Segredos submersos

Paulo e Jaime seguiram Netikerti e seu grupo pela floresta estranhamente verdejante. Eles atravessaram uma trilha que parecia ter sido usada recentemente, suas pegadas deixavam marcas fundas na lama. Netikerti caminhava na frente, com passos firmes e olhos atentos, enquanto os outros a seguiam em silêncio.

— Pra onde estamos indo? — perguntou Paulo, sem esconder o ceticismo na voz.

— Para o esconderijo. Vocês precisam entender a extensão da ameaça. E precisam de ajuda, mesmo que não saibam disso ainda.

Após um tempo caminhando, eles chegaram a um lago de águas escuras e tranquilas, cercado por rochas cobertas de musgo. Netikerti se abaixou e fez um movimento com a mão, murmurando palavras em egípcio antigo. Logo, uma estrutura de pedra surgiu do fundo do lago, como se a água fosse empurrada para os lados por uma força invisível.

— Sejam bem-vindos à última esperança deste deserto — disse ela, avançando e acenando para que eles a seguissem.

Paulo e Jaime trocaram olhares incrédulos antes de seguir a mulher. Eles entraram por uma porta aberta na estrutura, que se revelou um templo submerso, com túneis de pedra úmida e desenhos antigos nas paredes que reluziam com um brilho verde-fosco.

— Isso aqui é... Inacreditável. — Jaime disse, tocando a parede com os dedos trêmulos.

— Isso aqui deveria estar enterrado para sempre — respondeu Netikerti, com uma tristeza carregada em seu tom.

Eles atravessaram um longo corredor até uma grande câmara onde vários outros estavam reunidos. Mapas desenhados à mão estavam espalhados sobre uma mesa de pedra e tochas iluminavam o local com uma luz oscilante.

— É aqui que estamos planejando nossa resistência. E vocês vieram na hora certa — disse Netikerti, apontando para os mapas. — Neferat está crescendo em poder. Aquele ritual que a trouxe de volta não deveria ter funcionado... mas alguma coisa mudou. E agora, ela não vai parar até possuir poder absoluto.

— E o que vocês pretendem fazer? — perguntou Paulo, seu tom severo, mas atento.

— Aprisioná-la novamente. Mas para isso, precisamos que ela seja levada para o lugar exato onde morreu. O problema é que ela se tornou forte demais. Não podemos encará-la diretamente. Não sem algo para enfraquecê-la.

Netikerti retirou uma pedra negra da bolsa que trazia pendurada no ombro. Uma joia que parecia pulsar com energia própria.

— Isso aqui é um fragmento do altar onde Neferat foi derrotada pela primeira vez. Usado corretamente, pode enfraquecê-la o suficiente para que possamos atraí-la para a armadilha.

— E por que a gente deveria confiar em você? — perguntou Jaime, cruzando os braços.

— Porque vocês não têm outra escolha. E porque eu quero vingança. — Netikerti apertou o punho com força. — Minha irmã morreu por causa dela.

Um silêncio pesado pairou entre eles. Paulo e Jaime se olharam, percebendo que as intenções de Netikerti não eram diferentes das deles. Mas ainda havia algo sombrio e imprevisível em tudo aquilo.

— Então... qual é o plano? — Paulo finalmente disse, aceitando a estranha aliança.

Netikerti abriu um sorriso determinado.

— Vamos trazê-la para o nosso território. E quando ela estiver fraca o suficiente, vocês vão arrastá-la para sua sepultura eterna.

Netikerti espalhou os mapas na mesa de pedra, apontando com precisão para os pontos que pareciam ter mais atividade incomum. Seus seguidores se agruparam ao redor, escutando cada palavra com atenção.

— Neferat se move rápido e os seus poderes só aumentam quando está próxima do deserto. Precisamos atraí-la para cá, para o local da batalha original — explicou Netikerti, traçando linhas no mapa com um pedaço de carvão. — Mas o problema é que ela já descobriu sobre nossos movimentos. Não podemos agir com pressa, mas também não temos tempo a perder.

— E como fazemos isso? — perguntou Jaime, observando atentamente os desenhos e símbolos que cobriam os papéis envelhecidos.

— Usando o fragmento do altar. Ele emana uma energia que ela não pode ignorar. Vamos precisar de alguém para carregá-lo até os portões antigos — disse Netikerti, mostrando um medalhão negro que tremeluzia com um brilho maligno. — Depois disso, vamos atraí-la para cá, enfraquecida e desesperada.

— Parece um plano suicida — murmurou Jaime, sem conseguir desviar os olhos do medalhão.

— É a única chance que temos. A menos que vocês prefiram fugir e deixar que ela destrua o que sobrou deste mundo — respondeu Netikerti, com firmeza.

— Espera aí — interrompeu Paulo, encarando Netikerti e Jaime com um olhar sério. — Antes de irmos adiante, preciso deixar algo claro. Eu sei que vocês têm seus planos e tudo mais, mas... Não confiem nos meus “chefes”.

Jaime ergueu uma sobrancelha, confuso. — Como assim? Elias não é o chefe da missão?

— Elias é só o cara que recebe as ordens e faz o que mandam. Mas os verdadeiros chefes... O FBI, essa organização por trás de tudo... Eles têm suas próprias intenções. E eu não confio neles nem um pouco — explicou Paulo, seu tom carregado de desconfiança. — Confio em você, Jaime. Confio na Lívia. E... talvez até no Ismael. Mas só porque ele é maluco o suficiente pra fazer a coisa certa sem nem perceber.

— Então você tá dizendo que a gente precisa agir pelas nossas próprias mãos? — perguntou Jaime, agora mais atento do que nunca.

— Sim. Vamos voltar pra base e fingir que estamos colaborando, mas na próxima vez, a gente traz a Lívia e o Ismael. Eles precisam saber o que está acontecendo de verdade. Porque eu tenho certeza que o Elias não vai contar toda a história pra gente.

Netikerti olhou para Paulo, seu interesse evidente. — E por que deveria confiar em vocês, afinal?

— Porque o que você quer não é muito diferente do que nós queremos — respondeu Paulo. — Acabar com a Neferat e garantir que ela não volte nunca mais. Só que nós vamos fazer isso do nosso jeito.

— E Elias? — perguntou Jaime, preocupado.

— Deixa ele achar que estamos só investigando. Na próxima vez, voltamos com o resto do grupo. E então, agimos de verdade — Paulo completou, olhando para Netikerti com determinação.

Netikerti soltou um suspiro profundo, mas seus olhos revelavam respeito. — Então é um acordo. Mas se vocês me traírem, eu mesma vou arrancar seus corações.

— Justo. — disse Paulo, com um sorriso seco.

Jaime riu, tentando aliviar o peso do momento. — Só uma perguntinha... A gente vai conseguir voltar com aqueles jipes?

— Acho que sim. Mas se o Elias perguntar alguma coisa, nós apenas achamos... uma vila vazia e algumas pistas velhas — Paulo respondeu, já se preparando mentalmente para encarar seu suposto chefe.

— Que seja — disse Netikerti, afastando-se da mesa e permitindo que eles partissem. — Da próxima vez que vocês vierem, venham preparados. Neferat não dará uma segunda chance.

Jaime e Paulo saíram do esconderijo, cruzando a floresta cada vez mais densa. Suas mentes já calculando o que dizer para Elias, mas também traçando o próximo passo do plano que agora construíam em segredo.

A escuridão da caverna era opressiva, o ar denso e o cheiro de umidade impregnava tudo. Lívia caminhava um pouco à frente, a lanterna em mãos iluminando o chão rochoso e irregular. Elias estava logo atrás, os olhos atentos a qualquer movimento.

— É aqui que disseram ter visto aquela coisa? — perguntou Lívia, tentando ignorar o nervosismo que lhe subia pela espinha.

— Sim. Deve estar por aqui... Se é que ainda está — respondeu Elias, o tom casual quase irritante.

Um som abafado ecoou pelas paredes. Algo que parecia... um roçar de tecido? Lívia olhou para Elias, mas antes que pudesse perguntar algo, uma fita grossa e empoeirada disparou da escuridão, laçando seu braço com força brutal.

— Elias! — gritou ela, lutando para se soltar.

Outras fitas emergiram, enroscando-se em seu corpo, apertando e arrastando-a para a escuridão. Seus pés deslizaram no chão de pedra enquanto ela tentava desesperadamente resistir.

Elias ergueu a arma, os olhos fixos na cena diante dele. Sem hesitar, puxou o gatilho. O estrondo da arma ressoou como um trovão na caverna estreita. A bala atravessou as fitas, mas também passou perigosamente perto de Lívia, que gritou de dor quando o projétil roçou seu ombro.

— Elias, seu idiota! — gritou ela, mais em raiva do que em dor.

Mas ele não parou. Continuou atirando, uma bala após a outra, sem se importar se Lívia estava bem ou não. Os disparos rasgavam o ar, o eco se espalhando como gritos de metal.

Finalmente, as fitas que seguravam Lívia se partiram e ela caiu no chão, respirando com dificuldade. Elias aproximou-se, a expressão fria como gelo.

— Se mexa — ordenou ele, como se o incidente não tivesse passado de um pequeno inconveniente. — Ainda não terminamos aqui.

Lívia se levantou, segurando o ombro dolorido e lançando um olhar furioso para Elias. Mas ela não tinha escolha. Eles precisavam continuar.

— Melhor você acertar o próximo tiro... — murmurou ela, os olhos faiscando de raiva.

Elias apenas deu um sorriso sem humor.

— Corre! — gritou Elias, sem olhar para trás, enquanto seus pés batiam contra o chão da caverna com velocidade desesperada.

Lívia mal teve tempo de processar o que estava acontecendo, seu ombro ainda latejava, mas a adrenalina a fazia ignorar a dor. Correndo lado a lado, o som das fitas chicoteando o ar vinha cada vez mais próximo, como serpentes de pano famintas.

Elias arrancou uma mochila de suas costas e a jogou no chão com força, em um ponto estratégico. Os olhos de Lívia se arregalaram quando ele sacou um controle remoto do bolso e apertou um botão.

Uma explosão abafada ecoou pelas paredes da caverna, mas o que se seguiu foi ainda mais assustador: uma espessa nuvem de fumaça verde começou a se espalhar com rapidez.

— O que diabos você fez?! — gritou Lívia enquanto corriam para fora, o gosto metálico da fumaça já se fazendo presente no ar.

— Captura, minha querida. — Elias respondeu com um sorriso cruel, sem nem se preocupar em esconder a satisfação. — Fumaça alucinógena com agentes paralisantes. Aquela múmia imbecil vai desmaiar antes mesmo de perceber o que aconteceu.

Saindo finalmente da caverna, o sol do deserto os cegou momentaneamente. Elias puxou o rádio e falou em tom autoritário:

— Aqui é Elias. Alvo capturado. Mandem o helicóptero agora. — Sua voz transbordava confiança e arrogância.

Olhando para a entrada da caverna, Elias sorriu. Não era um sorriso gentil, mas um sorriso de caçador satisfeito.

— Múmia imbecil... achou que podia me pegar?

Lívia o observava com um olhar de puro desgosto. Elias não parecia se importar se ela estava ferida, não parecia se importar com nada além da vitória.

— Você está louco... — murmurou ela, recuando alguns passos. — Isso não foi um plano, foi suicídio.

— Eu estou aqui, não estou? — Elias respondeu com indiferença. — É tudo que importa.

O jipe sacudia ao atravessar o terreno irregular do deserto. A poeira subia em nuvens enquanto Paulo e Jaime dirigiam em silêncio, o motor roncando como um animal inquieto.

Jaime olhou de canto de olho para Paulo, seus dedos firmes no volante. Talvez pela adrenalina ainda vibrando em suas veias ou pelo alívio de ter conseguido sair daquele lugar vivo, sentiu a necessidade de puxar conversa.

— Sabe... A gente ficou um bom tempo sem conversar. — Jaime começou, tentando parecer casual. — Como tá tua mãe?

Paulo apertou o volante, sua expressão se suavizando um pouco enquanto os olhos se fixavam na linha interminável do deserto à frente.

— Ela tá bem. — respondeu, a voz mais calma do que esperava. — Curada do vício. A fazenda fez bem a ela. Ela até aprendeu a plantar umas coisas. Nada grande, mas o suficiente pra ela se ocupar e... — parou por um momento, pensando nas manhãs tranquilas que passara lá, longe de tudo. — Se sentir útil, sabe?

Jaime sorriu, um sorriso genuíno.

— Isso é bom, cara. Muito bom mesmo. Você sempre cuidou bem dela, mesmo quando a situação tava... complicada.

— É. — Paulo disse, seu tom agora distante. Mas não era tristeza. Era alívio. E uma coisa mais: ele percebeu que a voz de Jéssica não havia dito nada o dia todo. Não havia sussurrado ordens ou deboches enquanto ele enfrentava aqueles perigos. Não havia feito nenhum comentário sarcástico ou provocador enquanto ele discutia planos com Jaime e Netikerti.

O silêncio dentro da sua própria mente era um conforto inesperado.

— Talvez eu esteja começando a me livrar disso. — murmurou para si mesmo, sem perceber que Jaime o observava de soslaio.

— Falou alguma coisa? — perguntou Jaime.

— Nada. Só... pensando alto.

Eles continuaram dirigindo, o vento quente batendo em seus rostos, enquanto a base finalmente surgia como um ponto distante no horizonte.

O jipe estaciona com um chiado brusco de freios e uma nuvem de poeira se levanta. Paulo e Jaime descem, ainda tentando se recuperar da longa viagem pelo deserto. Mas o que encontram na entrada da base é bem diferente do que esperavam.

Elias está ali, de pé, os braços cruzados e um sorriso satisfeito estampado no rosto. Ao lado dele, uma rede de contenção de alta segurança. Dentro dela, a múmia que quase matou Lívia. Apagada. Seus braços enfaixados parecem frágeis agora, mas a ameaça que ela representa é clara.

— Então é isso que vocês andaram fazendo enquanto a gente quase morreu lá fora? — Jaime diz, a voz carregada de sarcasmo e cansaço.

— Fizemos nosso trabalho, garoto. — Elias responde, o sorriso não desaparecendo. — Agora levem ela pro laboratório. Vou... interrogar a nossa amiguinha mais tarde. Agora preciso descansar.

Do jeito que Elias fala, aquilo parece um troféu de caça e não uma criatura viva. Paulo e Jaime trocam olhares, ambos desconfortáveis. Mas enquanto dois agentes carregam a rede para dentro da base, Lívia se aproxima dos dois.

— Vocês parecem mortos. — diz ela com um sorriso cansado, mas genuíno. — Conseguiram descobrir alguma coisa?

— Descobrimos que tem algo muito maior rolando. — Paulo responde, mantendo o tom baixo para que Elias não ouça. — Precisamos conversar com você e Ismael. E de preferência longe de qualquer microfone.

Lívia ergue uma sobrancelha, intrigada, mas concorda com um leve aceno de cabeça.

— Ismael tá na enfermaria, provavelmente resmungando sobre as muletas e tentando levantar sozinho. — ela diz. — Mas sim, precisamos conversar.

Enquanto isso, Elias já havia desaparecido pelos corredores da base, provavelmente indo para seu escritório ou algum lugar onde pudesse planejar seus próximos passos.

Lívia sai do quarto de Ismael com uma expressão frustrada.

— Mas onde esse idiota se meteu...? — murmura enquanto fecha a porta, pronta para vasculhar o resto da base.

De repente, ela dá de cara com alguém no corredor e quase cai para trás.

— Sai do meio, idi... — Ismael começa a rosnar, mas trava no meio da frase ao perceber quem é.

Lívia cruza os braços, arqueando uma sobrancelha.

— Ah, então o sumido resolveu aparecer, é? Onde você tava?

— Eu... — Ismael pigarreia, o olhar fugindo do dela. — Eu só... fui no banheiro. A comida daqui é uma bomba, sabe? Passei mal e... não queria que ninguém visse eu... vomitando as tripas.

Lívia não parece convencida, mas antes que possa responder, Paulo e Jaime aparecem atrás dela.

— Tá aí o vaso ruim. — Jaime comenta com um sorriso zombeteiro. — Quase achei que a múmia tinha te pegado.

— Ah, engraçadinho. — Ismael resmunga, se apoiando nas muletas. — Que foi? Vocês vieram aqui pra me zoar ou tem algo importante pra falar?

Paulo troca um olhar significativo com Lívia e Jaime, depois olha para Ismael com seriedade.

— Na verdade, temos muito pra falar. E se o que descobrimos for verdade... — Ele faz uma pausa, os olhos fixos em Ismael. — Todo mundo aqui pode estar correndo mais perigo do que imagina.

O ar fica pesado, a leveza anterior sendo substituída pela urgência.

O grupo se reúne em um dos depósitos abandonados da base, um lugar que ninguém frequenta e onde as câmeras não chegam. Lívia, Jaime e Ismael se encostam nas paredes frias enquanto Paulo respira fundo antes de falar.

— Certo... Eu não sei nem por onde começar. — Paulo admite, coçando a nuca. — A floresta, as pessoas... Tudo é muito surreal.

— Espera aí, pessoas? — Ismael levanta a sobrancelha. — Não era só a múmia que tava por aí?

— Sim, mas... Existe mais. — Jaime responde, completando o amigo. — Encontramos uma mulher chamada Netikerti. Ela é irmã da Neferat. Aparentemente, Neferat não nasceu monstro. Ela se tornou isso por um ritual... um ritual feito por ela mesma pra ressuscitar depois de centenas de anos.

— E agora ela quer destruir tudo. — Paulo acrescenta. — Mas não é só isso. Netikerti e o grupo dela querem impedir a irmã e têm um plano pra prendê-la novamente.

Lívia encara os dois, incrédula.

— E vocês acreditaram nela? — pergunta com ceticismo.

— Não completamente. — Paulo admite. — Mas ela mencionou algo sobre o FBI não ser confiável. E, bom... Depois do que Elias fez hoje...

Ismael cruza os braços, os olhos semicerrados.

— Elias quase te matou pra pegar aquela múmia. — Ele olha para Lívia, o olhar sério. — Eu disse pra você não abaixar a guarda com ele. Esse cara... ele não liga pra ninguém além dele mesmo.

Lívia abre a boca para protestar, mas fecha de novo. A expressão no rosto dela demonstra que, por mais que não queira admitir, parte dela concorda.

— Então... o que fazemos? — Jaime pergunta, olhando para todos.

— A gente não pode confiar no FBI. — Paulo diz decidido. — Nem em Elias. Talvez Netikerti tenha razão, talvez não... Mas, por via das dúvidas, a gente precisa se preparar pra qualquer coisa.

— Concordo. — Ismael diz, tentando ignorar a dor na perna. — Além do mais, se aquela múmia tá capturada, é questão de tempo até as coisas darem errado. Elias não vai se contentar só em interrogá-la... Ele vai querer fazer experiências, tortura, o que for.

— Então o que sugere? — Lívia pergunta, agora mais atenta do que nunca.

Paulo olha para todos com firmeza.

— Primeiro, a gente precisa de provas. Precisamos descobrir o que o FBI realmente quer com essa múmia e com essa missão. Depois... Bem, talvez seja a hora de trabalhar com a Netikerti.

— E como diabos a gente vai conseguir essas provas? — Ismael questiona, cético.

— O mesmo jeito que você conseguiu aqueles arquivos hoje , Ismael. — Paulo responde, os olhos fixos nele. — Invadindo e pegando o que eles não querem que a gente veja.

A ideia paira no ar, pesada e arriscada. Mas todos ali sabem que é a única opção.

No presente, Neferat está em seu esconderijo, o rosto tenso e os olhos fixos em uma grande bacia de água turva. As mãos tremem enquanto ela passa os dedos pela superfície gelada, tentando fazer contato.

— Cadê você, amor...? — A voz dela sai carregada de angústia. — Responda...

Silêncio. Apenas o som da água se movendo lentamente. Ela fecha os olhos, os lábios se comprimem em dor.

De repente, um vislumbre de memória a atinge como uma faca.

Anos atrás, o palácio estava iluminado por tochas e velas. Os corredores exalavam o perfume de incenso e flores. Neferat correu pelos corredores, o coração disparado, até encontrá-lo.

— Nefel... — Ela sussurra, a voz embargada.

O homem se vira, seus olhos gentis se encontrando com os dela.

— Neferat, meu amor. — Ele responde, seu tom calmo tentando mascarar a preocupação evidente.

— Por que me chamou aqui a essa hora? — Ela pergunta, tentando sorrir.

Ele hesita, os ombros se curvando ligeiramente.

— Descobri que vou para uma batalha... uma ordem direta dos superiores. Não tenho escolha.

— Não... não pode ser... — Lágrimas começam a se formar nos olhos dela. — Por que você? Por que não outro?

— Porque é o meu dever. — Nefel diz, segurando as mãos dela com força. — Eu preciso ir.

— Eu vou te esperar aqui. Todos os dias. Não importa quanto tempo demore... Eu vou te esperar.

Eles se abraçam, o calor do corpo dele sendo a única coisa que mantém Neferat firme.

No presente, Neferat está em seu esconderijo, o rosto tenso e os olhos fixos em uma grande bacia de água turva. As mãos tremem enquanto ela passa os dedos pela superfície gelada, tentando fazer contato.

— Cadê você, amor...? — A voz dela sai carregada de angústia. — Responda...

Silêncio. Apenas o som da água se movendo lentamente. Ela fecha os olhos, os lábios se comprimem em dor.

De repente, um vislumbre de memória a atinge como uma faca.

Anos atrás, o palácio estava iluminado por tochas e velas. Os corredores exalavam o perfume de incenso e flores. Neferat correu pelos corredores, o coração disparado, até encontrá-lo.

— Nefel... — Ela sussurra, a voz embargada.

O homem se vira, seus olhos gentis se encontrando com os dela.

— Neferat, meu amor. — Ele responde, seu tom calmo tentando mascarar a preocupação evidente.

— Por que me chamou aqui a essa hora? — Ela pergunta, tentando sorrir.

Ele hesita, os ombros se curvando ligeiramente.

— Descobri que vou para uma batalha... uma ordem direta dos superiores. Não tenho escolha.

— Não... não pode ser... — Lágrimas começam a se formar nos olhos dela. — Por que você? Por que não outro?

— Porque é o meu dever. — Nefel diz, segurando as mãos dela com força. — Eu preciso ir.

— Eu vou te esperar aqui. Todos os dias. Não importa quanto tempo demore... Eu vou te esperar.

Eles se abraçam, o calor do corpo dele sendo a única coisa que mantém Neferat firme.

De volta ao presente, Neferat puxa a mão da água, os olhos marejados e ferozes.

— Eu vou te encontrar... não importa o que aconteça. — Sussurra. — E quem tentar me impedir vai conhecer a minha fúria.

A câmara fria do laboratório de Elias era um lugar quase mítico dentro da base. Poucos tinham permissão para entrar, e menos ainda tinham coragem de perguntar o que exatamente acontecia ali.

A múmia estava presa em uma cadeira metálica, acorrentada por braços e pernas, o corpo quase imóvel. Apenas os olhos, vagamente conscientes, se moviam tentando se ajustar à luz brilhante acima.

— Então, você é o brinquedo novo, não é? — Elias murmura, os dedos brincando com um bisturi enquanto seu olhar deslizava sobre o ser preso à cadeira. — Acordada ou adormecida, você vai me dar respostas.

Ele aproxima o bisturi da pele seca da múmia, fazendo um pequeno corte, e o som que sai dela é um gemido ancestral, um ruído que ecoa no fundo da alma. Elias sorri satisfeito, como um caçador que acabou de ferir a presa mais cobiçada.

— Vamos começar a nos entender...

Enquanto isso, Paulo lavava o rosto no banheiro. O jato de água fria ajudava a afastar parte da exaustão, mas não o alívio da última missão. Ele levantou o rosto para o espelho, os olhos ainda carregados de preocupação.

— Cara... que merda tá acontecendo aqui... — Murmurou para si mesmo.

Então ele escutou uma risada suave. Mas, dessa vez, não era em sua mente. Era real, tão clara quanto o som da água escorrendo pela pia.

Ele se virou bruscamente.

— Relaxa, grandão. Não precisa ficar tenso. — Disse Jéssica, encostada na parede com um sorriso travesso.

— Jéssica... você... você tá mesmo aqui? — Paulo gaguejou, os olhos arregalados, a respiração presa.

— Me belisca que não é sonho. — Ela respondeu rindo. — Achei que eu tava começando a te deixar maluco, então decidi aparecer de verdade.

— Como... Como isso é possível? — Ele perguntou, ainda sem conseguir processar aquilo.

— Nada é impossível quando se está morto. Ou meio morta. Sei lá. — Ela deu de ombros. — O que importa é que você precisa da minha ajuda.

— E desde quando você ajuda em vez de só dar ordens ou tentar me deixar doido? — Paulo retrucou com uma risada nervosa.

— Ei, não seja ingrato. Estou aqui por você. — Jéssica se aproximou e o olhou nos olhos, pela primeira vez seu sorriso parecia genuíno. — Então... quer continuar me ignorando ou vai ouvir o meu plano?

Paulo respirou fundo e assentiu.

— Tá, eu escuto.

— Ótimo. Porque se você quiser que todo mundo saia dessa com vida, vai ter que seguir o que eu disser... direitinho.

Enquanto Jéssica começava a explicar o que sabia, Paulo sentia o peso das palavras dela como facas cortando sua lógica. Se ela estava ali de verdade, significava que todo o sistema de crenças dele tinha acabado de desabar. Mas, ao mesmo tempo, uma esperança se acendia. Talvez ela soubesse como enfrentar aquilo.

No laboratório, Elias olhava para a múmia desfalecida com um sorriso cruel. Ele girava uma seringa entre os dedos. Algo viscoso e avermelhado preenchia o tubo.

— Vamos tentar de novo... — Disse ele, aproximando a seringa do pescoço da criatura. — Vou arrancar cada maldito segredo do seu corpo seco.

Longe dali, Lívia estava em seu quarto, inquieta. Algo naquela missão parecia mais sombrio do que o habitual. Era como se o deserto tivesse acordado algo que deveria permanecer adormecido. E ela não conseguia parar de pensar em Ismael e no jeito estranho que ele estava agindo.

Ismael, por sua vez, ainda sentia a adrenalina de ter encontrado os documentos antigos. A ficha dos jovens e o que acontecera com eles há cinco anos... O que Elias sabia sobre aquilo? E por que ele guardava essas informações tão bem escondidas? Algo maior estava em jogo, e Ismael estava decidido a descobrir.

E enquanto tudo isso acontecia, Neferat se encontrava em seu esconderijo, os olhos ardendo em ódio e desespero. Sua conexão com a múmia havia sido cortada, mas ela não era do tipo que desistia facilmente.

— Eles vão pagar... Todos eles... — Sussurrou ela, os punhos cerrados.

E no deserto, Netikerti preparava seus guerreiros para o inevitável confronto. Eles tinham que agir rápido, ou o plano de sua irmã iria destruir tudo.

A guerra estava apenas começando, e as alianças, mais frágeis do que nunca.

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