Paulo agora vivia uma vida pacata no interior. Ele e sua mãe haviam se mudado para a casa de sua avó logo após os eventos sobrenaturais de três anos atrás. A mudança para uma cidade pequena e tranquila foi uma forma de buscar paz e cura. Com o tempo, Paulo encontrou um novo propósito: trabalhar na pequena fazenda da avó e estudar jornalismo por meio de cursos à distância.
Certa manhã, o sol ainda estava nascendo quando Paulo estava cuidando das vacas no estábulo. O cheiro da terra úmida e o som dos animais ao redor traziam uma sensação de rotina e normalidade. Ele ouviu passos leves atrás dele e virou-se para ver sua namorada, Bianca, uma jovem local de cabelos castanhos ondulados e olhos brilhantes, trazendo um copo de suco.
"Não vai parar pra tomar café da manhã?" Bianca perguntou, sorrindo de leve.
"Já estou quase terminando aqui," Paulo respondeu, aceitando o suco e dando um gole. "Só mais uma hora e estarei pronto."
De repente, sua mãe apareceu na porta do estábulo, segurando o telefone fixo da casa. "Paulo! Tem uma ligação pra você!"
Ele limpou as mãos nas calças e correu até a varanda da casa. Pegou o telefone, ainda um pouco suado e sem fôlego.
"Alô?"
"Paulo. É o Jaime." A voz familiar soou do outro lado da linha. "Está na hora de cumprir nossa promessa. Vamos nos encontrar."
Paulo sentiu um arrepio subir pela espinha. Ele olhou para Bianca, que agora estava parada na porta da casa, observando-o com curiosidade. Ele sabia que aquele momento chegaria mais cedo ou mais tarde.
"Quando e onde?" Paulo perguntou.
"Em uma semana, no parque. O mesmo de sempre." Jaime fez uma pausa antes de continuar. "E traga a Lívia e o Ismael. Precisamos conversar."
Paulo desligou o telefone e olhou para sua mãe e Bianca. "Vou ter que sair por alguns dias. Um reencontro importante."
Bianca se aproximou dele, segurando sua mão. "Você está bem?"
"Sim," ele respondeu, mas seus olhos estavam distantes. "Só... é algo que preciso resolver."
Ele sabia que aquele reencontro não seria apenas sobre velhas amizades. Algo estava por vir, e eles precisariam estar prontos
Paulo se aproximou de Bianca, segurando suavemente seu rosto entre as mãos. Ele olhou nos olhos dela por um momento antes de beijá-la com carinho. Ao se afastar, sua expressão era séria, mas cheia de ternura.
"Preciso ir para a capital. Vou encontrar uns amigos. Tem algo importante que precisamos resolver," ele explicou, sua voz firme, mas não fria.
Bianca franziu o cenho, preocupada. "Isso tem a ver com aquele pesadelo que você tinha? Ou com os sonhos estranhos de antes?"
Paulo hesitou, mas assentiu levemente. "Tem a ver, sim. Mas nada vai acontecer. Vou voltar em poucos dias."
"Ok... Mas cuida de você, tá?" Ela suspirou e colocou as mãos nos ombros dele. "Sei que você não gosta de falar sobre isso, mas qualquer coisa, liga pra mim. Eu estarei aqui."
Ele deu um pequeno sorriso. "Obrigado. E, por favor, cuida da minha mãe enquanto estou fora. Ela precisa de você."
Bianca assentiu, determinada. "Deixa comigo. Ela vai ficar bem."
Paulo se despediu com um abraço firme e, sem olhar para trás, foi até o velho jipe da família estacionado no quintal. Ligou o motor, que roncou com um som familiar e confortável, e pegou a estrada de terra em direção à cidade.
Enquanto os campos e árvores passavam pela janela, seu coração acelerava. O reencontro com Jaime, Ismael e Lívia estava cada vez mais próximo, e ele sabia que não seria um simples encontro de amigos.
Jaime acordou sobressaltado, o suor escorrendo pela testa. O sonho fora intenso, com imagens daquela casa amaldiçoada e flashes de criaturas escuras que pareciam observá-lo. Ele passou a mão pelo rosto e suspirou, sentindo o balanço do barco sob seus pés.
Desde que se afastara dos outros, Jaime tinha encontrado paz no mar. Comprou um barco de pesca com o dinheiro que herdou de sua família e montou uma pequena tripulação. Pescavam, vendiam os peixes na costa e levavam uma vida simples, mas a sombra do passado nunca o deixara completamente.
Levantando-se de sua cama estreita na cabine, Jaime pegou seu telefone e discou o número de Paulo. Ele ouviu os toques enquanto subia para o convés do barco. Quando Paulo atendeu, a conversa foi curta, mas direta.
"Tá na hora, né?" disse Paulo do outro lado da linha.
"Sim," respondeu Jaime, olhando para o horizonte azul. "Nos encontramos em dois dias, na capital. Não falte."
"Nem eu perderia isso," disse Paulo, e a ligação foi encerrada.
Jaime saiu do barco para dar uma olhada na pequena vila de pescadores onde morava. As barracas já estavam abertas, com o aroma de peixe fresco e sal marinho no ar. Seus tripulantes o cumprimentavam com acenos amigáveis enquanto ele caminhava até o cais. Apesar do cenário pacífico, o sonho ainda estava fresco em sua mente. Algo estava se aproximando, e ele sabia que o passado ainda não havia terminado.
Do lado de fora do barco, Jaime avistou Melanie, uma jovem humilde e trabalhadora que ele havia conhecido no bar local. Ela era garçonete, sempre com um sorriso gentil e uma personalidade prática, algo completamente oposto à sua ex-esposa, que fazia questão de controlar todos os aspectos da vida dele.
Melanie se aproximou com uma sacola de papel em mãos. "Trouxe um pouco de pão fresco e frutas para você levar na viagem. Ouvi você falando sobre isso ontem à noite."
Jaime sorriu, algo raro em seu rosto. "Obrigado. Sempre cuidando de mim, hein?"
"Alguém tem que cuidar de você, Jaime," disse Melanie com um brilho de provocação nos olhos. "Quando volta?"
"Não sei. Depende de como as coisas forem, mas não mais do que uns três dias," ele disse, ajustando o boné que sempre usava. "Deixo o João no comando do barco enquanto estou fora. Ele já está acostumado com as rotinas."
Melanie assentiu, o olhar dela misturado entre preocupação e confiança. "Você parece diferente hoje. Algo te incomoda?"
Jaime hesitou por um segundo. "Sonhos ruins. Mas nada que não consiga lidar."
Ela tocou no braço dele suavemente. "Se precisar de mim quando voltar, sabe onde me encontrar."
Jaime deu um último olhar para o barco e depois para Melanie. "Cuida bem desse lugar enquanto estiver fora."
"Pode deixar." Ela sorriu novamente, assistindo ele se afastar com uma calma resignada.
Jaime seguiu pelo cais, sabendo que aquela viagem seria mais do que apenas um encontro com velhos amigos. Seria um confronto com o passado – e talvez com algo ainda mais sombrio.
Ismael entrou no apartamento suado da academia, com uma sacola cheia de chocolates. Assim que abriu a porta, deu de cara com Lívia sentada no sofá, os pés apoiados em almofadas e uma expressão que era uma mistura de fome e carência. A barriga dela, de cinco meses, era inconfundível.
"Você não trouxe nada pra mim, né?" disse Lívia, fazendo um olhar de cachorro pidão que quase derreteu Ismael na hora.
Ele tentou disfarçar e colocou a sacola atrás das costas, andando em direção à cozinha. "Chocolate? Não... eu só trouxe água e... proteína em pó!"
Lívia se levantou com uma rapidez que surpreendeu até Ismael. "Ismael, eu sei que você comprou chocolate. Eu posso sentir o cheiro. Você vai mesmo negar isso a uma grávida com desejos?"
Ele riu, mas ainda tentou manter a pose. "Açúcar não é bom para o bebê."
"Nem mentir pro pai dele, Ismael." Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha com um olhar desafiador.
Suspirando, Ismael finalmente cedeu. "Tá bom, tá bom. Mas a gente divide, hein?"
Ele colocou as três caixas de chocolate na mesa de centro. Antes mesmo de terminar, Lívia já tinha aberto uma delas e estava mordendo o primeiro pedaço com um sorriso de pura felicidade.
"Isso foi rápido," disse ele, sentando ao lado dela e passando o braço por trás de seus ombros.
Lívia se inclinou contra ele, satisfeita. "Rápido? Eu te esperei por quase duas horas. Isso é autocontrole."
Eles ficaram ali, aproveitando o momento tranquilo juntos, sabendo que o encontro com os outros amigos estava cada vez mais próximo.
Ismael inclinou-se para beijar Lívia suavemente, saboreando o momento de paz entre eles. Enquanto o fazia, sua mente o levou de volta ao dia em que decidiram deixar a cidade. Os dois tinham passado por tanta coisa juntos. Lívia havia deixado sua carreira de influencer para se concentrar completamente em sua faculdade de moda, algo que sempre foi seu verdadeiro sonho.
Ismael, por outro lado, mergulhou no boxe, onde começou a se destacar rapidamente. Mas sua paixão pela tecnologia o levou a aprender programação também, e ele agora trabalhava com ambos os mundos. Eles estavam construindo uma vida sólida e, no início daquele ano, decidiram dar o próximo grande passo: ter um filho.
Quatro anos atrás, isso seria impensável. Ambos eram jovens, incertos sobre o futuro e carregavam cicatrizes do que haviam enfrentado. Mas agora, eles tinham construído um lar.
Os pensamentos de Ismael foram interrompidos bruscamente quando seu telefone começou a tocar. Ele olhou para o visor: Paulo.
Lívia olhou curiosa. "É ele?"
Ismael assentiu e atendeu. "Fala, Paulo."
"Hora da nossa reunião anual. Você e Lívia estão prontos?" A voz de Paulo soava animada, mas com uma leve tensão no fundo.
"Estamos prontos. Onde vai ser esse ano?"
Paulo deu as instruções e Ismael assentiu. Ao desligar, ele olhou para Lívia. "Parece que vamos para a cidade amanhã."
Lívia sorriu, colocando a mão sobre a barriga. "Vamos ver como está todo mundo depois desses três anos."
Ismael segurou a mão de Lívia sobre sua barriga com carinho. Ele a olhou nos olhos e disse suavemente:
"Não precisa ir se não quiser. Você tem outras prioridades agora, e essa é uma viagem longa."
Lívia sorriu, mas seu olhar carregava uma determinação familiar.
"Eu sei que seria mais seguro ficar, mas... quero estar com você. Não só por nós, mas porque aqueles caras são nossa família também. Eles passaram por tudo com a gente. Acho que tenho que ir."
Ismael suspirou, sabendo que Lívia não mudaria de ideia. "Você sempre foi teimosa."
"Eu prefiro 'determinada'", ela retrucou com uma piscadela.
Ele sorriu, inclinando-se para beijar sua testa. "Então vamos juntos."
Lívia se aconchegou no peito de Ismael por um momento antes de se afastar lentamente. "Mas você vai dirigir devagar e fazer paradas frequentes. Sem discussões."
Ismael riu. "Sim, senhora."
Ismael estacionou o carro na entrada da antiga casa, agora completamente reformada e com uma nova pintura branca, um jardim bem cuidado e luzes penduradas na varanda. A atmosfera, no entanto, ainda carregava uma leve tensão, como se o passado ainda pairasse no ar.
Lívia desceu com cuidado, segurando a barriga enquanto Ismael a ajudava. "Pronto? Não parece o mesmo lugar, né?" ela comentou, olhando ao redor.
"Não parece, mas a energia... ainda está aqui," Ismael murmurou. Ele olhou para a casa com uma expressão pensativa antes de se virar para pegar suas malas.
A porta se abriu antes que eles pudessem bater, e Paulo apareceu com um sorriso largo. "Vocês sempre têm que chegar por último, né?"
"Estávamos ocupados, sabe, vivendo uma vida normal," brincou Ismael, enquanto os dois se abraçavam com força.
"Que bom te ver, mano," disse Paulo, soltando Ismael e cumprimentando Lívia com um abraço cuidadoso. "Olha só pra você, Lívia. Você está radiante!"
"Radiante é um jeito gentil de dizer 'cansada e faminta'," ela brincou.
Jaime apareceu logo em seguida, agora mais bronzeado e com uma barba espessa. Ele parecia mais relaxado, mas ainda tinha aquele olhar atento de alguém que enfrentou muita coisa. "Finalmente! Achei que vocês tinham desistido."
"Você sabe que a gente nunca desiste," disse Ismael, apertando a mão de Jaime antes de se abraçarem.
Os quatro entraram na casa juntos, o som de suas risadas enchendo o espaço. Por dentro, a casa era irreconhecível: moderna, aconchegante e totalmente desprovida da aura sombria de anos atrás.
Sentados ao redor de uma mesa na sala principal, eles finalmente se acomodaram. Paulo trouxe cervejas e sucos, enquanto Jaime preparava um prato de petiscos. O clima era de alívio, mas também de expectativa.
"Então, estamos aqui. Três anos depois," disse Paulo, erguendo sua garrafa. "Por nós. Pela nossa amizade. E por termos sobrevivido."
Todos ergueram seus copos e brindaram. Mas por trás das risadas, cada um sentia que essa reunião não era apenas para relembrar o passado. Havia algo mais à espreita. E todos sabiam que o que quer que tivesse começado três anos atrás ainda não havia terminado.
No domingo de manhã, o sol entrava pelas grandes janelas da casa reformada. O clima estava fresco, e uma brisa suave soprava, trazendo uma sensação de tranquilidade. Ismael estava sentado na varanda, tomando um café enquanto observava a paisagem.
Paulo e Jaime saíram logo cedo. "Vamos dar uma volta pela região, matar um pouco a nostalgia," disse Paulo antes de irem embora. "E talvez ver se ainda encontramos aquele velho lago que descobrimos na nossa última vez por aqui."
Ismael acenou para eles, enquanto Lívia se aproximava, com um sorriso misterioso no rosto. "Está aproveitando o dia, pai do ano?"
Ele riu. "Só estou esperando para ver o que você está planejando com esse sorriso. Conheço você bem demais para achar que isso é só uma manhã tranquila."
Lívia puxou sua mão e o fez levantar. "Vem comigo. Tenho uma surpresa."
Curioso, Ismael a seguiu para dentro da casa. Eles passaram pela sala e foram para o quintal, onde havia uma pequena mesa arrumada com uma cesta de piquenique, chocolates – o doce favorito dela – e um bilhete escrito à mão:
"Obrigado por estar ao meu lado nesses últimos três anos. Nosso futuro começa agora."
Lívia olhou para Ismael, seus olhos brilhando. "Eu sei que os últimos anos foram intensos, e nunca imaginamos que estaríamos aqui, juntos, construindo uma família. Mas quero que saiba que, independente do que venha pela frente, estou aqui com você."
Ismael sorriu, seus olhos cheios de emoção. Ele a abraçou com delicadeza, sentindo a conexão profunda entre eles. "Eu também, Lívia. Não importa o que aconteça, sempre estarei aqui."
Eles se sentaram juntos no piquenique improvisado, aproveitando o momento de paz que tanto haviam buscado. Mas mesmo no meio da tranquilidade, ambos sabiam que o fim de semana ainda guardava algo inesperado.
Já era noite de domingo, e o céu estava repleto de estrelas, iluminando a antiga casa onde tantas memórias haviam sido criadas e relembradas. Paulo, Jaime, Ismael e Lívia estavam de pé na entrada da casa, prontos para se despedir.
Paulo deu um abraço apertado em Ismael. "Até o próximo ano, irmão. E parabéns por tudo que você está construindo." Ele virou-se para Lívia com um sorriso. "Cuida bem dele, tá?"
Lívia assentiu, abraçando Paulo. "Sempre."
Jaime apertou a mão de Ismael e depois deu um tapinha nas costas de Paulo. "Quem diria que estaríamos aqui depois de tudo? Mas, pelo menos, agora temos paz... eu acho."
"Espero que sim," respondeu Ismael com um sorriso leve, embora houvesse uma pequena inquietação no fundo de seus pensamentos.
Após as despedidas, todos subiram em seus carros. Paulo partiu primeiro, seu veículo desaparecendo rapidamente na estrada. Jaime acenou uma última vez antes de seguir caminho para o litoral.
Ismael e Lívia ficaram por um momento, observando a casa. Ele pegou sua mão e apertou suavemente. "Vamos pra casa?"
Lívia sorriu. "Sim. Nossa casa."
Os dois entraram no carro, prontos para seguir seu próprio destino. O motor ronronou suavemente, e o veículo desapareceu na estrada escura, levando com eles as lembranças e as promessas de novos começos.
FIM.
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Atualizado até capítulo 20
Comments
Syl Gonsalves
eita, muita coragem, eu não passaria nem perto
2025-03-11
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