Gente, sério, sabe aquela expressão "da água pro vinho"? Então, foi essa a mudança de paisagem quando eu saí da cela.
O chão todo de mármore branco tão lindo que dava até dó de pisar, as paredes cheias de quadros de paisagem lindos, alguns eram retratos de pessoas. Às vezes uma ou outra servente passava por nós e saudava Li, enquanto me lançava uns olhares de "que coisa é essa?". Caguei.
Chegamos em uma sala enorme com sofás lindos vermelhos, um piano em um canto e várias outras coisinhas de casa antiga, tinha uma escada maravilhosa, tipo aquelas de filme onde as princesas aparecem.
Bom, eu me senti mais "Frozen", porque a escada era feita de um material que lembrava muito o gelo, o que só me faz descartar a ideia de que viajei no tempo. Eu pensei nisso quando parecia ruim demais para ser uma pegadinha, eu já assisti muitos isekais e uma das coisas que me ocorreu foi a viagem no tempo, mas duvido que no passado exista algo como... isso tudo. Eu posso não ser muito informada mas não acredito que a escada seja feita de algum material que possa ser encontrado no nosso mundo.
De três, uma: Eu viajei para outro mundo, ou eu fui abduzida, ou o velho me deu uma droga muito diferenciada.
Aposto na última.
-Qual quarto devemos preparar? - uma servente perguntou quando chegamos ao topo da escada.
-O quarto Amélia. - Li respondeu, a mulher ficou surpresa mas não disse nada.
-O que é o quarto Amélia? - perguntei curiosa enquanto via pelo menos uma dúzia de serventes indo para o fim do corredor e sumindo por uma porta.
-Como devo lhe chamar? - ele me ignorou! Que lástima, será que é agora que devo lutar? Brincadeira, ainda não quero morrer.
-Meu nome é Luna. - respondi fechando a cara.
Sem educação, grosso, mesquinho...
-Srta. Luna, o quarto Amélia é o melhor quarto depois do quarto do mestre. - Ele interrompeu meus xingos mentais com a resposta... bom, retiro o que disse sobre você, Li. - E também é um quarto conjugado com o dele.
-Oi? - perguntei chocada.
O que esse cara está pensando?
-Não se preocupe, o mestre não é tão maldoso a ponto de usar isso para invadir seu espaço. - ele falou notando meu transtorno.
-Ah... okay, eu acho. - respondi enquanto espiava dentro do quarto, Li havia acabado de abrir a porta e todas as serventes saíram antes que entrássemos.
WOW!
Que quarto, meu Deus! Alguém me belisca... pera, não precisa não.
Bom, não vou dar detalhes, só imagina o quarto de filme de princesa mais maravilhoso que você já viu, multiplica por dez e ainda não chega aos pés.
-Eu não quero ser rude mas a senhorita não deve ter muitas expectativas, talvez logo o mestre canse dessa ideia e te libere pra voltar para sua casa. - Li aconselhou, duas garotinhas aparentando uns quatorze anos apareceram e se curvaram diante de nós.
Bom, para onde eu vou voltar? Nem sei como cheguei, pra começo de conversa.
As garotinhas aparentemente vão ajudar eu a me vestir e coisas do tipo, algo como minhas serventes pessoais? Afinal, porque estou sendo tratada bem? Perguntei isso ao Li e ele só me disse que torce para que eu tenha alguma habilidade.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, as meninas me levaram para o banheiro (evidência número 2 de que eu não viajei no tempo: existem banheiras muito, mas muito modernas... tipo, não vi ninguém subindo com baldes de água e ela estava até quente... Será que eles têm eletricidade aqui?). As garotas não disseram nada enquanto me despiram e me esfregaram sem cerimônias, mesmo quando eu protestei.
Acho que acabei de perder minha dignidade, desde meus 4 anos ninguém dá banho em mim!
As garotas me enfiaram em um espartilho ridiculamente apertado e uma calçola... porque essa parte não pode ser diferente da antiguidade normal também?! Elas me puxaram para fora do banheiro e o velho ainda está lá, analisando um vestido simples branco e azul claro.
Ele se virou para mim e pediu para as meninas me vestirem. Se as pessoas não usassem coisa pior no meu século, eu sentiria vergonha de ser vista só de espartilho e... bem, minha dignidade foi tirada pelas garotas de quatorze anos.
-Muito bom, agora fiquem aqui com ela até o mestre terminar as audiências, eu vou cuidar do garoto... - ele fez uma cara de espanto ao ver eu vestir meus coturnos. -... o que você está fazendo? Eu ia queimar essas coisas imundas!
-Vocês podem tirar meus Direitos Humanos, minha dignidade e o que quiserem, menos meus coturnos! - respondi. Meu Deus, como é difícil se curvar quando algo está te esmagando.
-Eu não tenho tempo para te contrariar. - ele fez um sinal para minhas outras coisas serem levadas e saiu do quarto, eu corri atrás dele.
-Ei, o que aconteceu com o Kim? - perguntei curiosa, não o via desde que saímos da cela.
-Logo ele vai estar pronto para ficar ao seu lado, por enquanto se contente com as duas. - ele saiu andando sem me dar uma resposta satisfatória.
Lembra aqueles xingos? Os recoloco!
As meninas me olham um pouco curiosas. Será que elas sabem o que está acontecendo? Eu pergunto, não custa nada tentar.
-Bom... acho que ele vai ser castrado. - uma delas respondeu e a outra lhe deu uma cotovelada. - Ai! Ela quem perguntou!
O que? Um garoto de doze anos vai ser "castrado" por minha causa? Não é atoa que ele não estava feliz!
-Onde está aquele babaca?! - perguntei sentindo que a qualquer hora podia virar super sayajin.
-Quem? - perguntou a garota que me respondeu da primeira vez.
-O tal do Rui! - elas ficaram pálidas com a minha resposta e a garota que havia repreendido a outra correu até a porta para checar se tinha alguém, ela voltou meio aliviada.
-A senhorita não deveria chamar o mestre assim! - a primeira falou assustada.- Ninguém sequer se atreve a dizer o nome dele, apenas o Sr. Li.
-Eu ouvi que uma vez uma mulher da nobreza disse que ele era mesquinho e... - a segunda parecia mais assustada ainda. - Ela nunca mais foi vista!
-Oh, sério? - perguntei só um pouquinho preocupada.
Eu mordi ele e nada aconteceu, xingar ele não deve ser pior, certo?
-Respondendo sua pergunta, o mestre está na sala de audiências, ele está fazendo justiça. - a primeira disse corando. - O mestre é tão incrível!
-Eu quero que vocês me levem até lá. - pedi já saindo do quarto.
-Ei! Você não pode sair! - a segunda falou (vou chamar elas de número um e número dois).
-Quem disse? Li disse que eu deveria esperar mas não disse que eu não posso ir até ele. - sorri tentando as convencer. - Juro que se for castigada, digo que obriguei vocês!
...----------------...
No fim elas concordaram e logo estávamos na porta enorme do lugar onde provavelmente estavam ocorrendo as tais audiências.
Gente, e se eu o interromper e minha cabeça rolar? Bom, pelo menos Kim vai estar a salvo já que não vou mais precisar que ele me acompanhe.
Abri as portas e encontrei Rui sentado em algo parecido um trono... para falar a verdade, ele estava largado mesmo, ele tinha apoiado um dos pés no trono e estava com o queixo apoiado na mão enquanto encarava dois homens que brigavam a sua frente.
Quando me viu, Rui sem querer deixou o queixo escorregar da mão e levantou tentando disfarçar a surpresa. Bom, se você pegar uma mendiga e dar roupas chiques a ela, com certeza vai ser surpreendente.
-Quem é você?! - ele perguntou incrédulo.
Era o que eu podia ter dito, mas ao em vez disso eu só sorri olhando para o dedo enfaixado dele, que escondeu as mãos rapidamente.
-O que você está fazendo aí? - ele perguntou sem parecer bravo. - Feche a porta e venha até aqui.
-Bom, eu queria conversar com você sobre um assunto, mas creio que está meio ocupado e seria desrespeitoso tratar desse assunto em frente outras pessoas. - falei com o pouco do bom senso que me restava, eu definitivamente não posso morrer ainda. One Piece nem acabou, eu preciso ver o final.
-Ah... se é assim. - ele fez um sinal para um dos empregados e pediu algo que não pude ouvir, alguns segundos depois algo bem parecido com um trono foi levado e deixado bem ao lado do dele. Ele me olhou impaciente. - O que você está fazendo aí? Vem sentar, assim que acabarmos com isso eu vou te ouvir.
Eu caminhei decidida até lá e me larguei de um jeito que pudesse respirar mesmo com essa coisa me apertando. Segundo a Número 1, ainda ia demorar um pouco para Kim ser castrado, antes os antecedentes dele iam ser analisados e tals, então eu podia esperar um pouco.
Os homens explicaram a situação novamente, aparentemente um deles havia roubado a única vaca do outro, mas o acusado diz que aquela vaca sempre foi dele. Parece que ela sequer dá leite, é só uma vaca gorda por quem o dono sente companheirismo, é tipo aquelas pessoas que compram um porco, engordam ele e depois ficam com dó de matar pra comer.
-O que me diz? Aliás, ainda não sei seu nome. - Rui me olhou, agora ele estava sentado em uma postura bem mais séria.- Você tem um?
-Tenho, óbvio! - falei com mau humor, qual o problema desse cara? - É Luna.
-Ah, Lua, que nome bonito. - ele respondeu parecendo alegre. SURDO! Não vou corrigir, me sinto tão cansada, desde que acordei muita coisa aconteceu. - Então, o que você acha desse caso?
-Acho bem clichê. Tipo Rei Salomão. - respondi dando de ombros.
-Quem é esse rei? Seu namorado?! - ele me olhou com cara de poucos amigos. Pela milésima vez: qual o problema dele? - Eu não sei quem ele é, mas sei que sou melhor que ele.
Ai meu Deus, como assim ele não conhece a história de Salomão? É tipo, impossível que isso aconteça.
Um dos homens mais sábios do mundo e sua solução para as duas mulheres que brigavam por um bebê. As duas tiveram filhos ao mesmo tempo, mas uma delas sem querer acabou matando o próprio filho, assim ela trocou os bebês enquanto a outra dormia. A mãe que teve o bebê trocado sem saber afirmou que o bebê vivo era dela, mas a outra mulher insistiu que não. Para decidir quem era a mãe verdadeira do bebê vivo, ele disse que ia dividir a criança ao meio e dar uma parte a cada uma, nisso uma delas concordou com a decisão enquanto a outra implorou para que ele não fizesse isso e entregasse o bebê a outra, provando que ela o amava e preferia deixar seu filho com outra mulher do que ver ele ser morto e também comprovando que era a verdadeira mãe.
Eu brevemente contei isso a Rui, não queria ficar enrolando e acabar ficando mais cansada ainda. Ah, eu fiz isso em voz baixa para ninguém além dele ouvir e ele parecia extasiado com a história.
-Bom, vamos fazer isso! - ele falou olhando para os homens. Ei, há uma grande diferença entre vacas e bebês!
...----------------...
Isso foi ridículo, não acredito que funcionou.
Acho que minha mente vai explodir.
Enfim, o homem que estava dizendo que a vaca foi roubada é o dono da vaca, o outro foi castigado com 100 golpes por roubo, por mentir para as autoridades e por fazer Rui perder seu precioso tempo com essa audiência.
Alguém por favor me tira daqui!
Rui começou a caminhar para fora do salão e me lançou um olhar por cima do ombro, como quem pergunta o porquê não estou o seguindo. Bom, eu preciso mesmo falar com ele, então o segui até o corredor dos quartos novamente. Não tem lugar melhor não?
Entramos no quarto ao lado do meu e ele é mundos mais maravilhoso. Há quadros em quase todo canto em molduras folheadas a ouro, em um canto havia diversos materiais para pintura e a cama dele poderiam seis pessoas dormirem, de tão enorme. A minha também é grande mas a dele é pelo menos duas vezes maior.
-O que você quer me dizer? - ele perguntou me fazendo parar de admirar o quarto e olha-lo... ops, opção errada. Ele está tirando a camisa, melhor não olhar muito... foquei minha atenção em um quadro qualquer.
-Sobre castrar aquele garoto... o Kim, não acho que seja necessário.
-... - o silêncio dele me deixou curiosa, por isso cautelosamente olhei para ele e o vi me dirigindo um olhar assustadoramente possessivo. Gente, o que está acontecendo? - Por que você diz isso? Está interessada nele?
Eu recuei alguns passos. Nunca em toda a minha vida eu vi alguém tão sério, mesmo quando ouço falar sobre "sede de sangue" em alguns animes ou filmes, nunca pensei que fosse algo que eu sentiria vindo de alguém.
Eu tento responder mas minha língua está pesada como chumbo, não consigo nem mesmo respirar direito. Ele parece perceber isso e de repente sua expressão se torna mais suave. Okay, isso foi muito assustador.
-Por favor, me responda. - ele se aproximou de mim, tão rápido que não consegui fugir, colocou uma mão na minha cintura para impedir que eu me afastasse e com a outra ergueu meu queixo para me obrigar a o encarar. - Se você não disser, posso acabar julgando errado.
-E-eu... só não quero que ele sofra por minha causa. Não tem lógica fazer algo assim com ele só para que possa me seguir. - me obriguei a responder.
Minha voz saiu baixa e tremendo... mas fala sério, lembra o pé do cara lá? Não quero ser a próxima.
-Se não castramos eles, há um risco de que façam algo errado para as damas que servem. - ele apertou um pouco a mão na minha cintura, talvez para poder controlar a raiva. - Você quer correr o risco por ele? Ou vai me dizer que planeja...
-De onde eu venho, é crime uma pessoa da minha idade se envolver com uma criança. Podemos não estar lá mas meus valores não mudam. - eu tentei me afastar e ele não me impediu, por isso fui até a porta conjugada. - E não acho que aquele garoto seja maldoso o bastante para tentar algo.
Minha mão tremia quando a levei até a maçaneta, a girei e passei pela porta rapidamente.
-Com licença. - pedi fechando a porta, me encostei nela e deixei meu corpo escorregar até estar sentada no chão, abraçando minhas pernas... como dói fazer isso estando com espartilho.
Quando foi que aceitei isso de esse quarto ser meu? O que é que eu estou fazendo? Só porque isso parece um Isekai não significa que eu tenha que ser idiota e aceitar tudo, certo? Talvez eu devesse simplesmente fugir... mas pra onde?
Senti as lágrimas molharem minhas bochechas. Pela primeira vez eu estou de verdade vendo isso como real e não uma alucinação causada pelas drogas do idoso suspeito.
Eu nunca pensei que fosse dizer isso mas... estou com saudades de casa.
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Atualizado até capítulo 46
Comments
Amanda Aureliano Camargo
Confesso que já pensei que não podia morre antes de one peice acabar
2020-02-03
8
Sarah Nunes
só uma pergunta, aqui não vou ter que ver comerciais pra poder ler essa história fodastica.
2020-01-09
14