Jaime e Lívia chegaram ao local coberto por árvores e vinhas retorcidas, aquele pedaço estranho de floresta que não deveria existir no meio do deserto. Lívia olhava ao redor, incomodada, enquanto Jaime parecia determinado.
— Netikerti! — gritou Jaime para o vazio, esperando que ela estivesse por perto. — É o Jaime! Preciso falar com você!
Silêncio. Lívia suspirou, impaciente.
— E você acha que ela vai só aparecer porque você gritou? — perguntou Lívia, cruzando os braços.
— Da última vez funcionou... — respondeu Jaime, olhando ao redor. — Netikerti! Nós precisamos falar com você! É importante!
Mais alguns segundos de silêncio absoluto, e então um farfalhar leve entre as folhas. Netikerti emergiu da escuridão, seu olhar atento e desconfiado. Atrás dela, dois homens com lanças rudimentares observavam com olhos ameaçadores.
— Vejo que voltou. E trouxe companhia. — disse Netikerti, analisando Lívia de cima a baixo.
— Essa é a Lívia. Nós estamos juntos nessa... nessa confusão. — Jaime parecia um pouco desconfortável, mas firme.
— Certo. Venham comigo. — Netikerti deu meia-volta, sem esperar resposta, e os levou por um caminho entre as árvores até uma caverna semi-submersa, o mesmo esconderijo de antes. O ar era úmido e denso, e o brilho verde das paredes tornava o lugar ainda mais surreal.
Netikerti se sentou sobre um banco de pedra e encarou os dois. — E então? Qual é o problema agora?
— É o nosso chefe, Elias. Ele... ele pegou a múmia. — Jaime disse, a voz pesada.
O olhar de Netikerti endureceu. — Como assim, pegou a múmia?
— Ele prendeu ela numa rede. Disse que ia torturar ela mais tarde. Acha que pode arrancar informações dela assim... — Jaime explicou, enquanto Lívia observava a reação de Netikerti.
Netikerti se levantou com um movimento rápido, a fúria evidente em seus olhos. — Esse idiota não faz ideia do que está fazendo. Se ele irritar minha irmã do jeito errado, tudo isso aqui... — ela apontou para a vegetação ao redor — ...pode virar poeira. Ou pior.
— É por isso que estamos aqui. — disse Jaime. — Precisamos da sua ajuda.
Lívia assentiu, finalmente entendendo a gravidade da situação. Netikerti estava certa. Eles estavam lidando com algo muito além do controle de Elias.
Elias estava em seu laboratório, mexendo em telas holográficas e rabiscando anotações freneticamente. Seu humor parecia melhor que o normal, quase eufórico. Paulo entrou, bebendo a garrafa que Elias lhe dera mais cedo, sentindo aquele gosto doce e viciante deslizar por sua garganta.
— Eu posso ver a múmia? — perguntou Paulo, tentando soar casual. — Sabe, o Ismael disse que isso pode ajudar a gente, enquanto ele tá lá procurando mais pistas.
Elias ergueu os olhos, surpreso por um momento, mas então sorriu de canto.
— Interessante... o piadista tá tentando trabalhar de verdade, hein? — Elias riu e apontou para uma porta do lado esquerdo. — Ela tá lá. Apagada, amarrada feito um salame. Cuidado pra ela não arrancar sua cabeça se acordar.
— Tranquilo. — Paulo tentou manter o tom leve enquanto andava até a porta, o corpo um pouco mais solto e relaxado do que o normal. A bebida realmente fazia efeito, acalmando os nervos e silenciando as vozes que costumavam assombrá-lo.
Ele abriu a porta e entrou na sala onde a múmia estava presa. Era um lugar frio e úmido, com correntes pesadas envolvendo o corpo da criatura. Seu rosto estava coberto de um tecido dourado gasto, mas ele podia ver parte da pele seca e cinzenta por baixo. Para alguém que deveria estar morto há séculos, ela parecia perigosamente viva.
— É... então é você que a gente tá tentando manter presa aqui. — Paulo falou baixinho, mais para si mesmo. Sentiu uma pontada de pena, mas logo afastou o pensamento. A voz de Jéssica, porém, sussurrou em seu ouvido:
— Paulo... ela não é o verdadeiro problema. Cuidado em quem você confia...
Ele piscou e olhou para os lados. Jéssica não estava ali, mas suas palavras ecoavam na mente dele. Ele precisava ser inteligente.
— Elias, valeu pela bebida. Acho que... vou descansar um pouco. — Paulo disse, saindo da sala e tentando soar o mais normal possível.
— Descansa mesmo. Amanhã vamos dar um jeito definitivo nessa bagunça. — Elias respondeu com um sorriso que Paulo não conseguiu interpretar.
Enquanto caminhava pelo corredor, uma sensação incômoda crescia em seu peito. Algo estava muito errado, e ele sabia que precisava fazer alguma coisa antes que fosse tarde demais.
Paulo se esgueirou pelo corredor escuro até a porta do laboratório. Ele sabia que Elias estava ocupado no rádio, falando com Jaime, e a irritação na voz do chefe era evidente.
— Como assim não conseguiram contato com ela? Vocês dois são inúteis! — Elias rugia, sua voz ecoando pelo sistema de comunicação da base. — Resolvam isso, e rápido!
Era a oportunidade perfeita. Paulo abriu a porta do laboratório com cuidado, o suor escorrendo pelo seu rosto. Ele sabia que estava fazendo uma loucura, mas algo dentro dele dizia que era a coisa certa a fazer.
A múmia estava lá, presa nas correntes, sua respiração pesada e lenta, mas presente. A pele escura e seca contrastava com o brilho metálico das algemas que a mantinham imóvel.
— Certo... — Paulo sussurrou, se aproximando. — Vamos tirar você daqui antes que aquele maluco resolva acabar com tudo de uma vez.
Ele começou a mexer nos cadeados e nas correntes, tentando encontrar uma forma de libertá-la. As mãos tremiam, o coração batia rápido. Mas não era só medo. Era adrenalina.
Até que...
— Perdeu alguma coisa, rapaz?
A voz fria de Elias cortou o ar como uma lâmina. Paulo congelou e virou lentamente o rosto para trás. Elias estava ali, parado na entrada da sala, os olhos brilhando de malícia e algo mais — satisfação. Como se já esperasse aquilo.
— Sabe, Paulo, eu sempre achei que você fosse um idiota... — Elias deu um passo à frente, o som de suas botas ecoando pelo piso de metal. — Mas um traidor? Isso foi inesperado.
Paulo tentou falar, mas sua garganta parecia apertada. As palavras fugiam, como se o ar tivesse se tornado pedra.
— O que você acha que está fazendo? — Elias continuou, seu sorriso se alargando. — Tentando libertar um monstro? Ou será que tá só querendo impressionar seus novos amiguinhos?
Paulo abriu a boca, tentando explicar, justificar... qualquer coisa. Mas a voz de Jéssica sussurrou novamente, dessa vez mais alta e mais clara:
— Cuidado, Paulo. Agora é você ou ele. Escolha.
Elias estendeu a mão para o bolso, e Paulo percebeu que não tinha muito tempo para reagir.
Paulo sentiu o peso esmagador da mão de Elias empurrando-o contra a parede. Seu pescoço queimava sob a pressão brutal dos dedos do homem, mas ele reuniu toda a força que tinha e avançou, suas mãos agarrando o pescoço de Elias com desespero.
— Filho da puta... — Paulo cuspiu, apertando com todas as forças.
Elias apenas riu. Uma risada fria, debochada. Ele era mais forte, mais treinado. Com um movimento rápido, Elias empurrou Paulo para trás e sacou uma arma, apontando-a diretamente para o peito dele.
— Você vai morrer, seu merda. E dessa vez, ninguém vai salvar você.
O olhar de Elias era mortal, o dedo já pressionando o gatilho.
— Que porra é essa? — A voz de Lívia explodiu pela sala como um trovão.
Jaime estava logo atrás, os olhos arregalados com a cena absurda diante dele. Elias vacilou por um instante, surpreso pela interrupção.
Paulo viu a distração e tentou avançar, mas seu corpo já estava enfraquecido pelo aperto sufocante de antes. Os joelhos cederam, e ele caiu no chão, desmaiando com o som abafado das vozes de Jaime e Lívia ecoando ao longe.
— O que você tá fazendo, Elias? — Jaime gritou, puxando a arma dele e afastando-o de Paulo.
— Mantendo esse traidor sob controle. — Elias retrucou, sua expressão voltando à frieza habitual. — Ele tava tentando soltar a múmia.
— E você ia matar ele por isso? — Lívia gritou de volta, empurrando Elias para longe de Paulo. — Tá maluco?!
Elias deu um sorriso amargo.
— Esse moleque é um problema. Se vocês não conseguem ver isso, o problema é de vocês.
Ele guardou a arma e saiu da sala sem olhar para trás.
Jaime se abaixou e colocou a mão no pescoço de Paulo, sentindo o pulso fraco, mas presente.
— Ele tá vivo. Mas precisamos cuidar disso.
Lívia olhou para a múmia, ainda presa e desacordada.
— O que diabos tá acontecendo aqui?
Os olhos de Paulo reviraram enquanto ele murmurava com dificuldade, as palavras escapando como um sussurro quebrado:
— Ismael... tá com a Neferat... vocês precisam... li...ber... múm... ia...
E então ele apagou, o corpo caindo mole no chão.
Lívia e Jaime se entreolharam, o choque evidente em seus rostos.
— Isso é péssimo. — Jaime murmurou, os olhos fixos em Paulo desacordado.
— E se for verdade? E se o Elias tá mentindo pra gente o tempo todo? — Lívia perguntou, a voz oscilando entre raiva e medo.
— Acha que ele ia deixar a gente entrar aqui se soubesse o que Paulo ia fazer? — Jaime respondeu. — Acho que Elias tá tão convencido do controle que ele pensa que pode manipular a gente sem problema.
— Mas e se ele já sabe que a gente tá do lado errado? — Lívia rebateu, os olhos se apertando.
— Se souber, a gente tá ferrado de qualquer jeito. — Jaime balançou a cabeça. — Mas Paulo tá certo. Precisamos liberar a múmia.
Lívia olhou para o corpo da múmia, presa e frágil, mas de alguma forma ainda aterrorizante.
— Só que se soltarmos ela, Elias vai vir atrás da gente. — Ela mordeu o lábio. — E não vai ser com um sermão, vai ser com balas.
Jaime olhou para o painel de controle do laboratório.
— Então vamos fazer isso rápido e desaparecer antes que ele perceba.
Lívia hesitou por um segundo antes de concordar com um aceno de cabeça. Eles precisavam agir agora.
Jaime apertou o último botão e as travas de contenção da múmia se abriram com um estalo metálico. A criatura caiu no chão com um baque seco, mas logo começou a se mover, os olhos vazios se enchendo de uma luz estranha.
— Conseguimos! — Jaime gritou, os olhos arregalados de adrenalina.
— Vamos tirar o Paulo daqui! — Lívia correu para o amigo caído e o ergueu sobre os ombros com dificuldade.
O grito de Elias ecoou pelo laboratório.
— SEUS MALDITOS! — Elias apareceu na entrada, o rosto contorcido de ódio, uma pistola firme nas mãos.
Ele apertou o gatilho e os tiros começaram a voar. Jaime e Lívia se abaixaram, a fumaça dos disparos preenchendo o ar.
— CORRE! — Jaime puxou Lívia enquanto eles se arrastavam para fora da sala. A múmia, agora totalmente desperta, se ergueu lentamente, os olhos fixos em Elias.
— Que merda... — Elias murmurou enquanto apontava a arma para a criatura.
Antes que pudesse atirar, a múmia se lançou contra ele com um rugido, derrubando-o no chão com força. O som dos ossos de Elias se quebrando ecoou pelo laboratório, seguido por um grito de dor desesperado.
Enquanto isso, do outro lado da base, Ismael estava preso, amarrado com grossas cordas a uma pedra fria e úmida.
Neferat estava sentada diante dele, os olhos faiscando de satisfação.
— Isso tudo é muito engraçado. — Ela sorriu, os lábios curvados em um sorriso cruel. — Seus amigos acham que podem me impedir. Que doce ilusão.
— Vai se ferrar. — Ismael cuspiu, tentando ignorar a dor que atravessava seu corpo.
— Você tem fogo. — Ela riu, um som quase musical. — É por isso que você é tão interessante. Diferente daqueles idiotas que seguem ordens cegamente.
Ismael se remexeu nas cordas, mas estavam apertadas demais.
— Sabe... Eu sempre espero as pessoas que gosto. Sou paciente. Mas quando me traem... — Os olhos de Neferat escureceram. — Elas merecem sofrer.
Ela se aproximou, os dedos frios roçando o rosto de Ismael.
— Mas não se preocupe. Vou garantir que você assista tudo desmoronar antes de te matar.
Neferat parou de sorrir de repente. Um arrepio gelado percorreu sua espinha, e por um momento, seus olhos se perderam no vazio.
— Não... Não pode ser. — Sua voz tremeu, e seus punhos se cerraram com tanta força que os dedos ficaram brancos.
— O que foi? Ficou com medo, porra? — Ismael zombou, mesmo sabendo que não estava em posição de desafiar ninguém.
Mas Neferat o ignorou completamente. Sua mente estava em outro lugar. Ela sabia. Ele estava livre. Seu amado havia despertado.
No laboratório, o caos reinava. Alarmes soavam como sirenes enlouquecidas, e luzes vermelhas piscavam furiosamente. Soldados passavam correndo de um lado para o outro, empunhando armas e gritando ordens.
Lívia e Jaime estavam quase na saída quando ouviram um estrondo vindo da sala principal. Jaime segurava Paulo nos braços, o rosto do amigo pálido e suado.
— Jaime... Lívia... — Paulo murmurava, ainda meio inconsciente. — Precisamos... pegar... Ismael.
— Calma, parceiro. A gente vai te tirar daqui primeiro. — Jaime respondeu ofegante, sentindo o peso do amigo aumentando a cada passo.
Lívia corria ao lado deles, o rosto pálido de preocupação e raiva.
— O que diabos está acontecendo?! — Ela gritou por cima do barulho dos alarmes.
— Elias tentou ferrar com a gente. De novo. — Jaime respondeu, cerrando os dentes. — Mas parece que deu ruim pra ele.
Eles ouviram um grito de dor e desespero ecoando pelos corredores. Era Elias. E a múmia havia levado ele.
— Meu Deus... — Lívia sussurrou. — Será que aquilo... aquilo matou o Elias?
— Se matou ou não, não é problema nosso agora. — Jaime respondeu. — Precisamos achar o Ismael e dar o fora daqui!
Eles correram pelos corredores iluminados por luzes vermelhas. Soldados armados olhavam para eles com olhares confusos, mas ninguém parecia disposto a parar para perguntar nada. A prioridade era o alarme.
— Jaime, vamos pegar o jipe e voltar para onde deixamos o Ismael. — Lívia disse com determinação. — Ele deve estar lá.
Jaime assentiu, o peso de Paulo ainda firme nos braços.
Enquanto eles corriam para fora da base, os alarmes ainda soavam e o caos se espalhava como fogo. E atrás deles, ecoando pelo corredor, vinha um som distante e aterrorizante:
Um rugido.
Jaime pisou fundo no acelerador assim que viu a irmã de Neferat — Netikerti — surgir com seus guerreiros. Eles estavam armados com lanças e espadas antigas, mas havia algo na forma como se moviam que deixava claro que eram extremamente perigosos.
— Subam agora! — Jaime gritou, os olhos arregalados enquanto acelerava o jipe.
Netikerti hesitou por um instante, observando aquela máquina moderna como se fosse algum tipo de fera desconhecida. Mas ela era esperta. Num movimento ágil, agarrou a lateral do jipe e se impulsionou para dentro com uma destreza impressionante.
— C-como você...?! — Jaime gaguejou, surpreso com a agilidade dela.
— Apenas vá! — Ela respondeu com um tom firme e autoritário. — Se vocês querem resgatar seu amigo, precisam de mim.
— Ok, foi mal... — Jaime tentou não demonstrar seu nervosismo, mas a presença dela tão próxima o deixava claramente desconcertado.
— E quem é você? — Lívia perguntou com a voz tensa, os olhos nunca deixando o rosto de Netikerti.
— Sou Netikerti. A irmã de Neferat. Agora dirijam, porque se demorarem muito, nem eu poderei ajudá-los.
— Certo... mas... onde tá o Paulo? — Jaime olhou pelo retrovisor e só viu poeira.
— SEU VELHO LIXO! — Paulo gritou lá de trás, se levantando do chão onde Jaime o tinha jogado sem o menor cuidado. — Espero que esse pneu fure e vocês se lasquem!
Ele correu até outro jipe abandonado e subiu nele, girando a chave com uma rapidez surpreendente. O motor rugiu para a vida.
— Vocês tão indo pra onde eu acho, né? — Paulo gritou de longe.
— Vai atrás da gente, idiota! — Jaime gritou de volta, o alívio evidente na voz.
— Certo, chefe. — Paulo murmurou consigo mesmo, acelerando o jipe e seguindo o rastro de poeira levantado pelo veículo de Jaime. Sua cabeça ainda girava um pouco, mas a adrenalina começava a assumir o controle.
— Tem certeza que ele sabe pra onde tá indo? — Netikerti perguntou, olhando para trás com uma expressão que misturava curiosidade e desconfiança.
— Ele vai nos encontrar. — Lívia respondeu, os olhos sérios. — Ele sempre encontra.
— Melhor assim. — Netikerti se acomodou no banco do jipe, os olhos fixos no caminho à frente. — Porque vamos precisar de toda a ajuda possível.
Ismael arregalou os olhos ao ver Elias sendo jogado no chão como se fosse um saco de ossos quebrados. O líder arrogante, sempre tão seguro de si, agora parecia um amontoado de dor e desespero. Seus braços e pernas estavam tortos em ângulos errados, o sangue escorria por cortes profundos, e o rosto que costumava carregar um sorriso cruel estava contorcido de agonia.
— Tá de boa aí, chefe? — Ismael perguntou com um sorriso nervoso e desafiador, mesmo que por dentro seu coração estivesse batendo como um tambor enlouquecido.
Elias só conseguiu emitir um gemido rouco, os olhos tentando focar em Ismael.
— Merda... tá horrível, hein? Parece que passou por debaixo de um caminhão... — Ismael continuou, tentando mascarar o medo com humor, como sempre fazia.
Neferat sorria ao ver seu amado de pé novamente. A múmia, ainda coberta por ataduras rasgadas, mantinha-se imponente ao lado dela, os olhos vazios brilhando com uma energia cruel e sobrenatural.
— Você voltou... — Neferat sussurrou com emoção genuína na voz, os olhos marejados enquanto olhava para o homem que, de alguma forma, havia retornado para ela. — E você trouxe o que eu pedi.
A múmia inclinou a cabeça lentamente, os movimentos rígidos, mas incrivelmente poderosos. Em seguida, ele olhou para Ismael como se avaliasse se aquele homem insignificante tinha algum valor.
— Ainda não acabou, Neferat. — A voz da múmia era como pedras sendo esmagadas, profunda e arranhada, como se usar palavras fosse algo quase esquecido.
— Não. — Neferat concordou, recuperando a postura altiva. — Ainda não. Mas em breve... nós ficaremos juntos para sempre.
Ela estendeu a mão e acariciou o rosto da múmia, num gesto de carinho que parecia terrivelmente fora de lugar diante de toda aquela cena macabra.
— E o que eu faço com esse? — Neferat apontou para Ismael, o olhar tão frio quanto a morte.
— Ele vai servir para o ritual. — A múmia respondeu sem hesitação.
Ismael tentou disfarçar o pânico, mesmo com os músculos tensos e os punhos cerrados.
— Olha, não que eu tenha medo de morte ou de múmia zumbi ou qualquer coisa do tipo... — Ele engoliu em seco. — Mas, porra, vocês tão levando essa história de amor eterno a um nível meio... tóxico, né?
Neferat apenas riu, um som quase encantador se não fosse tão carregado de loucura.
Lívia estava ao volante, as mãos apertando o volante do jipe enquanto dirigia com a máxima velocidade que podia suportar sem perder o controle. Sua mente era um turbilhão de pensamentos, imagens de Ismael amarrado e indefeso e a visão de Paulo desacordado momentos atrás. Se algo acontecesse com Ismael... não, ela não podia pensar nisso. Ela precisava se concentrar. Precisava salvá-lo.
No banco de trás, Paulo estava encostado e ainda grogue, enquanto Jaime mantinha a arma pronta, olhando ao redor como se esperasse que o próprio deserto fosse atacá-los. Ao lado dele, Netikerti parecia estranhamente calma, os olhos focados como se planejasse cada movimento a partir dali.
— Ainda tá de pé o plano de não confiar nesses chefes seus? — Jaime perguntou tentando aliviar a tensão.
— Agora mais do que nunca. — Paulo respondeu, finalmente recuperando parte do sarcasmo usual.
Enquanto isso, dentro da caverna...
Ismael sentiu o estômago afundar conforme as peças finalmente se encaixavam. Ele olhava para a múmia e para Neferat, os olhos arregalados.
— Então é isso, né? — Ismael sibilou, encarando Neferat. — Um corpo por um corpo. Você quer trazer ele de volta de verdade, mas a alma dele não pode ocupar um corpo todo destruído. Precisa de um novo... um saudável. E Elias é o escolhido.
— Brilhante. — Neferat bateu palmas devagar, com um sorriso que era quase encantador de tão cruel. — É, piadista. Finalmente acertou uma. Meu amor está preso entre o mundo dos vivos e dos mortos. Esse corpo que ele habita... não é o verdadeiro. Ele precisa de um receptáculo perfeito.
— E adivinha só... Elias acabou sendo o idiota sortudo. — Ismael riu, mas era um riso sem alegria, quase desesperado. — Mas você não entende, Neferat. Esse cara não é só um líder de merda... ele é o próprio diabo quando quer.
— Não me importa. — Neferat respondeu, a voz calma. — Desde que eu tenha ele de volta. Com ou sem sua cooperação.
A múmia se aproximou de Elias, que continuava desmaiado e respirando com dificuldade. Ismael viu o olhar vazio da criatura se fixar em Elias, como um animal faminto farejando um pedaço de carne fresca.
— É isso, então? — Ismael continuou falando, tentando manter a mente funcionando apesar do pavor crescente. — Você vai só trocar uma alma pela outra e pronto?
— Não é tão simples. — A múmia respondeu, a voz arrastada. — Mas é necessário. E não vai demorar.
— Merda. — Ismael sussurrou, lutando contra as amarras que prendiam seus braços. — Eu juro que vou quebrar vocês dois.
Lá fora, os motores dos jipes rugiam e o som se aproximava cada vez mais. Mas será que chegariam a tempo?
— Está tudo pronto, meu amor. — Neferat sussurrou, a voz cheia de devoção e loucura ao mesmo tempo.
Ela agarrou o corpo inerte de Elias e, sem hesitar, pulou com ele dentro do lago verde. A água fervia ao redor deles, bolhas subindo à superfície como se algo monstruoso estivesse acordando de um sono profundo.
A múmia observava de perto, os olhos brilhando com um propósito antigo, inabalável. A criatura ergueu os braços e começou a murmurar palavras em uma língua que Ismael jamais ouvira. Cada sílaba parecia pesar no ar, tornando o ambiente denso, quase impossível de respirar.
Ismael tentou gritar, tentar fazer algo, mas as amarras o seguravam firme. O terror nos olhos dele era absoluto.
Então, veio a explosão.
Uma luz verde intensa emanou do lago, explodindo em todas as direções. O choque foi tão forte que a caverna tremeu como se o próprio mundo estivesse ruindo. Ismael foi lançado para trás, batendo a cabeça na pedra com força.
A fumaça verde subiu, espessa e densa, espalhando-se pela caverna como uma neblina venenosa. Ismael tossiu, os olhos lacrimejando enquanto tentava enxergar o que diabos tinha acontecido.
Mas no meio daquela fumaça, ele viu uma silhueta... alta, ereta, e terrivelmente familiar.
— Meu amor... — A voz de Neferat veio abafada, mas cheia de alegria e desespero ao mesmo tempo.
A figura se moveu lentamente para fora da água, cada passo reverberando com poder e dor.
Algo terrível havia despertado.
Enquanto a fumaça verde se dissipava lentamente, Ismael lutava para manter a consciência. Sua visão turva captou a imagem de Neferat ajoelhada, os braços estendidos, os olhos transbordando lágrimas de pura euforia.
— Você voltou... Finalmente... — A voz dela tremia de emoção, como se todo o ódio e desespero de séculos fossem agora recompensados.
A figura emergiu completamente do lago. Elias não estava mais ali. O que quer que tivesse saído daquele ritual... era algo muito pior.
Os olhos da criatura brilharam em um tom dourado, um contraste ameaçador contra a escuridão ao redor. Uma presença antiga, avassaladora, que fazia cada osso do corpo de Ismael gritar por socorro.
— Neferat... — A voz era rouca, um trovão sussurrado que fez até a própria Neferat hesitar por um segundo. — O que você fez?
Ela tentou se aproximar, mas a criatura deu um passo para trás, como se algo estivesse errado, distorcido. O olhar dela passou da adoração para o pavor.
— Não... Não é possível... Não era pra ser assim...
Mas antes que ela pudesse reagir, a criatura ergueu uma mão e Neferat foi arremessada contra a parede com uma força brutal. Ismael gritou, mas o som saiu abafado pela dor e pelo terror.
A última coisa que ele viu antes de desmaiar foi aquela figura se aproximando lentamente, deixando pegadas verdes e brilhantes no chão de pedra.
Longe dali, Jaime, Lívia e Paulo dirigiam desesperadamente pelos desertos.
— Se o que Paulo disse é verdade, estamos indo direto para uma armadilha. — Disse Jaime, apertando o volante com força.
— Então vamos destruir essa armadilha. — Lívia respondeu, os olhos determinados e sombrios. — E vamos trazer Ismael de volta.
— E se Elias ainda estiver vivo? — Paulo perguntou, a voz cheia de hesitação.
— Então, ele vai pagar pelo que fez. — Lívia respondeu friamente.
A entrada para o covil estava à frente. Eles não faziam ideia do horror que os aguardava.
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Atualizado até capítulo 20
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