O som dos sapatos de couro ressoava no chão de madeira enquanto o homem descia as escadas. Seus passos eram irregulares, quase como se estivesse dançando sozinho. O sorriso nojento continuava estampado no rosto dele, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
Sem dizer nada, ele caminhou até um velho piano de cauda no canto da sala. As teclas estavam cobertas de poeira, mas ele passou os dedos por elas com delicadeza, como se estivesse reencontrando um velho amigo. Então, começou a tocar e cantar.
A melodia era estranha e fora de tom, como se cada nota estivesse um pouco errada. Mas o pior era a letra.
"Cinco corações cheios de dor,
Presos num jogo sem vencedor.
Mentiras contadas, segredos escondidos,
A verdade apodrece entre os esquecidos."
Os olhos dele passeavam por cada um enquanto ele cantava, como se estivesse se dirigindo a cada um deles individualmente.
Jaime, ainda abalado, olhava para o chão. Paulo apertava os punhos, visivelmente incomodado. Lívia e Jéssica se entreolharam, confusas. Já Ismael, apenas cruzou os braços, encarando o homem sem demonstrar nenhuma reação.
A música terminou com um acorde final estridente. O homem se virou lentamente, batendo palmas bem devagar, e então abriu um sorriso ainda maior.
— E então, quem vai ser o primeiro a lembrar do motivo de estar aqui? O homem de terno preto deslizou os dedos pelas teclas novamente, sem tirar os olhos de Ismael. A nova melodia era mais leve, quase infantil, mas a letra trazia um peso insuportável.
"Garoto esperto, frio como o gelo,
Mas o coração esconde um pesadelo.
Palavras venenosas, um laço quebrado,
E agora a culpa? Não há mais ao lado."
Lívia franziu a testa e olhou para Ismael, esperando alguma reação. Mas ele permaneceu impassível, encarando o homem como se as palavras não tivessem efeito.
O homem deu uma risada curta, inclinando a cabeça de lado.
— Ah, então vai continuar fingindo que não sente nada? Admiro isso. Ou talvez só tenha se acostumado a ser um covarde?
Ismael não respondeu.
O homem de terno preto apenas sorriu satisfeito, como se já tivesse conseguido o que queria, e então virou-se para Jaime. Seu sorriso se alargou ainda mais, mas agora havia algo macabro e cruel em sua expressão.
A nova música não era mais debochada. O tom ficou sombrio, as notas pesadas, e pela primeira vez sua voz pareceu séria.
"Um brinde ao pai, afogado em lamento,
Bebendo memórias, fugindo do tempo.
Mas o pequeno? Ah, o pequeno se foi...
E quem restou foi só você, sozinho na dor."
Jaime tremeu violentamente. Seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados.
— C-cala essa boca... — murmurou, a voz falhando.
Mas o homem continuou tocando.
— Você pode fingir que o álcool apaga tudo, mas será que ele apagou o seu papel nisso?
Jaime gritou de raiva, pegando um copo da mesa e jogando com força contra o piano. O vidro se estilhaçou, e o som das teclas se silenciou de repente.
O homem simplesmente riu, se levantou devagar e alisou o terno, satisfeito.
— Ahh... adoro quando a verdade incomoda.
Ele se afastou do piano e caminhou para a porta, mas antes de sair, virou-se novamente.
— Agora que já estamos ficando íntimos, vou dar um conselho... Se vocês querem sobreviver, parem de mentir para si mesmos.
E então ele desapareceu na escuridão do corredor. O homem se ergueu lentamente, e por um momento, pareceu crescer, como se sua sombra se estendesse por todo o cômodo. Seus olhos brilhavam na penumbra, e sua presença tornou-se ainda mais sufocante.
Ele deslizou a mão pelo bolso do terno e retirou uma chave prateada. Com um sorriso doentio, ergueu-a no ar antes de colocá-la dentro de uma gaiola enferrujada, pendurada no teto por correntes.
O silêncio era absoluto. Apenas o leve balanço metálico da gaiola ecoava no ambiente.
Então, ele apontou lentamente para Ismael e Jaime. Sua voz se transformou em um canto grave e arrastado, como um poema macabro.
"Segredos ocultos, mentiras e dor,
A chave não é ouro, mas sim o rancor.
Para escapar, um preço há de pagar,
Revelem a culpa, parem de negar."
Seus olhos escuros dançaram entre os dois, divertidos.
— Jaime... Ismael... Vocês serão os primeiros.
Jaime engoliu seco. Seu corpo inteiro tremia.
Ismael permaneceu imóvel, os olhos fixos na gaiola. Seu rosto não demonstrava nada, mas por dentro, sua mente trabalhava rápido.
— O que quer dizer com isso? — perguntou ele, a voz fria.
O homem inclinou a cabeça, sorrindo.
— Quero dizer que essa chave só será de vocês... se encararem o que enterraram.
Ele se virou, indo em direção à porta.
— Fiquem à vontade para tentar fugir sem ela. Mas a cada minuto que passa, a vila vai se tornando menos amigável.
E então, ele desapareceu, deixando apenas a chave balançando acima de suas cabeças. Assim que o homem deu as costas, um vento gelado atravessou o cômodo, fazendo as janelas e portas rangirem como se a própria casa estivesse viva.
Então, sem aviso, uma densa neblina branca começou a surgir do chão, rastejando como dedos espectrais. Ela se espalhou rapidamente, engolindo os móveis, as paredes, e até as pessoas ali dentro.
— O que é isso?! — Lívia deu um passo para trás, cobrindo a boca com a mão.
— Merda... — murmurou Paulo, sentindo um frio cortante atravessar sua pele.
O homem de terno não parou de sorrir. Ele apenas deu um passo para dentro da névoa e, como se fosse parte dela, desapareceu sem deixar vestígios.
Jaime deu um grito abafado, respirando de forma irregular. Ele tentava enxergar algo, mas a neblina era espessa demais.
— Isso não é normal. — murmurou Jéssica, apertando os óculos no rosto, tentando manter a calma.
Ismael não disse nada. Seu olhar estava fixo na gaiola, onde a chave ainda balançava lentamente, quase como se zombasse deles.
Foi então que um sussurro fantasmagórico percorreu o ambiente.
"Revelem a culpa... ou pereçam na névoa."
A voz veio de todos os lados.
A casa já não parecia a mesma. As paredes pareciam se mover levemente, como se a estrutura inteira estivesse respirando.
Jaime deu um passo para trás, mas tropeçou, caindo de joelhos no chão. Ele sabia o que precisava fazer, mas a verdade... a verdade era algo que ele nunca quis encarar.
Ismael continuou imóvel, mas seus punhos cerraram-se lentamente.
Eles tinham que falar.
Mas será que Ismael bufou, irritado. Se virou e começou a caminhar até a cozinha, os passos ecoando na casa silenciosa.
— Quer saber? Eu não tenho nada a esconder. — Ele abriu um armário qualquer e pegou um copo, enchendo com o que parecia ser água barrenta. Olhou para o líquido, deu uma risadinha sarcástica e jogou tudo fora.
Os outros ficaram em silêncio.
— Agora, já esse velho aí... — Ele apontou para Jaime.
Jaime ficou pálido, sua respiração ficou pesada, e ele apertou as próprias mãos, tentando conter um tremor.
— Ou melhor dizendo... o bêbado do jipe.
Lívia franziu a testa. Jipe?
Foi então que Ismael olhou diretamente para Jaime, com aquele sorriso cruel e frio.
— Eu já te conhecia antes, velho. Você passou na TV da minha cidade... foi notícia no jornal. O homem que batia na mulher e no filho.
Paulo e Jéssica trocaram olhares, horrorizados.
— Ismael... o que você tá falando? — perguntou Jéssica, a voz quase falhando.
— Tô falando que esse merda não é só um bêbado qualquer. — Ismael deu um passo à frente, encarando Jaime como se fosse lixo. — No dia do acidente, ele tava raptando o próprio filho da mãe dele.
Jaime ficou imóvel. Seu rosto, antes avermelhado e suado, se tornou cinza como um cadáver.
— Mentira... — murmurou ele, a voz falhando.
— Ah, é? — Ismael cruzou os braços, se divertindo com o pânico dele. — O que aconteceu, hein? Ia fugir com o garoto porque ela ia te denunciar? O que foi? Ela cansou de apanhar de você?
— CALA A BOCA! — Jaime gritou e chutou a mesa, fazendo um barulho estrondoso.
Jéssica deu um pulo, assustada.
Paulo ficou sem reação, apenas observando, tenso.
Ismael sorriu mais ainda.
— Doeu, né? A verdade dói, velho.
Então, deu as costas para todos, ignorando os olhares chocados, e saiu da cozinha.
Jaime ficou ali, parado, os olhos arregalados. O corpo tremia, suando frio.
Foi então que um sussurro sinistro percorreu a sala, vindo de lugar nenhum.
"A culpa revelada... mas a redenção ainda não foi conquistada."
Jaime tapou os ouvidos, desesperado.
Mas a voz não parava. Jaime cerrou os punhos, o rosto vermelho de raiva. Seus olhos varreram a cozinha, procurando algo — qualquer coisa — que pudesse jogar contra Ismael. Sua respiração estava pesada, descontrolada, como se estivesse prestes a atacar.
— Seu merdinha... — ele murmurou, dando um passo à frente.
Lívia segurou o braço de Ismael, nervosa.
— Ele tá falando sério... para! — ela sussurrou.
Mas Ismael não recuou. Ele apenas encarou Jaime, como se esperasse o ataque.
Porém, antes que Jaime pudesse fazer qualquer coisa, suas pernas fraquejaram. Ele tropeçou para trás, caiu de joelhos e soltou um suspiro desesperado.
Então, começou a chorar.
— Merda... merda...
Todos ficaram em silêncio, apenas observando.
— Sim... eu empurrei minha mulher. — Jaime finalmente falou, a voz trêmula. — Mas não foi do jeito que vocês tão pensando...
Ele passou a mão no rosto, tentando limpar o suor misturado às lágrimas.
— Eu não batia no meu filho. Eu nunca encostei um dedo nele.
— E sua esposa? — Ismael perguntou friamente, os braços cruzados.
Jaime engoliu em seco, hesitante.
— Ela... ela mudou.
Jessica franziu a testa.
— Como assim "mudou"?
Jaime respirou fundo, tentando recuperar o fôlego.
— No começo, ela era incrível. Eu amava aquela mulher. Mas, depois que nosso filho nasceu... ela mudou.
Ele fechou os olhos, tentando conter as lágrimas, e sua voz falhou quando ele continuou:
— Ela começou a machucar ele.
Paulo arregalou os olhos.
— O quê...?
Jaime assentiu, olhando para as próprias mãos, como se segurassem um peso invisível.
— Eu tentei proteger meu filho. Mas ela... ela se tornou uma sádica. Toda vez que eu tentava impedir, ela ficava pior.
Jaime respirou fundo.
— E um dia... ela tentou bater nele na minha frente. Eu não aguentei. Empurrei ela. Ela caiu... mas não se machucou. Só que depois daquilo, tudo ficou pior.
O silêncio na sala era pesado, como se o próprio ar estivesse carregado.
— Por isso você quis fugir com ele... — Jessica disse, a voz suave.
Jaime assentiu.
— Eu não podia deixar meu filho com ela. Então, numa noite... peguei ele e fugi.
Ele fechou os olhos por um momento, engolindo o choro.
— Mas... ela já sabia.
Ele abriu os olhos, vermelhos e cansados.
— Ela... ela furou os meus pneus.
Lívia prendeu a respiração.
— Foi por isso que você perdeu o controle do carro...
Jaime assentiu lentamente.
— Eu não sabia. Só percebi quando já era tarde demais. E então...
Ele parou, a voz se quebrando.
Jessica sentiu um aperto no peito.
— Jaime...
Ele respirou fundo e, com um esforço visível, terminou:
— Então, ele morreu.
O silêncio preencheu o ambiente.
A revelação pairava no ar, sufocante.
Foi então que uma risada ecoou pela casa.
Baixa. Suave. Maliciosa.
E o sussurro voltou:
"A verdade revelada... mas a culpa ainda pesa em seus ombros."
Jaime tremeu. Ismael saiu da casa sem olhar para trás, as mãos nos bolsos, caminhando como se nada tivesse acontecido. Mas, por um breve momento, sua expressão não era mais fria e indiferente.
Havia algo ali.
Uma fração de compaixão.
Porém, ele logo apagou esse sentimento, virou as costas e seguiu em frente.
— Vou voltar à noite. — Sua voz saiu firme, sem emoção. — Não me esperem.
Jaime ainda estava ajoelhado no chão, o rosto escondido nas mãos. Ninguém falou nada.
Jessica mordeu o lábio, inquieta. Então, olhou para Lívia.
— Vai atrás dele.
Lívia arregalou os olhos.
— O quê? Por que eu?
— Porque ele precisa de alguém agora.
Lívia bufou, cruzando os braços.
— Você tá brincando, né? Ele acabou de chamar o Jaime de "bêbado do jipe", riu do Paulo todo arrebentado e agora saiu como se não tivesse acontecido nada!
Jessica apertou o braço dela.
— Lívia.
A loira revirou os olhos, mas suspirou.
Jessica deu um pequeno sorriso, mas desviou o olhar.
— Talvez seja só porque eu tô fingindo bem.
Paulo soltou uma risada nasal, balançando a cabeça.
— Então finge um pouco mais. A gente precisa disso.
Os dois ficaram em silêncio por um instante. Lá embaixo, o som da respiração pesada de Jaime dormindo no sofá ecoava pela casa destruída.
Jessica, então, olhou para Paulo e perguntou, num tom mais sério:
— Você acha que a gente vai sair daqui?
Paulo demorou um pouco para responder. O medo estava ali, no fundo dos olhos dele, mas ele tentou disfarçar.
— Se depender de mim, sim.
Jessica assentiu devagar, mas antes que pudesse dizer algo, um barulho vindo do corredor os fez congelar.
Passos.
Alguém estava subindo as escadas. uma voz tenebrosa susurra enquanto uma fumaça escura invadi o quarto - mentirosaaaa.
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Atualizado até capítulo 20
Comments
S.Kalks
bem o pai da Coraline
2025-03-14
1
Hmy_Soldhine
cadê o grammy para essa obra de arte ? kkk amo
2025-03-12
0
@autora_marise
Quem é cantor? ( meme)
2025-03-12
1