Missão final parte 1

O sol mal havia se erguido sobre o horizonte, e todos já estavam reunidos na sala principal. As luzes frias do local não ajudavam a esconder o cansaço estampado em cada rosto.

Jaime coçava o queixo, impaciente, andando de um lado para o outro. Ismael estava sentado em uma cadeira, mexendo no tablet que havia "pegado emprestado" da sala de documentos na noite anterior. Lívia olhava de um para o outro, tentando captar qualquer pista do que estava acontecendo.

— Eu sei que o Paulo tá estranho — começou Jaime, finalmente parando de andar. — Ontem, ele tava normal. Quer dizer, o mais normal possível pra alguém como ele. Mas, hoje... — Jaime apontou com o polegar por cima do ombro. — Ele tá daquele jeito.

Paulo estava do outro lado da sala, encostado na parede, suado, os olhos desfocados. Mas o pior era o sorriso. Um sorriso que parecia estar sendo dirigido para alguém que só ele conseguia ver.

— É, o cara tá fora da casinha. — Ismael murmurou enquanto digitava furiosamente no tablet, tentando abrir arquivos que ainda estavam bloqueados. — Não que eu ache isso uma novidade. Esse lugar é uma droga. Até o ar daqui parece querer te matar.

Lívia franziu o cenho e se levantou, determinada. — Vou falar com ele.

— Boa sorte. — Ismael ironizou, sem tirar os olhos da tela.

Lívia se aproximou de Paulo devagar, tentando não assustá-lo. Mas ele parecia perdido demais para perceber. Quando ela chegou perto o bastante, viu os lábios dele se mexendo, murmurando palavras para o nada.

— Paulo? — chamou com cuidado.

Ele piscou algumas vezes, os olhos focando lentamente em Lívia como se tivesse acabado de acordar de um sonho.

— Ah... Lívia. — A voz dele era arrastada, ainda desconexa.

— Tá tudo bem? — Ela colocou a mão no ombro dele, tentando soar calma. — Você tá meio... estranho hoje.

Paulo riu, mas era uma risada forçada. — Estranho é esse lugar. Tem algo nele que mexe com a nossa cabeça. E eu... Eu acho que tô escutando coisas.

Lívia estreitou os olhos, preocupada. — Escutando coisas?

— Jessica. — Paulo soltou a palavra como se ela queimasse na garganta. — Ela... Ela tá aqui. Eu a vejo... Eu a ouço... E agora... — Ele deu uma risada nervosa, os olhos se movendo para o lado, como se esperasse ouvir uma confirmação. — Agora, ela tá tentando me ajudar.

Lívia ficou em silêncio por um momento, tentando entender se Paulo estava surtando de vez ou se havia algo mais. E o mais assustador é que, neste mundo de múmias e deuses esquecidos, qualquer coisa parecia possível.

— Paulo... — Lívia disse, escolhendo as palavras com cuidado. — A gente precisa trabalhar junto, sabe disso, né? Se você tá passando por algo... — Ela hesitou, o olhar firme. — A gente tá aqui.

Paulo ficou em silêncio, o sorriso estranho desaparecendo. Apenas acenou com a cabeça, como se aceitasse o que ela dizia, mas sem realmente acreditar.

Lívia voltou para perto dos outros, a expressão preocupada. — Ele tá pior do que eu pensava. Alguma coisa tá mexendo com ele.

— Ou talvez ele só tenha enlouquecido de vez. — Ismael comentou, mas sua voz não soou como uma piada dessa vez. Ele parecia mais pensativo do que debochado.

— Seja o que for, temos que ficar de olho. — Jaime acrescentou. — E descobrir o que o Elias tá tramando. Essa droga de missão já passou dos limites.

Ismael olhou para eles, finalmente largando o tablet. — Não é só o Paulo que tá estranho. Esse lugar inteiro é uma armadilha. E acho que a gente tá no meio de algo muito maior do que imaginamos.

Eles se entreolharam, o peso daquelas palavras ficando mais forte a cada segundo.

Enquanto Paulo caminha em direção aos outros, o suor escorrendo por sua testa, ele começa a se lembrar do passado. A cena é vívida, cruelmente clara em sua mente.

Há cinco anos...

O som ensurdecedor do metal rangendo enquanto ele e Jessica corriam pelos corredores escuros. Eles tropeçavam, os corpos exaustos, mas o desespero era um combustível cruel que os fazia continuar.

A porta. Aquele maldito portal que deveria levá-los para fora daquele inferno. Paulo passou primeiro, o peso do próprio corpo o jogando para o outro lado. Mas quando ele olhou para trás...

— Paulo, não me deixa! — A voz de Jessica era desesperada, entrecortada por uma tosse rouca. Ela tentava avançar, os braços estendidos, os olhos arregalados de medo. — Eu não quero ficar presa aqui! Por favor, me leva com você!

Ele estendeu a mão, os dedos trêmulos, o coração disparado. E por um momento, ele pensou que não a alcançaria. Mas então...

— Eu não vou deixar você para trás. — A voz dele soou forte, mas por dentro ele estava desmoronando. Ele acenou com a cabeça, como se aquilo fosse suficiente para selar uma promessa.

Eles conseguiram sair. Mas algo veio junto. Algo que nunca deveria ter saído daquele lugar.

O presente...

Paulo esfrega os olhos, tentando afastar a imagem de Jessica. Era para ela ter ficado lá. Era para ela estar... morta.

Nos primeiros meses após o incidente, ele tentou ignorar as visões. Convenceu a si mesmo de que não era real. Apenas o trauma, a culpa, o arrependimento. Mas ela continuava ali. Sempre ali.

Ele procurou psicólogos, psiquiatras, tomou remédios. Tentou de tudo para calar aquela voz que murmurava seu nome no meio da noite. Mas nada funcionou.

E então ele percebeu.

Jessica não tinha sido libertada. Ela tinha sido levada com ele. Ela não era mais ela. Era... algo mais. Algo que só ele podia ver e ouvir.

A compreensão veio um dia comum, na cozinha de sua casa. Um prato escorregou de suas mãos e se espatifou no chão. E ele simplesmente começou a rir.

Porque, finalmente, ele havia entendido que não havia cura para o que ele havia trazido consigo.

Agora, parado no meio daquele deserto disfarçado de base, ele vê Jessica parada atrás de Jaime. Os olhos dela o encaram, profundos e desesperados. E, por um instante, ele acha que pode ouvir o som de vidro quebrado.

Ele balança a cabeça e continua andando, tentando ignorar o peso daquela presença.

Paulo é arrancado de seus pensamentos pelos passos pesados e rítmicos que ecoam pelo corredor. O som das botas de Elias nunca foi exatamente sutil, mas dessa vez havia algo diferente. Algo mais... leve, quase satisfeito.

Elias entra na sala de reuniões com um sorriso torto no rosto, os olhos brilhando de uma satisfação perturbadora.

— Bom dia, meus queridos. — A voz dele é quase jovial, algo raro e inquietante. — Dormiram bem?

Jaime cruza os braços e troca um olhar desconfiado com Lívia, que parece mais séria do que o normal. Ismael, apoiado em suas muletas, resmunga algo inaudível, os olhos semicerrados enquanto observa Elias com atenção.

Paulo sente um arrepio percorrer sua espinha. Aquele tom de voz de Elias nunca significava coisa boa.

— Então... — Elias estala os dedos e um holograma se projeta da mesa, mostrando imagens da múmia desacordada presa em uma cela metálica. — Temos nossa prisioneira bem guardada. É impressionante o que o medo e a dor fazem com uma criatura dessas. É quase... poético.

— Então você já começou a torturar ela? — Ismael diz com um tom de deboche, mas os olhos denunciam que ele não está gostando nem um pouco do que ouve.

Elias dá de ombros. — Eu prefiro chamar de... interrogação intensificada. Mas acho que logo teremos as respostas que precisamos.

O sorriso de Elias só se alarga, como se estivesse se divertindo com as reações dos outros.

Paulo tenta ignorar a sensação de olhos queimando em sua nuca. Não é a presença dos outros na sala. É algo mais. Algo que só ele sente.

Jessica está ali. Ele sabe disso. E algo no silêncio dela o incomoda mais do que qualquer voz poderia incomodar.

— Então... qual o plano agora? — pergunta Jaime, tentando manter o foco no que importa.

Elias cruza os braços e se aproxima do holograma. — Simples. Descobrir tudo o que a múmia sabe, encontrar a outra vadia que está solta por aí e eliminar qualquer coisa que cruze nosso caminho.

O tom casual de Elias só torna tudo mais sinistro.

Elias termina de ajustar o holograma na mesa, os olhos brilhando com uma satisfação venenosa. Ele toma um gole de café e coloca a xícara de lado antes de encarar cada um deles.

— Parabéns, vocês conseguiram sobreviver até agora. E tenho boas notícias. — O sorriso de Elias é afiado, frio. — Essa será a última missão. Depois disso, podem voltar para suas vidinhas medíocres e fingir que nada disso aconteceu.

Ismael solta um riso amargo. — Que motivador. Sabe como fazer alguém se sentir especial, hein, chefe?

— Eu tento — Elias rebate, o sorriso não sumindo. Ele se volta para Ismael. — Aliás, a médica me informou que você já não precisa mais das muletas. O que significa que você e o nosso querido caipira aqui — ele aponta para Paulo — vão atrás da tal Neferat. Os rastros indicam que ela está se movendo para o leste, talvez tentando resgatar a múmia que eu capturei.

Ismael resmunga algo sobre médicos incompetentes, mas sabe que Elias não está mentindo. Sua perna está melhor, embora ainda doa como o inferno.

— E você, Jaime... — Elias olha para o homem que se mantém mais calado que o normal. — Vai voltar com a Lívia para aquele lugar que vocês investigaram da última vez. Parece que deixaram algo para trás, e eu não gosto de falhas.

— Entendido — Jaime responde com um tom firme, embora os olhos revelem que ele não confia em uma palavra de Elias.

Lívia encara Elias com desconfiança. — E qual é o plano real aqui, Elias?

— O plano é simples. — Ele sorri como um predador que acabou de encurralar a presa. — Vou instalar câmeras em vocês. Quero saber cada passo, cada palavra, cada suspiro. Não vou mais deixar que vocês me enganem.

O olhar de Elias se fixa em Paulo por um segundo mais longo que o necessário.

— Principalmente você, caipira. Eu sei que você esconde algo. E vou descobrir o que é.

Paulo mantém o rosto inexpressivo, mas por dentro, algo se remexe. Jessica está perto. Ele sente isso. E ela está tão quieta...

— Estamos entendidos? — Elias pergunta, o tom definitivo. — Ótimo. Então saiam daqui e preparem-se. Não tenho tempo para perdedores.

Enquanto todos saem para se preparar, Ismael se aproxima de Paulo, ainda caminhando com certa dificuldade.

— Pronto para outra aventura suicida? — Ismael pergunta, forçando um sorriso.

— Nunca tô pronto... mas é o que temos, né? — Paulo responde, tentando manter o tom leve.

A água gelada desce pelo corpo de Paulo, arrepiando cada centímetro de sua pele. Ele tenta focar na temperatura extrema, na dor aguda do frio, esperando que aquilo o ajude a limpar os pensamentos. Mas nada apaga o zumbido constante na sua mente.

Então ele sente.

Algo frio e leve toca seu ombro, como se fosse uma mão que nunca deveria ser real. Mas ali estava.

— Não se preocupe — diz a voz familiar, mais clara do que nunca. — Não vou deixar você morrer.

Paulo respira fundo, o coração batendo forte. Ele fecha os olhos por um instante, tentando ignorar o fato de que aquilo já não era mais apenas uma voz. Estava ali com ele. De verdade.

Uma hora depois, todos estão na entrada da base. As mochilas preparadas, armas prontas, olhos atentos.

Ismael está ao lado de Lívia, o rosto um pouco menos tenso quando está com ela. Eles trocam olhares, ignorando o resto do mundo por um momento.

— Ei, eu vou voltar, tá bom? — Ismael diz, o tom mais suave do que o habitual. — Eu prometo.

Lívia segura o rosto dele, os olhos firmes. — E eu prometo que vou te trazer de volta, nem que eu tenha que arrastar sua bunda idiota até aqui. — Eles se beijam, o tipo de beijo que só pessoas que têm medo de perder algo importante compartilham.

Enquanto isso, Jaime e Paulo estão encostados em um dos jipes, trocando poucas palavras enquanto aguardam o chamado para partir.

— Tá pronto pra loucura de novo? — Jaime pergunta, a voz meio preocupada.

— Pronto não tô. Mas vamos nessa. — Paulo responde, o olhar distante.

Elias aparece como um predador que observa sua presa. Os passos fortes, a presença sufocante. Ele para na frente de Paulo e Jaime, um sorriso estranho no rosto.

— Aqui. — Elias entrega uma garrafa pequena para Paulo. — Você parece meio cansado. Isso vai ajudar.

Paulo encara a bebida na mão, hesitando por um segundo. Era uma bebida energética, aparentemente comum, mas com Elias, nunca se sabe.

— Valeu... eu acho. — Paulo diz, sem muita certeza.

Elias não diz mais nada. Apenas se afasta, com aquele sorriso no rosto.

— Cuidado com o que você aceita dele, cara. — Jaime sussurra, preocupado.

Paulo guarda a bebida no bolso, sem abrir. Melhor prevenir do que remediar.

O sol queimava a pele dos dois enquanto eles estacionavam o jipe perto do mesmo buraco que tinham escapado antes. O local parecia ainda mais morto do que da última vez. Era como se o ar estivesse pesado, um aviso mudo de que nada bom os aguardava lá embaixo.

Ismael olha para o buraco e revira os olhos. — Eu não aceito... de novo, não! A gente mal saiu desse lugar e agora tem que voltar? Se isso não é ironia, eu não sei o que é.

— Relaxa, Ismael. Vamos descer, achar aquela mulher e vazar. Dessa vez, a gente tá preparado. — Paulo fala enquanto abre o bolso e pega a bebida que Elias deu.

Ele olha para o líquido por um momento, ainda desconfiado. Mas o calor do deserto e a pressão da missão faziam qualquer coisa que pudesse ajudar parecer uma boa ideia. Ele abre e toma um gole.

Era deliciosa. Um sabor refrescante, quase doce, que escorregava pela garganta como se fosse a melhor coisa que ele já provou. Sem perceber, Paulo toma o resto de uma vez.

E então... silêncio.

O barulho constante da voz que sempre ecoava na sua mente desapareceu. Nenhuma risadinha, nenhum sussurro tentando guiá-lo. Apenas o som puro e claro do mundo real.

Ele ri. Uma risada genuína, coisa que não acontecia há muito tempo.

— Cara, você tá bem? — Ismael pergunta, com a sobrancelha levantada.

— Melhor do que nunca. — Paulo responde com um sorriso quase insano. — Vamos acabar com essa missão de uma vez por todas.

Ele se aproxima da beirada do buraco, o olhar sem medo. Para ele, era como se nada mais pudesse atingi-lo.

— Tá esperando o quê, Ismael? — Paulo fala já descendo para o inferno que os aguardava.

— Calma, idiota! — Ismael grita enquanto vê Paulo já pulando para dentro do buraco como se aquilo fosse um parque de diversões.

Ismael suspira e olha para o buraco com ódio genuíno. Sua perna ainda doía, embora já estivesse melhor. Ele começa a descer com cuidado, se apoiando em partes da parede que lembrava da última vez.

— Merda... É sempre assim, né? — resmunga, enquanto desce com esforço.

Paulo já estava mais à frente, andando com um ritmo quase alegre. O bom humor dele estava tão evidente que até parecia uma provocação.

— Era aqui que ela tava na última, lembra? — diz Paulo com um sorriso quase debochado. — Você tomou um tiro... e fez aquele escândalo.

— Escândalo, meu ovo! Eu tomei um tiro na perna, seu imbecil! Eu nem devia tá aqui... Mas como eu ia deixar você se ferrar sozinho? — Ismael responde, tentando manter o ritmo de Paulo.

— Relaxa, hoje vai ser diferente. Já sabemos o caminho, não vamos nos perder dessa vez. — Paulo ri. — E eu tô me sentindo ótimo. Pronto pra acabar com essa loucura.

Ismael nota o tom confiante demais de Paulo, mas atribui isso ao fato de ele estar irritantemente bem humorado.

Os corredores que antes pareciam labirintos agora eram familiares, quase triviais para os dois. Dessa vez, a confiança de Paulo guiava os passos e Ismael só seguia, tentando ignorar o incômodo na perna.

— Beleza, chefe. Já que você tá tão animado assim... Vai na frente. — Ismael ironiza, mas sem esconder o desconforto que sentia por estar ali de novo.

— Pode deixar. Eu vou abrir caminho pra você... E pra quem quer que apareça no nosso caminho. — Paulo responde, olhando para frente com um brilho intenso nos olhos.

— Eu quero mais daquela bebida — diz Paulo para a câmera presa no seu ombro, com um sorriso que não sai do rosto.

Do outro lado da linha, Elias ri com satisfação.

— Tudo como o esperado. — A voz dele soa satisfeita. — Vou mandar um drone deixar mais na entrada. Continue avançando.

Ismael olha para Paulo com desconfiança. O comportamento dele estava estranho, leve demais para alguém que estava basicamente indo para a morte certa.

— Que foi, cara? Nunca me viu feliz? — Paulo pergunta, rindo enquanto anda pelo corredor com passos firmes.

— É... Só tô estranhando, é isso. Você tá animado demais pra quem devia tá cagando de medo. — Ismael murmura, tentando ignorar o aperto desconfortável que sentia na perna.

— Relaxa, amigão. — Paulo ri, dando um tapa amigável no ombro de Ismael. — Hoje é o nosso dia de sorte.

Eles continuam avançando e a escuridão começa a ficar mais densa. Ambos ligam as lanternas e percebem que as câmeras instaladas na parede do corredor não estavam funcionando.

— Espera... Por que as câmeras tão apagadas? — Ismael pergunta, seu tom já alarmado.

— Sei lá. — Paulo responde com desprezo. — Talvez o sinal não chegue aqui. Quem se importa?

Do outro lado da linha, Elias está claramente frustrado.

— Merda! O que foi agora? — A voz dele sai mais irritada do que o normal. — As câmeras acabaram de cair. Vocês dois, relatem imediatamente o que estão vendo.

— Tão funcionando perfeitamente... Ah, espera. Eu que tô vendo. — Paulo ri, a voz quase zombeteira.

Ismael engole em seco, seus olhos se movendo rapidamente pelo corredor escuro. Algo estava definitivamente errado.

Paulo e Ismael chegam ao fundo do novo buraco, o ar pesado e úmido, quase impossível de respirar. Diante deles, um lago verde e brilhante se estende como um espelho de veneno. Acima dele, em uma rocha plana, repousa um livro antigo com páginas amareladas, aberto em uma linguagem que parecia... terrivelmente compreensível.

— Ah, legal. Um buraco e dentro dele... outro buraco. — Ismael murmura, tentando ignorar a dor latejante na perna.

— Olha só... — Paulo se aproxima, os olhos fixos no livro. — Isso é interessante.

Ismael se aproxima, mancando, e ambos olham para o texto. A escrita fala sobre um ritual antigo, um método para trazer múmias de volta à vida.

— Sangue de múmia... memórias... e um sacrifício no local do ritual. — Paulo lê em voz alta. — Que porcaria é essa?

De repente, o estalo de uma arma sendo engatilhada ecoa pelo lugar.

— E aí, rapazes? — A voz feminina é fria e carregada de ódio. — Vocês têm duas opções. Um de vocês morre... ou vocês trazem o meu amor de volta para mim.

Ambos se viram devagar e encaram Neferat, seu rosto sombrio iluminado pelo brilho do lago verde. Os olhos dela ardem de raiva e desespero.

— Que merda é essa? — Ismael sussurra, levantando as mãos lentamente.

— Eu achei que você fosse querer nos matar de qualquer jeito. — Paulo responde, sem tirar os olhos dela.

— E eu quero. — Neferat responde, os olhos cravados neles. — Mas se vocês fizerem o ritual... Se me ajudarem a trazê-lo de volta... Eu deixo vocês viverem.

O silêncio pesa no ar, e Ismael lança um olhar desesperado para Paulo, que continua sorrindo, quase hipnotizado pela voz e pela promessa da mulher.

O estampido do tiro ecoa pelo espaço fechado, sacudindo a poeira das paredes. Paulo instintivamente levanta as mãos, olhos arregalados.

— Você aí, moreno. — Neferat aponta a arma para Paulo, o olhar firme e calculista. — Você vai voltar pros seus amiguinhos do governo.

Ela se aproxima de Ismael, passa o braço ao redor dele e o puxa para si como se fosse um troféu. Ismael fica rígido, o medo e a dor na perna intensificados pelo contato.

— Eu fico com o piadista. — Neferat sussurra, seu tom gelado e ameaçador. — Enquanto isso, você vai lá, liberta a múmia... e traz seu chefe aqui. Faça isso, e eu liberto seu amigo.

Paulo olha para Ismael, os olhos transmitindo mais culpa do que promessa. Mas ele sabe que não tem escolha.

— Certo. — Paulo acena lentamente, tentando manter o tom firme. — Eu vou fazer isso.

— Bom garoto. — Neferat sorri cruelmente e empurra Ismael para o chão, mantendo a arma apontada para ele.

Paulo se vira e começa a andar de volta pelo corredor escuro. Sua respiração está pesada, o sorriso que ele ostentava há pouco tempo sumiu completamente.

De repente, um chiado no ouvido. As câmeras voltaram a funcionar.

— Situação?! — A voz de Elias explode no rádio, cheia de impaciência. — O que diabos está acontecendo aí embaixo, Paulo?

Paulo faz uma pausa, deixando o silêncio pesar por alguns segundos.

— Eu... eu tô me sentindo mal. — A voz dele sai rouca, carregada de medo e dor disfarçados. — Estou voltando. Ismael vai ficar mais um pouco.

— Ótimo. — Elias responde sem emoção, como se não desse a mínima. — Ok, pode voltar.

Paulo continua andando, tentando ignorar os gritos abafados que acha ouvir atrás dele. Mas ele sabe que não pode deixar Ismael para trás.

Paulo segue tropeçando pelos corredores escuros, cada passo ressoando com um peso que não era apenas físico. A bebida de Elias ainda percorre suas veias, o deixando estranhamente leve e vazio. A voz de Jéssica não aparece para consolá-lo — talvez por medo, talvez por algo pior.

A saída está próxima, o ar começa a ficar mais fresco. E então ele vê. No chão, próximo à entrada, o drone que Elias prometera. E junto dele, uma garrafa idêntica à bebida que Elias havia lhe dado antes.

Paulo pega a garrafa, hesitante. Seus dedos tremem, mas ele não pode deixar Ismael para trás. Nem que para isso precise arriscar tudo.

Ele abre a garrafa, e o líquido dourado brilha na luz fraca. Uma última tentativa desesperada de buscar forças. Ele bebe, sentindo o alívio imediato, os sentidos aguçados, a calma artificial.

— Certo... — Ele murmura para si mesmo. — É hora de improvisar.

Ele apanha o drone e o guarda na mochila, os olhos assumindo uma determinação renovada. Agora, ele precisava convencer Elias a descer ali. E para isso, ele teria que mentir. E mentir bem.

Enquanto isso, nas profundezas do complexo, Neferat empurra Ismael até uma câmara selada, decorada com hieróglifos brilhando em um verde fantasmagórico.

— Se você acha que seus amigos vão te salvar... — Ela se aproxima, com olhos frios. — Está muito enganado. Eles vão trazer meu amor de volta. E você... você será o sacrifício perfeito, piadista.

Ismael tenta disfarçar o medo com uma risada fraca.

— Sacrifício? Poxa, pelo menos me chama pra jantar antes, né?

Neferat apenas sorri, como um predador se divertindo com a presa.

No laboratório da base, Elias observa os monitores e os dados colhidos da múmia capturada. Seu sorriso cruel se amplia.

— Isso é perfeito... — Ele murmura para si mesmo. — Tudo está indo como planejado.

Mas nem mesmo ele percebe o verdadeiro perigo se aproximando.

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