Ecos do passado

O sol mal havia nascido quando Ismael abriu a porta da casa e deu seu primeiro passo para fora. O ar da vila era estranho, pesado, como se algo estivesse errado, mas ninguém conseguia explicar exatamente o quê. O chão de terra batida, as casas rústicas e as ruas vazias transmitiam uma sensação de isolamento sufocante.

Ele passou os olhos pelo cenário. Nada ali fazia sentido. Ele não lembrava de ter vindo para esse lugar. Não lembrava de conhecer aquelas pessoas. Mas o pior de tudo era a forma como os moradores o tratavam – como se ele sempre tivesse feito parte dali.

Ismael respirou fundo, seus olhos analisando cada detalhe da vila. Seu semblante era frio, quase inexpressivo. Mas por dentro, sua mente fervilhava. Ele não era burro. Algo estava muito errado ali.

De repente, um estalo. Uma memória antiga, quase esquecida, invadiu sua mente.

Ele estava de volta ao colégio. O ginásio estava lotado, luzes coloridas piscavam, casais dançavam no meio do salão. Baile de formatura.

Ismael, de pé, encostado na parede, segurava um copo de ponche enquanto observava os colegas rindo, conversando, se divertindo. Ele estava sozinho. O único sem par. No outro lado do salão, Lívia e um grupo de amigas riam. Ele sabia que estavam rindo dele. Sabia exatamente o porquê. Elas achavam patético que ele tivesse ido sozinho.

E foi naquela noite que ele inventou o boato sobre Lívia e um atleta no banheiro. Uma mentira simples, mas suja o suficiente para estragar a reputação dela por um tempo.

Ele piscou, voltando à realidade.

E então, Lívia apareceu.

— Bom dia pra você também, emo misterioso — disse ela, com um sorriso irônico, cruzando os braços.

Ismael não respondeu. Apenas a encarou. Lívia era exatamente como ele lembrava: loira, linda e insuportavelmente convencida. Seu tom de voz carregava aquela superioridade irritante, como se estivesse acima de tudo e todos.

— Vai ficar me encarando assim por quê? Tá apaixonado ou tá tentando me matar com os olhos?

Ismael continuou calado, apenas desviando o olhar para a vila ao redor.

— Nossa, cara, que simpatia. — Lívia bufou. — E aí? Alguma ideia de onde estamos?

Ele continuou sério. Finalmente respondeu, mas sua voz saiu baixa e fria: — Nenhuma.

Lívia revirou os olhos.

— Beleza, Sherlock, valeu pela ajuda. — Ela cruzou os braços. — Eu só queria acordar desse pesadelo. Esse lugar me dá arrepios. E aqueles moradores... Sei lá, eles olham pra gente como se nos conhecessem.

Ismael permaneceu imóvel. A mesma sensação estava incomodando ele desde o momento em que acordou. Mas, diferente de Lívia, ele não demonstrava.  Lívia estava prestes a responder, provavelmente com alguma provocação ainda mais ácida, quando foram interrompidos por Paulo e Jéssica.

Os dois pareciam mais despertos do que o resto do grupo. Era óbvio que passaram a noite conversando, provavelmente tentando entender aquele lugar. Jéssica ajeitou os óculos no rosto e suspirou.

— Bom, já que estamos todos acordados, acho que deveríamos nos dividir para explorar essa vila — disse ela.

— Concordo — completou Paulo, cruzando os braços. — Eu e Jéssica vamos seguir por um lado, vocês dois podem ver o outro. Quanto mais rápido descobrirmos onde estamos, melhor. 

Ismael franziu o cenho na mesma hora.

Ele, com Lívia?

Sem chance.

Ele simplesmente se virou e começou a andar para longe.

— Eu vou sozinho.

Paulo arqueou uma sobrancelha.

— Sério?

Ismael nem respondeu. Apenas continuou andando, deixando-os para trás.

Lívia riu, balançando a cabeça.

— Nossa, que sociável.

Quando ele já estava a alguns metros de distância, ele se virou por um breve momento e lançou uma última provocação para Lívia:

— Boa sorte com o bêbado do sofá, princesa.

Ele deu uma risadinha baixa antes de desaparecer pelo caminho.  Lívia bufou.

— Filho da...

Jéssica segurou o riso.

— Bom, acho que nós três ficamos juntos então.

Paulo suspirou, colocando as mãos no bolso.

— Parece que sim. Vamos dar uma olhada na vila.

Lívia revirou os olhos, ainda irritada, mas seguiu com eles.  Paulo, Jéssica e Lívia caminharam pela vila silenciosa. O lugar parecia parado no tempo, com suas ruas de terra, casas simples de madeira e um silêncio perturbador. Os poucos moradores que avistavam espiavam de longe, com olhares curiosos e... familiares demais.

Paulo caminhava na frente, distraído, seus pensamentos longe. Ele sentia que já tinha estado ali antes. Era como se os próprios passos já soubessem o caminho.

E então, ele viu.

Um campo de futebol.

Paulo parou abruptamente. Seu coração disparou, e um frio percorreu sua espinha.

Ele reconhecia aquele campo. Era o mesmo do seu antigo bairro. O mesmo que havia sido destruído três anos atrás, quando a prefeitura construiu um conjunto habitacional no lugar. Não era possível.

Seus pés se moveram sozinhos até o campo.

A grama desgastada, as traves enferrujadas, até mesmo os buracos na rede... Era idêntico.

Foi quando ele viu alguém ali.

Uma pessoa estava no meio do campo, de costas.

Paulo sentiu o estômago revirar.

Aquela silhueta... Ele conhecia.

— Não... Não pode ser...

O suor frio escorreu por sua testa. O ar parecia faltar. Seu peito começou a apertar. Suas mãos tremeram.

Ele estava tendo uma crise de pânico.

— Paulo! — A voz de Jéssica o trouxe de volta. Ela correu até ele, percebendo seu estado. — Respira! O que foi?

— Aquele cara... Eu conheço ele. Mas ele... Ele não pode estar aqui.

Jéssica olhou para o campo. Não havia ninguém.

— Paulo, não tem ninguém ali.

Os olhos dele estavam arregalados.

— Ele tava ali. Eu juro!

Enquanto isso, Lívia ficou para trás.

Ela cruzou os braços, impaciente.

— Ótimo. Agora eu sou a babá dos dois.

Ela revirou os olhos e se afastou um pouco, olhando ao redor.

Foi quando ouviu um barulho vindo de uma lixeira próxima.

Ela se virou bruscamente.

Algo se mexeu ali dentro.

E, naquele mesmo instante, o telefone dela tocou.

O celular, que não tinha sinal desde que acordaram ali, agora estava vibrando freneticamente.

Na tela, um número desconhecido.

Lívia sentiu um arrepio percorrer sua espinha.  

Lívia sentiu o coração acelerar enquanto olhava para o telefone vibrando em sua mão. Aquele número desconhecido... Como era possível? Nenhum deles tinha sinal desde que chegaram ali.

Hesitante, ela atendeu.

— Alo...?

Por um instante, houve silêncio.

Então, uma voz distorcida e baixa falou:

— É melhor você prestar atenção em quem está dormindo na mesma casa que você.

Lívia sentiu um arrepio subir por sua espinha.

Uma risada ecoou ao fundo.

Ela engoliu em seco.

— Quem é você?!

Mas a ligação caiu.

Ela olhou ao redor, sentindo-se observada.

Seu coração disparava, mas ela tentou manter a pose.

— Ótimo, agora tem gente maluca brincando comigo...

Mas, no fundo, ela sabia que aquilo não era brincadeira.

—  Enquanto isso, Ismael caminhava pela vila em silêncio, seus pensamentos ecoando no vazio.

O lugar era estranho. Muito estranho. Algo ali estava errado.

Foi quando ele viu aquela casa.

Seu corpo parou automaticamente.

Seus olhos se fixaram na estrutura.

Era igual à casa onde ele morava na vida real.

Idêntica.

Cada detalhe.

O peito dele subiu e desceu devagar. Ele sentiu um aperto no estômago.

Sem pensar duas vezes, ele pulou o muro e entrou.

Lá dentro, tudo parecia familiar.

Ele andou pelos cômodos, sentindo a estranheza aumentar. Então, ele viu uma prateleira cheia de fotos.

Fotos de pessoas que ele não reconhecia.

Sem paciência, ele empurrou a prateleira.

Os quadros caíram e se quebraram no chão.

Ismael ignorou e continuou andando.

Foi até uma porta nos fundos.

Era a entrada do porão.

Ele respirou fundo e abriu.

O mesmo cheiro abafado. O mesmo ar denso.

Desceu os degraus. Aquele era o lugar onde, na vida real, ele passava a maior parte do tempo.

Mas aqui... algo estava diferente.

No fundo do porão, havia um computador.

Ele se aproximou e ligou a tela.

Só um único aplicativo podia ser aberto.

Sem alternativas, ele clicou.  Enquanto isso, Paulo estava ajoelhado no chão, tremendo.

Jéssica estava ao seu lado, tentando acalmá-lo.

— Paulo, respira! Quem você viu?

Ele olhava para a árvore, o rosto pálido.

— Meu irmão.

Jéssica franziu a testa.

— Seu irmão? Ele... Ele mora aqui?

Paulo negou com a cabeça.

— Não. Ele morreu.

Os olhos de Jéssica se arregalaram.

Paulo respirou fundo, tentando manter o controle.

— Ele ficou muito doente. E foi minha culpa.

A voz dele falhava. Ele sabia o que tinha feito.

E agora, seu irmão estava ali.

Olhando para ele.

Como se nunca tivesse partido.  A noite já havia caído quando Paulo, Jéssica e Lívia voltaram pela estrada deserta rumo à casa. O silêncio entre eles era pesado. Cada um estava preso em seus próprios pensamentos.

Paulo ainda sentia o peito apertado. A visão do irmão continuava ecoando na sua mente. Jéssica caminhava ao lado dele, analisando cada detalhe ao redor, tentando racionalizar tudo que estavam vivendo.

Já Lívia? Ela segurava o telefone nas mãos, lembrando daquela ligação misteriosa.

Foi quando eles viram a casa.

Pararam.

— Que porra...? — murmurou Paulo.

A casa estava destruída.

A porta escancarada, cadeiras viradas, vidros quebrados pelo chão.

Lívia deu um passo para trás.

— Isso não tava assim quando saímos.

Jéssica sentiu o coração acelerar.

— Alguém entrou aqui?

Paulo cerrou os punhos e subiu os degraus da varanda, empurrando a porta com força. O chão estava coberto de cacos e móveis revirados.

Foi então que eles viram Jaime.

Ele estava amarrado a uma cadeira no meio da sala.

Completamente desacordado.

Jéssica arregalou os olhos.

— MEU DEUS!

Foi quando uma voz calma e irritantemente sarcástica veio do sofá.

— Ah, finalmente chegaram. Tava começando a achar que tinham morrido por aí.

Ismael estava deitado no sofá.

Braço jogado sobre o rosto, como se não se importasse com nada.

Lívia sentiu o sangue ferver.

— Ismael?! O que diabos aconteceu aqui?!

Ele riu.

Uma risada curta, sem emoção.

— O vovô aqui teve um surto.

Paulo deu um passo à frente.

— Como assim?!

Ismael sentou-se devagar, apoiando um braço no encosto do sofá. Seu olhar era frio.

— Quando eu cheguei, ele tava destruindo tudo. Jogando as cadeiras, quebrando as janelas, gritando como um louco.

Ele apontou com o queixo para Jaime.

— Tive que dar um jeito.

Jéssica cobriu a boca com as mãos.

— Você o AMARROU?!

Ismael apenas deu de ombros.

— Prefere que eu tivesse deixado ele continuar? Quem sabe ele teria colocado fogo na casa.

Lívia cruzou os braços.

— Você sempre tem essa mania de agir como se fosse dono da razão, né?

Ismael deu um sorriso de canto.

— E eu estou errado?

Silêncio.

Paulo olhou para Jaime. O homem parecia exausto. Seu rosto suado, a respiração irregular.

— A gente precisa soltá-lo.

— Vai em frente. — respondeu Ismael. — Mas se ele surtar de novo, não vem chorar pra mim.

Jéssica hesitou. Olhou para os outros.

Paulo se abaixou, tocando o ombro de Jaime.

— Ei, cara...

Jaime mexeu a cabeça, murmurando algo inaudível.

Lívia franziu o cenho.

— O que ele tá falando?

Todos se inclinaram.

Jaime continuava murmurando...

Palavras soltas.

— Ele está aqui...

— Não pode ser...

— Eu... eu vi...

Seus olhos se abriram de repente.

E ele gritou.  Paulo hesitou por um momento, mas então se abaixou e desamarrou Jaime.

As cordas caíram no chão.

Jaime respirou fundo e começou a chorar.

Seus ombros tremiam, os soluços pesados, como se toda a dor que carregava estivesse desmoronando ali.

Jéssica deu um passo à frente, a voz suave:

— Eu vou pegar um pouco de água pra ele.

Ela foi até a cozinha, pisando nos cacos de vidro espalhados.

Paulo ficou ao lado de Jaime, tentando entender o que estava acontecendo na cabeça dele.

Mas Jaime só chorava.

Enquanto isso, Ismael observava tudo de longe.

Ele suspirou, entediado.

— Bem, isso foi um espetáculo e tanto.

Ele se levantou do sofá, esticando os braços como se nada daquilo fosse grande coisa.

— Vou pegar alguma coisa pra comer e depois vou dormir.

E saiu.

Lívia o seguiu com os olhos.

Mordeu o lábio inferior, irritada.

Como ele podia ser tão frio?

Sem pensar muito, foi atrás dele.

— Ei, Ismael! — chamou, entrando na cozinha.

Ele estava abrindo uma das velhas prateleiras, analisando o que havia ali. Enlatados.

Ismael pegou uma lata qualquer, sem nem olhar direito.

— Se for pra brigar comigo, guarda o fôlego.

Lívia cruzou os braços, se encostando na mesa.

— Você não sente nada?

Ele abriu a lata com um canivete que encontrou por ali.

— O que eu deveria sentir?

Ela franziu a testa.

— A gente acordou num lugar desconhecido, sem memória, com pessoas bizarras ao redor. A casa foi atacada, Jaime quase surta, e você age como se nada disso fosse grande coisa!

Ismael enfiou a colher na lata e começou a comer.

— Gritar e surtar vai mudar alguma coisa?

Lívia cerrou os punhos.

— Seu desgraçado frio e insensível.

Ele ergueu os olhos para ela, sem demonstrar emoção alguma.

Mas... havia algo ali.

Algo profundo.

Um breve silêncio tomou conta da cozinha.

Então, Ismael deu um sorrisinho de canto.

— Decepcionada porque eu não sou o herói da história?

Lívia revirou os olhos.

— Você é insuportável.

Ela se virou para sair, mas então ouviram um barulho vindo da sala.

Um som pesado.

Como se algo tivesse caído no chão.

E um sussurro...

— Ele está aqui.

Lívia olhou para Ismael.

Ele largou a colher.

E ambos caminharam devagar de volta para a sala.  Lívia e Ismael chegaram à sala e viram Paulo caído no chão, com o nariz sangrando.

Jéssica estava ajoelhada ao lado dele, pressionando um pano velho contra o ferimento.

— O que aconteceu? — Lívia perguntou, assustada.

Antes que alguém pudesse responder, Ismael soltou uma risada baixa.

— Eu avisei.

Lívia olhou pra ele, irritada.

— Isso não é engraçado, idiota!

Mas Ismael ignorou e apenas observou Paulo se levantando de repente.

Seus olhos estavam dilatados, selvagens.

Seu peito subia e descia rapidamente.

E então, jaime   correu na direção de Lívia. Ela arregalou os olhos.

Mas antes que pudesse reagir, Ismael se moveu.

Com um único movimento preciso, ele girou o corpo e acertou Paulo com um golpe de Muay Thai no queixo.

O impacto derrubou Paulo imediatamente.

Ele desmaiou no chão.

Jéssica engasgou com um grito.

Lívia ficou em choque.

— Mas o que—?

— Ele ia te atacar. — Ismael respondeu, simplesmente  O silêncio tomou conta da sala.

Até que...

Passos ecoaram pela escada.

Alguém descendo devagar.

Cada passo reverberava pela sala destruída.

E então, ele apareceu.

Um homem alto, vestido com um terno preto impecável.

Tinha um sorriso nojento, torto, estranho.

Ele parou no último degrau, olhando para cada um deles como se estivesse se divertindo.

Então, abriu os braços, ainda sorrindo.

— Nossa, dois dias e já estão assim?

Ele inclinou a cabeça para o lado.

— Vocês são mais interessantes do que eu pensava.

E começou a rir.

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Comments

S.Kalks

S.Kalks

acho que é meio desnecessário essa palavra, vc deixa claro que terá uma lembrança 😸

2025-03-11

1

Syl Gonsalves

Syl Gonsalves

Dafne, Fred e Velma kkkkkkkk

2025-02-12

2

S.Kalks

S.Kalks

tbm desnecessário, mas é só meu ponto de vista, pois ficou bem esclarecedor que ele teve um pequeno devaneio 😬

2025-03-11

0

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