O sol escaldante do deserto brilhava sobre a fazenda de Paulo. O ar seco tornava cada respiração pesada, e o silêncio era interrompido apenas pelo som do vento soprando entre os campos. Paulo, agora com 27 anos, estava encostado em sua caminhonete, observando o horizonte sem grandes preocupações. O passado parecia distante, enterrado junto com os eventos inexplicáveis de anos atrás.
Foi quando um carro preto surgiu na estrada poeirenta. Sem placas, janelas escuras. Ele sentiu um arrepio na espinha. O veículo parou em frente à sua casa, e dois homens de terno e óculos escuros desceram.
— Paulo Vasques? — perguntou um dos agentes.
Paulo cruzou os braços.
— Depende. Quem tá perguntando?
O agente abriu o paletó e mostrou um crachá do governo.
— Precisamos que nos acompanhe. É sobre os eventos de 2020.
O coração de Paulo disparou. Ele passou anos tentando esquecer aquilo.
— Eu não sei do que vocês estão falando.
— Sabemos que sabe — interrompeu o outro agente. — E precisamos de você. Algo aconteceu. Você e os outros foram convocados.
Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, em uma pacata cidade no interior, Ismael balançava sua filha no colo. Ele tentava aproveitar o pouco tempo livre antes de voltar ao trabalho. Sua esposa, Lívia, estava na cozinha, quando o telefone tocou.
— Ismael? — chamou ela, segurando o aparelho. — Tem alguém na linha para você.
Ele franziu a testa e pegou o telefone.
— Alô?
Uma voz firme do outro lado respondeu:
— O tempo acabou. Você precisa voltar.
Ismael sentiu um frio na espinha. Ele olhou para sua filha e para Lívia, percebendo que a paz que construíra estava prestes a ruir.
O telefone tocou no silêncio da casa. Lívia enxugou as mãos no pano de prato e pegou o aparelho.
— Ismael? — chamou ela, segurando o telefone com uma expressão preocupada. — É o Jaime… ele tá nervoso.
Ismael franziu a testa e pegou o telefone rapidamente.
— Jaime? O que foi?
Do outro lado da linha, Jaime falava com a respiração pesada, como se tivesse corrido.
— Cara… deu merda. A namorada do Paulo ligou pra mim chorando. Encontraram a caminhonete dele jogada na estrada. As portas estavam abertas e não tinha sinal dele em lugar nenhum.
O coração de Ismael disparou. Ele segurou o telefone com força, sentindo o estômago revirar.
— Como assim desapareceu?
— Exatamente isso! Ele sumiu! — Jaime respondeu, ainda ofegante. — E não foi um roubo, mano… o celular dele ainda tava no painel do carro. A carteira também. Só que ele não tava lá.
Ismael olhou para Lívia, que agora o encarava com preocupação. Ele engoliu seco.
— Onde foi isso?
— Uma estrada secundária, perto da fazenda dele. A polícia foi chamada, mas… cara, você sabe tão bem quanto eu que isso não é normal.
Ismael passou a mão no rosto, tentando raciocinar. O passado que ele tentava enterrar estava voltando à tona rápido demais.
— Merda… — ele murmurou. — A gente precisa ir pra lá.
— Já tô indo, te encontro lá.
Ismael desligou o telefone e olhou para Lívia. Ela já sabia o que aquilo significava.
— Eu volto logo — ele prometeu.
Mas no fundo, ele não sabia se conseguiria cumprir essa promessa.
— Eu vou com você! — Lívia disse, cruzando os braços.
Ismael suspirou, já esperando aquela reação.
— Não, Lívia. Você fica. Não vou colocar você em perigo.
— Ismael…
Antes que ela continuasse, ele a puxou para um beijo rápido, sentindo o calor dos lábios dela por um breve momento. Quando se afastou, olhou nos olhos dela.
— Confia em mim. Eu volto logo.
Lívia apertou os punhos, claramente insatisfeita, mas assentiu devagar.
Jaime estava no convés do barco, olhando para o horizonte, tentando acalmar a mente depois da ligação para Ismael. A brisa do mar costumava ser reconfortante, mas agora, ela parecia carregada de um presságio sombrio.
Ele piscou algumas vezes. Estava começando a se sentir tonto.
— O que…? — murmurou, levando a mão à testa.
O mundo girou ao seu redor. Sua visão ficou embaçada.
Antes de tudo escurecer, ele notou algo ao longe: dois barcos se aproximando rapidamente.
Então, tudo ficou preto.
Ismael entrou no elevador do prédio apressado, já pegando o celular para enviar uma mensagem para Jaime.
Foi quando percebeu que não estava sozinho.
Encostada no canto do elevador, uma mulher linda o observava com um sorriso misterioso. Seus olhos eram profundos, e o cabelo caía suavemente sobre os ombros. Ela vestia um casaco longo, e sua postura era relaxada… como se estivesse esperando por ele.
Ismael ergueu uma sobrancelha.
— Tá me olhando assim por quê? — perguntou, dando um sorriso de canto.
A mulher riu baixo.
— Você tem uma energia forte, Ismael… finalmente nos encontramos.
Ele franziu a testa, sentindo um leve arrepio na espinha.
— Nos encontramos? A gente já se conhece?
A mulher apenas sorriu e deu um passo para mais perto.
Foi quando Ismael sentiu uma picada rápida no pescoço.
— O quê…? — Ele tentou se afastar, mas suas pernas começaram a falhar.
O elevador continuava descendo, mas Ismael já não conseguia mais focar em nada. O corpo ficou pesado, e a última coisa que viu foi o rosto da mulher, que agora o segurava com delicadeza.
— Boa noite, querido… — ela sussurrou.
E então, tudo escureceu.
Ismael abriu os olhos num susto, o coração disparado. Ele respirou fundo, sentindo o peito subir e descer rapidamente, como se tivesse acabado de sair de um pesadelo.
A luz acima dele era forte, forçando-o a piscar algumas vezes para ajustar a visão. Foi então que percebeu onde estava.
Um galpão velho. Paredes de metal enferrujadas, cheiro de poeira e óleo. Algumas caixas empilhadas e uma única lâmpada balançando no teto, iluminando o ambiente de forma precária.
Ele se sentou rapidamente e foi então que viu os outros.
Paulo e Jaime estavam ali.
Paulo, com os braços cruzados, olhava para ele com um semblante sério. Jaime estava sentado, parecendo exausto, o rosto suado.
— Finalmente, Bela Adormecida acordou — Paulo murmurou, sem esconder o tom tenso na voz.
— Mas que…? — Ismael segurou a cabeça, ainda tonto. Ele olhou para os dois, sentindo a adrenalina voltando. — O que tá acontecendo?
Jaime suspirou e passou as mãos no rosto.
— Cara… se a gente soubesse, seria mais fácil.
Ismael olhou ao redor, tentando encontrar qualquer pista.
— Onde estamos?
Paulo descruzou os braços e se inclinou um pouco para frente.
— Essa é a pergunta do milhão, parceiro. Mas antes… — ele apontou para Ismael. — Como diabos você veio parar aqui?
Ismael piscou algumas vezes, tentando se lembrar. A última coisa que recordava era… aquela mulher no elevador. O sorriso dela, a voz enigmática, a picada no pescoço…
— Eu fui sequestrado. Uma mulher… — Ele franziu a testa. — Ela me injetou alguma coisa.
Paulo e Jaime trocaram olhares.
— Bom — Jaime disse, se levantando e coçando a cabeça. — Parece que não fomos os únicos.
Paulo bufou.
— Eu tava voltando pra casa quando dois malucos apareceram e me apagaram.
— E eu… — Jaime suspirou. — Estava no meu barco. Vi dois barcos vindo na minha direção antes de desmaiar.
Ismael processou tudo rapidamente.
— Então alguém queria nós três aqui.
Silêncio.
Os três se encararam. O ar no galpão parecia ainda mais pesado.
Foi quando uma porta de ferro começou a se abrir lentamente.
Uma sombra surgiu do outro lado.
E uma voz fria e calculada preencheu o ambiente:
— Finalmente, vocês acordaram.
A porta de ferro terminou de se abrir, revelando três agentes que entraram no galpão com passos firmes.
Eles vestiam ternos pretos impecáveis, carregavam uma postura autoritária e tinham olhares afiados. Cada um deles parecia exalar uma energia de controle absoluto sobre a situação.
Ismael imediatamente começou a raciocinar, os pensamentos se embaralhando.
Lívia!
Droga. Ele saiu correndo sem dar detalhes para ela. Se ela perceber que ele sumiu, vai surtar.
Mas não teve muito tempo para se concentrar nisso, porque um dos agentes — um homem alto, de pele escura e cabelos grisalhos — se adiantou e falou:
— Bom, parece que vocês estão confusos, então vamos direto ao ponto. Meu nome é Agente Carter, estes são Agente Rodríguez e Agente Foster.
Ele apontou para os dois ao lado.
Rodríguez era uma mulher de cabelos curtos, latína, olhos atentos e uma postura militar impecável. Foster, por outro lado, parecia mais jovem, cabelos castanhos e expressão analítica, como se estivesse analisando cada movimento deles.
— O que diabos vocês querem com a gente? — Paulo perguntou, impaciente.
O agente Carter ignorou o tom de irritação e continuou.
— Vocês já ouviram falar dos eventos na cidade vizinha?
Os três trocaram olhares.
Jaime franziu a testa.
— Aquela cidade que foi evacuada pelo exército ano passado?
— Exato. O governo alegou que foi um teste de armas militares, mas a verdade… — Rodríguez cruzou os braços. — …é bem mais complicada.
Ismael sentiu um calafrio subir pela espinha.
— Vocês estão falando dos… dos vampiros?
Paulo deu uma risada sem humor.
— Ah, não. Não me diz que caímos num filme de terror.
O agente Foster finalmente falou, com uma voz calma e controlada:
— Eu sei que é difícil de acreditar, mas sim. A cidade vizinha foi palco de uma guerra entre vampiros e caçadores. E o governo precisou intervir.
Jaime piscou algumas vezes, tentando absorver a informação.
— Mas por que diabos isso tem a ver com a gente?
Carter sorriu de lado e respondeu sem hesitar:
— Porque vocês já lidaram com o sobrenatural antes.
Silêncio.
Os três sentiram um arrepio ao mesmo tempo.
Eles sabiam do que ele estava falando.
Aquela noite. Aquela casa. Os quatro desaparecidos.
Algo muito pior do que vampiros.
Ismael respirou fundo.
— O que vocês querem?
Rodríguez abriu um envelope e deslizou uma foto pela mesa.
Era uma imagem aérea de um deserto, com ruínas de uma cidade enterrada na areia.
E uma sombra distorcida na imagem. Algo enorme, inumano.
— Precisamos de vocês para investigar isso.
A tensão no ar era quase sufocante.
Jaime passou as mãos no rosto, nervoso.
— Ah, ótimo. Agora a gente virou caçador de monstros?
Paulo se recostou na cadeira e soltou um suspiro pesado.
— Eu já tô sentindo que isso vai dar merda.
Ismael ficou em silêncio por alguns segundos. Ele olhou a foto novamente.
Ele sabia que não havia saída.
E sabia que o pior ainda estava por vir.
O silêncio pesava no ar.
Os olhos de Ismael se estreitaram ao olhar diretamente para Rodríguez.
— E a minha família? Lívia e meu filho, onde estão?
Rodríguez não respondeu imediatamente. Em vez disso, ela sorriu de leve, como se já esperasse essa pergunta.
— Estão esperando por você.
Essa resposta, apesar de curta, carregava um peso enorme.
Paulo e Jaime trocaram olhares, notando a tensão na expressão de Ismael. Eles sabiam que ele não gostava de mistérios quando se tratava da família.
Mas, por enquanto, não havia escolha.
O ronco grave de turbinas cortou o silêncio. O jato estava pronto para a decolagem.
Os agentes não deram tempo para mais perguntas.
— Vamos. — Carter disse, caminhando em direção à saída.
Os três se entreolharam e, sem opção, o seguiram.
O interior da aeronave era de luxo, mas carregava um tom militarista. Assentos de couro, equipamentos tecnológicos ao redor e uma cabine fechada onde os pilotos se comunicavam com o comando central.
Assim que todos se acomodaram, cada um recebeu um tablet preto das mãos do agente Foster.
— Aqui está o dossiê da missão. — disse ele. — Estudem bem.
Na tela inicial, havia apenas um título:
"PROJETO LUX - CLASSIFICAÇÃO NÍVEL 5"
Jaime bufou.
— Ah, ótimo. Lá vem papo governamental.
Paulo girou o tablet nas mãos, pensativo.
— E se for uma armadilha?
Ismael não respondeu imediatamente. Ele estava encarando a tela, mas sua mente ainda estava na resposta de Rodríguez.
"Estão esperando por você."
Ele queria acreditar nisso.
Mas algo não parecia certo.
Então, ele respirou fundo e deslizou o dedo na tela, abrindo o arquivo da missão.
A primeira coisa que apareceu foi uma foto aérea de uma cidade enterrada na areia.
E bem no centro…
… a sombra monstruosa de algo que não deveria existir.
O jato tremia levemente conforme ganhava altitude. O som abafado das turbinas preenchia o silêncio na cabine.
Jaime olhava fixamente para a imagem na tela do tablet, os olhos arregalados.
— Pera aí… — ele murmurou, franzindo a testa. — Isso não é aquela antiga cidade do deserto?
Ele aumentou a imagem com os dedos, tentando se lembrar do nome.
— Como é mesmo o nome dessa cidade? Aquela que sumiu da história?
Rodríguez olhou para ele de canto de olho, mas não respondeu.
Paulo se inclinou no assento ao lado de Ismael, girando o tablet nas mãos sem muita atenção.
— Você mudou, cara. — Ele disse, sem olhar diretamente para o amigo.
Ismael piscou algumas vezes, voltando sua atenção para Paulo.
— Como assim?
Paulo deu um pequeno sorriso.
— Você era um moleque quando tudo começou. Agora… — Ele balançou a cabeça. — Não sei, parece que o peso do mundo caiu em cima de você.
Ismael deu uma risada curta, mas seus olhos não acompanhavam o tom descontraído.
Por alguns segundos, o silêncio entre os dois se instalou.
Então, ele ficou sério.
— E seus sonhos com a Jessica? — perguntou, direto.
O sorriso de Paulo morreu imediatamente.
Ele desviou o olhar.
— … Pararam.
Mas havia algo na sua voz que dizia o contrário.
Ismael percebeu, mas não insistiu.
O passado não tinha sido gentil com nenhum deles.
No fundo, todos carregavam cicatrizes. Algumas visíveis. Outras, escondidas.
Enquanto isso, Jaime ainda tentava se lembrar do nome da cidade, sem perceber a conversa tensa ao lado.
Rodríguez finalmente quebrou o silêncio, olhando diretamente para ele.
— Eldoria.
Todos se viraram para ela.
Ela continuou:
— A cidade esquecida… E onde tudo isso começou.
A aeronave seguiu seu curso pelo céu, enquanto cada um tentava processar o que estava por vir.
— Seus pesadelos realmente acabaram, Paulo? — A voz de Ismael ecoava na mente dele, mesmo sem ser dita.
E, pela primeira vez em anos, Paulo não tinha certeza.
Paulo se levantou do assento, esfregando o rosto.
— Vou no banheiro.
Ele saiu pelo corredor estreito do jato, sentindo o leve balanço da aeronave. O som abafado dos motores preenchia o silêncio enquanto ele abria a porta do banheiro e entrava.
O espaço era pequeno, iluminado por uma luz branca fria. Ele respirou fundo e abriu a torneira, deixando a água gelada escorrer pelas mãos antes de passar no rosto.
Levantou a cabeça devagar e olhou para o espelho.
Seu coração parou.
Atrás dele, uma silhueta feminina.
Seus cabelos escuros caíam sobre os ombros. Os lábios pintados de vermelho formavam um sorriso debochado.
Jessica.
Ou melhor… a alucinação de Jessica.
Ela inclinou a cabeça para o lado, os olhos brilhando com diversão.
— Eles nem sabem que você enlouqueceu, né? — Sua voz era doce, mas carregada de ironia.
Ela começou a rir.
Um riso baixo, crescente, ecoando pelo pequeno banheiro.
Paulo fechou os olhos com força, segurando a borda da pia.
— Você não é real.
— Mas eu estou aqui, não estou? — Ela se aproximou, sua voz quase um sussurro no ouvido dele. — Será que eles perceberam? O Ismael percebeu. Ele sempre percebe.
Paulo abriu os olhos de novo.
O espelho refletia apenas ele mesmo.
O vazio atrás dele era pior do que a própria visão dela.
Ele soltou um suspiro trêmulo, esfregou o rosto novamente e saiu do banheiro.
Mas, no fundo, ele sabia.
Jessica nunca o deixaria em paz.
Paulo voltou ao seu assento, mas sua mente ainda estava presa no que acabara de acontecer.
Não era a primeira vez.
Sempre foi assim.
Anos atrás…
Ele estava no quintal de sua fazenda, jogando milho para as galinhas. O sol do fim da tarde dourava a paisagem. Ele sentia a poeira subir a cada passo, e o som das aves ciscando o chão trazia uma falsa sensação de tranquilidade.
Mas, mesmo ali, ele sentia.
Alguém o observava.
Olhava por cima do ombro, mas nunca via nada.
Anos atrás…
Quando conheceu sua namorada, naquela festa na cidade vizinha, entre risadas e goles de cerveja, havia aquele arrepio estranho na nuca.
Quando a beijou pela primeira vez, quando dançaram sob a luz da lua, o mesmo sentimento.
Anos atrás…
Até nos momentos mais íntimos, na escuridão do quarto, quando seus corpos se moviam no ritmo da respiração acelerada, havia algo ali.
Nos cantos da visão.
No silêncio entre os sussurros.
Sempre foi assim.
E agora… ele sentia que não conseguia mais manter o disfarce.
Seu peito subia e descia rápido. Seu olhar perdido. Sua testa suando frio.
— Algum problema, rapaz?
A voz firme trouxe Paulo de volta à realidade.
Ele piscou algumas vezes antes de olhar para o lado.
Um dos agentes estava de pé ao lado dele, encarando-o com as sobrancelhas arqueadas. O crachá no peito dizia "Agente Sullivan".
Paulo respirou fundo, forçando um sorriso.
— Não… só um pouco de cansaço.
Sullivan o encarou por mais alguns segundos, como se estivesse analisando a mentira.
— É bom que esteja bem. Vai precisar da cabeça no lugar para o que vem por aí.
Ele deu um tapinha no ombro de Paulo antes de seguir para a cabine do piloto.
Paulo soltou o ar devagar, fechando os olhos.
Seja o que for que o observava todos esses anos… nunca foi embora.
O jato pousou suavemente na pista de pouso improvisada em meio ao deserto. O calor intenso ondulava no horizonte, e a poeira levantava com o impacto das rodas no solo seco.
Ismael foi o primeiro a descer. Seus olhos escanearam o ambiente rapidamente até encontrarem ela.
Lívia.
Ela estava lá, de pé, usando uma jaqueta leve sobre a roupa, os cabelos ruivos presos num coque improvisado, mas os olhos brilhavam como sempre.
E, nos braços dela, o pequeno filho deles.
Por um momento, todo o resto desapareceu.
— Lívia… — A voz de Ismael falhou um pouco, mas ele já estava correndo até ela.
Ela sorriu largo, os olhos marejados, e em um instante os dois estavam em um abraço apertado.
— Idiota, você me deixou preocupada. — Ela sussurrou contra o peito dele, a voz trêmula.
Ismael segurou seu rosto com as mãos, analisando cada detalhe dela, como se quisesse gravar na mente. Depois, olhou para o filho, que encarava o pai com uma curiosidade inocente.
— Ei, campeão. — Ele tocou a bochecha macia do bebê, que riu baixinho.
— Ele sente sua falta. — Lívia disse, emocionada.
Ismael sorriu e beijou a testa dela antes de pegar o filho nos braços. O calor da pequena criatura contra ele fez algo apertar em seu peito. Era real. Estava ali. Eles estavam bem.
Paulo e Jaime chegaram logo depois.
— Então é assim que me recebe, sem abraço? — Jaime brincou.
Lívia riu e puxou os dois para um abraço rápido, mas sincero.
— Eu não queria chorar na frente de todo mundo, mas vocês me obrigaram.
— Que bom que não perdemos esse talento. — Paulo provocou.
Ela revirou os olhos, mas estava claramente aliviada.
— Vamos, tem alguém esperando vocês.
A Revelação
Eles entraram no grande prédio militar, onde passaram por corredores estreitos até chegarem a uma sala ampla com uma mesa ao centro e uma grande tela na parede.
Ao fundo, uma figura esperava por eles.
Quando ele se virou, a atmosfera na sala pareceu mudar instantaneamente.
Ele vestia roupas escuras, um sobretudo levemente surrado, e seu rosto carregava marcas de batalhas passadas. Mas o mais impactante eram os olhos — olhos de alguém que já tinha visto o inferno e voltado para contar a história.
Ismael sentiu um arrepio subir pela espinha.
Ele conhecia aquele homem.
Não pessoalmente, mas pelas histórias que ouviu sobre a guerra que aconteceu na cidade vizinha.
O homem pousou um livro grosso sobre a mesa e encarou cada um deles.
— Me chamo Elias.
O tom era seco, calculado. Ele deslizou o olhar para cada um deles, avaliando-os como se fossem peças em um tabuleiro.
— A partir de agora, sou o professor de vocês.
Silêncio.
Paulo trocou um olhar rápido com Ismael.
Jaime pigarreou, tentando quebrar a tensão.
— Então… que tipo de aula vai ser essa?
Elias deu um pequeno sorriso de canto, mas não era de humor.
— Uma que pode decidir se vocês vão viver ou morrer.
Elias caminhou lentamente pela sala, cruzando os braços enquanto os observava. Seu olhar era firme, avaliando cada um deles como se estivesse tentando medir sua determinação.
— A cidade vizinha onde tudo aconteceu... — Ele começou, sua voz grave ecoando pelo ambiente. — Era um campo de batalha. Vampiros, caçadores, soldados. Uma guerra que o governo enterrou, mas que ainda não acabou.
Ismael trocou um olhar com Paulo, que apenas assentiu em silêncio.
— Vocês estão aqui porque precisam entender que o que aconteceu lá não foi um caso isolado. Há coisas neste mundo que desafiam qualquer lógica, e agora vocês estão prestes a encarar uma delas.
Elias pegou um controle remoto e apertou um botão. A grande tela na parede se iluminou, revelando mapas do deserto ao redor da cidade. Pontos vermelhos piscavam em diferentes áreas.
— Esses são os locais onde detectamos atividade incomum. Objetos surgindo do nada, sinais de rádio interrompidos por vozes desconhecidas, sombras se movendo onde não há ninguém.
Jaime soltou um assobio baixo.
— E nós vamos lá, né?
Elias deu um meio sorriso, mas não parecia humorado.
— Exatamente. Vocês serão divididos em duplas e jogados nesses pontos específicos. A missão é simples: investigar, sobreviver e reportar o que encontrarem.
Ele virou para Lívia e Jaime.
— Vocês dois vão para a região leste, onde um antigo vilarejo foi engolido pelo deserto. Os sinais lá são os mais instáveis. Algo está interferindo nos equipamentos, e precisamos descobrir o quê.
Lívia respirou fundo, assentindo. Jaime apenas murmurou:
— Ótimo. Sempre quis passear no meio do nada.
Então, Elias olhou para Ismael e Paulo.
— Vocês dois vão para o setor oeste. Há relatos de luzes surgindo no horizonte à noite, acompanhadas por sons que não deveriam existir. Um drone enviado para lá desapareceu sem deixar vestígios.
Ismael cruzou os braços.
— Luzes estranhas e sons misteriosos? Parece coisa de filme de terror.
Paulo deu um tapa no ombro dele.
— E nós somos os protagonistas.
Elias ignorou o comentário e continuou:
— Vocês terão rádios para comunicação, mas não garantimos que funcionem o tempo todo. Esse deserto… não é normal. Algo ou alguém está interferindo.
Ele então caminhou até a mesa e colocou duas mochilas pesadas ali.
— Equipamento de sobrevivência, lanternas especiais, munição e rastreadores. Não queremos que vocês simplesmente desapareçam no nada.
Lívia pegou uma das mochilas e olhou para Elias.
— E você? Não vai com a gente?
Ele balançou a cabeça.
— Tenho outra missão. Mas ficarei de olho.
O tom dele não deixava espaço para discussão.
Houve um momento de silêncio enquanto todos assimilavam o que estavam prestes a fazer.
Então, Elias suspirou e olhou diretamente para Ismael.
— Espero que estejam prontos. Porque a partir de agora, vocês não estão mais caçando fantasmas do passado.
Ele apertou um botão no controle remoto, e a tela mudou para uma imagem borrada de algo alto e esguio no meio do deserto.
— Dessa vez, os fantasmas podem caçar vocês.
O sol do deserto começava a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos. A missão só começaria na manhã seguinte, então Ismael e Paulo decidiram passar um tempo sentados perto de uma fogueira improvisada, observando as estrelas começarem a surgir no céu.
Paulo mexia em um pequeno graveto, desenhando símbolos sem sentido na areia. Seu rosto estava iluminado pelo brilho quente do fogo, mas havia algo inquietante nele.
— Cinco anos, hein? — Paulo disse, quebrando o silêncio. — Parece que foi ontem que a gente tava naquela casa...
Ismael soltou uma risada seca.
— É, mas olha pra gente agora. Caçadores de mistérios a serviço do governo. Quem diria?
Paulo riu, mas foi um riso sem alegria. Ele ficou um tempo em silêncio antes de continuar:
— Sabe, Ismael... às vezes eu me pergunto se ainda sou eu mesmo.
Ismael franziu a testa.
— Como assim?
Paulo suspirou, olhando para o céu.
— Desde aquele dia… Desde que tudo começou… Eu sinto que algo sempre esteve me observando. Sempre à espreita.
Ismael sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Do que você tá falando, cara?
Paulo não respondeu de imediato. Ele simplesmente virou a cabeça para o lado e murmurou algo em voz baixa. Como se estivesse falando com alguém.
Ismael franziu o cenho.
— Paulo?
Nada.
— Paulo, com quem você tá falando?
Paulo piscou algumas vezes, como se estivesse despertando de um transe, e deu uma risada curta.
— Ninguém.
Mas Ismael não estava convencido. Ele olhou nos olhos do amigo e viu algo que o deixou inquieto. Um brilho estranho. Uma sombra que não deveria estar ali.
E pela primeira vez, Ismael começou a se perguntar se Paulo estava mesmo completamente são
Lívia estava sentada na pequena cabana improvisada, organizando algumas roupas enquanto olhava para o tablet com fotos do filho. Seus olhos brilhavam cada vez que ela via um vídeo dele sorrindo, brincando.
— Você realmente não é mais a patricinha que eu conheci, hein?
Jaime encostou-se à porta, um sorriso brincando em seus lábios. Lívia revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
— Eu mudei, Jaime. Todo mundo mudou.
Ele entrou na cabana, sentando-se ao lado dela e espiando o tablet.
— Ele se parece muito com você. Mas espero que tenha puxado a inteligência do pai.
Lívia bufou e deu um soco leve no braço dele.
— Engraçadinho.
Jaime olhou para ela com um olhar mais sério.
— Mas, falando sério... Você é feliz? Com essa vida?
Lívia ficou um tempo em silêncio antes de responder.
— Eu sou mãe agora. Minha felicidade vem dele. Mas... às vezes, eu sinto que algo ainda está incompleto.
Jaime assentiu, compreendendo mais do que gostaria.
— Bom, se precisar de um padrinho maluco pra ensinar ele a pilotar um barco, eu tô aqui.
Lívia riu, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se verdadeiramente leve.
Mesmo que, no fundo, soubesse que a tempestade ainda não havia passado.
Ismael saiu do quarto, sentindo a cabeça pesada. Algo em Paulo o incomodava profundamente, mas ele não sabia ao certo o quê. A sombra nos olhos do amigo, os sussurros que ele soltava para ninguém, o jeito estranho como olhava para o nada…
Ele precisava respirar.
Andando pelo corredor do alojamento improvisado no deserto, Ismael passou as mãos no rosto, tentando afastar a sensação de que algo estava errado. Foi então que ele ouviu.
Uma melodia suave, um assobio ecoando pelo corredor silencioso.
Uma canção antiga.
Seu coração parou por um segundo. Ele conhecia aquela música.
Virando a esquina, ele viu Elias encostado na parede, braços cruzados, cantarolando a melodia com um meio sorriso.
— Você conhece? — Elias perguntou, sem parar de assobiar.
Ismael estreitou os olhos, sentindo um calafrio subir por sua espinha.
— De onde você tirou isso?
Elias deu de ombros.
— Eu me interesso por músicas antigas. Essa em particular... bem, digamos que já ouvi ela em um lugar interessante.
Ismael cruzou os braços, desconfiado.
— E onde seria esse lugar?
O sorriso de Elias se alargou, mas seus olhos permaneciam sérios.
— Um casarão abandonado. Uma casa que já foi o centro de algo muito maior do que qualquer um de vocês imaginou.
Ismael sentiu seu estômago revirar.
Aquela casa.
A casa onde tudo começou.
Ele engoliu seco, mas manteve a expressão firme.
— E o que você quer dizer com isso?
Elias parou de cantarolar e inclinou a cabeça, como se estivesse considerando as palavras certas.
— Digamos apenas que... certas histórias nunca terminam de verdade. Elas apenas esperam o momento certo para serem continuadas.
O silêncio pairou entre os dois.
E Ismael soube, naquele instante, que algo muito maior estava à espreita. Algo que talvez nunca tivesse realmente desaparecido.
smael caminhou pelo corredor, mas a melodia ainda ecoava em sua mente, como um sussurro vindo do passado. Ele fechou os olhos por um segundo e, sem querer, murmurou um verso baixinho:
"Na escuridão, os olhos brilham,
Passos frios vêm me buscar,
Se eu correr, eles me seguem,
Se eu parar, vão me tocar..."
Ele sentiu um arrepio na espinha.
Aquela música...
Era quase igual à que aquele monstro cantava no primeiro dia deles naquela casa.
Ismael seguiu andando pelos corredores do centro de operações, mas sua mente estava presa naquela melodia. O passado parecia querer puxá-lo de volta, como se algo que ele pensava ter deixado enterrado estivesse apenas esperando o momento certo para emergir. Ele apertou o passo, tentando afastar a sensação ruim, mas não adiantava.
Do outro lado do complexo, Jaime estava sentado com Livia, assistindo seu filho dormir através de uma tela de monitoramento. Ela sorria suavemente, mas ele percebeu algo em seu olhar – uma preocupação que ia além daquela missão.
— Você ainda pensa naquilo? – Jaime perguntou, quebrando o silêncio.
— Aquilo nunca saiu da minha cabeça – Livia respondeu sem tirar os olhos da tela. — Mas agora... sinto que estamos mais perto da verdade do que nunca.
Enquanto isso, Paulo estava sozinho em seu quarto. Ele encarava seu reflexo no espelho, os olhos fundos, a expressão cansada. Jessica estava ali de novo, ou melhor, o que restava dela em sua mente.
— Eles vão descobrir, Paulo... – a alucinação sussurrou, um sorriso torto no rosto. — E quando descobrirem, vão te deixar para trás.
Ele fechou os olhos e respirou fundo. Ele não podia perder o controle agora.
No salão principal, Elias estava revisando arquivos sobre a missão. Múltiplos desaparecimentos naquela cidade fantasma, sinais de atividades inexplicáveis. Ele suspirou e olhou para o mapa na parede.
— Algo grande está esperando por eles lá... – murmurou para si mesmo.
Do lado de fora, no céu noturno, um helicóptero do governo sobrevoava as ruínas de uma cidade esquecida. Um dos agentes olhava pela janela e franziu a testa ao ver estranhas pegadas no chão abaixo. Pegadas que não pareciam humanas.
E então, um som ecoou pelo rádio do helicóptero. Um sussurro baixo, distorcido, quase como uma voz cantando...
"Na escuridão, os olhos brilham..."
O agente engoliu seco.
A missão dos quatro escolhidos estava prestes a começar – e algo, ou alguém, já os esperava.
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Atualizado até capítulo 20
Comments
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2025-03-11
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