Os espelhos

Ismael respirava fundo, os olhos fixos no reflexo sombrio à sua frente, que assumia cada movimento seu de forma retorcida. A caverna parecia se estreitar ao redor dele, enquanto a sombra se expandia como uma força viva. O barulho que antes distorcia sua mente ainda estava ali, mas agora era diferente—ele parecia se misturar com sua própria respiração.

"Eu não sou mais sua marionete," murmurou Ismael, firme, como se estivesse confrontando algo que o perseguiu a vida inteira.

Lívia, ainda tremendo, observava de longe, os dedos trêmulos folheando o livro que Ismael havia escondido. As páginas estavam cheias de anotações frenéticas e símbolos estranhos. No centro de uma das páginas, havia um círculo marcado com a palavra "Sacrifício."

De repente, um sussurro sutil se espalhou pela caverna: "Apenas um pode sair..."

Na vila, Paulo e Jaime observavam Jessica, que agora avançava lentamente em direção a eles, os olhos sem alma fixos em Paulo.

"Jessica... o que fizeram com você?" perguntou Paulo, o peito apertado pela culpa e medo.

Jessica não respondeu. Em vez disso, seus movimentos se tornaram mais rápidos, e ela avançou para cima deles. Jaime sacou um pedaço de madeira de uma mesa quebrada e ficou ao lado de Paulo.

"Ela não é mais quem conhecemos," alertou Jaime.

Mas antes que pudessem agir, Jessica parou. Algo dentro dela parecia lutar para emergir. Seus olhos voltaram brevemente ao normal, cheios de lágrimas.

"Corram," ela sussurrou, antes de cair no chão convulsionando.

Nesse momento, o céu acima da vila se partiu, revelando uma luz escura e ameaçadora. Algo estava vindo.

Paulo e Jaime corriam pela vila com os corações acelerados, o som dos gritos de Jessica ecoando atrás deles. Cada passo parecia mais pesado, como se o chão estivesse puxando-os para baixo. Jaime olhou por cima do ombro, mas a escuridão já havia engolido Jessica.

"Aceitem a verdade e destruam os espelhos..." Paulo repetiu, o sussurro dela martelando em sua mente. "O que isso significa? O que ela sabia que a gente não sabe?"

"Ela estava tentando nos ajudar," Jaime disse, lutando para respirar. "Mas parece que é tarde demais pra ela."

De repente, o chão da vila começou a rachar, e espelhos surgiam do solo como dentes afiados. Eles refletiam o céu distorcido e mostravam versões sombrias de Paulo e Jaime em suas superfícies.

Paulo parou, encarando um dos espelhos. Sua imagem refletida o olhava com olhos vazios e sombrios. "Esses espelhos... eles são a chave, mas também a nossa prisão." Ele ergueu um pedaço de madeira e estilhaçou o vidro, que se despedaçou em milhares de fragmentos.

Mas, em vez de aliviar o peso da vila, uma energia sombria se espalhou pelo ar.

"Precisamos encontrar Ismael e Lívia," disse Jaime. "Se essa é a chave, a saída não vai ser fácil."

Os dois continuaram correndo, os gritos de Jessica ainda ecoando ao longe, como uma lembrança amarga do sacrifício que havia sido feito.

ismael encarava sua própria sombra, aquela figura distorcida que o olhava com olhos vazios e julgadores. A escuridão ao seu redor parecia viva, alimentando-se de suas dúvidas e medos. Mas, dessa vez, ele não desviou o olhar.

Ele deu um passo à frente, sem hesitar. "Eu finalmente entendi esse lugar," disse, sua voz ecoando pelo vazio. Ele olhou para Lívia, que o observava com preocupação, e um sorriso surgiu em seu rosto. "Esse lugar se alimenta das nossas dores, dos nossos arrependimentos... dos nossos segredos."

Ismael respirou fundo. "Eu me culpei por todos esses anos. Eu achava que tudo era minha responsabilidade, que as coisas que aconteceram comigo eram por minha causa. Mas não são. Não foi minha culpa que meus pais me odiassem. Eu não sou estranho. Eu sou uma pessoa boa. Magoei algumas pessoas, sim, mas eu nunca quis isso. E agora chega."

Sua voz ficou mais firme, mais determinada. "Eu não vou mais viver com essa dor. Eu vou sair daqui e ser feliz."

A sombra diante dele se agitou, como se as palavras de Ismael a ferissem. Ela tentou se erguer, mas quanto mais ele falava, mais fraca ficava. Finalmente, a sombra se dissipou em uma nuvem de poeira.

Lívia correu até ele e o abraçou com força. "Você fez isso," ela sussurrou, os olhos cheios de lágrimas. "Você enfrentou seu próprio medo."

Ismael olhou para ela, com um brilho de esperança nos olhos. "Agora só precisamos achar o caminho para fora."

De repente, uma luz suave surgiu à frente deles, iluminando uma porta no meio do vazio. Era o próximo passo — mas algo lhes dizia que o pior ainda estava por vir.

Ismael e Lívia pararam diante da porta de ferro. As duas luzes acesas ao lado da porta irradiavam uma luz quente e reconfortante. Era como se o próprio lugar estivesse reconhecendo que eles haviam superado suas dores e seus passados. Ismael olhou para as luzes com um misto de alívio e determinação.

"Essa luz... é nossa," disse ele, com a voz cheia de significado. "A gente conseguiu. Superamos nossos medos e arrependimentos."

Lívia apertou a mão de Ismael, seus olhos brilhando com uma mistura de emoção e alívio. "Você tem razão," disse ela, com um pequeno sorriso. "Mas isso ainda não acabou."

Ismael assentiu. "Ainda falta o Paulo e o Jaime. Eles precisam encontrar suas luzes também. Precisamos achá-los."

Com uma nova determinação, os dois giraram a maçaneta da porta de ferro. Ela rangeu ao se abrir, revelando um longo corredor iluminado por pequenas velas azuis. O ar ali era pesado, mas diferente — havia uma tensão crescente, como se algo ou alguém estivesse aguardando o próximo passo deles.

"Vamos buscá-los," disse Ismael, olhando para a frente com firmeza. "Ninguém vai ficar para trás."

Eles entraram juntos, prontos para encarar o próximo desafio — e talvez, finalmente, encontrar os outros.

Paulo e Jaime estavam agachados atrás de algumas rochas, tentando regular a respiração enquanto ainda processavam os últimos sussurros de Jessica e o que aquilo significava. Quando ouviram uma voz familiar chamá-los, Paulo arregalou os olhos.

"Ismael?" ele sussurrou, meio incrédulo.

Ismael e Lívia surgiram lentamente da penumbra, suas expressões sérias, mas aliviadas ao verem os amigos vivos. "Vocês estão bem?" perguntou Ismael, caminhando até eles.

Paulo assentiu. "Mais ou menos. Encontramos algumas... respostas. E algumas perguntas também." Ele olhou para Jaime, que estava claramente esgotado, mas ainda determinado.

Ismael respirou fundo antes de explicar: "Ouçam com atenção. Cada vez que nos aproximamos da saída, esse lugar começa a se desfazer. O que significa que estamos quase conseguindo. Mas não será fácil. Para sair daqui, vocês vão precisar superar o que está prendendo vocês."

Lívia completou: "Nós já passamos por isso. Encaramos nossos medos e arrependimentos. Agora, é a vez de vocês."

Paulo e Jaime se entreolharam. Paulo estava claramente em conflito, mas não podia mais ignorar a verdade. "Você acha que aquilo que Jessica disse sobre os espelhos e o destino... é real?" ele perguntou.

Ismael assentiu. "É um ciclo, mas não precisa ser o nosso fim. O único jeito de quebrá-lo é superar nossos próprios monstros. Vamos para a caverna."

Os quatro seguiram juntos para a entrada da caverna. A atmosfera era densa, quase sufocante, e o som das gotas d'água ecoava como sussurros assustadores.

Ismael parou antes da entrada e virou para os amigos. "Lá dentro, tudo o que vocês enterraram, tudo o que têm medo de encarar... vai surgir diante de vocês. Mas vocês não estarão sozinhos."

Jaime respirou fundo e deu um passo à frente. "Se isso é o que precisamos fazer, vamos acabar com isso de uma vez."

Paulo hesitou, olhando para o chão por um momento, antes de levantar a cabeça com determinação. "Eu não vou ser consumido por isso. Vamos sair daqui juntos."

Com isso, os dois passaram pela entrada da caverna. A escuridão os envolveu, e sons distorcidos e vozes familiares começaram a ecoar pelas paredes. O teste final estava prestes a começar.

Jaime caminhou pela caverna escura, mas dessa vez não era apenas o medo que o consumia — era a memória de seu passado. O ar ao seu redor começou a mudar, e a caverna tomou a forma de uma estrada sinuosa, com chuva caindo pesadamente e luzes de farol iluminando a escuridão.

Ele estava de volta à noite do acidente.

O som dos pneus derrapando invadiu sua mente, o grito de seu filho Miguel ecoando pelos céus. Jaime viu a si mesmo ao volante, tentando controlar o carro. Mas a estrada estava molhada, e em segundos tudo girou em câmera lenta: o carro saiu da pista, rolou pela margem e colidiu violentamente com uma árvore.

O som da batida reverberou ao redor da caverna, e Jaime viu Miguel deitado no banco de trás, inconsciente, o sangue manchando sua camiseta favorita. Jaime correu para o banco de trás em pânico, mas era tarde demais.

De repente, a cena congelou. A chuva parou no ar, as folhas deixaram de balançar, e a única coisa que se movia era Jaime, encarando a tragédia de frente.

"Você nunca foi forte o suficiente." A voz de Miguel surgiu atrás dele. Jaime se virou lentamente e viu seu filho parado ali, mas diferente. Miguel estava pálido, com olhos vazios e uma expressão cheia de dor e culpa.

"Foi minha culpa," Jaime disse, sentindo seu coração apertar. "Eu deveria ter te protegido. Se eu tivesse freado a tempo... se eu tivesse dirigido mais devagar..."

Miguel se aproximou, e a figura sombria sussurrou: "Você se escondeu atrás da culpa todos esses anos. É mais fácil se punir do que seguir em frente."

Jaime sentiu a dor e o peso de tudo acumulado. Mas dessa vez, algo dentro dele se acendeu. Ele fechou os olhos e se lembrou da última vez que Miguel lhe disse algo importante, uma lembrança gravada em seu coração.

"Papai, tudo vai ficar bem. Eu sei que você fez o melhor."

Os olhos de Jaime se abriram, e sua expressão mudou. Ele encarou a sombra de Miguel com determinação. "Você não é meu filho. O verdadeiro Miguel sabia que eu o amava, apesar de tudo. Ele nunca me culpou. E não vou deixar essa dor me consumir mais."

A sombra se contorceu e rugiu, mas Jaime permaneceu firme. "Eu não vou mais fugir."

Com essas palavras, a estrada desapareceu, e a sombra se desfez em pó. No lugar dela, havia uma luz brilhante iluminando a saída da caverna.

Jaime respirou fundo, sentindo o peso da culpa se dissipar. Ele deu um passo adiante, mais leve e livre do que jamais esteve.

Ele havia vencido seu passado. E agora, era hora de seguir em frente.

Paulo estava mergulhado na escuridão total, com apenas flashes intermitentes iluminando sua mente. Cada cena era uma facada no coração, revivendo as partes mais dolorosas de sua vida.

O primeiro flash trouxe a imagem de seu irmão gêmeo, Lucas. Ambos tinham apenas sete anos. Paulo se lembrava das risadas que compartilhavam, das brincadeiras e das aventuras que criavam juntos. Mas então veio a doença. Lucas ficou doente primeiro, e a febre alta nunca cedeu. Paulo se lembrava de sentir os mesmos sintomas logo depois. Ele se recuperou. Lucas, não.

"Eu deveria ter ficado doente por ele," Paulo murmurou. "Se eu tivesse pegado a doença antes, talvez ele ainda estivesse aqui." A culpa corroía seu peito, e ele mal conseguia respirar.

Outro flash iluminou a figura de sua mãe. Antes, ela era uma mulher forte, amorosa, sempre pronta para proteger os filhos. Mas depois da morte de Lucas, ela desabou. Paulo se lembrava de vê-la se perder em garrafas de álcool e remédios, tentando entorpecer a dor que não sabia como lidar.

"Eu te decepcionei, mãe..." As palavras de Paulo saíram em um sussurro. "Eu não consegui te ajudar."

Então veio a lembrança mais recente. O olhar de Jessica, frio e vazio. Traidora. Ela havia mentido para todos eles, arrastado-os para aquele pesadelo e os deixado à mercê do monstro. Mas por que, então, a culpa estava nele? Por que ele sentia que havia falhado?

A voz de Jessica ecoou pela escuridão. "Você deveria ter me salvado, Paulo. Você sabia que eu estava quebrada e mesmo assim me deixou para trás."

"Isso não é verdade!" Paulo gritou, mas a culpa dentro dele não cedia.

As sombras ao redor começaram a se mover, assumindo a forma de Lucas, sua mãe e Jessica, todos o encarando com expressões de julgamento.

"Vocês não são reais!" Paulo gritou. "Eu carrego essa culpa há tanto tempo porque eu achava que era minha obrigação consertar tudo. Mas não é. Eu fiz o que pude. E agora... agora eu preciso me perdoar."

O peso começou a diminuir. A sombra de Lucas foi a primeira a desaparecer, transformando-se em uma luz quente. A figura de sua mãe se desfez em poeira, e Paulo ouviu uma última frase suave: "Está tudo bem. Eu só queria que você fosse feliz."

Jessica foi a última a sumir. A escuridão se dissipou, e no lugar das sombras surgiu uma luz brilhante, idêntica à que Jaime tinha visto.

Paulo sentiu um alívio que nunca havia sentido antes. Ele havia enfrentado seus demônios internos e superado o peso da culpa.

Ele deu um passo à frente, pronto para se juntar aos outros e finalmente encontrar a saída.

Paulo e Jaime saíram da caverna, ofegantes e aliviados. A porta de ferro à frente deles começou a brilhar intensamente, tremendo como se algo imenso estivesse prestes a acontecer. Eles se entreolharam por um momento, sabendo que esse era o fim daquele pesadelo. Sem hesitar, os dois passaram pela porta juntos.

Uma luz ofuscante os engoliu, e tudo desapareceu.

Ismael acordou com um suspiro preso na garganta, seus olhos abrindo de repente. Estava deitado no chão frio de uma floresta, com galhos e folhas espalhados por seu corpo. Seu corpo doía como se tivesse sido jogado de uma grande altura. Ele se sentou devagar, esfregando os olhos enquanto tentava entender o que havia acontecido.

"Que lugar é esse...?" Ele olhou ao redor, tentando se orientar.

A floresta parecia misteriosa e silenciosa, mas algo nela era desconcertante. Ele sentia como se estivesse perto de casa e, ao mesmo tempo, longe de tudo o que conhecia. Decidido a sair dali, Ismael seguiu uma trilha de terra batida até encontrar a saída da floresta.

Ele emergiu em uma rua familiar, mas estranhamente diferente. Seu bairro, mas alterado de maneiras que ele não conseguia explicar. As casas estavam um pouco mais desgastadas, as lojas tinham placas diferentes e havia pessoas andando pela rua que ele não reconhecia. Algumas delas, para seu choque, eram rostos que ele conhecia – pessoas que ele havia desprezado ou odiado por anos.

Andando pela rua em estado de choque, seus olhos foram atraídos por um poste de luz. Um papel amarelado estava preso ali, com uma única palavra que fez seu coração parar por um segundo:

DESAPARECIDO.

Era uma foto dele, com a data marcada há meses.

De repente, uma voz ecoou de um rádio antigo em uma loja próxima.

"Três dos quatro desaparecidos de Nova Venécia foram encontrados vivos e já estão de volta com suas famílias. Apenas Ismael Gonçalves permanece desaparecido."

O coração de Ismael disparou. "Paulo, Jaime, Lívia... quem sao essas pessoas ?"

Ele começou a correr descontroladamente, procurando por respostas. Mas, antes que pudesse ir muito longe, dois policiais em patrulha o pararam, seus olhares cautelosos.

"Ei, você está perdido?" perguntou um dos policiais, observando Ismael de cima a baixo.

O segundo policial, que tinha um rádio preso no ombro, estreitou os olhos. "Espera aí... Ismael? É você?"

Ismael olhou para eles, confuso e esgotado. As palavras pareciam não fazer sentido em sua mente. Tudo girava.

"Quem...?" ele respondeu, sua voz soando tão vazia quanto ele se sentia por dentro.

O silêncio pesado entre eles foi cortado apenas pelo som de sirenes ao longe, que se aproximavam rapidamente. Algo maior estava acontecendo – algo que Ismael mal conseguia começar a entender.

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Comments

Syl Gonsalves

Syl Gonsalves

se for fácil, é armadilha

2025-03-11

1

Syl Gonsalves

Syl Gonsalves

eita, quando acho que entendi, fica mais maluco ainda

2025-03-11

1

Ver todos

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