Os 4 Escolhidos
O som do vento assobiava entre as casas de madeira desgastadas, trazendo consigo um cheiro de terra molhada e um frio incômodo. A primeira coisa que Ismael sentiu ao abrir os olhos foi a sensação estranha do solo duro e gelado sob seu corpo. O céu estava cinzento, pesado, como se uma tempestade estivesse prestes a cair.
Ele se sentou lentamente, a mente confusa. Onde estou?
Olhou ao redor. A vila parecia antiga, as ruas de terra eram estreitas, e as casas, pequenas e mal cuidadas. Algumas portas estavam entreabertas, e poucas pessoas caminhavam, mas nenhuma parecia perceber sua presença.
Seu coração acelerou. Como vim parar aqui?
Tentou se lembrar de algo, qualquer coisa. Seu nome veio fácil: Ismael. Ele sabia que tinha 24 anos e que não era uma pessoa sociável. Também lembrava que gostava de silêncio e que era péssimo para conversar. Mas qualquer outra coisa... um buraco negro. De onde eu vim? O que eu fazia antes disso? Nada.
Ele não estava sozinho.
Ali, na mesma rua de terra, quatro pessoas estavam despertando da mesma forma.
Lívia, uma jovem loira de corpo escultural, olhava ao redor com confusão e desconfiança. Sua expressão era um misto de medo e irritação, como se estivesse acostumada a ter o controle e agora tudo estivesse fora do lugar.
Paulo, um cara alto e atlético, passava as mãos pelos cabelos bagunçados, tentando processar a situação. Seu corpo parecia preparado para a ação, como se estivesse sempre pronto para correr ou lutar.
Jéssica, uma mulher alta, magra e de óculos, olhava fixamente para o chão, tentando organizar seus pensamentos. Seu rosto demonstrava inteligência, mas também nervosismo.
E então havia Jaime, um homem mais velho, perto dos 35 anos. Ele era o único que não parecia assustado. Pelo contrário, ele se levantou devagar, coçou a barba desgrenhada e riu sozinho, como se tivesse entendido algo que os outros ainda não tinham percebido.
— Pelo visto, não sou só eu. — murmurou Jaime, cruzando os braços.
Ismael estreitou os olhos para ele.
— O que quer dizer com isso?
Jaime deu um passo à frente e apontou para as casas. As poucas pessoas que andavam pela vila agora pareciam notá-los. Homens e mulheres com expressões calmas e acolhedoras, mas... algo estava errado. Seus olhos estavam errados. Havia um brilho estranho neles, como se soubessem de algo que os recém-chegados não sabiam.
— Eles estão agindo como se conhecessem a gente. — disse Jéssica, em um tom baixo.
— E se a gente já morou aqui? — sugeriu Paulo, tentando racionalizar.
Lívia balançou a cabeça, irritada.
— Isso não faz sentido. Eu sou modelo, influencer. Não moraria num lugar desses.
Uma mulher mais velha se aproximou, um sorriso gentil no rosto.
— Vocês estão bem? — perguntou, como se aquilo fosse completamente normal. — Vocês devem estar cansados da viagem... venham, vamos levá-los para casa.
Casa?
O grupo trocou olhares. Nenhum deles fazia ideia do que estava acontecendo, mas uma coisa era certa: eles precisavam descobrir logo... antes que fosse tarde demais.
Os olhos de Ismael se estreitaram para a mulher à sua frente. Ela parecia gentil demais, natural demais, como se realmente acreditasse que eles deveriam estar ali. Mas havia algo no jeito que ela os olhava – como se os conhecesse profundamente.
Ele não gostava disso.
— O que quer dizer com "casa"? — perguntou, a voz firme.
A mulher inclinou a cabeça, como se a pergunta fosse absurda.
— Ora, suas casas. Vocês sempre viveram aqui.
O grupo ficou em silêncio. O vento cortante passou por eles, fazendo um arrepio subir pela espinha de Lívia.
— Isso não faz sentido. Eu nunca estive aqui antes. — disse ela, cruzando os braços.
A mulher sorriu, mas havia algo desconfortável naquele sorriso.
— Oh, querida... Mas é claro que esteve. Todos vocês sempre estiveram.
Jaime riu de forma seca.
— Que belo teatro. Se eu sou daqui, então me diga... o que eu fazia antes?
A mulher piscou algumas vezes, parecendo surpresa com a pergunta. Mas, antes que ela pudesse responder, outra voz surgiu.
— Vocês estão fazendo perguntas erradas.
O grupo virou-se para ver um homem idoso, sentado em uma cadeira de balanço na varanda de uma das casas. Seus olhos eram profundos, carregados de algo que parecia... pena. Não importa o que vocês faziam. O que importa é por que voltaram.
As palavras dele caíram pesadas sobre os cinco.
Voltaram?
Eles nunca estiveram ali. Certo?
Fragmentos do Passado
O choque das palavras do velho despertou algo em cada um deles. Pequenos flashes de memórias desconexas começaram a surgir, como se algo estivesse tentando emergir do fundo de suas mentes.
🔥 Ismael viu um quarto escuro. O cheiro de cigarro no ar. Ele se lembrou de estar sozinho, trancado ali, ouvindo vozes do lado de fora. Pessoas discutindo. Seu pai, talvez? Ou era outra pessoa? Algo dentro dele dizia que ele merecia estar ali. Mas por quê?
🔥 Lívia se viu em um palco, luzes piscando, câmeras ao redor. Sorrisos falsos, vozes elogiando sua beleza. Mas então, algo quebrou o encanto – um telefone tocando, uma mensagem na tela. O rosto dela se contorceu de pânico. Uma mentira descoberta. Um segredo exposto.
🔥 Paulo sentiu o peso do corpo caindo no chão. Uma quadra de esportes. Alguém gritava seu nome, mas ele não conseguia se levantar. A dor era insuportável, mas não tanto quanto a voz na sua cabeça: "Você falhou. Seu sonho acabou."
🔥 Jéssica viu um livro ensanguentado. Estava em uma biblioteca, as mãos tremendo. O som de passos apressados ecoava pelo local. Alguém corria. Alguém fugia. Mas de quem? Ou do quê?
🔥 Jaime... bom, Jaime apenas riu. Porque ele se lembrava. E talvez, só talvez, ele já soubesse a verdade.
Os cinco voltaram ao presente, as memórias se dissolvendo como fumaça. Mas uma sensação ficou: culpa.
Todos carregavam algo dentro de si. Algo que os trouxe para aquela vila.
— Por que voltamos? — murmurou Jéssica, a voz vacilante.
O velho na cadeira de balanço suspirou.
— Porque ninguém pode fugir para sempre.
Silêncio. O peso daquelas palavras era sufocante.
Ismael respirou fundo e olhou para os outros. Ele não confiava naquelas pessoas. Mas, de uma coisa ele tinha certeza: eles precisavam descobrir a verdade.
E, para isso, talvez tivessem que encarar os segredos que tentavam esquecer.
O silêncio entre eles durou alguns instantes. Nenhum queria admitir, mas aquelas palavras do velho pareciam ecoar em suas mentes.
"Por que voltamos?"
Eles seguiram para dentro da casa, ainda relutantes, mas sabiam que precisavam conversar. A sala de estar era simples, com móveis de madeira envelhecidos e uma lareira acesa, como se já esperassem por eles. Cada um se acomodou como pôde.
Jaime se jogou em uma poltrona velha, ainda com a garrafa de bebida em mãos. Ismael ficou encostado na parede, de braços cruzados. Lívia olhava ao redor, desconfiada. Paulo sentou-se no sofá, enquanto Jéssica ajeitou os óculos e começou a andar de um lado para o outro, inquieta.
— Precisamos descobrir se existe alguma conexão entre nós. — disse Jéssica, quebrando o silêncio.
— Eu não conheço nenhum de vocês. — retrucou Ismael, a voz seca.
— Isso é óbvio. — Lívia cruzou os braços. — Mas e se já tivermos nos encontrado antes? Algum lugar, algum evento... qualquer coisa.
— Ou pode ser algo além disso. — disse Paulo, pensativo. — Talvez algo que todos nós tenhamos em comum.
Eles começaram a listar fragmentos de suas memórias. Aos poucos, padrões começaram a surgir.
🔥 Lívia e Ismael
Lívia franziu a testa enquanto encarava Ismael.
— Espera aí... Você estudou na Escola St. Charles?
Ismael estreitou os olhos.
— Sim.
— Merda... — Lívia passou a mão pelos cabelos loiros. — Eu lembro de você. Você era o garoto esquisito da minha turma do ensino médio.
Ismael revirou os olhos, mas permaneceu em silêncio.
— Eu nunca falei com você. Você sempre ficava sozinho... — ela hesitou. — Até aquele dia.
Um frio percorreu a espinha de Ismael. Ele sabia do que ela estava falando. O dia em que algo aconteceu na escola. Algo que ele tentou esquecer.
🔥 Paulo e Jéssica
— Jéssica, seu nome não me é estranho. — disse Paulo, pensativo.
Jéssica parou de andar.
— Você costumava ir à biblioteca universitária, não é? Eu trabalhava lá.
Os olhos de Paulo se arregalaram.
— É isso! Eu ia lá direto. Você sempre me ajudava com livros sobre fisioterapia esportiva.
Jéssica assentiu, mas algo em sua expressão indicava que havia mais. Algo que ela não queria lembrar.
🔥 Jaime... e o horror começa
Jaime se mantinha calado, observando tudo de longe, com a mão tremendo sobre a garrafa.
— E você, Jaime? — perguntou Paulo. — Tem alguma lembrança nossa?
Jaime não respondeu de imediato. Seu olhar estava distante, perdido no fogo da lareira. Mas então, sua respiração começou a acelerar.
— Não... não pode ser. — murmurou, o rosto ficando pálido.
Jéssica franziu a testa.
— O que foi?
Jaime começou a suar, as mãos apertando os braços da poltrona.
— Ele está aqui... — sua voz falhou.
Os outros se entreolharam, confusos.
— Quem? — perguntou Ismael.
Jaime levantou o olhar e apontou para a entrada da sala.
Todos viraram o rosto na mesma direção.
E viram.
Um garoto estava ali. Pequeno, vestindo roupas infantis, os olhos grandes e escuros.
O coração de Jaime quase parou.
— Meu filho... — ele sussurrou, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Mas todos sabiam que aquilo não era possível. Porque o filho de Jaime estava morto.
E, ainda assim, ali estava ele.
Sorrindo.
— Papai... Por que me deixou sozinho?
Jaime começou a ofegar, os olhos arregalados, as mãos tremendo violentamente.
— Não... não... você não pode estar aqui. — a voz dele saiu embargada.
O menino sorriu. Mas não era um sorriso normal.
— Papai... Por que me deixou sozinho?
Os outros se afastaram instintivamente. Lívia cobriu a boca com as mãos. Paulo deu um passo à frente, tentando entender o que estava acontecendo.
— Isso... isso não é real. — murmurou Jéssica.
Jaime, por outro lado, não conseguia desviar o olhar. Lágrimas escorriam por seu rosto sujo. Seu corpo inteiro tremia. Ele tentou se levantar, mas suas pernas fraquejaram, e ele caiu de joelhos no chão.
— Eu não queria... eu não queria perder você... — sua voz era uma mistura de desespero e culpa.
O garoto inclinou a cabeça para o lado, ainda sorrindo.
— Então por que deixou?
Jaime sufocou um soluço. Flashbacks começaram a invadir sua mente.
🔥 FLASHBACK DE JAIME 🔥
Ele estava dirigindo. O rádio tocava uma música qualquer. No banco de trás, seu filho cantava. Uma risada inocente. Ele era tão feliz.
Mas então, um barulho de pneus cantando. Uma curva mal calculada. O som ensurdecedor de metal se retorcendo.
E então... silêncio.
Jaime se viu rastejando pelo asfalto, sangue escorrendo da testa. Seu carro estava tombado na estrada.
Seu filho estava dentro.
Ele tentou abrir a porta, tentou tirá-lo de lá. Mas então, as chamas começaram.
Os gritos do menino... ainda ecoavam.
🔥 DE VOLTA AO PRESENTE 🔥
Jaime agarrou a própria cabeça, desesperado.
— Eu tentei... — ele repetia, a voz falhando. — Eu tentei salvar você...
Mas o menino apenas sorriu, inclinando-se para ele.
— Tarde demais, papai.
🔥 Enquanto isso... 🔥
Na cozinha, Paulo e Jéssica tentavam se recompor. O cômodo era rústico, com móveis de madeira escura e uma lareira apagada. Algumas panelas velhas estavam espalhadas, como se alguém já tivesse vivido ali.
Paulo suspirou, apoiando-se no balcão.
— Isso está piorando.
Jéssica ajeitou os óculos, tentando ignorar os gritos de Jaime na outra sala.
— Isso nunca foi normal. Estamos em um lugar que não faz sentido. Cercados por pessoas que fingem nos conhecer.
— E agora... fantasmas? — Paulo murmurou.
Eles se encararam, sentindo um peso esmagador no peito.
— Acha que estamos mortos? — Jéssica perguntou baixinho.
Paulo hesitou. A ideia não parecia mais tão absurda.
🔥 Enquanto isso... Ismael. 🔥
Ele permanecia encostado na parede, observando tudo. O caos ao redor não o afetava tanto quanto deveria. Na verdade, ele estava mergulhado em outro pensamento.
A conexão entre ele e Lívia.
Ela não lembrava, mas ele sim.
O ensino médio. O baile de formatura.
Todos tinham um par... menos ele.
Ele ficou no canto, sozinho, segurando um copo de ponche aguado. Tentou ignorar os olhares de pena. Até que Lívia e as amigas começaram a rir.
Não foi apenas um riso qualquer. Foi o tipo de riso que destrói uma pessoa por dentro.
E, naquela noite, ele jurou se vingar.
Foi assim que espalhou o boato.
A história de que Lívia e um atleta fizeram algo vergonhoso no banheiro. Uma mentira que arruinou a reputação dela por um tempo.
Agora, anos depois, ela nem suspeitava que fora ele.
Ismael sentiu um frio na espinha. Por que ele e Lívia estavam ali?
Será que isso fazia parte de sua culpa?
Antes que pudesse refletir mais, os gritos de Jaime ficaram mais altos.
E então... o menino desapareceu.
🔥 Final do capítulo 1. 🔥
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 20
Comments
Bela Black
Não sei o porquê, mas me lembrou Tate no Yushan ( acho que escrevi certo)
2025-03-13
1
Syl Gonsalves
Lembrei de um episódio de Supernatural, da primeira temporada, que o Samy e os outros escolhidos são levados para uma cidade fantasma.😍😍
2025-02-12
1
Brennda Germany's
eles estão em seus infernos particular?
2025-03-12
1