A pessimista

O helicóptero pousou suavemente na base, e Jaime foi o primeiro a descer, oferecendo a mão para Lívia, que ainda segurava firme sua mochila cheia de anotações e evidências. O vento forte das hélices bagunçava seus cabelos, mas ela mal ligava. A única coisa em sua mente era contar para Elias tudo o que tinham encontrado.

Ao entrar na sala de reuniões, Elias já os esperava, sentado com os pés apoiados na mesa, uma xícara de café quente na mão. Ele ergueu uma sobrancelha ao ver o estado deles.

— Vocês parecem que viram um fantasma.

Lívia jogou a mochila na mesa com força.

— Talvez tenhamos visto algo pior.

Jaime cruzou os braços e soltou um suspiro.

— O vilarejo estava praticamente abandonado. Algumas casas saqueadas, outras pareciam que as pessoas saíram com pressa. Mas o pior foi isso aqui.

Ele pegou o livro que haviam encontrado no porão e abriu na página marcada.

— "A noite ele corre, no dia ele manda suas múmias" — Elias leu em voz alta, estreitando os olhos. — Isso não parece nada bom.

Lívia tirou a foto amassada do bolso e a entregou para Elias.

— Isso foi escrito em todos os cantos da parede onde encontramos esse livro. "Esse é ele."

Elias observou a imagem. Não era nítida, mas mostrava uma figura encapuzada, alta, no meio do deserto. Os olhos brilhavam na sombra, como se fossem duas tochas acesas.

Por um instante, o ex-caçador de vampiros ficou em silêncio. Depois, levantou-se devagar e colocou a foto na mesa.

— Vocês fizeram bem em trazer isso. Mas agora eu preciso que vocês me digam... O que mais vocês encontraram?

Lívia e Jaime se entreolharam.

— Havia algo estranho no ar, Elias. — Jaime disse, esfregando os braços como se sentisse um calafrio. — Não sei explicar, mas... parecia que estávamos sendo observados o tempo todo.

Elias bateu os dedos na mesa, pensativo.

— Talvez vocês estivessem.

Lívia engoliu seco.

— E Ismael e Paulo? Eles já fizeram contato?

Elias olhou para o relógio e franziu a testa.

— Não. E já faz tempo demais que eles deveriam ter enviado um relatório.

O silêncio na sala ficou pesado.

Jaime bateu o pé impaciente.

— Então o que a gente faz?

Elias pegou o rádio e apertou o botão, chamando alguém.

— Mande uma equipe para o último ponto conhecido de Ismael e Paulo. Agora.

O drone sobrevoava a área onde Ismael e Paulo haviam sido vistos pela última vez. A transmissão na tela da base mostrava apenas o buraco na areia, escuro e silencioso. Nenhum sinal dos dois.

— Nada. Nenhuma movimentação. — disse um dos agentes monitorando as câmeras.

Elias apertou os olhos, inquieto.

— Mantenham a transmissão ativa. Se houver qualquer alteração, me avisem imediatamente.

Dentro do buraco

A escuridão era densa, cortada apenas pelo brilho fraco das tochas que, um a uma, começaram a se acender sozinhas. O som das chamas ecoava no corredor estreito, iluminando um caminho que se estendia para dentro da terra.

Ismael e Paulo trocaram um olhar. Nenhum dos dois ousou falar. Apenas seguiram em frente, os passos ecoando nas paredes de pedra. O silêncio era quase absoluto, exceto pelo som do fogo crepitando e pela respiração contida de ambos.

Depois de minutos caminhando, a passagem estreita se abriu em uma sala espaçosa. O teto era alto, decorado com símbolos esculpidos em pedra. No centro da sala havia uma estrutura antiga, semelhante a um altar, coberto por poeira e marcas do tempo.

Paulo passou a mão pelo altar, revelando inscrições ocultas sob a poeira.

— O que você acha que isso significa? — ele perguntou, finalmente quebrando o silêncio.

Ismael franziu a testa, analisando os símbolos.

— Não faço ideia. Mas algo me diz que não é coisa boa.

De repente, um som profundo e distante preencheu o ambiente. Um barulho de algo se movendo, como se pedras estivessem deslizando sozinhas. Ambos se viraram ao mesmo tempo para a entrada da sala.

O corredor atrás deles estava se fechando.

Uma esfera metálica caiu do teto com um som seco, rolando alguns centímetros antes de parar bem diante deles. A superfície era antiga, mas tinha algo de estranho—não parecia ser apenas uma pedra esculpida.

Ismael arqueou a sobrancelha, observando o objeto com curiosidade.

— Isso me lembra algo que já vi num anime...

Paulo virou o rosto para ele com uma expressão séria, os olhos semicerrados.

— Piada, nessa hora?

Ismael deu de ombros, mas abaixou-se, pegando a esfera com cuidado. O material era frio e parecia vibrar levemente ao toque. Sem pensar muito, ele a colocou no bolso.

— A gente já está enfiado no meio de algo bizarro, qual o problema de levar um souvenir?

Paulo suspirou, mas não teve tempo de responder. Um novo barulho ecoou pelo corredor, um som grave e abafado, como algo gigante despertando.

— Ok, talvez a gente devesse sair daqui. — disse Ismael, já se virando em direção à saída.

Mas o caminho de volta agora estava diferente. As paredes haviam se movido, criando uma nova rota.

— É impressão minha ou esse lugar está vivo? — murmurou Paulo, cerrando os punhos.

— Se estiver, espero que não queira nos digerir. — respondeu Ismael, forçando um sorriso nervoso.

E então, sem outra opção, os dois avançaram pela nova passagem, sem saber o que os aguardava.

Os dois caminharam pelo túnel estreito e abafado, sentindo o ar pesado ao redor. O cheiro de poeira e tempo esquecido impregnava cada canto da estrutura. A luz fraca das tochas que haviam encontrado tremulava nas paredes de pedra, projetando sombras inquietantes.

Ismael, como sempre, mantinha o rádio na mão, tentando sem sucesso entrar em contato com Elias ou qualquer outra pessoa da base.

— Nada ainda... merda, por que tudo tem que ser tão complicado? — ele resmungou, batendo no aparelho algumas vezes.

Paulo, por outro lado, caminhava em silêncio, o rosto carregado. Ele estava visivelmente incomodado, mas não era apenas pelo calor sufocante ou pela situação.

— Algo errado, fazendeiro? — Ismael perguntou, notando a expressão dele.

Paulo não respondeu imediatamente. Seus olhos se moviam de um lado para o outro, como se estivesse lutando contra algo interno. Até que, finalmente, ele rosnou entre os dentes:

— Ela não cala a boca.

Ismael parou de andar.

— A Jessica?

Paulo passou a mão pelo rosto, irritado.

— Sim! Dessa vez, pelo menos, ela disse algo relevante.

Ismael cruzou os braços.

— E o que a falecida tá te soprando agora?

Paulo hesitou por um momento, olhando para a escuridão adiante.

— Ela disse... 'Se entrarem, não voltem sem respostas. Ele está te esperando'.

O silêncio entre eles foi cortado apenas pelo som distante de areia se movendo nos corredores. Ismael engoliu em seco.

— Isso foi vago e sinistro ao mesmo tempo. Gosto assim.

Paulo apenas revirou os olhos e seguiu em frente. Eles estavam dentro da pirâmide agora. E algo—ou alguém—parecia estar esperando por eles.

Paulo parou abruptamente, seus olhos faiscando com raiva e confusão. Antes que Ismael pudesse reagir, sentiu a mão do amigo agarrar sua camisa com força, puxando-o para perto.

— Como você sabe da Jessica? — Paulo rosnou, os dentes cerrados.

Ismael não se assustou. Pelo contrário, um sorriso provocador surgiu em seu rosto.

— Eu sou mais inteligente do que pareço.

Paulo manteve o olhar fixo nele, buscando alguma explicação, mas Ismael apenas soltou um suspiro e afastou a mão do outro com calma.

— Escuta, eu sei que você tenta ignorar isso, mas algo mudou quando saímos daquele lugar cinco anos atrás. Não sei como, mas alguma coisa veio com a gente.

Paulo hesitou, mas seu aperto na camisa de Ismael afrouxou. Ele sabia que o amigo estava certo. Ele sentia isso todos os dias. Jessica não era apenas um delírio, não era só culpa ou saudade. Era algo mais profundo, algo que o assombrava de verdade.

— A questão é... o que mais pode ter saído com a gente? — Ismael completou, cruzando os braços.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Nenhum dos dois tinha essa resposta. Mas algo dentro daquela pirâmide poderia ter.

Elias observava atentamente as imagens do drone, os olhos fixos na tela enquanto o aparelho sobrevoava o buraco onde Paulo e Ismael haviam desaparecido. O sinal estava fraco, mas ainda conseguia captar imagens nítidas do local.

— Nada... só areia e pedras. — Jaime resmungou, cruzando os braços. — É como se eles tivessem sido engolidos.

Lívia, ao lado deles, segurava a mochila com os papéis e a foto que encontraram no vilarejo. Ela estava inquieta, os dedos tamborilando no couro da alça.

— Eles entraram em algum tipo de estrutura subterrânea. — Elias concluiu, ajustando os controles do drone. — Mas se o sinal não está atravessando, significa que é algo profundo, e talvez bem antigo.

— Isso não te lembra nada? — Lívia perguntou, lançando um olhar sério para ele.

Elias olhou para ela por um instante, entendendo exatamente o que queria dizer. Ele respirou fundo antes de responder.

— Sim... é parecido com o que encontramos naquela cidade, um ano atrás.

Os três ficaram em silêncio por alguns segundos, assimilando o peso daquilo.

Jaime quebrou o silêncio:

— Ótimo. Mais uma missão suicida. Isso tá virando um padrão.

Lívia ignorou a ironia e abriu a mochila, espalhando os papéis sobre a mesa improvisada dentro da base.

— O que encontramos no vilarejo pode estar conectado. A foto, os escritos... 'Esse é ele'. Mas quem? Quem eles estavam tentando avisar?

Elias passou a mão pelo rosto, frustrado.

— Primeiro precisamos achar Paulo e Ismael.

Ele virou-se para a equipe técnica.

— Preparem um segundo drone. Vamos mapear qualquer entrada subterrânea nas proximidades.

Lívia olhou para a tela mais uma vez, o rosto tenso.

— Espero que não seja tarde demais...

Ismael e Paulo andavam em silêncio, suas lanternas iluminando as paredes estreitas e empoeiradas da pirâmide. O ar era pesado, carregado com um cheiro antigo de pedra e morte. Depois de duas horas de caminhada — e duas pausas para necessidades básicas — eles finalmente encontraram algo que os fez parar.

Diante deles, um salão gigantesco se abria, com fileiras de sarcófagos e esqueletos de soldados do Egito antigo enfileirados como se ainda estivessem em formação de batalha.

— Isso... é um cemitério. — Ismael sussurrou, a voz quase se perdendo no eco do lugar.

Paulo se ajoelhou, analisando um dos soldados mumificados. Ele ainda segurava uma lança, os olhos vazios olhando para o nada.

— Eles morreram prontos para lutar.

Ismael passou a mão em um dos sarcófagos, tirando o pó acumulado. Havia inscrições gravadas em ouro e desenhos representando batalhas.

— Parece que estavam protegendo algo.

— Ou esperando algo. — Paulo respondeu, levantando-se.

O silêncio no ambiente era assustador, e a sensação de que estavam sendo observados só crescia.

— Eu não gosto disso. — Ismael murmurou, ajustando a mochila nas costas.

De repente, um barulho ecoou pelo salão. Um chiado distante, como algo se arrastando pelo chão.

— Você ouviu isso? — Paulo sussurrou, já segurando sua arma.

Ismael apenas assentiu, os olhos vasculhando a escuridão à frente.

O silêncio foi quebrado por um som seco.

Um dos esqueletos caiu no chão, como se tivesse sido empurrado.

Então, outro.

E outro.

Paulo engoliu em seco.

— Seja lá o que for que estavam esperando... talvez tenha finalmente chegado.

Ismael e Paulo se esconderam rapidamente atrás de um dos grandes sarcófagos, suas respirações controladas para não fazerem barulho. O salão estava ainda mais sinistro agora, iluminado apenas pelas tochas fracas espalhadas pelo ambiente.

A múmia que surgiu era diferente de tudo que já tinham visto em livros ou filmes. Sua pele ressecada, os olhos afundados e a mandíbula semiaberta davam a ela um ar perturbadoramente vivo. Mas o pior era a forma como se movia—fluida, rápida, sem o engessamento típico que imaginavam.

Então, surgiu ela.

Uma mulher alta, de pele morena e longos cabelos negros presos em tranças delicadas. Suas vestes eram luxuosas, enfeitadas com joias douradas que refletiam a luz das tochas. Seu olhar era afiado, enigmático, e ao contrário da múmia ao seu lado, ela parecia plenamente viva.

Ela sussurrou algumas palavras em egípcio para a criatura, e, no mesmo instante, a múmia desapareceu como se nunca tivesse existido.

Em seguida, a mulher caminhou lentamente até um dos caixões e, sem hesitação, se sentou sobre ele, cruzando as pernas.

E então, começou a cantarolar.

Sua voz ecoou pelo salão, baixa, melódica, hipnotizante.

Atrás do sarcófago, Ismael não conseguiu se segurar.

— Caraca, gata e vilã... — ele sussurrou, os olhos ainda fixos nela.

Paulo revirou os olhos e, sem hesitar, deu um tapa forte na nuca de Ismael.

— Vou contar pra Lívia.

Ismael franziu a testa e abriu a boca para retrucar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Paulo travou.

Um calafrio percorreu sua espinha.

Algo frio e metálico pressionava a parte de trás de sua cabeça.

Ele não precisava ver para saber.

Alguém estava apontando uma arma para ele.

Paulo sentiu o impacto forte da coronhada na cabeça e tudo ao seu redor girou. Ele caiu de joelhos, tentando manter o equilíbrio, mas antes que pudesse reagir, Ismael gritou.

— Filho da—

O som de um tiro ecoou no salão.

A bala atravessou a perna de Ismael, e ele caiu no chão com um gemido de dor. O sangue se espalhou rapidamente pela areia, tingindo-a de vermelho escuro. Sua visão começou a turvar, e o calor sufocante da pirâmide tornou tudo ainda mais insuportável.

Paulo, mesmo atordoado, tentou se levantar, mas sentiu um pé pesado pressionando suas costas, forçando-o de bruços contra o chão de pedra fria. Ele tentou se debater, mas o golpe anterior já o deixava à beira da inconsciência.

A última coisa que viu antes de apagar foi a mulher morena se levantando lentamente do caixão, caminhando em sua direção com um olhar enigmático e um sorriso nos lábios.

Enquanto isso...

Lívia e Jaime ainda estavam próximos ao buraco onde os dois tinham desaparecido. O equipamento de rastreamento começou a apitar. Algo estava saindo de lá.

Jaime segurou sua arma com firmeza, preparando-se para qualquer coisa.

— Tá vendo isso? — ele perguntou, olhando para o visor que piscava freneticamente.

Lívia, no entanto, não respondeu.

Sua mente estava em outro lugar.

Uma sensação estranha, um aperto profundo no peito a fez arfar, como se o ar estivesse faltando de repente. Seu corpo tremia levemente, seus dedos se fecharam involuntariamente em punhos.

Era como se alguém muito próximo a ela estivesse em perigo.

Ela sabia.

Algo horrível tinha acontecido com Ismael.

O silêncio entre Lívia e Jaime foi quebrado pelo som ensurdecedor do detector apitando freneticamente. O buraco que antes parecia inerte agora pulsava com uma presença desconhecida. Algo ou alguém estava subindo.

Jaime segurou sua arma com firmeza.

— Tem alguma coisa vindo pra cá.

Lívia não respondeu de imediato. Seus olhos estavam distantes. O aperto no peito continuava. Algo estava errado.

— Lívia! — Jaime chamou, forçando-a a focar.

— Temos que descer lá! — ela disse de repente, determinada.

Jaime franziu a testa.

— Você tá maluca? Alguma coisa pode estar subindo, e você quer descer?

Lívia o encarou com intensidade.

— Eu sei que o Ismael tá em perigo. Eu... sinto isso.

Jaime respirou fundo. Ele conhecia Lívia o suficiente para saber que quando ela estava tão decidida, era impossível fazê-la mudar de ideia.

Antes que pudessem tomar qualquer decisão, o solo tremeu.

Uma sombra colossal emergiu da abertura, algo que não deveria existir, algo que não pertencia àquele mundo.

Os dois recularam, suas armas apontadas para a criatura que finalmente se revelou sob a luz do sol.

Os olhos de Jaime se arregalaram.

— Mas que diabos é isso...?

Lívia apertou o cabo da arma, sentindo seu coração disparar.

Seja lá o que fosse, tinha saído da mesma tumba onde Ismael e Paulo estavam.

E isso não significava nada bom.

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