfanato, você lembrou um pouco de tudo mas não quis aceitar essa realidade e usou o lapso causado pela viagem como gancho para trancar suas memórias por um longo tempo. Quando você apareceu em Nyur, achamos melhor não dizer e nem mostrar coisas que pudessem te fazer lembrar de tudo rápido demais.

 Faz um pouco de sentido. Minha mente não quer aceitar mas sinto que meu coração já sabe disso por muito tempo.

 -Por que Eduardo me tratava mal, então?Segundo sua história, ele foi "recrutado" pela organização dois anos depois de eu ser adotada.- indaguei, essa era uma pergunta fora de hora, mas já que ele está disposto a falar...

 -Creio que não se apegar a você.- ele deu de ombros.

 -Como assim? 

 -Você tem uma coisa diferente, é uma aura que faz as pessoas querem estar com você e te protegerem, mesmo que você seja forte.- ele me olhou nos olhos, olhei de volta sem piscar.- Quando ele começou a te proteger e descobriu quem você era, provavelmente teve medo de não conseguir deixá-la depois, assim como eu não consegui fazer isso dessa vez.

 Os olhos dele estavam tão sinceros, senti como se ele me deixasse ver tudo o que ele sabe sem reservas, que ele confiava em mim tanto quanto a ponto de contar tudo isso. Ele piscou e tocou minha mão, um pouco hesitante.

 -Quando você soube que era eu? - perguntei me mantendo firme quando ele aproximou seu rosto do meu.

 - Quando você apareceu na cela, senti algo estranho, mas com certeza só descobri quem você era quando você apareceu no meio da audiência.- seus lábios tocaram suavemente o meu pescoço, sentir todos os pelos do meu corpo se arrepiarem.- Isso é por ter fugido de mim depois do nosso beijo ...

 Ele sussurrou com a voz rouca no meu ouvido. Tentei me afastar antes de perder a razão mas ele me surpreendeu ao me fazer deitar na grama, ficando por cima de mim, sorrindo de um jeito travesso e encarando meu rosto ... como ele pode ser tão lindo?

 Ele aproximou seus lábios dos meus e falou algo que não consegui decifrar, já que ao ser puxado (por mim, claro) pela nuca eu o interrompi selando nossos lábios. Diferente do nosso primeiro beijo, esse é o cheio da saudade e talvez uma pitada de desespero.

 Eu não quero acreditar nessa história maluca, não quero ser algo parecido com uma rainha e muito menos pensar nos meus pais. O que eu sei é que quero fazer tudo que puder para estar ao lado de Rui. Eu quero vê-lo acordar todas as manhãs, como a primeira vez que dormimos na mesma cama, quero o ver sorrir com essa boca linda, me olhar com esses olhos intensos e ouvir sua voz falando meu nome o tempo todo. 

 -Você roubou um beijo meu pela segunda vez, espero que se faça responsável!- ele falou sorrindo, quando paramos o beijo.

 -Como faria isso?- perguntei sorrindo de volta, tenho certeza de que estou com o rosto todo vermelho. Mas quem se importa podendo ver esse sorriso lindo tão de perto?

 -Você vai cumprir sua promessa de não sair do meu lado. - ele piscou, saindo de cima de mim e me ajudando a levantar.- Se você disser que sim, nunca mais colocará um pé na casa daquelas pessoas.

 Opa ... ele parece irritado, o que foi que falaram para ele? Tenho medo de perguntar o que poderia estar registrado nos relatórios que ele talvez tenha recebido no mundo dele.

 -Eu... não sei se é a melhor escolha.- ele se surpreendeu com a minha resposta.- Se tudo o que você me disse for verdade, pode ser que me usem para atingir você denovo.

 Agora que penso nisso, aquele sonho pode ser mais minhas memórias do que apenas um sonho.

 -Não vai conseguir fazer isso, eu prometo que vou te proteger! - ele sorriu carinhosamente e tirou algumas folhas que ficaram grudadas nos meus cabelos.

 -Eu aceito ... mas com uma condição. - falei vendo-o sorrir mais ainda.- Se você tiver que escolher entre mim e os cidadãos, nunca deve me escolher.

 -Isso é ...

 -Eu não gostaria de viver ao preço de vidas inocentes, eu prefiro morrer do que ver as pessoas morrerem por mim. - interrompi seu protesto.

 -Tudo bem, eu concordo.- ele me deu um selinho rápido.- Isso é por ter fugido de mim e quebrado sua promessa, se fizer isso de novo, cobrarei mais.

-Bobo! - eu me afastei envergonhada e corri para o carro. 

 Pode ser que tudo seja meio insano, que nossa relação esteja indo rápido demais e que eu esteja agindo com o coração acima da razão... mas talvez, eu deva me agarrar ao pedacinho de felicidade que estar ao lado de Rui me proporciona.

 Se um dia eu acordar e ver que foi tudo um sonho e que tudo continua do mesmo jeito que antes de conhecer o idoso suspeito, pelo menos terá sido um sonho bom.

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Comments

Vitória Alves

Vitória Alves

Cara,era eu lendo e me arrepiando todinha.😊😊

2020-05-10

5

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