Paulo acordou com um sobressalto, engasgando com a água gelada que escorria pelo seu rosto e ensopava suas roupas. Seus braços estavam presos por correntes enferrujadas, que pendiam do teto de pedra áspera. A dor latejava em sua cabeça, e cada músculo do seu corpo reclamava do esforço.
Ele piscou algumas vezes, tentando focar a visão. As tochas iluminavam o ambiente com uma luz oscilante, projetando sombras sinistras nas paredes repletas de hieróglifos e desenhos antigos. À sua frente, de pé e com um sorriso debochado nos lábios, estava a mulher que eles haviam visto antes. Alta, pele morena como bronze, cabelos longos e negros que caiam como um manto escuro sobre seus ombros. Seus olhos brilhavam com uma inteligência fria e cruel.
— Finalmente acordou, garoto. — disse ela, a voz carregada de um sotaque que Paulo não conseguia identificar. Algo ancestral, quase hipnotizante.
— Quem... quem é você? E onde tá o Ismael? — Paulo perguntou, a voz rouca e falha.
A mulher soltou uma risada leve, como se aquilo fosse uma piada interna que só ela entendia.
— Ismael? Ah, o falador. Ele ainda está vivo, por enquanto. Se ele não continuar falando absurdos, talvez até sobreviva. Mas você... você é o interessante.
Paulo a encarou, os olhos semicerrados de desconfiança.
— O que você quer da gente?
— Eu? Apenas o que todos querem. Poder. Conhecimento. Controle. E talvez... uma diversão. — Ela deu alguns passos em sua direção, os pés descalços quase deslizando sobre o chão frio.
— Meu nome é Neferet. Já ouviu falar de mim, Paulo?
Ele não respondeu, mas o nome soava familiar, como se tivesse sido sussurrado em seus pesadelos mais recentes.
— Não? — continuou Neferet. — Pois deveria. Eu era uma rainha, uma sacerdotisa e algo muito, muito mais. E você e seu amiguinho aí tropeçaram no meu território como dois ratos tentando roubar um pedaço de queijo.
Paulo tentou manter a calma, mas os calafrios subindo por sua espinha eram impossíveis de ignorar.
— Se quer poder e controle, você tá mirando nas pessoas erradas. A gente não tem nada. Somos só... sobreviventes.
Neferet sorriu novamente, aquele sorriso de alguém que já ouvira aquela desculpa mil vezes.
— E é exatamente por isso que vocês me interessam. Os fracos que se fingem de fortes. Os vivos que arrastam correntes invisíveis... Ah, Paulo.
Ela parou bem diante dele, seu rosto a poucos centímetros do dele.
— Eu vejo tudo o que você tenta esconder. Seus medos. Sua culpa. E principalmente... sua loucura.
Paulo estremeceu, os olhos arregalados. Como ela sabia? Como ela podia ver tão fundo assim?
— Vamos brincar um pouco, rapaz. E, quem sabe, eu não ajudo você a se livrar dos seus demônios? Ou talvez... eles só fiquem mais fortes.
Ela se virou, caminhando em direção à saída da câmara.
— Descanse bem. Vamos precisar de você em boas condições para o que vem a seguir.
As portas pesadas se fecharam com um baque surdo, deixando Paulo sozinho na escuridão gélida e silenciosa, com apenas os ecos da voz de Neferet e o peso crescente da loucura que insistia em acompanhá-lo.
Ismael acordou com um grito contido, a dor na perna queimando como se alguém tivesse cravado uma faca em sua carne e girado sem piedade. Sua mão trêmula se apoiou numa mesa improvisada, de madeira velha e áspera, cheia de rachaduras e marcas de arranhões.
O quarto era minúsculo e sufocante, sem janelas e com apenas uma porta de ferro pesada e enferrujada. O ar era denso, impregnado de poeira antiga e algo que ele preferia não identificar. A única luz vinha de uma tocha trêmula presa na parede, projetando sombras tortas pelo lugar.
— Merda... — murmurou ele, rangendo os dentes enquanto tentava colocar peso na perna machucada. — Minha vida tava tão boa antes disso... Ou, pelo menos, boa o suficiente. Paz. Tranquilidade. E agora tô aqui, num buraco amaldiçoado, cercado por múmias e uma doida de filme de terror. Eu sabia que aceitar aquela missão era roubada...
Ele se forçou a dar um passo, apoiando-se na mesa como se fosse sua única âncora na realidade. A dor aumentou, mas ele se recusou a ceder. Sua mente trabalhava rápido, já calculando formas de escapar dali.
— Tá, Ismael, pensa... pensa. — Ele olhou em volta, tentando encontrar algo útil. A mesa, uma cadeira velha caindo aos pedaços, algumas correntes penduradas na parede. Nada que pudesse servir como arma.
Limpou o suor da testa com a manga da camisa e olhou para a porta.
— Trancada, óbvio. Essas malditas portas de filme B sempre são trancadas.
Ele respirou fundo, tentando ignorar a dor e o cansaço. Precisava pensar. Precisava sair dali.
— Talvez eu possa derrubar essa porta... Ou, sei lá, arrancar essa tocha e usar ela pra arrombar a fechadura. Tem que ter alguma coisa que funcione.
Sua voz ecoava na sala pequena, o som distorcido como se até as paredes estivessem zombando dele.
— Lívia... se eu morrer aqui, vou te assombrar pro resto da vida, só pra garantir que você sinta remorso, sua teimosa... — Ele deixou escapar um riso amargo.
Com cuidado, ele deu mais um passo, cada movimento medido e controlado. Não sabia quanto tempo tinha antes que alguém viesse checar seu estado. E quando viessem, ele não queria estar ali, indefeso.
— Ok, Ismael. Hora de colocar esse cérebro pra funcionar... antes que você vire comida de múmia.
Ele se aproximou da porta, examinando cada centímetro da fechadura, da madeira e das dobradiças, procurando uma fraqueza. Porque, no fim das contas, era isso que ele fazia de melhor: encontrar um jeito de sobreviver quando tudo parecia perdido.
Após uma hora interminável de resmungos, gemidos de dor e reclamações sobre como aquele lugar fedia a mofo e morte, Ismael finalmente encontrou o que parecia ser uma brecha para fugir. A parte inferior da porta de ferro tinha um parafuso enferrujado que ele conseguiu soltar usando um pedaço da corrente arrancada da parede. Um truque sujo e desesperado, mas funcionou.
Ele saiu mancando para o corredor, o peso na perna machucada quase o derrubando a cada passo. Os corredores eram estreitos e sinuosos, um labirinto interminável que parecia feito para enlouquecer qualquer um que tentasse escapar. As paredes eram de pedra antiga, cobertas por hieróglifos que ele nem tentava entender.
— Claro, labirintos, múmias e corredores eternos... Esse lugar é um pesadelo saído direto de Indiana Jones. Só que eu não tenho chapéu e nem chicote. E tô com a perna fudida. Maravilha.
Ismael continuou mancando, a respiração pesada. Ele se apoiava nas paredes frias para aliviar o peso da perna ferida. Então, ao dobrar mais um corredor, parou bruscamente.
A mulher. Ela saía de uma sala imensa, seus passos ecoando pelo corredor. Ela ainda falava algo num idioma antigo, talvez dando ordens para os monstros que obedeciam seus caprichos. O olhar dela era frio, calculista, mas Ismael se escondeu a tempo.
Prendeu a respiração, esperando até que seus passos se afastassem completamente. Só então se permitiu mover de novo.
— Tá bom... Agora ou nunca.
Ele avançou mancando até a porta de onde ela havia saído. Não podia perder tempo. Se ela deixou a sala, então era ali que ele precisava investigar. E, acima de tudo, achar algo que pudesse lhe dar uma chance de escapar.
A sala era grandiosa, iluminada por tochas em suportes dourados. Havia mapas antigos espalhados sobre uma mesa de pedra, símbolos desenhados em vermelho e uma espécie de altar esculpido com detalhes macabros. Ismael se aproximou da mesa, ignorando a dor que latejava em sua perna.
— Agora vamos ver o que você tava escondendo aqui, sua desgraçada...
Ele vasculhou os papéis com rapidez. Desenhos de criaturas deformadas, mapas do deserto com pontos marcados e o que parecia ser um diário antigo. Suas mãos tremiam enquanto folheava o caderno, cada página parecendo mais insana que a anterior.
No entanto, uma frase chamou sua atenção: "Aquele que comanda as criaturas da noite esconde seu verdadeiro nome na escuridão. Apenas o escolhido poderá revelá-lo."
— Certo... Isso é bizarro até pros meus padrões.
Mas ele não parou de procurar. Porque, por mais que estivesse apavorado, cansado e com a perna fodida, ele ainda tinha que encontrar Paulo. E sair daquele pesadelo vivo.
— Ok, Ismael... Agora é achar o idiota do Paulo e dar o fora daqui.
Ele guardou o diário no bolso e se preparou para sair, seus olhos fixos na porta como se a qualquer momento aquela mulher pudesse voltar.
Paulo estava amarrado a uma cadeira feita de madeira antiga, os pulsos e tornozelos presos por cordas ásperas que já começavam a ferir sua pele. A sala onde ele estava era escura e fria, iluminada apenas por tochas presas nas paredes de pedra. O silêncio absoluto era cortado pelo som do próprio coração batendo no peito.
Ele já havia perdido a noção do tempo desde que aquela mulher, Neferat, havia saído. A risada dela ainda ecoava em sua cabeça, e a voz de Jessica continuava a sussurrar coisas sem sentido. Ou pior, fazendo sentido demais.
— Viu só, Paulo? Eu avisei que você ia morrer aqui. Que tal aceitar logo que você enlouqueceu e desistir de lutar? — A voz de Jessica zumbia em sua mente como uma mosca irritante.
— Cala a boca... Eu vou sair daqui. Eu e o Ismael vamos sair daqui, porra. — Paulo sussurrou para si mesmo, tentando ignorar a pressão na cabeça que tornava os pensamentos confusos.
De repente, o som de passos apressados do lado de fora da sala fez seu corpo inteiro enrijecer. Ele prendeu a respiração, esperando pelo pior. Talvez fossem aqueles guardas monstruosos... Ou a própria Neferat voltando para algum tipo de tortura psicológica.
A porta rangeu ao se abrir. Paulo levantou o olhar, pronto para enfrentar qualquer coisa. Mas quando viu quem estava ali, seus olhos se arregalaram de surpresa.
— Ismael? — Sua voz saiu embargada de choque e alívio.
Ismael entrou mancando, a perna claramente ferrada e o rosto suado, mas o sorriso de deboche ainda presente como sempre.
— Caralho, você tá amarrado igual um presunto. Eles te torturaram ou só te deram um castigo de ensino fundamental? — Ismael comentou, começando a desatar os nós das cordas.
— Mano, como você conseguiu sair da merda que te jogaram? — Paulo perguntou, tentando esconder o alívio óbvio na voz.
— Digamos que eu sou um cara cheio de truques... E que esses filhos da puta subestimaram minha capacidade de ser um pé no saco. Além disso, a vadia egípcia não trancou tão bem a porta quanto deveria.
— Neferat... é assim que ela se chama. Ela apareceu aqui algumas vezes, só pra fazer uns discursos esquisitos e dizer que eu deveria me sentir honrado de morrer por um propósito maior. — Paulo rosnou, finalmente se levantando com a ajuda de Ismael.
— Discursos de vilã clássica, hein? Já vi esse filme. Pena que esqueceram de me dar o roteiro.
Ambos riram baixinho, mas o riso era mais um mecanismo de sobrevivência do que alívio genuíno. A situação ainda era desesperadora, mas estarem juntos fazia aquilo parecer um pouco mais possível de se enfrentar.
— Precisamos sair daqui, Ismael. Ela tem monstros a comando dela. Criaturas deformadas que obedecem cada palavra. — Paulo avisou.
— É, eu sei. Eu vi umas dessas aberrações perambulando por aí. Mas eu também achei isso. — Ismael tirou do bolso o diário que encontrara na sala de Neferat e mostrou para Paulo. — E parece que tem mais nessa história do que ela deixa transparecer. Um ponto fraco, talvez. A gente só precisa descobrir qual é.
— Então é melhor a gente ir logo. Antes que ela volte com mais daquelas... coisas. — Paulo olhou em volta, tentando ignorar a dor que a voz de Jessica ainda lhe causava.
— Beleza, parceiro. Mas vou avisando: se você for morrer, morre depois de mim. Não quero ouvir essa merda de que falhei em te salvar. — Ismael disse, forçando um sorriso que mais parecia um esgar de dor.
Ambos começaram a se mover, o mais rápido que podiam, sabendo que aquela fuga era uma aposta desesperada. E que provavelmente, estavam indo direto para a morte.
Ismael e Paulo corriam pelos corredores escuros e sufocantes da pirâmide, o eco dos próprios passos soando como uma batida incessante de tambor. Ismael mancava, mas não deixava isso impedir sua boca de continuar trabalhando.
— Eu juro por Deus que vou enfiar uma granada no rabo daquela mulher e explodir até o último fio de cabelo dela! — Ismael resmungava com o tom ácido de sempre. — E se ela aparecer de novo, vou xingar até ela perder a pose de rainha do mal e partir pra porrada!
— Mano, só cala a boca e corre. E se ela ouvir a gente? — Paulo falava, arfando por causa do esforço, mas também tentando controlar a própria voz para não se perder no desespero.
— Foda-se! Deixa ela ouvir! Pelo menos vou morrer mandando ela ir se ferrar! E porra... Livinha sempre fica dizendo 'Ismael, você xinga demais, Ismael, você devia ser mais educado'. Ah, vai pro inferno! Se ela estivesse aqui, já teria me dado um tapa na cara por falar tanto.
Paulo soltou uma risada nervosa, que logo morreu quando o som de passos ecoou atrás deles. Ambos aceleraram, os pés chutando areia e o suor descendo pelo rosto como se fossem rios.
O lugar parecia um labirinto infinito, e a cada corredor que atravessavam, o ar ficava mais espesso, mais difícil de respirar. Depois de muito correrem, finalmente acharam o local onde haviam caído: o grande buraco no teto da pirâmide. A luz do sol penetrava ali como uma benção divina, uma promessa de liberdade.
— Ali! Finalmente! Vamos subir logo antes que aquela doida apareça com as múmias dela! — Ismael apontou para cima, já tentando pensar em como escalar aquilo com uma perna ferida.
— Espera... Onde ela tá? — Paulo olhava ao redor, os olhos percorrendo o local em busca de Neferat ou de qualquer um de seus servos monstruosos. Mas o lugar estava estranhamente silencioso.
— Ou ela cansou da gente ou saiu pra dar um rolê. Seja como for, a gente tem que vazar daqui antes que ela volte.
— E como você pretende escalar isso com a perna ferrada, gênio? — Paulo perguntou, lançando um olhar cético para Ismael.
— Ah, relaxa. Já passei por coisa pior. Tipo aquela vez que a Lívia tentou me ensinar a dançar e eu quase quebrei os dois joelhos.
— Você não aprende, né? — Paulo riu, dessa vez de verdade. A voz de Jessica parecia distante por um momento.
— Se eu aprendesse, não seria eu. Bora!
Eles começaram a escalar com esforço, usando todas as forças que ainda restavam. Cada metro subido era uma vitória. Ao chegarem na superfície, o calor do deserto os atingiu como um soco, mas era melhor do que o ar sufocante lá de baixo.
— Cara, está de dia... Ela deve ter saído por aí. O que quer que aquela mulher esteja procurando, não era a gente. — Ismael falou, enquanto limpava o suor da testa.
— Acha que ela vai voltar?
— Com certeza. E eu quero estar a quilômetros daqui quando isso acontecer. Agora, vamos dar o fora daqui antes que algo pior resolva aparecer.
Ambos começaram a se afastar da pirâmide, mas a sensação de estarem sendo observados não desaparecia. Seja lá o que Neferat estava planejando, aquilo estava apenas começando.
Ismael e Paulo olhavam para o buraco acima deles, a luz do sol filtrando-se como um milagre. Mas a questão era: como subir?
— Beleza, gênio. Alguma ideia pra sair daqui? — Paulo perguntou, limpando o suor do rosto.
— Tenho sim, e se você não gostar, enfia a crítica onde o sol não bate. — Ismael olhou ao redor e viu algumas tochas antigas penduradas nas paredes, presas por suportes metálicos. — A gente vai fazer uma escada improvisada. Segura firme nas tochas e sobe que nem um macaco. Se uma quebrar, você pula pra próxima. Sem frescura.
— Isso é loucura.
— Você esperava o quê? Plano inteligente numa pirâmide perdida?
Com pressa e desespero, eles começaram a escalar, usando as tochas fixas como apoios. Algumas rangiam ameaçadoramente, mas mantinham-se firmes o suficiente. Depois de muita luta, tropeços e palavrões de Ismael, eles finalmente saíram pelo buraco, caindo de cara na areia quente do deserto.
— Nunca mais... NUNCA MAIS eu entro num buraco desses. Nem se me pagarem. — Ismael resmungou, se jogando de costas na areia.
Mas logo o alívio deu lugar à preocupação. O lugar ao redor parecia diferente. Fragmentos de pedra estavam espalhados por todo o lado, pedaços de pano antigo flutuavam com o vento. Era como se tivesse acontecido uma batalha ali, e nada daquilo parecia bom.
— Aquela pedra... A que encontramos. Tá destruída. — Paulo apontou, os olhos arregalados. — E esses panos... Parecem parte de roupas antigas. As múmias que aquela mulher controlava talvez?
— Ótimo. Múmias raivosas soltas pelo deserto. Só o que faltava... — Ismael disse, tentando achar humor naquilo, mas o tom dele revelava preocupação genuína.
De repente, o som familiar e poderoso de hélices cortando o ar fez ambos olharem para cima. Um helicóptero se aproximava rapidamente, e o alívio tomou conta dos dois.
— Ah, porra... Eu nunca achei que ficaria feliz em ver esses idiotas do FBI. — Ismael sorriu de canto, acenando exageradamente para o helicóptero.
— Pelo menos dessa vez não vão dizer que a gente não trouxe nada de útil. — Paulo murmurou, aliviado.
— Útil? Eu trouxe uma dor de cabeça, uma perna ferrada e provavelmente uma maldição egípcia. Tá ótimo pra mim.
O helicóptero pousou suavemente, levantando areia por todo o lado. Enquanto a porta se abria e os agentes armados saltavam para ajudá-los, Ismael e Paulo sabiam que aquilo estava longe de terminar.
— Essa coisa... Aquela mulher... Isso é só o começo, não é? — Paulo perguntou, olhando para o deserto vazio.
— Sempre é, cara. Sempre é. — Ismael respondeu, antes de ser levado para dentro do helicóptero junto com Paulo.
O helicóptero balançava levemente enquanto Ismael e Paulo eram puxados para dentro pelos agentes. O calor do deserto foi rapidamente substituído pelo ar fresco e artificial da cabine.
Elias estava sentado mais ao fundo, braços cruzados, olhar fixo e frio. Ao seu lado, alguns tablets e papéis espalhados, como se ele estivesse estudando alguma coisa o tempo todo.
— Então, o que descobriram? — A voz de Elias era cortante, sem nenhuma preocupação com o estado lamentável de ambos.
— O que a gente descobriu? — Ismael disparou, o rosto vermelho de raiva e o corpo inteiro tremendo de exaustão e dor. — Eu descobri que você é um merda arrogante que não dá a mínima pra gente! Isso que eu descobri!
Paulo agarrou o ombro de Ismael com firmeza, impedindo-o de avançar. — Relaxa, cara. Agora não. A gente precisa manter o foco.
— Você não tá vendo, Paulo? Esse desgraçado nos mandou pra um buraco amaldiçoado sem nenhuma garantia de que conseguiríamos sair vivos! E agora ele só quer um relatório? Ele quer que a gente só... só...
— Já deu. — Paulo cortou, a voz calma mas firme. Ele olhou diretamente para Elias, respirou fundo e começou a explicar: — Encontramos uma pirâmide subterrânea. Havia múmias... criaturas controladas por uma mulher chamada Neferat. Parecia uma sacerdotisa ou algo do tipo. Ela foi quem nos capturou.
— E vocês conseguiram alguma coisa útil? — Elias perguntou, ignorando completamente a descrição bizarra.
— Útil? Útil? Eu quase morri, seu desgraçado! — Ismael gritou. — Mas, se você quer tanto saber, eu peguei isso. Ele tirou do bolso a estranha bola que tinha encontrado na sala secreta e jogou no colo de Elias.
Elias olhou para o objeto com curiosidade e uma ponta de aprovação relutante. — Finalmente, um avanço. Vou mandar isso para análise. E quanto à mulher? Essa... Neferat.
— Ela nos deixou vivos por alguma razão. E ela saiu da pirâmide. Isso significa que está lá fora, Elias. Andando por aí com um exército de múmias ou sei lá o quê. — Paulo explicou, com o olhar sério.
— Ótimo. Isso já é alguma coisa. — Elias respondeu com frieza. — Vocês fizeram bem. Agora descansem. A próxima etapa começa em breve.
Ismael soltou uma risada amarga. — Próxima etapa? Como se eu fosse cair nessa de novo.
— Você não tem escolha. — Elias rebateu, os olhos firmes em Ismael. — Quer viver para ver sua família de novo, certo? Então faça o seu trabalho.
Ismael não respondeu. Apenas olhou para Paulo com um misto de raiva e resignação.
O helicóptero seguia em frente, deixando o deserto para trás, mas com a certeza de que o verdadeiro perigo ainda estava à solta.
Ismael respirou fundo, tentando engolir a raiva que queimava em seu peito. Seu olhar se voltou para Elias, agora mais controlado, mas ainda cheio de desconfiança.
— Tá... antes que eu jogue você pra fora desse helicóptero, que tal você explicar o que diabos aconteceu ali? — Ismael disparou.
Elias ergueu uma sobrancelha, parecendo quase satisfeito por Ismael finalmente fazer uma pergunta útil.
— Vocês dois passaram mais tempo lá embaixo do que imaginavam. Quando o seu sinal desapareceu, mandamos um drone para investigar. Não demorou muito para percebermos que alguma coisa... saiu daquele buraco. E não veio em paz.
— O que quer dizer com isso? — Paulo perguntou, a voz carregada de preocupação.
Elias pegou um dos tablets e girou para mostrar imagens e vídeos de uma batalha no deserto.
— A coisa que vocês chamam de Neferat... ela saiu junto com algumas das suas... criações. Múmias. Pelo menos uma dúzia delas. Elas atacaram nosso posto avançado a menos de cinco quilômetros do buraco. Tivemos baixas. Algumas foram mortas, outras... bem, algumas desapareceram. Provavelmente levadas por essas criaturas.
— Merda... — murmurou Paulo, enquanto Ismael apenas olhava para as imagens, tentando processar aquilo tudo.
— As múmias são letais, mas parecem seguir ordens diretas. Não agem por conta própria. Nossa hipótese é que Neferat está tentando encontrar algo ou alguém. E essa bola que você pegou... pode ser parte disso.
Ismael olhou para o objeto que Elias ainda segurava com cuidado.
— E o que vocês fizeram pra impedir ela?
— Bombardeamos o lugar. Mísseis, drones, tudo o que tínhamos disponível. Mas as criaturas se dispersaram e agora estão se movendo pelo deserto. Nossa prioridade agora é rastreá-las e eliminá-las. E, se possível, descobrir o que essa tal de Neferat quer.
Paulo balançou a cabeça, incrédulo. — Então vocês só jogaram bombas e esperaram que resolvesse? Sabe que isso só vai irritar mais ainda essa mulher, né?
— Provavelmente. Mas é o que temos por enquanto. — Elias respondeu, frio como sempre.
Ismael soltou uma risada amarga. — Genial. Mandar a gente pra um buraco mortal e depois jogar bombas pra garantir que morramos sufocados. Tá cada vez melhor trabalhar com você, Elias.
— Não se faça de vítima, Ismael. Vocês sabiam dos riscos. Agora descansem e se preparem. Ainda não terminamos aqui.
O helicóptero continuou seu trajeto. Mas a tensão entre os três homens deixava claro que, se aquela missão era um pesadelo, o verdadeiro terror ainda estava por vir.
Ismael respirou fundo, tentando engolir a raiva que queimava em seu peito. Seu olhar se voltou para Elias, agora mais controlado, mas ainda cheio de desconfiança.
— Tá... antes que eu jogue você pra fora desse helicóptero, que tal você explicar o que diabos aconteceu ali? — Ismael disparou.
Elias ergueu uma sobrancelha, parecendo quase satisfeito por Ismael finalmente fazer uma pergunta útil.
— Vocês dois passaram mais tempo lá embaixo do que imaginavam. Quando o seu sinal desapareceu, mandamos um drone para investigar. Não demorou muito para percebermos que alguma coisa... saiu daquele buraco. E não veio em paz.
— O que quer dizer com isso? — Paulo perguntou, a voz carregada de preocupação.
Elias pegou um dos tablets e girou para mostrar imagens e vídeos de uma batalha no deserto.
— A coisa que vocês chamam de Neferat... ela saiu junto com algumas das suas... criações. Múmias. Pelo menos uma dúzia delas. Elas atacaram nosso posto avançado a menos de cinco quilômetros do buraco. Tivemos baixas. Algumas foram mortas, outras... bem, algumas desapareceram. Provavelmente levadas por essas criaturas.
— Merda... — murmurou Paulo, enquanto Ismael apenas olhava para as imagens, tentando processar aquilo tudo.
— As múmias são letais, mas parecem seguir ordens diretas. Não agem por conta própria. Nossa hipótese é que Neferat está tentando encontrar algo ou alguém. E essa bola que você pegou... pode ser parte disso.
Ismael olhou para o objeto que Elias ainda segurava com cuidado.
— E o que vocês fizeram pra impedir ela?
— Bombardeamos o lugar. Mísseis, drones, tudo o que tínhamos disponível. Mas as criaturas se dispersaram e agora estão se movendo pelo deserto. Nossa prioridade agora é rastreá-las e eliminá-las. E, se possível, descobrir o que essa tal de Neferat quer.
Paulo balançou a cabeça, incrédulo. — Então vocês só jogaram bombas e esperaram que resolvesse? Sabe que isso só vai irritar mais ainda essa mulher, né?
— Provavelmente. Mas é o que temos por enquanto. — Elias respondeu, frio como sempre.
Ismael soltou uma risada amarga. — Genial. Mandar a gente pra um buraco mortal e depois jogar bombas pra garantir que morramos sufocados. Tá cada vez melhor trabalhar com você, Elias.
— Não se faça de vítima, Ismael. Vocês sabiam dos riscos. Agora descansem e se preparem. Ainda não terminamos aqui.
O helicóptero continuou seu trajeto. Mas a tensão entre os três homens deixava claro que, se aquela missão era um pesadelo, o verdadeiro terror ainda estava por vir.
O helicóptero pousou com um baque seco no solo improvisado da base. O vento das hélices levantou poeira, fazendo Ismael apertar os olhos enquanto descia com a perna ainda latejando.
Lívia e Jaime esperavam por eles, os rostos tensos de preocupação. Quando Ismael colocou os pés no chão, seu olhar encontrou o de Lívia, e toda a raiva, o sarcasmo e o estresse pareciam desaparecer por um instante. Ele tentou dar um sorriso, embora fosse mais uma careta por causa da dor.
— Eu tô inteiro... mais ou menos. — brincou ele, esticando os braços como se quisesse provar que estava vivo. — Só me jogaram pra dentro de uma pirâmide maldita, onde uma mulher fantasma tenta me matar. Coisa tranquila.
Lívia não se conteve. Correu até ele e o abraçou apertado, ignorando completamente os resmungos de dor dele. — Eu tava tão preocupada, Ismael. Achei que... que tinha perdido você.
Ele retribuiu o abraço, afagando os cabelos dela com carinho. — Eu sou duro de matar, lembra? Prometi que voltaria.
Enquanto isso, Paulo andava um pouco afastado, os olhos fixos no chão enquanto Jaime se aproximava.
— E aí, garoto? Sobreviveu, pelo menos. — Jaime brincou, mas havia uma sinceridade evidente na preocupação dele.
— Por enquanto. — Paulo respondeu, a voz ainda carregada e distante. — O pior é que eu não sei se sobrevivi todo, sabe? Parte de mim tá... diferente. Como se eu tivesse deixado algo lá embaixo.
— Eu entendo. Esse tipo de coisa muda a gente. Mas o importante é que você tá aqui. Agora vamos tratar desses machucados antes que você desmaie de vez.
Paulo apenas assentiu, seguindo Jaime em direção à enfermaria, deixando Ismael e Lívia conversando um pouco mais.
— Então... o que você achou lá embaixo? — perguntou Lívia, ainda segurando a mão dele como se temesse que ele desaparecesse de novo.
— Além de um monte de mortos-vivos e uma maluca que gosta de brincar de rainha do Egito? Ah, e claro, uma bolinha mágica que Elias insiste que é importante. — Ismael fez uma pausa, o sorriso sarcástico desaparecendo. — Mas tem uma coisa que eu preciso descobrir. Porque essa mulher... ela não tá só atacando. Tá procurando alguma coisa. E a gente precisa descobrir o que é antes que ela ache.
— E nós vamos descobrir. Juntos. — respondeu Lívia, determinada.
Ismael segurou a mão dela com mais força, como se aquilo fosse seu único ponto de equilíbrio em meio ao caos.
Já era noite quando Ismael finalmente conseguiu se jogar na cama dura do quarto improvisado na base. Sua perna estava toda enfaixada, latejando em um ritmo constante que o deixava ainda mais irritado. Tentou se distrair mexendo no tablet que Elias havia deixado com ele para revisar as informações coletadas, mas o cansaço venceu e ele apenas largou o aparelho no colchão, fechando os olhos por alguns segundos.
Foi então que ouviu a porta se abrindo devagar. Quando abriu os olhos, viu Lívia entrando no quarto com um sorriso malicioso e uma garrafa de vinho na mão.
— Eu sei que você deveria estar descansando... mas eu achei que talvez você precisasse de algo pra relaxar de verdade. — disse ela, balançando a garrafa como se fosse um troféu.
— Vinho? Tá tentando me matar de vez, é? — Ismael respondeu, dando um sorriso cansado, mas genuíno. — Se Elias descobrir que você tá me enchendo de álcool no meio da missão, ele vai surtar.
— Ele que surte, então. — Lívia fechou a porta atrás de si e caminhou até a cama. — Você mereceu. Depois de tudo o que passou hoje... E também, eu precisava te ver sem aquele ar rabugento de sempre.
— Ah, eu sou puro charme, sabe disso. Só que as múmias não gostaram muito. — Ele tentou brincar, mas o sorriso virou uma careta de dor quando tentou se mexer.
— Fica quieto. — Lívia se aproximou, puxando uma cadeira para sentar ao lado da cama. — Quer um pouco?
Ela abriu a garrafa e tirou dois copos de plástico que havia roubado da cantina improvisada da base. Ismael olhou para aquilo e deu uma risada curta.
— Nossa, que chique. Faltou só o caviar.
— Faz o que dá, né? E aí, vai aceitar ou não?
— Claro que vou. Precisava de um motivo pra tomar um porre mesmo. — Ele estendeu a mão, pegando o copo que ela lhe oferecia.
Ambos beberam em silêncio por um momento, aproveitando o raro instante de tranquilidade. A bebida não era nada especial, mas o calor que descia pela garganta era reconfortante. Lívia o observava com atenção, como se tentasse ler seus pensamentos.
— Tá tudo bem, Ismael? De verdade? — perguntou ela finalmente, os olhos sinceros.
— Bem é exagero. Mas tô vivo, o que é um milagre considerando que aquele lugar parecia um show de terror ao vivo. — Ele deu mais um gole no vinho e olhou para ela. — Mas quer saber? Só de ver você aqui, já faz tudo parecer menos ferrado.
— Isso foi um elogio? Nossa, tô até emocionada. — Lívia riu e deu um leve empurrão no ombro dele.
— Vai se acostumando, porque não vou repetir. — Ismael brincou, mas sua expressão se suavizou. — É sério, Lívia. Ter você aqui faz uma diferença do caramba. Sei que falo muita besteira, mas... é verdade.
— Eu sei. E você é importante pra mim também. Mesmo sendo esse rabugento teimoso.
O silêncio voltou a reinar, mas dessa vez era um silêncio confortável. Apenas os dois, dividindo um momento raro de paz em meio ao caos que os cercava.
Lívia se ajeitou na cadeira por um instante, mas então, sem aviso, largou o copo de plástico vazio na mesinha ao lado e se deitou na cama apertada ao lado de Ismael. O colchão rangeu, como se estivesse protestando contra o peso adicional, mas nenhum dos dois ligou para isso.
Ismael ficou imóvel por um segundo, o corpo inteiro tenso. Seu coração acelerou, e não por causa da dor na perna. Era um tipo diferente de dor. Uma mistura de nervosismo e alegria genuína.
— Tá confortável aí? Porque essa cama mal aguenta um. — brincou ele, tentando disfarçar o nervosismo.
Lívia riu baixinho, os olhos fixos nos dele.
— Acho que às vezes você esquece que nós somos casados, né? — Ela interrompeu qualquer tentativa de resposta ao se inclinar e beijá-lo suavemente.
Ismael parou de falar na mesma hora. A dor na perna, o cansaço, o caos lá fora, tudo desapareceu no instante em que os lábios de Lívia tocaram os seus. O beijo era quente, intenso e familiar, como se ela estivesse reafirmando o que ele às vezes esquecia: que, apesar de tudo, ainda estavam juntos.
Ela se afastou só o suficiente para encarar os olhos dele, sorrindo de um jeito que aquecia seu peito inteiro.
— Eu sei que você tenta esconder que tá sempre preocupado comigo e com o nosso filho. Mas eu tô aqui, com você. E nada vai mudar isso.
— Lívia... eu... — Ismael começou, sem saber direito o que dizer. Sua mão tremeu um pouco quando ele tentou segurar a dela. — Eu só queria que você não tivesse que passar por toda essa loucura. Merecia algo melhor. Algo mais tranquilo.
— Tranquilidade é superestimada. Eu escolhi você, Ismael. E mesmo com todos os palavrões e piadas ruins... eu te amo.
— Também te amo, Lívia. Mesmo que você tenha um gosto péssimo pra vinho. — Ele tentou brincar, mas sua voz saiu mais rouca do que pretendia.
— E mesmo que você seja um reclamão insuportável. — Ela riu, mas logo voltou a beijá-lo, dessa vez com mais intensidade.
O quarto simples e abafado, por alguns momentos, se tornou o lugar mais acolhedor do mundo.
Lívia deslizou os dedos pelo rosto de Ismael, como se quisesse decorar cada detalhe, cada cicatriz que ele tinha ganhado nesses anos de loucura. A mão dela repousou na barba por fazer, acariciando lentamente enquanto o olhar dela permanecia firme no dele.
— Você é um idiota. — Ela sussurrou, mas o tom era cheio de carinho e provocação.
— E você é uma teimosa. — Ele rebateu, sorrindo daquela forma torta e desajeitada que só ela conseguia arrancar dele. — Acho que a gente se merece.
Lívia riu baixinho, os olhos brilhando de um jeito que fazia todo o caos ao redor deles parecer distante. Ela se inclinou para beijá-lo novamente, um beijo que começou suave, mas logo se tornou mais intenso, mais desesperado. Como se ambos quisessem provar um ao outro que estavam vivos, juntos e que nada poderia separá-los.
Ismael a puxou para mais perto, ignorando completamente a dor na perna. Naquele momento, a única coisa que importava era ela. O toque dela, o calor dela.
Eles se perderam um no outro, deixando que todo o medo, a dor e as incertezas se dissipassem por um tempo. Não havia mais deserto, não havia mais pirâmides, não havia mais monstros. Só havia os dois, na segurança frágil daquele quarto abafado.
Mais tarde, enquanto Lívia estava deitada com a cabeça apoiada no peito de Ismael, o sono começando a pesar sobre ela, ele passou os dedos pelos cabelos dela e sussurrou:
— Eu tenho tanto medo de te perder...
Ela abriu os olhos, a voz saindo calma e firme:
— Você nunca vai me perder. Eu sou mais teimosa do que você pensa.
Eles ficaram assim por um tempo, abraçados, ouvindo a respiração um do outro como se fosse a única coisa que importasse no mundo.
Ismael e Lívia ficaram ali por um tempo, abraçados, trocando palavras sussurradas e olhares que diziam muito mais do que qualquer conversa. Os dedos dele desenhavam trilhas suaves pelo braço dela, como se precisasse garantir que ela era real e estava ali.
— Você tá bem? — Ele perguntou baixinho, a voz levemente rouca.
— Eu tô perfeita. — Lívia respondeu com um sorriso preguiçoso, deslizando os dedos pelo peito dele. — E você? Não forçou muito a perna, né?
— Tá doendo pra caramba, mas acho que a dor é menor com você por perto. — Ismael brincou, rindo baixinho.
Lívia o puxou para mais perto, os lábios dela roçando no pescoço dele, enquanto o calor entre os dois só crescia.
— Ainda acho que você devia descansar. — Ela sussurrou, mas o tom dela contradizia qualquer preocupação.
— E perder isso aqui? Nem a pau. — Ele disse antes de beijá-la de novo, dessa vez com mais urgência, como se quisesse guardar cada segundo daquela noite.
Os minutos seguintes foram cheios de toques gentis que se transformavam em carícias mais intensas, sorrisos entrecortados por beijos, mãos explorando a pele do outro sem pressa. Eles se perderam novamente, deixando que o mundo lá fora desaparecesse.
Mais tarde, os dois estavam deitados lado a lado, a respiração ainda um pouco descompassada. Lívia passou a ponta dos dedos pelo rosto dele, os olhos brilhando.
— Você devia se machucar mais vezes. — Ela brincou, rindo suavemente.
— Se isso for parte da recuperação, eu aceito ser atropelado se precisar.
Eles riram juntos, deixando que aquele momento de paz tomasse conta. Ismael segurou a mão dela e a trouxe para perto de si, os olhos dele se fechando enquanto o cansaço finalmente o vencia.
Enquanto a noite avançava e o silêncio dominava a base improvisada, Paulo e Jaime se encontravam do lado de fora, perto de uma área pouco iluminada. As sombras dos dois oscilavam sob a luz fraca, e o tom de voz de ambos estava tenso, controlado.
— Isso tá errado, Jaime. Tudo isso. — Paulo começou, os braços cruzados, tentando esconder o tremor nas mãos. — Esses agentes... o FBI, o governo, quem quer que seja. Eles tão escondendo alguma coisa da gente. E a Neferat, aquela mulher... o que ela é? De onde ela veio? Como controla... aquelas coisas?
— Eu sei, Paulo. Mas o que a gente vai fazer? Eles têm os recursos, têm o controle. Nós só temos... nós. E um bando de perguntas sem respostas. — Jaime esfregou o rosto, exausto. — A gente precisa ser esperto. Descobrir o que eles sabem e o que não tão contando. Porque confiar neles agora... é suicídio.
— E o que você sugere? — Paulo olhou ao redor, desconfiado de que alguém pudesse ouvi-los.
— A gente continua fazendo o que sempre fez. Sobreviver. Manter os olhos e os ouvidos abertos. Eles precisam da gente, então vamos usar isso a nosso favor. E... se precisarmos fugir... que seja.
— Você acha que eu tô ficando louco, Jaime? — Paulo perguntou, de repente, a voz falhando um pouco.
Jaime ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder. — Acho que, depois de tudo o que a gente passou, ninguém aqui tá exatamente são. Mas você é forte, Paulo. Só... não deixa essa loucura te consumir. E se precisar, eu tô aqui.
— Valeu, cara. — Paulo assentiu, tentando mascarar o medo em seu olhar. — Mas a gente precisa descobrir o que tá acontecendo. Porque se depender desses caras, a gente só vai saber quando for tarde demais.
Os dois se afastaram em direções opostas, mas a tensão ficava no ar. Algo estava errado, e eles sabiam disso. Agora, só restava descobrir a verdade antes que a verdade os destruísse.
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Atualizado até capítulo 20
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