Segredos machucam

Paulo e Jessica trocaram um olhar rápido antes de puxar a porta com força.

Nada.

O corredor estava vazio, apenas o vento frio passando pelas frestas das janelas quebradas.

— Não pode ser… — murmurou Jessica, sentindo um calafrio subir pela espinha.

Paulo trincou os dentes, tentando escutar qualquer som, qualquer respiração. Mas havia apenas o silêncio.

De repente, a porta de entrada bateu com força.

Lívia entrou furiosa, os passos firmes no chão de madeira rangendo com seu peso.

— Seu desgraçado! — Ela rosnou.

Atrás dela, Ismael entrou calmamente, com um leve sorriso debochado no rosto, as mãos no bolso.

Jessica e Paulo se entreolharam confusos.

— Do que você tá falando? — Paulo perguntou.

Lívia bufou, os olhos brilhando de raiva.

— Foi ele. — Ela apontou para Ismael, que se encostou na parede, tranquilo, como se aquilo não fosse com ele.

— Ele postou o vídeo… — a voz dela tremeu, mas estava cheia de ódio.

Jessica franziu a testa.

— Que vídeo?

Lívia o encarou, as mãos tremendo de raiva.

— O vídeo falso! O boato maldito sobre mim e o jogador da escola!

Paulo arregalou os olhos.

— Espera… isso foi verdade?

Lívia trincou a mandíbula, desviando o olhar, sentindo o peito queimar.

— Todo mundo acreditou, não é?

— Por que ele faria isso? — Jessica perguntou, olhando para Ismael.

O sorriso sumiu do rosto dele.

Ele abaixou a cabeça por um segundo, suspirando, antes de finalmente erguer o olhar.

— Vingança. — Ele disse, simplesmente.

O silêncio pesou no ar.

— Vingança pelo quê? — Paulo perguntou, ainda tentando entender.

Ismael encarou Lívia diretamente, seus olhos escuros brilhando com algo diferente.

— Porque no baile de formatura, enquanto todo mundo se divertia, você olhou para mim, sozinho, e começou a rir.

Lívia engoliu seco.

— O quê? — Sua voz saiu mais fraca do que queria.

— Você e suas amigas riram. — Ismael continuou, sua voz fria, mas carregada de algo que ninguém ali esperava — E eu nunca esqueci.

O ar ficou pesado, e ninguém sabia o que dizer.

Lívia sentiu um nó na garganta.

Ela abriu a boca para falar algo, mas… não conseguiu.

Ela realmente riu dele naquela noite.

E agora, tudo fazia sentido. Lívia desabou no chão, as mãos tremendo, o rosto ficando pálido.

— Você é um sociopata! — ela gritou, os olhos cheios de lágrimas e ódio.

Ismael não reagiu. Apenas ficou ali, parado, olhando para ela sem expressão.

Jessica e Paulo se entreolharam, sentindo o peso do momento.

FLASHBACK — Dois anos atrás

Lívia andava pelos corredores da escola, os olhares perfurando sua pele. Sussurros ecoavam ao seu redor.

— Ouvi dizer que ela fez isso no banheiro.

— Nossa, que vergonha.

— Ela só conseguiu o que queria, né?

Ela tentava ignorar, mas o nó no estômago crescia.

Quando chegou na sala, sentiu o celular vibrar insistentemente.

Mensagens.

Muitas mensagens.

Grupo da escola:

🗨️ “Caramba, Lívia, nunca pensei que você fosse assim…”

🗨️ “Eca, sério que você fez isso?”

🗨️ “Mano, tô vendo o vídeo de novo, olha a cara dela kkkkk”

Lívia segurou o fôlego.

— Que vídeo?

Ela clicou no link.

E então o mundo dela caiu.

A tela mostrava uma gravação borrada, com áudio ruim, mas as vozes eram inconfundíveis.

Uma garota e um cara, dentro do banheiro da escola.

O título?

"Lívia se divertindo com um atleta no banheiro da escola 😏🔥"

Seu coração acelerou.

— Isso não sou eu! — Ela murmurou, a mão tremendo.

Mas ninguém se importou.

Nos dias seguintes, seus amigos sumiram.

Seus pais começaram a desconfiar dela.

Ela não conseguia mais sair de casa sem sentir olhares nojentos sobre ela.

Volta para o presente

Lívia ofegava, o rosto vermelho, os olhos transbordando lágrimas de raiva.

— Você destruiu minha vida, seu desgraçado! — ela gritou, sua voz se partindo no meio da dor.

Ismael ainda a encarava, mas algo nos olhos dele parecia diferente.

Lívia engoliu seco, a respiração descompassada.

— Você não tem ideia do que eu passei…

O silêncio preenchia o ambiente, e ninguém sabia o que dizer. Ismael apertou o braço de Lívia com força, seus olhos ardendo em fúria. Pela primeira vez desde que chegou ali, sua máscara de indiferença se quebrou.

— Você acha que sofreu? — sua voz saiu baixa, mas carregada de raiva contida. — Você não faz ideia do que é sofrer de verdade.

Lívia tentou se soltar, mas Ismael segurou firme, sua expressão mais sombria do que nunca.

— Você teve tudo desde que nasceu! — ele cuspiu as palavras. — Pra você, essa “humilhação” foi só um contratempo passageiro! Pra mim, sempre foi assim!

FLASHBACK — O Quarto de Ismael, Anos Atrás

Ismael estava jogando no computador, os olhos fixos na tela, o fone de ouvido no volume máximo.

— QUE MERDA, ANTÔNIO! — a voz da mãe ecoou pela casa.

Ele aumentou o volume do jogo.

— Eu NÃO vou ficar nessa casa com esse moleque esquisito! — a voz do pai soou áspera, cortante.

— Ele não é esquisito, ele só é quieto! — a mãe respondeu, desesperada.

— Quieto? — o pai riu com desprezo. — Ele é um estranho! Um moleque fechado, frio, que nem parece normal! Por que ele não pode ser igual à irmã?

Ismael apertou os controles do jogo.

As vozes cresciam.

Os gritos se tornavam insuportáveis.

Ele aumentou ainda mais o volume.

Seus dedos tremiam no teclado, mas ele fingia que nada estava acontecendo.

— Olha pra ele, sempre sozinho! Ele nunca teve um amigo, nunca falou nada sobre a própria vida! Você acha isso normal?!

— Ele é nosso filho, Antônio!

— Ele é UM PROBLEMA!

Volta para o presente

Ismael soltou Lívia com brutalidade, como se o toque dela queimasse.

— Você nunca teve que fingir ser outra pessoa só pra não ser tratado como um lixo! — sua voz agora estava cheia de dor, cheia de rancor.

Lívia ofegava, as lágrimas escorrendo, mas dessa vez não foi apenas por si mesma.

Ela viu algo no olhar de Ismael.

Algo quebrado.

Algo irreparável. Lágrimas secas escorriam pelo rosto de Ismael, mas sua expressão permanecia fria e sombria.

Ele apontou para a gaiola no teto, onde a chave agora brilhava intensamente.

— Pronto. — Sua voz estava vazia, gasta. — Tá aí o meu segredo. Agora podem abrir aquela merda.

Ninguém se moveu.

Jessica e Paulo trocaram olhares incertos. Jaime, ainda abalado, nem conseguiu reagir.

Lívia, com o rosto molhado de lágrimas, ainda tentava processar tudo.

Mas Ismael não esperou por ninguém.

Ele se virou bruscamente e saiu pela porta sem olhar para trás.

Antes de cruzar a saída, ele parou, olhou para Lívia e apontou para ela com um olhar sombrio.

— E eu não me arrependo.

Então, sumiu na escuridão da noite. Paulo sentiu um aperto forte no ombro e se virou assustado.

Jaime estava de pé, ainda com os olhos cansados, mas sua expressão era séria.

— Deixa comigo, rapaz. Eu vou atrás dele. — Sua voz soava mais firme do que antes.

Paulo hesitou. Depois de tudo, era uma boa ideia deixar Jaime ir?

Jessica e Lívia se entreolharam, mas ninguém contestou.

Jaime saiu pela porta, seguindo o mesmo caminho de Ismael, sumindo na escuridão. Paulo respirou fundo e olhou para Jessica.

— Chegou a hora. — Sua voz saiu mais baixa do que ele queria.

Jessica assentiu, e os dois se aproximaram da gaiola suspensa. Ela ainda brilhava de forma estranha, quase como se pulsasse no escuro da casa.

Paulo ergueu a mão e tocou a estrutura de metal frio. Jessica engoliu seco.

Com um leve estalido, a gaiola se abriu sozinha, como se tivesse esperado por eles.

Dentro, havia um envelope vermelho com um símbolo desconhecido desenhado à mão.

Enquanto isso, Lívia permanecia sentada no chão, os olhos ainda vermelhos de raiva e tristeza. Ela enxugava as lágrimas com força, mas sua expressão não era mais de vítima—era de ódio. O silêncio no quarto era pesado.

Paulo apertou o play, e a fita começou a rodar. A imagem tremida mostrava uma festa agitada, cheia de adolescentes rindo e bebendo. O som distorcido da gravação enchia o cômodo, e os três observavam com atenção.

Paulo apareceu na tela. Ele chegava com alguns amigos, rindo alto, segurando uma garrafa.

No fundo, Lívia estava com suas amigas, segurando um copo e sorrindo.

Jessica surgiu na gravação, discutindo com alguém próximo à piscina. Seu rosto estava sério, e os gestos indicavam que era uma briga tensa.

A câmera tremia, capturando momentos aleatórios da festa.

E então... Ismael.

Ele apareceu de repente, esbarrando em Paulo no meio da multidão. Por um instante, seus olhos se encontraram na tela, mas a gravação logo cortou para outro momento da festa.

Paulo pausou o vídeo.

— Nós estávamos no mesmo lugar... — ele disse, olhando para as duas garotas.

Jessica cruzou os braços, tentando entender.

Lívia, ainda sentada na cama, apertou os próprios joelhos.

— Isso não pode ser coincidência.

Na casa, o som do piano ecoava pela sala, a mesma melodia tenebrosa de antes.

Paulo, Jessica e Lívia desceram correndo, o coração disparado. O ar estava pesado, quase sufocante.

A sala estava vazia... mas o piano tocava sozinho.

As teclas se moviam lentamente, como se mãos invisíveis estivessem pressionando-as. O sofá estava virado, algumas cadeiras caídas.

Lívia estremeceu.

— Isso não é normal... — murmurou.

Paulo fechou as mãos em punho.

— Ele está brincando com a gente de novo.

Jessica olhou para os lados, tentando encontrar algo fora do lugar.

Foi então que, no espelho da parede, palavras começaram a aparecer, como se estivessem sendo escritas por uma mão invisível:

"A culpa nem sempre dorme... às vezes, ela toca uma música para você lembrar."

Lívia deu um passo para trás, assustada. Enquanto isso, na praça...

Ismael estava sentado sozinho em um banco, olhando para o nada.

O vento balançava as árvores, e o silêncio da noite tomava conta do lugar. Seus pensamentos estavam distantes, ainda processando tudo o que havia acontecido.

Foi quando Jaime apareceu.

Ele caminhou devagar, as mãos no bolso, os olhos cansados.

— Então é aqui que você veio se esconder.

Ismael não olhou para ele.

— Não estou escondido.

Jaime suspirou, sentando-se ao lado dele.

— Eu sei como é carregar uma culpa, garoto.

Ismael soltou uma risada seca.

— Sabe mesmo?

O silêncio se instalou entre os dois, pesado e incômodo.

Jaime olhou para o céu.

— Sei. E se quiser ouvir, eu posso te contar. Ismael revirou os olhos de novo, cruzando os braços.

— Tá bom, foi mal também pelo jeito que falei antes.

Jaime soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Não sou eu que tô esperando desculpas, garoto.

Ismael franziu a testa, sem entender de primeira. Mas quando olhou para a própria mão, lembrando-se das palavras que jogou na cara de Lívia, uma pontada de incômodo cresceu dentro dele.

Jaime percebeu o silêncio e deu um tapinha no ombro de Ismael.

— Às vezes, a gente não percebe o estrago que causa até olhar pra trás. Você não é um cara ruim, mas tá tentando se convencer de que não liga pra nada.

Ismael não respondeu. Apenas olhou para a lua, sem expressão.

Jaime se levantou, alongando os braços.

— De qualquer jeito, eu vou voltar pra casa. Você decide o que fazer com isso.

Ele começou a caminhar de volta, deixando Ismael sozinho com seus pensamentos.

Ismael soltou um suspiro pesado, revirando os olhos.

— Ótimo… agora até um velho tá me dando lição de moral.

Ele ficou parado por um momento, chutando uma pedrinha no chão, como se tentasse encontrar alguma desculpa pra não voltar. Mas no fim, bufou e seguiu Jaime.

Enquanto caminhavam em silêncio, Ismael já imaginava o olhar de Lívia quando ele tivesse que pedir desculpas. Ela ia aproveitar pra esfregar aquilo na cara dele, com certeza.

— Isso vai ser um saco… — murmurou baixinho, enfiando as mãos nos bolsos.

Jaime ouviu e riu de leve, mas não disse nada. Apenas continuou andando, sabendo que aquela conversa ainda ia render. Jessica engoliu em seco, sentindo um frio percorrer sua espinha ao ver a mensagem nos cacos de vidro.

— "Me abra… biblioteca?" — Paulo leu em voz alta, franzindo a testa. — O que isso quer dizer?

Lívia ainda estava sentada no chão, mas ergueu a cabeça ao perceber a expressão de Jessica.

— Ei… você tá bem?

Jessica tentou disfarçar, mas seus dedos tremiam quando pegou a chave. Ela sabia que seria a próxima.

— Droga… — murmurou, mais para si mesma.

Paulo percebeu o nervosismo dela e se aproximou.

— Jessica… tem algo que você não tá contando pra gente?

Ela apertou os lábios, desviando o olhar.

— Só vamos abrir logo essa biblioteca… — disse, tentando manter a calma.

Mas por dentro, seu coração batia acelerado. O que eles iam descobrir lá dentro?

Ismael chega em livia e abaixa a cabeça - perdão pelo vídeo e por te machucado seus braços eu acabei descontando minha vida de merda em você sinto muito livia também abaixa a cabeça e se desculpar - eu era um lixo de pessoa eu.. sinto muito pela risadas e por tudo também apos isso, silêncio preencheu a sala no momento em que Lívia envolveu Ismael em um abraço.

Paulo e Jessica trocaram olhares surpresos, enquanto Jaime apenas arqueou a sobrancelha, divertido com a cena.

Ismael ficou paralisado, sem saber como reagir. Ele nunca esperou isso—nem de Lívia, nem de ninguém.

Lívia afrouxou o abraço, mas manteve as mãos nos ombros dele, olhando em seus olhos.

— "Eu te odiava, sabia?" — ela disse com um sorriso pequeno, mas sincero.

Ismael arqueou a sobrancelha, ainda processando tudo.

— "O sentimento era mútuo." — respondeu, mas sem a mesma frieza de antes.

Lívia riu de leve, balançando a cabeça.

— "Mas agora eu só acho que… talvez, no fundo, a gente só fosse duas pessoas fodidas tentando provar algo pro mundo."

Ismael mordeu o lábio, desviando o olhar. Ele não conseguia responder.

Jaime soltou um assovio baixo, quebrando o clima.

— "Muito bonito, muito tocante… mas a gente ainda tá preso aqui, lembra?"

Jessica endireitou a postura, segurando a chave.

— "A biblioteca nos espera."

Todos se recomporam, mas o peso do momento permaneceu no ar. Ismael e Lívia não eram mais os mesmos—e, de alguma forma, isso mudava tudo.

Apos isso paulo avisa chegou a hora de saimos daqui vamos gente.

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Comments

Bela Black

Bela Black

( Antes ela tava na cama, ou eu li errado?)

2025-03-15

1

Bela Black

Bela Black

O típico personagem, que parece vilão, é frio, aparenta diferença, sabe lutar, provavelmente cozinhar e sem dúvidas deve ser lindo kkk. Eu gosto do Isma.

2025-03-15

1

Bela Black

Bela Black

Sua língua que é um problema. Pq não conversou com o garoto pra saber os motivos dele? Pq não foi vc o amigo já que se preocupou que ele não tinha um? PROBLEMA? O problema são pais que não deveriam ser pais

2025-03-15

1

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