O som do vento assobiava entre as casas de madeira desgastadas, trazendo consigo um cheiro de terra molhada e um frio incômodo. A primeira coisa que Ismael sentiu ao abrir os olhos foi a sensação estranha do solo duro e gelado sob seu corpo. O céu estava cinzento, pesado, como se uma tempestade estivesse prestes a cair.
Ele se sentou lentamente, a mente confusa. Onde estou?
Olhou ao redor. A vila parecia antiga, as ruas de terra eram estreitas, e as casas, pequenas e mal cuidadas. Algumas portas estavam entreabertas, e poucas pessoas caminhavam, mas nenhuma parecia perceber sua presença.
Seu coração acelerou. Como vim parar aqui?
Tentou se lembrar de algo, qualquer coisa. Seu nome veio fácil: Ismael. Ele sabia que tinha 24 anos e que não era uma pessoa sociável. Também lembrava que gostava de silêncio e que era péssimo para conversar. Mas qualquer outra coisa... um buraco negro. De onde eu vim? O que eu fazia antes disso? Nada.
Ele não estava sozinho.
Ali, na mesma rua de terra, quatro pessoas estavam despertando da mesma forma.
Lívia, uma jovem loira de corpo escultural, olhava ao redor com confusão e desconfiança. Sua expressão era um misto de medo e irritação, como se estivesse acostumada a ter o controle e agora tudo estivesse fora do lugar.
Paulo, um cara alto e atlético, passava as mãos pelos cabelos bagunçados, tentando processar a situação. Seu corpo parecia preparado para a ação, como se estivesse sempre pronto para correr ou lutar.
Jéssica, uma mulher alta, magra e de óculos, olhava fixamente para o chão, tentando organizar seus pensamentos. Seu rosto demonstrava inteligência, mas também nervosismo.
E então havia Jaime, um homem mais velho, perto dos 35 anos. Ele era o único que não parecia assustado. Pelo contrário, ele se levantou devagar, coçou a barba desgrenhada e riu sozinho, como se tivesse entendido algo que os outros ainda não tinham percebido.
— Pelo visto, não sou só eu. — murmurou Jaime, cruzando os braços.
Ismael estreitou os olhos para ele.
— O que quer dizer com isso?
Jaime deu um passo à frente e apontou para as casas. As poucas pessoas que andavam pela vila agora pareciam notá-los. Homens e mulheres com expressões calmas e acolhedoras, mas... algo estava errado. Seus olhos estavam errados. Havia um brilho estranho neles, como se soubessem de algo que os recém-chegados não sabiam.
— Eles estão agindo como se conhecessem a gente. — disse Jéssica, em um tom baixo.
— E se a gente já morou aqui? — sugeriu Paulo, tentando racionalizar.
Lívia balançou a cabeça, irritada.
— Isso não faz sentido. Eu sou modelo, influencer. Não moraria num lugar desses.
Uma mulher mais velha se aproximou, um sorriso gentil no rosto.
— Vocês estão bem? — perguntou, como se aquilo fosse completamente normal. — Vocês devem estar cansados da viagem... venham, vamos levá-los para casa.
Casa?
O grupo trocou olhares. Nenhum deles fazia ideia do que estava acontecendo, mas uma coisa era certa: eles precisavam descobrir logo... antes que fosse tarde demais.
Os olhos de Ismael se estreitaram para a mulher à sua frente. Ela parecia gentil demais, natural demais, como se realmente acreditasse que eles deveriam estar ali. Mas havia algo no jeito que ela os olhava – como se os conhecesse profundamente.
Ele não gostava disso.
— O que quer dizer com "casa"? — perguntou, a voz firme.
A mulher inclinou a cabeça, como se a pergunta fosse absurda.
— Ora, suas casas. Vocês sempre viveram aqui.
O grupo ficou em silêncio. O vento cortante passou por eles, fazendo um arrepio subir pela espinha de Lívia.
— Isso não faz sentido. Eu nunca estive aqui antes. — disse ela, cruzando os braços.
A mulher sorriu, mas havia algo desconfortável naquele sorriso.
— Oh, querida... Mas é claro que esteve. Todos vocês sempre estiveram.
Jaime riu de forma seca.
— Que belo teatro. Se eu sou daqui, então me diga... o que eu fazia antes?
A mulher piscou algumas vezes, parecendo surpresa com a pergunta. Mas, antes que ela pudesse responder, outra voz surgiu.
— Vocês estão fazendo perguntas erradas.
O grupo virou-se para ver um homem idoso, sentado em uma cadeira de balanço na varanda de uma das casas. Seus olhos eram profundos, carregados de algo que parecia... pena. Não importa o que vocês faziam. O que importa é por que voltaram.
As palavras dele caíram pesadas sobre os cinco.
Voltaram?
Eles nunca estiveram ali. Certo?
Fragmentos do Passado
O choque das palavras do velho despertou algo em cada um deles. Pequenos flashes de memórias desconexas começaram a surgir, como se algo estivesse tentando emergir do fundo de suas mentes.
🔥 Ismael viu um quarto escuro. O cheiro de cigarro no ar. Ele se lembrou de estar sozinho, trancado ali, ouvindo vozes do lado de fora. Pessoas discutindo. Seu pai, talvez? Ou era outra pessoa? Algo dentro dele dizia que ele merecia estar ali. Mas por quê?
🔥 Lívia se viu em um palco, luzes piscando, câmeras ao redor. Sorrisos falsos, vozes elogiando sua beleza. Mas então, algo quebrou o encanto – um telefone tocando, uma mensagem na tela. O rosto dela se contorceu de pânico. Uma mentira descoberta. Um segredo exposto.
🔥 Paulo sentiu o peso do corpo caindo no chão. Uma quadra de esportes. Alguém gritava seu nome, mas ele não conseguia se levantar. A dor era insuportável, mas não tanto quanto a voz na sua cabeça: "Você falhou. Seu sonho acabou."
🔥 Jéssica viu um livro ensanguentado. Estava em uma biblioteca, as mãos tremendo. O som de passos apressados ecoava pelo local. Alguém corria. Alguém fugia. Mas de quem? Ou do quê?
🔥 Jaime... bom, Jaime apenas riu. Porque ele se lembrava. E talvez, só talvez, ele já soubesse a verdade.
Os cinco voltaram ao presente, as memórias se dissolvendo como fumaça. Mas uma sensação ficou: culpa.
Todos carregavam algo dentro de si. Algo que os trouxe para aquela vila.
— Por que voltamos? — murmurou Jéssica, a voz vacilante.
O velho na cadeira de balanço suspirou.
— Porque ninguém pode fugir para sempre.
Silêncio. O peso daquelas palavras era sufocante.
Ismael respirou fundo e olhou para os outros. Ele não confiava naquelas pessoas. Mas, de uma coisa ele tinha certeza: eles precisavam descobrir a verdade.
E, para isso, talvez tivessem que encarar os segredos que tentavam esquecer.
O silêncio entre eles durou alguns instantes. Nenhum queria admitir, mas aquelas palavras do velho pareciam ecoar em suas mentes.
"Por que voltamos?"
Eles seguiram para dentro da casa, ainda relutantes, mas sabiam que precisavam conversar. A sala de estar era simples, com móveis de madeira envelhecidos e uma lareira acesa, como se já esperassem por eles. Cada um se acomodou como pôde.
Jaime se jogou em uma poltrona velha, ainda com a garrafa de bebida em mãos. Ismael ficou encostado na parede, de braços cruzados. Lívia olhava ao redor, desconfiada. Paulo sentou-se no sofá, enquanto Jéssica ajeitou os óculos e começou a andar de um lado para o outro, inquieta.
— Precisamos descobrir se existe alguma conexão entre nós. — disse Jéssica, quebrando o silêncio.
— Eu não conheço nenhum de vocês. — retrucou Ismael, a voz seca.
— Isso é óbvio. — Lívia cruzou os braços. — Mas e se já tivermos nos encontrado antes? Algum lugar, algum evento... qualquer coisa.
— Ou pode ser algo além disso. — disse Paulo, pensativo. — Talvez algo que todos nós tenhamos em comum.
Eles começaram a listar fragmentos de suas memórias. Aos poucos, padrões começaram a surgir.
🔥 Lívia e Ismael
Lívia franziu a testa enquanto encarava Ismael.
— Espera aí... Você estudou na Escola St. Charles?
Ismael estreitou os olhos.
— Sim.
— Merda... — Lívia passou a mão pelos cabelos loiros. — Eu lembro de você. Você era o garoto esquisito da minha turma do ensino médio.
Ismael revirou os olhos, mas permaneceu em silêncio.
— Eu nunca falei com você. Você sempre ficava sozinho... — ela hesitou. — Até aquele dia.
Um frio percorreu a espinha de Ismael. Ele sabia do que ela estava falando. O dia em que algo aconteceu na escola. Algo que ele tentou esquecer.
🔥 Paulo e Jéssica
— Jéssica, seu nome não me é estranho. — disse Paulo, pensativo.
Jéssica parou de andar.
— Você costumava ir à biblioteca universitária, não é? Eu trabalhava lá.
Os olhos de Paulo se arregalaram.
— É isso! Eu ia lá direto. Você sempre me ajudava com livros sobre fisioterapia esportiva.
Jéssica assentiu, mas algo em sua expressão indicava que havia mais. Algo que ela não queria lembrar.
🔥 Jaime... e o horror começa
Jaime se mantinha calado, observando tudo de longe, com a mão tremendo sobre a garrafa.
— E você, Jaime? — perguntou Paulo. — Tem alguma lembrança nossa?
Jaime não respondeu de imediato. Seu olhar estava distante, perdido no fogo da lareira. Mas então, sua respiração começou a acelerar.
— Não... não pode ser. — murmurou, o rosto ficando pálido.
Jéssica franziu a testa.
— O que foi?
Jaime começou a suar, as mãos apertando os braços da poltrona.
— Ele está aqui... — sua voz falhou.
Os outros se entreolharam, confusos.
— Quem? — perguntou Ismael.
Jaime levantou o olhar e apontou para a entrada da sala.
Todos viraram o rosto na mesma direção.
E viram.
Um garoto estava ali. Pequeno, vestindo roupas infantis, os olhos grandes e escuros.
O coração de Jaime quase parou.
— Meu filho... — ele sussurrou, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Mas todos sabiam que aquilo não era possível. Porque o filho de Jaime estava morto.
E, ainda assim, ali estava ele.
Sorrindo.
— Papai... Por que me deixou sozinho?
Jaime começou a ofegar, os olhos arregalados, as mãos tremendo violentamente.
— Não... não... você não pode estar aqui. — a voz dele saiu embargada.
O menino sorriu. Mas não era um sorriso normal.
— Papai... Por que me deixou sozinho?
Os outros se afastaram instintivamente. Lívia cobriu a boca com as mãos. Paulo deu um passo à frente, tentando entender o que estava acontecendo.
— Isso... isso não é real. — murmurou Jéssica.
Jaime, por outro lado, não conseguia desviar o olhar. Lágrimas escorriam por seu rosto sujo. Seu corpo inteiro tremia. Ele tentou se levantar, mas suas pernas fraquejaram, e ele caiu de joelhos no chão.
— Eu não queria... eu não queria perder você... — sua voz era uma mistura de desespero e culpa.
O garoto inclinou a cabeça para o lado, ainda sorrindo.
— Então por que deixou?
Jaime sufocou um soluço. Flashbacks começaram a invadir sua mente.
🔥 FLASHBACK DE JAIME 🔥
Ele estava dirigindo. O rádio tocava uma música qualquer. No banco de trás, seu filho cantava. Uma risada inocente. Ele era tão feliz.
Mas então, um barulho de pneus cantando. Uma curva mal calculada. O som ensurdecedor de metal se retorcendo.
E então... silêncio.
Jaime se viu rastejando pelo asfalto, sangue escorrendo da testa. Seu carro estava tombado na estrada.
Seu filho estava dentro.
Ele tentou abrir a porta, tentou tirá-lo de lá. Mas então, as chamas começaram.
Os gritos do menino... ainda ecoavam.
🔥 DE VOLTA AO PRESENTE 🔥
Jaime agarrou a própria cabeça, desesperado.
— Eu tentei... — ele repetia, a voz falhando. — Eu tentei salvar você...
Mas o menino apenas sorriu, inclinando-se para ele.
— Tarde demais, papai.
🔥 Enquanto isso... 🔥
Na cozinha, Paulo e Jéssica tentavam se recompor. O cômodo era rústico, com móveis de madeira escura e uma lareira apagada. Algumas panelas velhas estavam espalhadas, como se alguém já tivesse vivido ali.
Paulo suspirou, apoiando-se no balcão.
— Isso está piorando.
Jéssica ajeitou os óculos, tentando ignorar os gritos de Jaime na outra sala.
— Isso nunca foi normal. Estamos em um lugar que não faz sentido. Cercados por pessoas que fingem nos conhecer.
— E agora... fantasmas? — Paulo murmurou.
Eles se encararam, sentindo um peso esmagador no peito.
— Acha que estamos mortos? — Jéssica perguntou baixinho.
Paulo hesitou. A ideia não parecia mais tão absurda.
🔥 Enquanto isso... Ismael. 🔥
Ele permanecia encostado na parede, observando tudo. O caos ao redor não o afetava tanto quanto deveria. Na verdade, ele estava mergulhado em outro pensamento.
A conexão entre ele e Lívia.
Ela não lembrava, mas ele sim.
O ensino médio. O baile de formatura.
Todos tinham um par... menos ele.
Ele ficou no canto, sozinho, segurando um copo de ponche aguado. Tentou ignorar os olhares de pena. Até que Lívia e as amigas começaram a rir.
Não foi apenas um riso qualquer. Foi o tipo de riso que destrói uma pessoa por dentro.
E, naquela noite, ele jurou se vingar.
Foi assim que espalhou o boato.
A história de que Lívia e um atleta fizeram algo vergonhoso no banheiro. Uma mentira que arruinou a reputação dela por um tempo.
Agora, anos depois, ela nem suspeitava que fora ele.
Ismael sentiu um frio na espinha. Por que ele e Lívia estavam ali?
Será que isso fazia parte de sua culpa?
Antes que pudesse refletir mais, os gritos de Jaime ficaram mais altos.
E então... o menino desapareceu.
🔥 Final do capítulo 1. 🔥
O sol mal havia nascido quando Ismael abriu a porta da casa e deu seu primeiro passo para fora. O ar da vila era estranho, pesado, como se algo estivesse errado, mas ninguém conseguia explicar exatamente o quê. O chão de terra batida, as casas rústicas e as ruas vazias transmitiam uma sensação de isolamento sufocante.
Ele passou os olhos pelo cenário. Nada ali fazia sentido. Ele não lembrava de ter vindo para esse lugar. Não lembrava de conhecer aquelas pessoas. Mas o pior de tudo era a forma como os moradores o tratavam – como se ele sempre tivesse feito parte dali.
Ismael respirou fundo, seus olhos analisando cada detalhe da vila. Seu semblante era frio, quase inexpressivo. Mas por dentro, sua mente fervilhava. Ele não era burro. Algo estava muito errado ali.
De repente, um estalo. Uma memória antiga, quase esquecida, invadiu sua mente.
Ele estava de volta ao colégio. O ginásio estava lotado, luzes coloridas piscavam, casais dançavam no meio do salão. Baile de formatura.
Ismael, de pé, encostado na parede, segurava um copo de ponche enquanto observava os colegas rindo, conversando, se divertindo. Ele estava sozinho. O único sem par. No outro lado do salão, Lívia e um grupo de amigas riam. Ele sabia que estavam rindo dele. Sabia exatamente o porquê. Elas achavam patético que ele tivesse ido sozinho.
E foi naquela noite que ele inventou o boato sobre Lívia e um atleta no banheiro. Uma mentira simples, mas suja o suficiente para estragar a reputação dela por um tempo.
Ele piscou, voltando à realidade.
E então, Lívia apareceu.
— Bom dia pra você também, emo misterioso — disse ela, com um sorriso irônico, cruzando os braços.
Ismael não respondeu. Apenas a encarou. Lívia era exatamente como ele lembrava: loira, linda e insuportavelmente convencida. Seu tom de voz carregava aquela superioridade irritante, como se estivesse acima de tudo e todos.
— Vai ficar me encarando assim por quê? Tá apaixonado ou tá tentando me matar com os olhos?
Ismael continuou calado, apenas desviando o olhar para a vila ao redor.
— Nossa, cara, que simpatia. — Lívia bufou. — E aí? Alguma ideia de onde estamos?
Ele continuou sério. Finalmente respondeu, mas sua voz saiu baixa e fria: — Nenhuma.
Lívia revirou os olhos.
— Beleza, Sherlock, valeu pela ajuda. — Ela cruzou os braços. — Eu só queria acordar desse pesadelo. Esse lugar me dá arrepios. E aqueles moradores... Sei lá, eles olham pra gente como se nos conhecessem.
Ismael permaneceu imóvel. A mesma sensação estava incomodando ele desde o momento em que acordou. Mas, diferente de Lívia, ele não demonstrava. Lívia estava prestes a responder, provavelmente com alguma provocação ainda mais ácida, quando foram interrompidos por Paulo e Jéssica.
Os dois pareciam mais despertos do que o resto do grupo. Era óbvio que passaram a noite conversando, provavelmente tentando entender aquele lugar. Jéssica ajeitou os óculos no rosto e suspirou.
— Bom, já que estamos todos acordados, acho que deveríamos nos dividir para explorar essa vila — disse ela.
— Concordo — completou Paulo, cruzando os braços. — Eu e Jéssica vamos seguir por um lado, vocês dois podem ver o outro. Quanto mais rápido descobrirmos onde estamos, melhor.
Ismael franziu o cenho na mesma hora.
Ele, com Lívia?
Sem chance.
Ele simplesmente se virou e começou a andar para longe.
— Eu vou sozinho.
Paulo arqueou uma sobrancelha.
— Sério?
Ismael nem respondeu. Apenas continuou andando, deixando-os para trás.
Lívia riu, balançando a cabeça.
— Nossa, que sociável.
Quando ele já estava a alguns metros de distância, ele se virou por um breve momento e lançou uma última provocação para Lívia:
— Boa sorte com o bêbado do sofá, princesa.
Ele deu uma risadinha baixa antes de desaparecer pelo caminho. Lívia bufou.
— Filho da...
Jéssica segurou o riso.
— Bom, acho que nós três ficamos juntos então.
Paulo suspirou, colocando as mãos no bolso.
— Parece que sim. Vamos dar uma olhada na vila.
Lívia revirou os olhos, ainda irritada, mas seguiu com eles. Paulo, Jéssica e Lívia caminharam pela vila silenciosa. O lugar parecia parado no tempo, com suas ruas de terra, casas simples de madeira e um silêncio perturbador. Os poucos moradores que avistavam espiavam de longe, com olhares curiosos e... familiares demais.
Paulo caminhava na frente, distraído, seus pensamentos longe. Ele sentia que já tinha estado ali antes. Era como se os próprios passos já soubessem o caminho.
E então, ele viu.
Um campo de futebol.
Paulo parou abruptamente. Seu coração disparou, e um frio percorreu sua espinha.
Ele reconhecia aquele campo. Era o mesmo do seu antigo bairro. O mesmo que havia sido destruído três anos atrás, quando a prefeitura construiu um conjunto habitacional no lugar. Não era possível.
Seus pés se moveram sozinhos até o campo.
A grama desgastada, as traves enferrujadas, até mesmo os buracos na rede... Era idêntico.
Foi quando ele viu alguém ali.
Uma pessoa estava no meio do campo, de costas.
Paulo sentiu o estômago revirar.
Aquela silhueta... Ele conhecia.
— Não... Não pode ser...
O suor frio escorreu por sua testa. O ar parecia faltar. Seu peito começou a apertar. Suas mãos tremeram.
Ele estava tendo uma crise de pânico.
— Paulo! — A voz de Jéssica o trouxe de volta. Ela correu até ele, percebendo seu estado. — Respira! O que foi?
— Aquele cara... Eu conheço ele. Mas ele... Ele não pode estar aqui.
Jéssica olhou para o campo. Não havia ninguém.
— Paulo, não tem ninguém ali.
Os olhos dele estavam arregalados.
— Ele tava ali. Eu juro!
Enquanto isso, Lívia ficou para trás.
Ela cruzou os braços, impaciente.
— Ótimo. Agora eu sou a babá dos dois.
Ela revirou os olhos e se afastou um pouco, olhando ao redor.
Foi quando ouviu um barulho vindo de uma lixeira próxima.
Ela se virou bruscamente.
Algo se mexeu ali dentro.
E, naquele mesmo instante, o telefone dela tocou.
O celular, que não tinha sinal desde que acordaram ali, agora estava vibrando freneticamente.
Na tela, um número desconhecido.
Lívia sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Lívia sentiu o coração acelerar enquanto olhava para o telefone vibrando em sua mão. Aquele número desconhecido... Como era possível? Nenhum deles tinha sinal desde que chegaram ali.
Hesitante, ela atendeu.
— Alo...?
Por um instante, houve silêncio.
Então, uma voz distorcida e baixa falou:
— É melhor você prestar atenção em quem está dormindo na mesma casa que você.
Lívia sentiu um arrepio subir por sua espinha.
Uma risada ecoou ao fundo.
Ela engoliu em seco.
— Quem é você?!
Mas a ligação caiu.
Ela olhou ao redor, sentindo-se observada.
Seu coração disparava, mas ela tentou manter a pose.
— Ótimo, agora tem gente maluca brincando comigo...
Mas, no fundo, ela sabia que aquilo não era brincadeira.
— Enquanto isso, Ismael caminhava pela vila em silêncio, seus pensamentos ecoando no vazio.
O lugar era estranho. Muito estranho. Algo ali estava errado.
Foi quando ele viu aquela casa.
Seu corpo parou automaticamente.
Seus olhos se fixaram na estrutura.
Era igual à casa onde ele morava na vida real.
Idêntica.
Cada detalhe.
O peito dele subiu e desceu devagar. Ele sentiu um aperto no estômago.
Sem pensar duas vezes, ele pulou o muro e entrou.
Lá dentro, tudo parecia familiar.
Ele andou pelos cômodos, sentindo a estranheza aumentar. Então, ele viu uma prateleira cheia de fotos.
Fotos de pessoas que ele não reconhecia.
Sem paciência, ele empurrou a prateleira.
Os quadros caíram e se quebraram no chão.
Ismael ignorou e continuou andando.
Foi até uma porta nos fundos.
Era a entrada do porão.
Ele respirou fundo e abriu.
O mesmo cheiro abafado. O mesmo ar denso.
Desceu os degraus. Aquele era o lugar onde, na vida real, ele passava a maior parte do tempo.
Mas aqui... algo estava diferente.
No fundo do porão, havia um computador.
Ele se aproximou e ligou a tela.
Só um único aplicativo podia ser aberto.
Sem alternativas, ele clicou. Enquanto isso, Paulo estava ajoelhado no chão, tremendo.
Jéssica estava ao seu lado, tentando acalmá-lo.
— Paulo, respira! Quem você viu?
Ele olhava para a árvore, o rosto pálido.
— Meu irmão.
Jéssica franziu a testa.
— Seu irmão? Ele... Ele mora aqui?
Paulo negou com a cabeça.
— Não. Ele morreu.
Os olhos de Jéssica se arregalaram.
Paulo respirou fundo, tentando manter o controle.
— Ele ficou muito doente. E foi minha culpa.
A voz dele falhava. Ele sabia o que tinha feito.
E agora, seu irmão estava ali.
Olhando para ele.
Como se nunca tivesse partido. A noite já havia caído quando Paulo, Jéssica e Lívia voltaram pela estrada deserta rumo à casa. O silêncio entre eles era pesado. Cada um estava preso em seus próprios pensamentos.
Paulo ainda sentia o peito apertado. A visão do irmão continuava ecoando na sua mente. Jéssica caminhava ao lado dele, analisando cada detalhe ao redor, tentando racionalizar tudo que estavam vivendo.
Já Lívia? Ela segurava o telefone nas mãos, lembrando daquela ligação misteriosa.
Foi quando eles viram a casa.
Pararam.
— Que porra...? — murmurou Paulo.
A casa estava destruída.
A porta escancarada, cadeiras viradas, vidros quebrados pelo chão.
Lívia deu um passo para trás.
— Isso não tava assim quando saímos.
Jéssica sentiu o coração acelerar.
— Alguém entrou aqui?
Paulo cerrou os punhos e subiu os degraus da varanda, empurrando a porta com força. O chão estava coberto de cacos e móveis revirados.
Foi então que eles viram Jaime.
Ele estava amarrado a uma cadeira no meio da sala.
Completamente desacordado.
Jéssica arregalou os olhos.
— MEU DEUS!
Foi quando uma voz calma e irritantemente sarcástica veio do sofá.
— Ah, finalmente chegaram. Tava começando a achar que tinham morrido por aí.
Ismael estava deitado no sofá.
Braço jogado sobre o rosto, como se não se importasse com nada.
Lívia sentiu o sangue ferver.
— Ismael?! O que diabos aconteceu aqui?!
Ele riu.
Uma risada curta, sem emoção.
— O vovô aqui teve um surto.
Paulo deu um passo à frente.
— Como assim?!
Ismael sentou-se devagar, apoiando um braço no encosto do sofá. Seu olhar era frio.
— Quando eu cheguei, ele tava destruindo tudo. Jogando as cadeiras, quebrando as janelas, gritando como um louco.
Ele apontou com o queixo para Jaime.
— Tive que dar um jeito.
Jéssica cobriu a boca com as mãos.
— Você o AMARROU?!
Ismael apenas deu de ombros.
— Prefere que eu tivesse deixado ele continuar? Quem sabe ele teria colocado fogo na casa.
Lívia cruzou os braços.
— Você sempre tem essa mania de agir como se fosse dono da razão, né?
Ismael deu um sorriso de canto.
— E eu estou errado?
Silêncio.
Paulo olhou para Jaime. O homem parecia exausto. Seu rosto suado, a respiração irregular.
— A gente precisa soltá-lo.
— Vai em frente. — respondeu Ismael. — Mas se ele surtar de novo, não vem chorar pra mim.
Jéssica hesitou. Olhou para os outros.
Paulo se abaixou, tocando o ombro de Jaime.
— Ei, cara...
Jaime mexeu a cabeça, murmurando algo inaudível.
Lívia franziu o cenho.
— O que ele tá falando?
Todos se inclinaram.
Jaime continuava murmurando...
Palavras soltas.
— Ele está aqui...
— Não pode ser...
— Eu... eu vi...
Seus olhos se abriram de repente.
E ele gritou. Paulo hesitou por um momento, mas então se abaixou e desamarrou Jaime.
As cordas caíram no chão.
Jaime respirou fundo e começou a chorar.
Seus ombros tremiam, os soluços pesados, como se toda a dor que carregava estivesse desmoronando ali.
Jéssica deu um passo à frente, a voz suave:
— Eu vou pegar um pouco de água pra ele.
Ela foi até a cozinha, pisando nos cacos de vidro espalhados.
Paulo ficou ao lado de Jaime, tentando entender o que estava acontecendo na cabeça dele.
Mas Jaime só chorava.
Enquanto isso, Ismael observava tudo de longe.
Ele suspirou, entediado.
— Bem, isso foi um espetáculo e tanto.
Ele se levantou do sofá, esticando os braços como se nada daquilo fosse grande coisa.
— Vou pegar alguma coisa pra comer e depois vou dormir.
E saiu.
Lívia o seguiu com os olhos.
Mordeu o lábio inferior, irritada.
Como ele podia ser tão frio?
Sem pensar muito, foi atrás dele.
— Ei, Ismael! — chamou, entrando na cozinha.
Ele estava abrindo uma das velhas prateleiras, analisando o que havia ali. Enlatados.
Ismael pegou uma lata qualquer, sem nem olhar direito.
— Se for pra brigar comigo, guarda o fôlego.
Lívia cruzou os braços, se encostando na mesa.
— Você não sente nada?
Ele abriu a lata com um canivete que encontrou por ali.
— O que eu deveria sentir?
Ela franziu a testa.
— A gente acordou num lugar desconhecido, sem memória, com pessoas bizarras ao redor. A casa foi atacada, Jaime quase surta, e você age como se nada disso fosse grande coisa!
Ismael enfiou a colher na lata e começou a comer.
— Gritar e surtar vai mudar alguma coisa?
Lívia cerrou os punhos.
— Seu desgraçado frio e insensível.
Ele ergueu os olhos para ela, sem demonstrar emoção alguma.
Mas... havia algo ali.
Algo profundo.
Um breve silêncio tomou conta da cozinha.
Então, Ismael deu um sorrisinho de canto.
— Decepcionada porque eu não sou o herói da história?
Lívia revirou os olhos.
— Você é insuportável.
Ela se virou para sair, mas então ouviram um barulho vindo da sala.
Um som pesado.
Como se algo tivesse caído no chão.
E um sussurro...
— Ele está aqui.
Lívia olhou para Ismael.
Ele largou a colher.
E ambos caminharam devagar de volta para a sala. Lívia e Ismael chegaram à sala e viram Paulo caído no chão, com o nariz sangrando.
Jéssica estava ajoelhada ao lado dele, pressionando um pano velho contra o ferimento.
— O que aconteceu? — Lívia perguntou, assustada.
Antes que alguém pudesse responder, Ismael soltou uma risada baixa.
— Eu avisei.
Lívia olhou pra ele, irritada.
— Isso não é engraçado, idiota!
Mas Ismael ignorou e apenas observou Paulo se levantando de repente.
Seus olhos estavam dilatados, selvagens.
Seu peito subia e descia rapidamente.
E então, jaime correu na direção de Lívia. Ela arregalou os olhos.
Mas antes que pudesse reagir, Ismael se moveu.
Com um único movimento preciso, ele girou o corpo e acertou Paulo com um golpe de Muay Thai no queixo.
O impacto derrubou Paulo imediatamente.
Ele desmaiou no chão.
Jéssica engasgou com um grito.
Lívia ficou em choque.
— Mas o que—?
— Ele ia te atacar. — Ismael respondeu, simplesmente O silêncio tomou conta da sala.
Até que...
Passos ecoaram pela escada.
Alguém descendo devagar.
Cada passo reverberava pela sala destruída.
E então, ele apareceu.
Um homem alto, vestido com um terno preto impecável.
Tinha um sorriso nojento, torto, estranho.
Ele parou no último degrau, olhando para cada um deles como se estivesse se divertindo.
Então, abriu os braços, ainda sorrindo.
— Nossa, dois dias e já estão assim?
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Vocês são mais interessantes do que eu pensava.
E começou a rir.
O som dos sapatos de couro ressoava no chão de madeira enquanto o homem descia as escadas. Seus passos eram irregulares, quase como se estivesse dançando sozinho. O sorriso nojento continuava estampado no rosto dele, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
Sem dizer nada, ele caminhou até um velho piano de cauda no canto da sala. As teclas estavam cobertas de poeira, mas ele passou os dedos por elas com delicadeza, como se estivesse reencontrando um velho amigo. Então, começou a tocar e cantar.
A melodia era estranha e fora de tom, como se cada nota estivesse um pouco errada. Mas o pior era a letra.
"Cinco corações cheios de dor,
Presos num jogo sem vencedor.
Mentiras contadas, segredos escondidos,
A verdade apodrece entre os esquecidos."
Os olhos dele passeavam por cada um enquanto ele cantava, como se estivesse se dirigindo a cada um deles individualmente.
Jaime, ainda abalado, olhava para o chão. Paulo apertava os punhos, visivelmente incomodado. Lívia e Jéssica se entreolharam, confusas. Já Ismael, apenas cruzou os braços, encarando o homem sem demonstrar nenhuma reação.
A música terminou com um acorde final estridente. O homem se virou lentamente, batendo palmas bem devagar, e então abriu um sorriso ainda maior.
— E então, quem vai ser o primeiro a lembrar do motivo de estar aqui? O homem de terno preto deslizou os dedos pelas teclas novamente, sem tirar os olhos de Ismael. A nova melodia era mais leve, quase infantil, mas a letra trazia um peso insuportável.
"Garoto esperto, frio como o gelo,
Mas o coração esconde um pesadelo.
Palavras venenosas, um laço quebrado,
E agora a culpa? Não há mais ao lado."
Lívia franziu a testa e olhou para Ismael, esperando alguma reação. Mas ele permaneceu impassível, encarando o homem como se as palavras não tivessem efeito.
O homem deu uma risada curta, inclinando a cabeça de lado.
— Ah, então vai continuar fingindo que não sente nada? Admiro isso. Ou talvez só tenha se acostumado a ser um covarde?
Ismael não respondeu.
O homem de terno preto apenas sorriu satisfeito, como se já tivesse conseguido o que queria, e então virou-se para Jaime. Seu sorriso se alargou ainda mais, mas agora havia algo macabro e cruel em sua expressão.
A nova música não era mais debochada. O tom ficou sombrio, as notas pesadas, e pela primeira vez sua voz pareceu séria.
"Um brinde ao pai, afogado em lamento,
Bebendo memórias, fugindo do tempo.
Mas o pequeno? Ah, o pequeno se foi...
E quem restou foi só você, sozinho na dor."
Jaime tremeu violentamente. Seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados.
— C-cala essa boca... — murmurou, a voz falhando.
Mas o homem continuou tocando.
— Você pode fingir que o álcool apaga tudo, mas será que ele apagou o seu papel nisso?
Jaime gritou de raiva, pegando um copo da mesa e jogando com força contra o piano. O vidro se estilhaçou, e o som das teclas se silenciou de repente.
O homem simplesmente riu, se levantou devagar e alisou o terno, satisfeito.
— Ahh... adoro quando a verdade incomoda.
Ele se afastou do piano e caminhou para a porta, mas antes de sair, virou-se novamente.
— Agora que já estamos ficando íntimos, vou dar um conselho... Se vocês querem sobreviver, parem de mentir para si mesmos.
E então ele desapareceu na escuridão do corredor. O homem se ergueu lentamente, e por um momento, pareceu crescer, como se sua sombra se estendesse por todo o cômodo. Seus olhos brilhavam na penumbra, e sua presença tornou-se ainda mais sufocante.
Ele deslizou a mão pelo bolso do terno e retirou uma chave prateada. Com um sorriso doentio, ergueu-a no ar antes de colocá-la dentro de uma gaiola enferrujada, pendurada no teto por correntes.
O silêncio era absoluto. Apenas o leve balanço metálico da gaiola ecoava no ambiente.
Então, ele apontou lentamente para Ismael e Jaime. Sua voz se transformou em um canto grave e arrastado, como um poema macabro.
"Segredos ocultos, mentiras e dor,
A chave não é ouro, mas sim o rancor.
Para escapar, um preço há de pagar,
Revelem a culpa, parem de negar."
Seus olhos escuros dançaram entre os dois, divertidos.
— Jaime... Ismael... Vocês serão os primeiros.
Jaime engoliu seco. Seu corpo inteiro tremia.
Ismael permaneceu imóvel, os olhos fixos na gaiola. Seu rosto não demonstrava nada, mas por dentro, sua mente trabalhava rápido.
— O que quer dizer com isso? — perguntou ele, a voz fria.
O homem inclinou a cabeça, sorrindo.
— Quero dizer que essa chave só será de vocês... se encararem o que enterraram.
Ele se virou, indo em direção à porta.
— Fiquem à vontade para tentar fugir sem ela. Mas a cada minuto que passa, a vila vai se tornando menos amigável.
E então, ele desapareceu, deixando apenas a chave balançando acima de suas cabeças. Assim que o homem deu as costas, um vento gelado atravessou o cômodo, fazendo as janelas e portas rangirem como se a própria casa estivesse viva.
Então, sem aviso, uma densa neblina branca começou a surgir do chão, rastejando como dedos espectrais. Ela se espalhou rapidamente, engolindo os móveis, as paredes, e até as pessoas ali dentro.
— O que é isso?! — Lívia deu um passo para trás, cobrindo a boca com a mão.
— Merda... — murmurou Paulo, sentindo um frio cortante atravessar sua pele.
O homem de terno não parou de sorrir. Ele apenas deu um passo para dentro da névoa e, como se fosse parte dela, desapareceu sem deixar vestígios.
Jaime deu um grito abafado, respirando de forma irregular. Ele tentava enxergar algo, mas a neblina era espessa demais.
— Isso não é normal. — murmurou Jéssica, apertando os óculos no rosto, tentando manter a calma.
Ismael não disse nada. Seu olhar estava fixo na gaiola, onde a chave ainda balançava lentamente, quase como se zombasse deles.
Foi então que um sussurro fantasmagórico percorreu o ambiente.
"Revelem a culpa... ou pereçam na névoa."
A voz veio de todos os lados.
A casa já não parecia a mesma. As paredes pareciam se mover levemente, como se a estrutura inteira estivesse respirando.
Jaime deu um passo para trás, mas tropeçou, caindo de joelhos no chão. Ele sabia o que precisava fazer, mas a verdade... a verdade era algo que ele nunca quis encarar.
Ismael continuou imóvel, mas seus punhos cerraram-se lentamente.
Eles tinham que falar.
Mas será que Ismael bufou, irritado. Se virou e começou a caminhar até a cozinha, os passos ecoando na casa silenciosa.
— Quer saber? Eu não tenho nada a esconder. — Ele abriu um armário qualquer e pegou um copo, enchendo com o que parecia ser água barrenta. Olhou para o líquido, deu uma risadinha sarcástica e jogou tudo fora.
Os outros ficaram em silêncio.
— Agora, já esse velho aí... — Ele apontou para Jaime.
Jaime ficou pálido, sua respiração ficou pesada, e ele apertou as próprias mãos, tentando conter um tremor.
— Ou melhor dizendo... o bêbado do jipe.
Lívia franziu a testa. Jipe?
Foi então que Ismael olhou diretamente para Jaime, com aquele sorriso cruel e frio.
— Eu já te conhecia antes, velho. Você passou na TV da minha cidade... foi notícia no jornal. O homem que batia na mulher e no filho.
Paulo e Jéssica trocaram olhares, horrorizados.
— Ismael... o que você tá falando? — perguntou Jéssica, a voz quase falhando.
— Tô falando que esse merda não é só um bêbado qualquer. — Ismael deu um passo à frente, encarando Jaime como se fosse lixo. — No dia do acidente, ele tava raptando o próprio filho da mãe dele.
Jaime ficou imóvel. Seu rosto, antes avermelhado e suado, se tornou cinza como um cadáver.
— Mentira... — murmurou ele, a voz falhando.
— Ah, é? — Ismael cruzou os braços, se divertindo com o pânico dele. — O que aconteceu, hein? Ia fugir com o garoto porque ela ia te denunciar? O que foi? Ela cansou de apanhar de você?
— CALA A BOCA! — Jaime gritou e chutou a mesa, fazendo um barulho estrondoso.
Jéssica deu um pulo, assustada.
Paulo ficou sem reação, apenas observando, tenso.
Ismael sorriu mais ainda.
— Doeu, né? A verdade dói, velho.
Então, deu as costas para todos, ignorando os olhares chocados, e saiu da cozinha.
Jaime ficou ali, parado, os olhos arregalados. O corpo tremia, suando frio.
Foi então que um sussurro sinistro percorreu a sala, vindo de lugar nenhum.
"A culpa revelada... mas a redenção ainda não foi conquistada."
Jaime tapou os ouvidos, desesperado.
Mas a voz não parava. Jaime cerrou os punhos, o rosto vermelho de raiva. Seus olhos varreram a cozinha, procurando algo — qualquer coisa — que pudesse jogar contra Ismael. Sua respiração estava pesada, descontrolada, como se estivesse prestes a atacar.
— Seu merdinha... — ele murmurou, dando um passo à frente.
Lívia segurou o braço de Ismael, nervosa.
— Ele tá falando sério... para! — ela sussurrou.
Mas Ismael não recuou. Ele apenas encarou Jaime, como se esperasse o ataque.
Porém, antes que Jaime pudesse fazer qualquer coisa, suas pernas fraquejaram. Ele tropeçou para trás, caiu de joelhos e soltou um suspiro desesperado.
Então, começou a chorar.
— Merda... merda...
Todos ficaram em silêncio, apenas observando.
— Sim... eu empurrei minha mulher. — Jaime finalmente falou, a voz trêmula. — Mas não foi do jeito que vocês tão pensando...
Ele passou a mão no rosto, tentando limpar o suor misturado às lágrimas.
— Eu não batia no meu filho. Eu nunca encostei um dedo nele.
— E sua esposa? — Ismael perguntou friamente, os braços cruzados.
Jaime engoliu em seco, hesitante.
— Ela... ela mudou.
Jessica franziu a testa.
— Como assim "mudou"?
Jaime respirou fundo, tentando recuperar o fôlego.
— No começo, ela era incrível. Eu amava aquela mulher. Mas, depois que nosso filho nasceu... ela mudou.
Ele fechou os olhos, tentando conter as lágrimas, e sua voz falhou quando ele continuou:
— Ela começou a machucar ele.
Paulo arregalou os olhos.
— O quê...?
Jaime assentiu, olhando para as próprias mãos, como se segurassem um peso invisível.
— Eu tentei proteger meu filho. Mas ela... ela se tornou uma sádica. Toda vez que eu tentava impedir, ela ficava pior.
Jaime respirou fundo.
— E um dia... ela tentou bater nele na minha frente. Eu não aguentei. Empurrei ela. Ela caiu... mas não se machucou. Só que depois daquilo, tudo ficou pior.
O silêncio na sala era pesado, como se o próprio ar estivesse carregado.
— Por isso você quis fugir com ele... — Jessica disse, a voz suave.
Jaime assentiu.
— Eu não podia deixar meu filho com ela. Então, numa noite... peguei ele e fugi.
Ele fechou os olhos por um momento, engolindo o choro.
— Mas... ela já sabia.
Ele abriu os olhos, vermelhos e cansados.
— Ela... ela furou os meus pneus.
Lívia prendeu a respiração.
— Foi por isso que você perdeu o controle do carro...
Jaime assentiu lentamente.
— Eu não sabia. Só percebi quando já era tarde demais. E então...
Ele parou, a voz se quebrando.
Jessica sentiu um aperto no peito.
— Jaime...
Ele respirou fundo e, com um esforço visível, terminou:
— Então, ele morreu.
O silêncio preencheu o ambiente.
A revelação pairava no ar, sufocante.
Foi então que uma risada ecoou pela casa.
Baixa. Suave. Maliciosa.
E o sussurro voltou:
"A verdade revelada... mas a culpa ainda pesa em seus ombros."
Jaime tremeu. Ismael saiu da casa sem olhar para trás, as mãos nos bolsos, caminhando como se nada tivesse acontecido. Mas, por um breve momento, sua expressão não era mais fria e indiferente.
Havia algo ali.
Uma fração de compaixão.
Porém, ele logo apagou esse sentimento, virou as costas e seguiu em frente.
— Vou voltar à noite. — Sua voz saiu firme, sem emoção. — Não me esperem.
Jaime ainda estava ajoelhado no chão, o rosto escondido nas mãos. Ninguém falou nada.
Jessica mordeu o lábio, inquieta. Então, olhou para Lívia.
— Vai atrás dele.
Lívia arregalou os olhos.
— O quê? Por que eu?
— Porque ele precisa de alguém agora.
Lívia bufou, cruzando os braços.
— Você tá brincando, né? Ele acabou de chamar o Jaime de "bêbado do jipe", riu do Paulo todo arrebentado e agora saiu como se não tivesse acontecido nada!
Jessica apertou o braço dela.
— Lívia.
A loira revirou os olhos, mas suspirou.
Jessica deu um pequeno sorriso, mas desviou o olhar.
— Talvez seja só porque eu tô fingindo bem.
Paulo soltou uma risada nasal, balançando a cabeça.
— Então finge um pouco mais. A gente precisa disso.
Os dois ficaram em silêncio por um instante. Lá embaixo, o som da respiração pesada de Jaime dormindo no sofá ecoava pela casa destruída.
Jessica, então, olhou para Paulo e perguntou, num tom mais sério:
— Você acha que a gente vai sair daqui?
Paulo demorou um pouco para responder. O medo estava ali, no fundo dos olhos dele, mas ele tentou disfarçar.
— Se depender de mim, sim.
Jessica assentiu devagar, mas antes que pudesse dizer algo, um barulho vindo do corredor os fez congelar.
Passos.
Alguém estava subindo as escadas. uma voz tenebrosa susurra enquanto uma fumaça escura invadi o quarto - mentirosaaaa.
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