O alívio

Dois meses depois...

Paulo olhou para o horizonte, os campos verdes da nova fazenda da mãe se estendendo diante dele. A casa recém-construída era simples, mas confortável. Pela primeira vez em anos, ela parecia feliz e saudável. O vício era coisa do passado, e o sorriso dela era genuíno.

— Você fez muito por mim, filho. — Ela dizia enquanto passavam os dias juntos, trabalhando na fazenda ou apenas conversando na varanda.

Ele deixou uma quantia generosa para ela antes de pegar a estrada. O dinheiro que recebeu era mais do que o suficiente para garantir que ela nunca mais precisasse se preocupar.

Mas Paulo não ficou. Algo dentro dele queimava. Um desejo por respostas, conhecimento, poder. Ele havia terminado com a namorada dele, explicando que precisava de um tempo para si mesmo. Que precisava se descobrir de novo.

Agora, ele viajava sem rumo certo. Visitava locais antigos, lia sobre rituais esquecidos e segredos ocultos. Passava noites em bibliotecas antigas e madrugadas em ruínas históricas. Estava se tornando uma espécie de estudioso nômade, absorvendo cada fragmento de informação sobre o sobrenatural.

Mas, em meio a todo esse conhecimento, ele nunca estava realmente sozinho.

— Vai mesmo ignorar isso, Paulo? — A voz de Jéssica ecoava na mente dele, mas diferente. Mais forte, mais presente. — Acha que só viajar e estudar vai resolver alguma coisa?

— Você tá errada. — Ele resmungava, respondendo em voz alta. — Tudo isso... tá me preparando. Pra quando eles chamarem de novo.

Ela dava uma risadinha.

— Ou será que tá fugindo?

Ele não respondia. Não sabia como.

Mas continuava andando. Porque enquanto as respostas não vinham, ele se recusava a parar.

Paulo continuou sua jornada, atravessando países e se enfiando nos lugares mais improváveis. Durante o dia, visitava bibliotecas e ruínas. À noite, dormia em hotéis baratos ou até mesmo ao ar livre, sempre com um caderno velho e rabiscado por anotações e teorias.

As vozes haviam diminuído. Aquela bebida de Elias fizera algo com ele, e mesmo agora, tanto tempo depois, os efeitos pareciam persistir. Mas a presença de Jéssica não desaparecera. Na verdade, ela se tornara mais clara, quase como uma pessoa real que o acompanhava em cada passo.

— Você não cansa disso, não é? — A voz de Jéssica ecoou na escuridão de um templo abandonado que Paulo explorava. — Procurar coisas que provavelmente vão te matar.

— E você não cansa de me seguir? — Paulo respondeu com um sorriso cansado.

— Alguém tem que garantir que você não faça uma estupidez... maior do que o normal.

Ele riu. A presença dela era uma mistura estranha de consolo e loucura. Mas, com o tempo, ele começou a aceitar aquilo. Talvez ela fosse um fantasma, uma ilusão ou algo que a bebida de Elias havia despertado. Mas, de qualquer forma, ela estava ali.

Depois de semanas viajando, Paulo se estabeleceu temporariamente em uma cidadezinha do interior da França, onde encontrou um estudioso recluso chamado Victor Rochefort, famoso por seus estudos sobre o sobrenatural.

Victor era um homem velho, curvado pela idade, mas com olhos intensos que pareciam ver através de Paulo.

— Então, você quer saber sobre rituais antigos e maldições. — Disse Victor enquanto folheava um livro grosso, com páginas amareladas pelo tempo. — O que exatamente você está procurando, rapaz?

Paulo hesitou.

— Eu quero entender o que aconteceu com a gente... E quero me preparar. Sei que eles vão me chamar de novo. E da próxima vez, eu não quero ser só um peão.

Victor sorriu com um misto de simpatia e desdém.

— Ah, jovem... O poder que você procura é um fardo tanto quanto é uma arma. Mas eu posso te ensinar algumas coisas. Não sobre controle... Mas sobre equilíbrio.

E assim começou o aprendizado de Paulo. Era árduo, doloroso e exigia sacrifícios. Os treinos físicos e mentais eram intensos, e Victor fazia questão de testar Paulo ao limite.

Em um dia particularmente difícil, enquanto Paulo tentava decifrar um pergaminho antigo, ele sentiu um toque no ombro.

— Você tá indo bem, sabia? — Jéssica disse, sorrindo para ele.

— Acho que tô começando a entender. — Paulo respondeu, finalmente aceitando aquela presença. — E um dia... vou achar um jeito de te libertar.

— Tô bem aqui, idiota. — Ela respondeu, dando um tapa leve na cabeça dele. — Mas é bom saber que você ainda se importa.

Apesar de tudo, Paulo se sentia mais vivo do que nunca. Preparado para o que quer que estivesse por vir.

Jaime voltou para sua cidadezinha costeira, o lugar onde tudo havia começado para ele. As ruas tranquilas, o cheiro de sal no ar e o som das ondas quebrando na praia eram um alívio bem-vindo após toda a loucura que havia enfrentado.

Com o dinheiro que recebeu do governo, ele comprou uma pequena frota de barcos e fundou sua própria empresa de pesca, a "Red Hook Fishing Co.". O nome era uma referência à sua infância, quando ele e seu avô pescavam juntos usando um velho anzol vermelho que o avô dizia ser de sorte.

No começo, Jaime pensou que ficaria entediado com a rotina tranquila. Mas, para sua surpresa, aquilo lhe trouxe paz. Ele gostava da simplicidade do trabalho, das manhãs frias no mar e das conversas casuais com os pescadores que contratara.

Um dia, enquanto ele organizava algumas redes no cais, ouviu uma voz conhecida.

— Você realmente virou um pescador de verdade agora, hein?

Jaime se virou e viu um rosto familiar. Miguel, um amigo de infância que nunca havia saído da cidade, agora trabalhava para ele como chefe da tripulação de um dos barcos.

— E você ainda é um preguiçoso de verdade. — Jaime respondeu com um sorriso.

Eles riram e passaram os próximos minutos discutindo os planos para o dia. Mas, mesmo com o sucesso da empresa, Jaime não conseguia esquecer o que tinha passado. Durante as noites silenciosas, ele se pegava encarando o céu escuro, pensando em Ismael, Paulo, Lívia e até mesmo Elias.

Certa noite, sentado sozinho na varanda da sua casa recém-comprada, ele recebeu uma mensagem no celular. Era de Paulo. Uma foto de algum templo antigo e a legenda: "O trabalho nunca para, hein?"

Jaime riu e digitou uma resposta rápida.

— Idiota. E você nunca para de se meter em encrenca.

Ainda assim, algo no fundo de sua mente dizia que aquilo não tinha terminado. Que um dia, de alguma forma, ele seria arrastado de volta para aquela loucura.

Mas, por enquanto, ele só queria pescar.

A vida pessoal de Jaime estava, surpreendentemente, tranquila. Ele havia conseguido se reconectar com algumas amizades antigas da cidade, especialmente Miguel, seu amigo de infância que agora trabalhava para ele. Aos poucos, ele foi recuperando um pouco da sua antiga rotina, o que era um alívio depois de tudo que havia enfrentado.

Jaime até começou a sair com uma garota local chamada Ana, uma professora que adorava passeios de barco. Eles se conheceram quando ele ofereceu um passeio gratuito para as crianças da escola dela, e Ana insistiu em agradecê-lo com um jantar. O relacionamento estava indo bem, embora ele não tivesse contado nada sobre o que havia passado nos últimos anos.

Ainda assim, à noite, quando os pesadelos o despertavam, Jaime sentia o peso de tudo aquilo. Muitas vezes, ele se pegava encarando o teto, pensando se alguma coisa lá fora viria atrás dele e das pessoas que ele amava.

Apesar disso, ele tentava viver o presente. Divertia-se com Ana, expandia a empresa e passava os finais de semana ajudando Miguel a reformar um dos barcos mais antigos que compraram. Uma vida simples e tranquila — algo que ele nunca imaginou que teria.

Ismael e Lívia finalmente voltaram para casa, onde sua filha os esperava ansiosa. A rotina deles parecia mais tranquila, embora as cicatrizes do passado recente ainda estivessem presentes. Ismael se recuperava bem, embora seu corpo ainda carregasse os efeitos da missão. Lívia, por outro lado, estava decidida a deixar aquela vida para trás e se dedicar à família.

Eles passavam os dias aproveitando os pequenos momentos juntos, seja preparando o café da manhã juntos ou brincando com a filha no quintal. Contudo, Lívia ainda se preocupava com Ismael, que às vezes parecia distante, como se os eventos recentes ainda o assombrassem.

Mas apesar disso, eles se esforçavam para manter a paz que haviam conquistado, tentando, a cada dia, seguir em frente e deixar o passado para trás.

Ismael e Lívia decidiram que precisavam de um recomeço verdadeiro. Após tudo o que passaram, concordaram que era hora de reconstruírem suas vidas sem olhar para trás. Começaram a planejar uma viagem longa, algo que sempre sonharam antes das coisas desmoronarem — um ano sabático viajando pelo mundo com a filha.

Queriam criar memórias felizes, longe de caos e monstros. Ismael tinha um mapa aberto na mesa, marcando destinos que iam de praias paradisíacas a pequenas vilas tranquilas nas montanhas. Para ele, aquilo não era só um desejo, era um plano. E mais importante: uma promessa para si mesmo e para Lívia.

Lívia, por sua vez, estava tentando retomar sua carreira, mas de um jeito diferente. Longe da influência das redes sociais e com projetos que a faziam se sentir bem consigo mesma, como trabalho voluntário e criar conteúdo educativo para jovens. Eles também consideravam se mudar para algum lugar longe de toda aquela loucura.

Enquanto Ismael se recuperava fisicamente, Lívia o apoiava emocionalmente. Já haviam até discutido sobre ter mais um filho, mas isso ainda era algo para o futuro. Agora, o foco era a paz e a segurança da filha que já tinham.

Mesmo assim, por mais que quisessem se afastar completamente daquela vida, os pesadelos não sumiam tão facilmente. E Ismael sabia que, se o passado batesse à sua porta de novo, ele estaria pronto para lutar.

Ismael estava saindo de casa, tentando abrir a porta com o braço ainda enfaixado. Ao puxar a maçaneta com certa dificuldade, deixou cair um maço de papéis que carregava.

"Droga, coisa inútil", resmungou, se abaixando para pegar o que derrubou.

Ismael se abaixa com dificuldade para pegar o que deixou cair, xingando baixinho. A voz atrás dele o surpreende.

— Com licença.

Ismael se vira e encara o homem. Barbado, rosto marcado por cicatrizes profundas, olhos afiados como lâminas. Algo na postura dele era ameaçador, mas ao mesmo tempo casual demais, como se estivesse à vontade ali.

— Posso te ajudar? — pergunta Ismael, tentando disfarçar a dor que ainda sente do último confronto.

O homem dá um sorriso enviesado.

— Talvez. Parece que você tá meio... quebrado — Ele olha para o braço enfaixado de Ismael. — Tá difícil manter as peças no lugar, hein?

Ismael estreita os olhos. — E quem é você, afinal?

— Alguém que conhece muito bem o que é lutar e sobreviver. — O homem dá um passo à frente, mas mantém as mãos relaxadas. — Nome é Levi. Só queria trocar uma ideia. Sobre os seus... amigos.

O coração de Ismael aperta. Ele não conhece o homem, mas algo naquele olhar diz que essa conversa está longe de ser amistosa.

— O que você quer com eles?

— Justiça. Ou vingança, depende de quem conta a história. Só sei que vocês devem um monte de respostas e eu tô aqui pra cobrar. — Levi cruza os braços, aguardando uma reação.

Levi mantém aquele sorriso enviesado, como se estivesse apreciando o desconforto de Ismael.

— Relaxa, amigão. Eu só queria que você soubesse que eu tô por perto. Observando. Esperando.

Ismael franze o cenho, tentando entender o que exatamente aquele homem queria.

— Por que não me mata logo, então?

Levi ri, um som áspero e amargo. — Não é você que eu quero. Pelo menos não agora. Eu tenho outros assuntos pra resolver antes. Mas... a gente vai se ver de novo, Ismael. Pode apostar.

Ele dá as costas e começa a se afastar pela rua, os passos pesados ecoando como um presságio. Antes de virar a esquina, ele olha por cima do ombro e diz:

— Manda um abraço pro resto da sua turminha. Especialmente pro Paulo. Vou adorar encontrar ele de novo.

E com isso, Levi desaparece na curva, deixando para trás um desconforto profundo e uma promessa não dita. Ismael fica parado por alguns segundos, tentando entender o que aquilo significava. Mas uma coisa ele sabia: algo muito pior estava por vir.

FIM (Por enquanto).

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