Renascimento do abismo

A fumaça verde finalmente começou a se dissipar, mas o cheiro ácido ainda queimava o nariz de Ismael. Ele tossiu, a cabeça latejando, os braços e pernas presos por correntes que Neferat havia amarrado. Seu olhar se fixou na borda do lago.

Algo saiu da água, uma figura deformada e terrível. A múmia que emergiu não era a mesma que antes. Sua pele ressecada parecia ter rachaduras profundas e verdes que pulsavam, o rosto retorcido em dor e ódio.

— Malditos... Malditos... — A voz arranhada como metal raspando pedra. Os olhos vazios brilhavam com loucura.

Ismael sentiu um frio mortal. Ele conhecia aquela voz, aquele rosto que antes carregava uma imponência sombria. Agora, era apenas um monstro desfigurado e furioso, um fragmento do que um dia foi.

— Mas que... caralho... — Ismael murmurou, tentando afastar a visão macabra.

Neferat deu um passo para trás, o medo cintilando em seus olhos. A criatura avançou alguns passos, cada movimento acompanhado de estalos horríveis, como se seus ossos estivessem quebrando e se rearranjando a cada segundo.

— VOCÊS... ME CORROMPERAM... MALDITOS! — A múmia rugiu e, num impulso de fúria, começou a destruir as paredes ao redor, as mãos ensanguentadas golpeando a pedra como um animal enjaulado.

— Não... não era você que eu queria... — Neferat sussurrou, seus olhos se voltando para o lago novamente.

Foi quando algo mais emergiu.

De dentro da água, um homem caminhou lentamente, gotas verdes escorrendo de sua pele. Mas não era Elias. Não mais. O corpo era dele, mas a expressão era calma e fria. Seus olhos brilhavam em um tom dourado intenso, quase hipnótico.

— Amor... o que você fez? — Perguntou ele, a voz tão suave e cruel que fez Neferat tremer de emoção.

— Eu... Eu te trouxe de volta... como prometi... — A voz de Neferat era um sussurro desesperado. Ela deu um passo em direção a ele, como se o mundo ao redor não importasse mais.

— E o que você sacrificou para isso, minha doce Neferat? — A figura se aproximou, um sorriso delicado e aterrorizante curvando seus lábios.

— Tudo... eu sacrifiquei tudo. — As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela.

A múmia deformada continuava a urrar e destruir o lugar, mas agora parecia pequena e insignificante diante daquela presença.

— Então, vamos destruir o que resta desse mundo juntos... — Disse ele, estendendo a mão para Neferat, os olhos dourados brilhando com uma intensidade desumana.

Ismael assistia tudo aquilo com horror. O verdadeiro inimigo havia retornado, e o pior de tudo: ele ainda parecia amar Neferat, mas esse amor era algo distorcido, doentio.

Ele precisava sair dali. E rápido.

Ismael observava horrorizado a cena se desenrolar. O homem diante dele, usando o corpo de Elias, falava com Neferat como se eles nunca tivessem sido separados. A múmia deformada, gritando amaldiçoada, continuava a destruir a caverna ao redor.

— Preciso sair daqui... — Ismael murmurou.

Então, um tremor violento sacudiu o chão. A múmia descontrolada avançou em sua direção, braços disformes tentando arrancá-lo das correntes. Num movimento desesperado, a criatura acidentalmente partiu as correntes que o prendiam.

— Valeu, fera. — Ismael murmurou, tropeçando para longe e esfregando os pulsos machucados.

A múmia continuou sua fúria, mas parecia ignorar Ismael. Ele olhou em volta e viu o livro que estava sobre o lago, agora caído perto da borda. Ismael agarrou-o, folheando rapidamente as páginas manchadas e escritas numa língua antiga que ele mal conseguia decifrar.

— Vamos lá, vamos lá... Precisa ter algo aqui que me ajude. — Ele murmurou desesperado.

Os olhos de Ismael encontraram algo que conseguiu entender. Uma anotação rabiscada em um canto da página:

"Para desfazer o ritual e destruir o laço corrompido, o corpo inicial deve retornar ao lago, para ser consumido e purificado."

— Ok... então é só empurrar o Elias 2.0 ali de volta pra sopa verde... parece fácil. — Ele ironizou, ainda sem fôlego.

Antes que pudesse processar completamente a informação, Ismael ouviu passos pesados atrás dele.

— E o que você acha que tá fazendo, verme? — A voz calma, porém cheia de desprezo, ressoou na caverna.

Ismael se virou e viu o homem que deveria ser Elias, mas agora carregava a presença sombria do marido de Neferat. Os olhos dourados dele o fitavam com curiosidade sádica.

— Marido? Uma ova! — Ismael esticou os ombros, tentando ignorar o fato de que estava praticamente mancando de dor. — Você era um guerreiro, né? Bem, eu luto Muay Thai. Bora ver quem ganha, valentão!

O homem sorriu de canto de boca.

— Que ousadia deliciosa. Eu vou adorar quebrar você.

Eles avançaram um contra o outro.

Ismael foi o primeiro a atacar, desferindo uma sequência rápida de chutes baixos e cotoveladas. Seus movimentos eram precisos, mas o homem se desviava com uma agilidade anormal. Parecia brincar com Ismael, como um gato provocando um rato.

Um soco brutal atingiu o rosto de Ismael, fazendo-o cambalear para trás e cuspir sangue.

— Sério? É só isso que você tem? — O homem zombou.

— Ah, eu só tava me aquecendo... — Ismael sorriu, mesmo sentindo o gosto de sangue na boca. — Agora vem a parte divertida.

Ele avançou de novo, dessa vez usando toda sua força em uma cotovelada giratória que acertou o maxilar do homem. O impacto foi tão forte que o eco reverberou pelas paredes da caverna.

O homem cambaleou para trás por um segundo, o sorriso agora desfeito.

— Parece que alguém ainda sabe como lutar. — Disse ele, os olhos dourados ardendo com raiva e prazer.

Ismael sabia que não poderia vencer aquilo sozinho, mas precisava ganhar tempo e pensar em um jeito de jogá-lo no lago verde.

A caverna tremia como se estivesse viva, pedras caindo e poeira se espalhando por todos os lados. A múmia deformada continuava seu ataque destrutivo, urrando maldições incompreensíveis enquanto arrancava pedaços das paredes e do teto.

Neferat, agora desesperada, viu seu amado lutando contra Ismael. Mas o caos ao redor a fez recuar.

— Eu preciso tirá-lo daqui... Eu preciso salvar o meu amor... — murmurou, ignorando a destruição e correndo na direção dos dois.

Do lado de fora, os jipes chegaram numa freada brusca. Jaime saiu rapidamente do veículo, puxando Paulo, que ainda se recuperava dos efeitos da bebida. Lívia desceu logo atrás, com os olhos cheios de preocupação.

— Esse é o lugar? — Perguntou Netikerti, a irmã de Neferat, observando a abertura do buraco com desconfiança.

— Sim, e tá desabando. Maravilha. — Disse Jaime, apertando o cabo da arma em suas mãos. — Se Ismael tá lá dentro, ele vai morrer soterrado.

— Então é melhor a gente ir logo. — Disse Lívia, determinada, correndo para a entrada sem pensar duas vezes.

— Ei, espera! — Jaime gritou, mas ela já havia desaparecido na escuridão.

— Eu vou atrás dela. — Disse Netikerti, olhando para os soldados que a acompanhavam. — Vocês dois venham comigo. Os outros, esperem aqui e garantam que ninguém mais entre.

Paulo se levantou do jipe, os olhos fixos na caverna que tremia cada vez mais.

— Se Elias tá morto, eu vou comemorar depois. Mas se o Ismael ainda tá vivo, eu não vou deixar ele morrer lá embaixo.

— Paulo, você tá bem? — Perguntou Jaime, visivelmente preocupado.

— Vou ficar... quando tudo isso acabar. — Respondeu Paulo, pegando uma arma do jipe e se preparando para entrar na caverna.

Jaime e Netikerti trocaram olhares rápidos e seguiram em frente.

— Vamos salvar o nosso amigo... e acabar com essa merda de uma vez. — Jaime disse, enquanto o grupo desaparecia dentro da escuridão.

A caverna desmoronava cada vez mais, enquanto todos desciam apressados pelo buraco. As pedras caíam em intervalos curtos, e o ar cheirava a poeira e magia corrompida.

Lívia e Netikerti avançavam na frente, os passos decididos. Quando viraram um corredor, depararam-se com Neferat, que olhava fixamente para a fumaça verde que ainda subia do lago.

— Saiam do meu caminho. — Disse Neferat, os olhos cheios de uma determinação enlouquecida. — Eu vou salvar o meu amor.

— Ele não é mais o seu amor! — Gritou Netikerti, a voz firme e cheia de ressentimento antigo. — O que você fez o corrompeu. Transformou ele em algo que nem você reconhece!

Neferat hesitou, os olhos tremendo.

— Não... Ele é ele... Eu posso salvá-lo... — Murmurou, mas nem mesmo ela parecia acreditar.

Antes que Netikerti pudesse dizer mais alguma coisa, o som de golpes violentos e gritos atraiu a atenção de todas.

Mais à frente, no meio do salão em colapso, Ismael lutava ferozmente contra Elias... ou melhor, o homem que agora habitava o corpo de Elias.

— Você é bom, garoto. Mas eu fui treinado para a guerra. — Disse o homem com a voz rouca, fria e impiedosa.

— E eu... — Ismael disparou um soco direto, que o homem bloqueou com facilidade. — Fui treinado pra sobreviver.

O impacto do próximo soco de Ismael conseguiu derrubar o homem por um momento. Mas ele logo se levantou, os olhos cheios de uma raiva cruel.

Paulo e Jaime apareceram correndo, finalmente alcançando o salão. Paulo cambaleou ao ver a luta.

— Merda... É o Elias? — Perguntou Jaime, apertando a arma nas mãos.

— Não... Não é o Elias. — Disse Netikerti ao lado deles. — É o espírito que Neferat trouxe de volta.

Enquanto os dois observavam, Ismael foi arremessado contra a parede com força. Sangue escorria do seu rosto, mas ele não parava de se levantar.

— Já chega! — Disse o homem, preparando-se para desferir o golpe final.

— ISMAEL! — Lívia gritou, correndo na direção dele.

Ismael olhou para ela por um segundo e encontrou forças para rolar para o lado, escapando do ataque por pouco. O punho do homem se chocou contra o chão com um impacto que rachou a pedra.

— Não adianta... Nenhum de vocês pode me parar. — Disse o homem, agora sorrindo.

— Pode até ser... — Disse Ismael, ofegante, os olhos fixos na criatura diante dele. — Mas a gente pode tentar até conseguir.

— E dessa vez, nós estamos juntos. — Disse Jaime, apontando sua arma.

— Todos nós. — Disse Paulo, segurando a arma com as mãos trêmulas, mas decididas.

Neferat assistia a cena com lágrimas nos olhos, tentando decidir entre o amor que ela conheceu e a monstruosidade que ela trouxe de volta.

Ismael joga o livro para Paulo com o último resquício de força.

— Tem... duas opções. — Ele cospe sangue, tentando manter a voz firme. — Joga ele... ou faz um ritual aí... que eu não li direito. Mas se fizer... todos os que surgiram vão sumir. Inclusive... os seus aliados também.

Paulo arregala os olhos e vira-se para Jaime, que está suando de nervoso. Ambos olham para Netikerti.

— Vão. — Diz Netikerti, os olhos decididos. — Eu seguro minha irmã. Façam o que precisar ser feito.

— Não... Não faz isso. — Neferat sussurra, a voz quebrada pela dor e pela culpa. — Ele tá aqui... Ele voltou. Eu posso salvá-lo!

— Não, irmã. — Netikerti responde, preparando sua arma e avançando para impedir a aproximação de Neferat. — Você não vai destruir mais ninguém por esse desejo egoísta.

Lívia puxa Paulo pelo braço.

— Temos que correr! Vamos!

O grupo dispara na direção do lago, correndo por corredores que tremem enquanto a estrutura da caverna se desfaz. Atrás deles, os gritos e lamentos de Neferat e Netikerti se misturam ao som ensurdecedor das pedras caindo.

Chegando ao lago, eles olham para a superfície coberta pela fumaça verde. Elias 2.0 os encara com um sorriso doentio, bloqueando o caminho.

— Vocês acham que podem me parar? — Sua voz sai distorcida, monstruosa. — Vocês não passam de tolos se metendo com algo que não entendem!

Paulo segura o livro com as mãos tremendo, enquanto Jaime aponta a arma para Elias 2.0.

— Faz o que você tem que fazer, Paulo! Eu seguro ele! — Diz Jaime, tentando parecer mais corajoso do que realmente está.

Lívia se coloca ao lado de Jaime, sem hesitar.

— A gente segura ele.

Paulo abre o livro com pressa e tenta entender os símbolos.

— Droga... Ritual... Ritual... Aqui! — Seus olhos finalmente encontram a parte que explica como acabar com o ciclo. — Tá dizendo que... Eu preciso jogar o corpo original no lago, enquanto recito as palavras.

— Então faz logo! — Grita Jaime, desviando por pouco de um golpe devastador de Elias 2.0.

— Eu vou tentar! — Paulo aproxima-se do lago, segurando o livro aberto enquanto sua voz começa a recitar as palavras com dificuldade.

O lago começa a reagir, a água verde fervilhando e se retorcendo como se estivesse viva.

— Nãããão! — Grita Elias 2.0, avançando contra Paulo, mas sendo contido por Jaime e Lívia que o atacam sem parar.

— Continua, Paulo! — Lívia grita, sua voz desesperada e cheia de coragem.

O corpo de Elias 2.0 começa a se desestabilizar, como se estivesse sendo puxado para o lago. Paulo mantém o livro aberto e continua recitando as palavras enquanto sente o chão vibrar sob seus pés.

Paulo respira fundo, a voz trêmula enquanto tenta recitar as palavras do ritual. Ele aperta o livro como se sua vida dependesse disso — e de fato, dependia.

— Ok... Tá... Vamos lá...

— Am-she-ra... A-mon-he-ka... Tra-ze-mor-... Merda! — Ele se interrompe quando Elias 2.0 investe contra ele, desviando por pouco de um golpe brutal.

— Você é só um rato, Paulo! — Elias 2.0 rosna, os olhos brilhando de ódio e poder. — Nada além de um covarde!

Jaime e Lívia o atacam ao mesmo tempo. Jaime o soca com força, enquanto Lívia dispara sua arma. Mas Elias 2.0 é rápido e feroz, desviando de alguns ataques e absorvendo os que o atingem como se fossem meras picadas de mosquito.

— Isso é tudo que têm? — Ele ri, um som grotesco e distorcido.

— Paulo, rápido! — Grita Lívia, sem tirar os olhos do inimigo.

— Eu tô tentando! — Paulo quase grita em resposta, voltando a recitar.

As palavras saem trôpegas e incertas, mas o lago começa a responder. A superfície verde e borbulhante gira lentamente, emitindo um som grotesco que ecoa por toda a caverna.

— Am-she-ra... A-mon-he-ka... Tra-ze-mor-dez... — Ele pausa, confuso com o símbolo que parece ter sido rasgado na página.

— Não consegue nem ler um livro direito, seu inútil! — Elias 2.0 avança com violência e Jaime recebe um soco no rosto que o faz cair com força no chão.

— Ah... Merda... — Jaime resmunga, cuspindo sangue.

Lívia dispara mais uma vez, mas Elias 2.0 a derruba com um empurrão brutal, lançando-a contra uma rocha.

— LÍVIA! — Paulo grita, o medo paralisando suas mãos por um instante.

— Termina isso, Paulo! — Lívia berra, tentando se levantar mesmo com dor.

Paulo encara Elias 2.0 se aproximando, com olhos sedentos de sangue. Sua mente lateja, as palavras do livro rodando em sua cabeça como uma confusão interminável. Ele sabe que o tempo está acabando.

— Am-she-ra... A-mon-he-ka... Tra-ze-mor-dez... — Ele pausa, o suor escorrendo pelo rosto. — Des-per-ta-rim-tu-rum...

O lago começa a se agitar violentamente, vapores verdes se elevando e tomando a caverna como uma neblina venenosa. Elias 2.0 recua por um momento, como se aquilo o estivesse enfraquecendo.

— O que você fez?! — Elias 2.0 grita, a voz desfigurada pelo ódio.

— Eu... Eu acho que tô fazendo certo! — Paulo diz para si mesmo, os olhos arregalados.

Mas antes que pudesse continuar, Elias 2.0 salta sobre ele, derrubando-o no chão. A arma de Paulo cai longe. Jaime tenta se levantar e ajudar, mas Elias 2.0 o chuta para longe como se fosse um brinquedo quebrado.

— Tá se achando esperto, né? — Elias 2.0 aperta as mãos em volta do pescoço de Paulo, sufocando-o com brutalidade. — Quer acabar comigo? Eu vou acabar com você primeiro, moleque.

Paulo tenta se desvencilhar, os dedos tentando empurrar os braços de Elias 2.0 para longe. Sua visão começa a escurecer.

— P... Para... — Ele tenta falar, mas o ar não vem.

E então, uma rajada de tiros ecoa na caverna. Elias 2.0 é empurrado para o lado, caindo com um rugido de dor. Lívia, cambaleando e com sangue escorrendo da testa, segura a arma com mãos trêmulas.

— Sai de cima dele, seu desgraçado!

— L-Lívia... — Paulo consegue respirar, mas a dor e o pânico o fazem tossir descontroladamente.

Elias 2.0 se levanta novamente, mesmo ferido. Os olhos dele são um misto de ira e insanidade.

— Vocês... todos vocês vão morrer aqui.

Jaime aparece do outro lado, finalmente recuperado. Ele se joga em cima de Elias 2.0, tentando imobilizá-lo.

— Agora, Paulo! Termina logo essa droga!

Paulo, mesmo tonto e apavorado, lê as últimas palavras com a voz o mais alta que consegue:

— Da...rah-teh-kal!

A superfície do lago explode em um turbilhão de energia. Uma força invisível agarra Elias 2.0, arrastando-o para trás. Ele se debate, tentando se segurar em qualquer coisa que possa salvá-lo.

— N-Não! Eu acabei de voltar! Eu mereço essa vida! Eu... Eu mereço... — Sua voz vai sumindo enquanto é sugado para dentro do lago.

A caverna treme violentamente, o lago verde rodopiando como um furacão. Paulo desaba no chão, exausto. Jaime e Lívia correm para ajudá-lo a se levantar.

— Conseguimos? — Jaime pergunta, os olhos arregalados e a voz cheia de medo.

— Eu... acho que sim. — Paulo responde, sem ter certeza.

Mas enquanto eles tentam sair da caverna, algo começa a persegui-los. Algo que não deveriam ter deixado para trás.

A caverna continua a tremer, pedaços do teto caindo e rachaduras se espalhando pelas paredes. Paulo, Lívia e Jaime se arrastam pelo chão, tentando desesperadamente encontrar uma saída.

— Precisamos sair daqui, AGORA! — Grita Jaime, segurando Paulo pelo braço e praticamente o arrastando para fora.

— Espera... e o Ismael? — Pergunta Lívia, o desespero claro em seus olhos.

— Ele vai dar um jeito. — Diz Jaime com a voz forçada, tentando esconder o medo crescente.

Dentro da caverna, Ismael se apoia em uma rocha, respirando com dificuldade. Seus músculos doem, seu corpo todo é um só hematoma. Ele observa Neferat abraçar a irmã enquanto ambas desaparecem lentamente na escuridão.

— Eu só queria salvar ele... — A voz de Neferat é um sussurro cheio de dor e derrota. — Ele se foi. Aquela múmia não é ele.

— Eu sei... — Responde Ismael, a voz rouca, mas sincera. Ele assiste enquanto elas somem, abraçadas, suas figuras desaparecendo nas sombras.

Mas o tempo para lamentações é curto. Um som grotesco ecoa da direção do lago. Ismael se vira devagar, os olhos arregalados de puro terror.

A múmia sai das águas verdejantes, o corpo coberto de sujeira e restos do ritual fracassado. Sua cabeça, entretanto, é horrivelmente familiar. O rosto de Elias, deformado, mas inconfundível, os olhos brilhando com um ódio insano.

— Vocês... — A voz sai distorcida e quebradiça, como se o próprio ar lutasse para escapar por uma garganta apodrecida. — Vocês vão pagar por isso...

Paulo, Lívia e Jaime ouvem o rugido da coisa que um dia foi Elias e olham para trás aterrorizados.

— Não... Não pode ser... — Sussurra Paulo, o medo tomando conta de cada músculo.

— Temos que sair daqui! — Jaime berra, empurrando os outros adiante.

Mas a criatura avança com uma velocidade brutal, ignorando os escombros e a destruição ao seu redor. Cada passo é como um terremoto, sacudindo a caverna.

— ISMAEL! — Grita Lívia, tentando se virar para ver se ele ainda está atrás deles.

Ismael aparece mancando, o rosto pálido e ensanguentado, mas determinado.

— Andem! Eu seguro essa coisa! — Ele grita, os punhos cerrados e prontos para enfrentar o monstro.

— Você tá louco? — Paulo berra, tentando puxá-lo. — Aquilo... aquilo não é mais o Elias!

— Eu sei! — Responde Ismael, os olhos fixos na criatura que se aproxima. — Mas é o que sobrou dele. E eu vou fazer o possível pra mandar isso de volta pro inferno!

— Então eu vou com você. — Diz Jaime, empurrando Paulo e Lívia para fora. — Saiam daqui. Eu e Ismael vamos tentar segurar essa coisa o máximo que pudermos.

— Você é louco? — Paulo grita, a voz tremendo.

— Só... só vai logo, idiota. — Jaime responde, tentando sorrir, mesmo que seu rosto esteja pálido de medo.

Lívia hesita por um momento, o olhar fixo em Ismael. Ele sorri para ela, um sorriso cansado e triste.

— Eu prometi que ia voltar, lembra? — Diz ele. — Então vai. Se eu não voltar... bem, foi bom enquanto durou.

— Não fala isso... — Lívia sussurra, mas seus pés já a estão levando para fora da caverna.

Paulo e Lívia fogem, os ecos dos rugidos monstruosos e das vozes desesperadas de Jaime e Ismael ficando cada vez mais distantes.

O caos é absoluto. A caverna parece desmoronar por completo, e o monstro que um dia foi Elias avança como uma força imparável. Ismael e Jaime se posicionam para lutar, sabendo que não têm chances reais.

— É assim que acaba, hein, irmão? — Jaime fala, tentando soar corajoso, mesmo que a voz saia trêmula.

— Ah, para com essa merda de discurso heróico. — Responde Ismael, os olhos fixos na criatura que se aproxima. — Vamos só acabar com isso.

O monstro se aproxima, o som de seus passos ecoa como trovões. E então...

BANG!

Um tiro atravessa o ar e acerta o peito da coisa, fazendo-a dar um passo cambaleante para trás.

BANG! BANG!

Mais dois tiros, certeiros. O monstro solta um rugido bestial e se volta para a direção dos disparos. A poeira se ergue com o impacto dos projéteis, mas não esconde o homem que caminha calmamente, uma pistola fumegante na mão.

— Caramba, Elias. — A voz é baixa, rouca, e irônica. — Você ficou feio.

Ismael e Jaime olham para o homem de branco como se estivessem vendo um fantasma. O casaco branco dele está empoeirado, mas perfeitamente intacto. Sua expressão é de pura diversão, como se estivesse se divertindo com a cena macabra.

— Morte Branca... — Murmura Ismael, entre a surpresa e o pavor.

— Olha só, alguém me conhece. — O Morte Branca dá um sorriso perigoso. — E você, Elias? Aposto que também lembra de mim.

A criatura ruge e investe na direção dele com uma fúria cega.

— Sempre foi impulsivo, mesmo... — Diz Morte Branca, desviando com uma agilidade absurda e disparando mais três vezes nas costas da coisa.

O monstro cai de joelhos, o corpo retorcido em dor, mas ainda não derrotado.

— Como... como você tá aqui? — Jaime pergunta, a voz tremendo.

— Ah, eu tenho andado por aí. — Morte Branca responde com um encolher de ombros. — Estava só observando vocês se meterem nessa bagunça. Decidi que era hora de intervir quando vi meu velho amigo Elias se transformar nessa... coisa.

— Eu não chamaria de amizade. — Diz Ismael, tentando recuperar o fôlego.

— Nem eu. Mas eu deixo os sentimentos pessoais fora do trabalho. — Morte Branca dá um sorriso cortante.

Ele dispara mais uma vez e Elias-Múmia urra de dor, o som reverberando pela caverna.

— Então, qual o plano, galera? — Morte Branca pergunta casualmente, como se não houvesse uma aberração monstruosa lutando para se levantar a poucos metros deles.

Os tiros ecoam na caverna até que, finalmente, o monstro desaba no chão com um baque que parece sacudir todo o lugar. Os destroços param de cair, como se até o próprio caos tivesse prendido a respiração. A criatura que um dia foi Elias permanece imóvel, um corpo destroçado preso na forma de uma múmia horrenda.

O silêncio pesa enquanto Ismael e Jaime se recuperam, ofegantes, sujos de poeira e suor. Ismael encara Morte Branca, ainda sem acreditar que ele está ali.

— O que... o que foi isso? — Pergunta Jaime, tentando processar tudo.

— Isso, meu caro, foi um problema que vocês ajudaram a resolver. Então, obrigado por isso. — Morte Branca responde com aquele sorriso divertido e cortante de sempre.

Ele enfia a mão no bolso do casaco branco e retira um pequeno cartão preto, entregando-o a Ismael e Jaime.

— Aqui. Esse número é para emergências... sobrenaturais, digamos assim. — Ele fala enquanto ajeita o colarinho, com aquela tranquilidade irritante. — Ano passado foram vampiros, agora múmias. Vocês parecem ter um talento especial pra atrair esse tipo de coisa.

Ismael pega o cartão, olhando-o como se fosse radioativo.

— Green Hunter? Que porra é essa? — Pergunta Ismael, franzindo o cenho.

— Um grupo de caçadores especializados em limpar a bagunça que o mundo não quer reconhecer. — Morte Branca diz casualmente. — Eu só ajudo quando acho conveniente. Ou divertido.

— Isso é... isso é loucura. — Murmura Jaime, ainda tentando se recompor.

— Não mais do que o que vocês acabaram de ver. — Retruca Morte Branca com um sorriso irônico.

Ele leva a mão ao ouvido, acionando o rádio que está preso ali.

— Aqui é o Morte Branca. Green Hunter, podem vir. A criatura está desmaiada. Repito: a criatura está desmaiada.

O som de helicópteros se aproxima ao longe. Morte Branca olha uma última vez para Ismael e Jaime.

— Boa sorte, sobreviventes. Tenho certeza de que vamos nos encontrar novamente. Assim espero.

Com um último sorriso sombrio, ele se afasta em direção à saída, enquanto o som dos helicópteros fica cada vez mais alto. Ismael e Jaime trocam um olhar, ambos ainda tentando entender o que acabou de acontecer.

Os tiros ecoam na caverna até que, finalmente, o monstro desaba no chão com um baque que parece sacudir todo o lugar. Os destroços param de cair, como se até o próprio caos tivesse prendido a respiração. A criatura que um dia foi Elias permanece imóvel, um corpo destroçado preso na forma de uma múmia horrenda.

O silêncio pesa enquanto Ismael e Jaime se recuperam, ofegantes, sujos de poeira e suor. Ismael encara Morte Branca, ainda sem acreditar que ele está ali.

— O que... o que foi isso? — Pergunta Jaime, tentando processar tudo.

— Isso, meu caro, foi um problema que vocês ajudaram a resolver. Então, obrigado por isso. — Morte Branca responde com aquele sorriso divertido e cortante de sempre.

Ele enfia a mão no bolso do casaco branco e retira um pequeno cartão preto, entregando-o a Ismael e Jaime.

— Aqui. Esse número é para emergências... sobrenaturais, digamos assim. — Ele fala enquanto ajeita o colarinho, com aquela tranquilidade irritante. — Ano passado eu cuidei de vampiros. Este ano, múmias. E, pelo visto, o show nunca para.

Ismael pega o cartão, olhando-o como se fosse radioativo.

— Green Hunter? Que porra é essa? — Pergunta Ismael, franzindo o cenho.

— Um grupo de caçadores especializados em limpar a bagunça que o mundo não quer reconhecer. — Morte Branca diz casualmente. — Eu só ajudo quando acho conveniente. Ou divertido.

— Isso é... isso é loucura. — Murmura Jaime, ainda tentando se recompor.

— Não mais do que o que vocês acabaram de ver. — Retruca Morte Branca com um sorriso irônico.

Ele leva a mão ao ouvido, acionando o rádio que está preso ali.

— Aqui é o Morte Branca. Green Hunter, podem vir. A criatura está desmaiada. Repito: a criatura está desmaiada.

O som de helicópteros se aproxima ao longe. Morte Branca olha uma última vez para Ismael e Jaime.

— Boa sorte, sobreviventes. Tenho certeza de que vamos nos encontrar novamente. Assim espero.

Com um último sorriso sombrio, ele se afasta em direção à saída, enquanto o som dos helicópteros fica cada vez mais alto. Ismael e Jaime trocam um olhar, ambos ainda tentando entender o que acabou de acontecer.

Paulo está do lado de fora da caverna, com o corpo ainda dolorido e os nervos à flor da pele. O som dos helicópteros ecoa ao longe, e ele observa Morte Branca saindo com aquele jeito tranquilo e debochado. Paulo aperta os punhos, mas sabe que não é hora de se preocupar com ele.

Ele vê Jaime e Ismael saindo da caverna, ambos cambaleando, cobertos de poeira e arranhões. Ismael parece ainda pior, apoiando-se em Jaime para não desabar de vez.

— Caralho, vocês estão péssimos! — Paulo diz, correndo para ajudar.

— Olha quem fala... — Ismael tenta brincar, mas a dor na voz é evidente. — Você não tá tão melhor assim, cara.

— É, bom ponto. — Paulo diz, segurando Ismael pelo outro lado e ajudando Jaime a levá-lo até o jipe.

Lívia corre na direção deles, o rosto carregado de preocupação.

— O que aconteceu lá dentro? — Ela pergunta, os olhos indo de um para o outro.

— Longa história. — Responde Jaime. — Mas vamos dizer que o Elias não tá mais... disponível.

— É, vamos dizer assim. — Paulo completa com um tom sombrio, o olhar perdido na direção da caverna. — E pra deixar claro, Morte Branca tá por aí, brincando de herói de novo.

— Morte Branca? — Lívia arregala os olhos, o nome despertando algo nela. — Esse nome de novo...

— Pois é. — Ismael resmunga, ainda tentando processar o que aconteceu. — O maldito apareceu bem na hora pra salvar a gente. Não sei se foi sorte ou azar.

O grupo se amontoa no jipe, exaustos, machucados, mas vivos. Jaime assume o volante enquanto Paulo mantém Ismael estável no banco traseiro. Lívia fica olhando para o cartão que Ismael lhe entrega.

— Green Hunter... — Ela lê em voz alta. — Parece que tem mais coisa acontecendo do que a gente imaginava.

— Muito mais. — Responde Jaime. — E, de alguma forma, a gente acabou no meio disso tudo.

O motor do jipe ronca enquanto eles se afastam daquele pesadelo subterrâneo. Mas, no fundo, todos sabem que aquilo ainda não acabou.

Ismael está deitado na cama do hospital improvisado dentro da Área 51. Três dias se passaram desde o caos com a múmia e o sacrifício de Elias. Seu corpo dói e a cabeça parece pesada como chumbo.

Ele encara o teto branco e frio, tentando ignorar o som distante de passos militares ecoando pelos corredores. Quando a porta do quarto se abre, ele fecha os olhos e solta um grunhido impaciente.

— Eu não quero nada, só quero ficar sozinho! — Diz ele com raiva, sem olhar quem entrou.

— Nem euzinha? — A voz de Lívia é suave, mas com um toque de provocação que só ela tem.

Ismael abre um olho e a vê parada ali, com os braços cruzados e um sorriso cansado, mas sincero.

— Eu... — Ele hesita e suspira. — É, acho que você pode ficar.

Lívia se aproxima, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado da cama.

— Você tá péssimo. — Diz ela, analisando as bandagens e os hematomas espalhados pelo corpo de Ismael. — De novo.

— É, parece que eu não sei evitar me ferrar, né? — Ele sorri de canto, mas o humor é sombrio.

— Bom, dessa vez você quase morreu mesmo. — Ela diz, apertando a mão dele. — Eu achei que ia perder você lá embaixo.

— Eu também. — Ismael confessa, desviando o olhar. — Mas, Lívia, você precisa ouvir isso. A gente só conseguiu sair com vida por causa do... do Morte Branca.

— Eu ouvi algumas coisas. — Lívia estreita os olhos. — Parece que esse cara aparece em todo tipo de merda sobrenatural. Primeiro aqueles vampiros, agora múmias... É como se ele estivesse... caçando essas coisas.

— E ele tem algum tipo de acordo com o governo. Ou pelo menos com parte dele. — Ismael diz, tentando se ajeitar na cama e falhando. — Eu não confio nele, mas ele salvou a gente.

— Talvez seja alguém que podemos usar... ou talvez alguém que vá usar a gente. — Lívia comenta, o olhar perdido em pensamentos. — E o Paulo?

— Esse cara é teimoso. Tá por aí, tentando bancar o forte, mas ele também tá todo ferrado. — Ismael suspira. — Ele acha que é o único que sabe o que tá fazendo, mas claramente não é.

— E o Jaime?

— Tentando falar com o general la o general que saber dos egipcios . — Ismael responde. — Acho que eles sumiram tudo eu vir foi . Mais vamos deixar isso entre nos .

Lívia aperta a mão dele mais uma vez, dessa vez com mais força.

— Descansa. O mundo já tá uma bagunça sem você. Se você morrer, eu juro que vou até o inferno só pra te arrastar de volta.

Ismael ri, mas isso dói.

— Vou tentar não te dar esse trabalho.

Lívia dá uma risada suave enquanto gira a chave na fechadura e coloca no bolso.

— Como você conseguiu isso? — Ismael pergunta, surpreso e ainda meio grogue.

— Eu tenho meus truques. — Ela diz, piscando e apagando a luz do quarto. Caminha até ele, desliza para debaixo das cobertas e se ajeita ao lado dele.

Ismael sente o calor do corpo dela e o cheiro familiar que traz uma sensação inesperada de paz.

— Já, já estamos em casa. — Ela sussurra, segurando sua mão com firmeza.

Ele fecha os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, consegue relaxar um pouco.

Enquanto isso, em uma sala fria e impessoal da Área 51, Paulo e Jaime encaram o General Atkins. Um homem velho, rígido, com olhar severo e nada paciente. Na mesa à frente deles, um monte de papéis que já foram lidos e assinados.

— Então, é isso? — Pergunta Jaime, a voz carregada de irritação. — A gente só... assina e aceita ser escravo de vocês?

— "Escravo" é uma palavra forte, rapaz. — Diz o General, os olhos cravados nos dois. — É um acordo. Vocês receberam vinte milhões de dólares cada um. Dinheiro suficiente pra nunca mais precisar se preocupar com trabalho... Ou com dívidas.

Paulo bufa, mas mantém o olhar firme.

— E, claro, sempre que vocês precisarem da gente, temos que largar tudo e aparecer como bons cachorrinhos, né? — Paulo diz com sarcasmo.

O General dá um sorriso que não chega aos olhos.

— Considerem isso como... um investimento em pessoas qualificadas. Vocês se saíram muito bem nessa missão. Extremamente bem, aliás. Melhor do que esperávamos. Vocês têm habilidade, experiência e, principalmente, coragem. Não queremos desperdiçar isso.

Jaime assina o último papel com relutância e joga a caneta na mesa.

— Isso é loucura... Eu só quero voltar pra minha vida normal.

— Boa sorte com isso. — Diz o General com um tom gélido. — A vida normal de vocês acabou no momento em que decidiram se envolver com criaturas que nem deveriam existir.

Paulo assina o contrato e empurra os papéis para o General.

— Tanto faz. Só... não me liguem por um tempo, ok? Eu preciso de umas férias.

— Vocês terão o tempo necessário para se recuperarem. — Responde o General, recolhendo os papéis. — Mas lembrem-se, quando chamarmos, esperamos que apareçam.

Paulo e Jaime saem da sala, ambos em silêncio. Os passos ecoam pelos corredores enquanto processam o que acabaram de fazer.

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