Ismael abriu os olhos devagar, piscando contra a luz suave que entrava pela janela do quarto. A dor na perna latejava como se cada batida de seu coração fosse uma marreta acertando o mesmo ponto. Ao seu lado, Lívia estava em pé, colocando a blusa e ajeitando os cabelos com um sorriso satisfeito e sereno no rosto.
— Ei, bom dia, dorminhoco. — Ela brincou, enquanto amarrava o cabelo em um coque simples. — Elias convocou todos pra uma reunião na sala principal. Acho que é sério.
Ismael soltou um gemido, mais de frustração do que de dor. — A gente não acabou de quase morrer? Esse cara não dá folga, não?
Lívia riu, aproximando-se da cama para ajudá-lo a se levantar. — Ele quer respostas, Ismael. E, sinceramente, eu também. Mas... se preferir ficar descansando, eu posso passar o relatório por você.
— Ah, claro. E deixar o velhote falar que eu tô com medinho? Nem a pau. — Ismael resmungou enquanto se apoiava nas muletas que estavam encostadas ao lado da cama. Lívia segurou firme em seu braço, garantindo que ele não perdesse o equilíbrio.
Eles caminharam juntos até a porta, Ismael mais lento do que gostaria, mas determinado.
— Você sabe que não precisa se forçar tanto, né? A gente passou por muita coisa. E sua perna... — disse Lívia, com um olhar preocupado.
— É só um arranhão. Nada que vá me derrubar. Além disso, eu preciso saber o que o Elias descobriu. E, claro, garantir que o Jaime não exploda nada por acidente enquanto eu não tô lá pra supervisionar. — Ismael tentou brincar, mas a preocupação também estava presente em seus olhos.
Lívia apenas sorriu e beijou de leve o rosto dele. — Vamos então. E tenta se comportar, tá? Sem explodir com o Elias por pelo menos... uns cinco minutos?
— Vou tentar. Mas não prometo nada.
Ambos caminharam pelo corredor em direção à sala de reuniões, onde respostas — e talvez ainda mais perguntas — os aguardavam.
Quando Lívia e Ismael finalmente chegaram à sala de reuniões, os olhares imediatamente se voltaram para eles. Jaime e Paulo já estavam lá, ambos com expressões fechadas e olhares preocupados, mas também com aquele cuidado típico de quem está sempre atento a algo estranho.
Paulo foi o primeiro a falar, com um sorriso torto no rosto. — Vaso ruim não quebra mesmo, hein? Pensei que a múmia tivesse te pego de vez, mas aí está você, firme e forte... quer dizer, mais ou menos.
Ismael soltou uma risada curta, mas havia algo quase ameaçador naquele sorriso. — É, Paulo... vaso ruim não quebra. Só fica mais afiado.
Ele disse aquilo com a voz baixa e um sorriso de raiva disfarçada. Não era só pela piada de Paulo, mas pelo que passaram lá embaixo. A sensação de vulnerabilidade, de que haviam sido caçados como animais, ainda estava presa na mente dele.
— Relaxa, maninho. É só brincadeira. — Paulo deu um tapinha no ombro de Ismael, que por estar apoiado nas muletas, quase se desequilibrou. Lívia o segurou rápido, lançando um olhar mortal para Paulo.
— Tá bom, chega de brincar. — Jaime interrompeu, levantando as mãos como se tentasse encerrar a conversa antes que Ismael explodisse. — Elias chamou a gente aqui por um motivo, então é melhor ouvir o que ele tem a dizer.
O clima estava tenso. Ismael podia perceber que Paulo e Jaime estavam mais nervosos do que o normal, como se escondessem algo. Mas por enquanto, ele resolveu deixar pra lá. Havia coisa mais importante pra tratar, e Elias parecia ter respostas.
— Bom, vamos logo ouvir o chefe, então. Antes que eu perca a paciência de vez. — Ismael resmungou, caminhando lentamente até uma das cadeiras e se acomodando com um gemido de dor.
Elias entrou na sala de reuniões com passos firmes e pesados, suas botas ecoando pelo piso metálico como se cada pisada fosse um lembrete de que ele estava sempre no controle. Nas mãos, uma xícara de café fumegante, que ele tomou um gole antes mesmo de abrir a boca. Seus olhos estavam cansados, mas havia uma determinação fria em seu olhar.
— Bom dia pra vocês também. Ou pelo menos o mais próximo disso que vamos ter hoje. — Elias soltou enquanto se aproximava da mesa, puxando uma cadeira e se sentando com um suspiro longo.
— Tá, chefe. Qual é o estrago? — Ismael perguntou, tentando parecer mais calmo do que realmente estava. Suas mãos ainda tremiam um pouco pelo esforço de andar com as muletas.
Elias ignorou o comentário e colocou um tablet sobre a mesa, deslizando algumas imagens na tela. Uma delas mostrava a esfera que Ismael tinha encontrado.
— Primeiro de tudo, vamos falar da bola que você achou, Ismael. Essa coisa aqui... é um artefato antigo. Bem antigo. Estamos falando de algo que não deveria nem existir nesse tempo. Uma espécie de dispositivo de localização.
— Localização? Como um GPS? — Jaime perguntou, os olhos semicerrados, claramente tentando entender o que aquilo significava.
— Mais ou menos. Mas com um toque bem mais... místico, digamos assim. Esse dispositivo foi usado para rastrear criaturas e objetos específicos. E adivinha só o que estava rastreando?
— A múmia. — Paulo falou sem pensar duas vezes.
— Acertou, garoto. — Elias concordou, tomando mais um gole de café. — O dispositivo foi ativado quando vocês se aproximaram daquela pirâmide. E o que quer que seja que vocês acordaram lá embaixo, claramente não gostou de ser incomodado.
— E aquela mulher que vimos? — Paulo perguntou, a preocupação clara em sua voz.
— É sobre ela que eu queria falar. — Elias pressionou um botão no tablet e uma imagem borrada apareceu. Uma gravação de um drone que sobrevoava o deserto, capturando a mulher caminhando calmamente pelo meio da areia, como se nada pudesse detê-la. — O nome dela é Neferat. Não tenho certeza se é uma entidade, uma sacerdotisa, ou algo muito pior. Mas os registros mostram que ela foi uma figura importante em cultos antigos do Egito, conhecidos por manipular artefatos mágicos para controlar... bem, múmias. E pelo que vocês descreveram, ela tem esse poder.
Ismael trocou um olhar preocupado com Lívia. — Então, basicamente, mexemos com uma rainha das múmias e ela agora quer o nosso pescoço?
— Basicamente. E pelo que descobrimos até agora, ela tem um exército. — Elias completou, lançando um olhar sério para todos. — Estamos numa guerra. E o pior de tudo, ela sabe que vocês são uma ameaça.
A sala caiu num silêncio desconfortável. Agora eles sabiam com o que estavam lidando.
Elias passou os dedos pela mesa e os hologramas se expandiram, formando mapas detalhados do deserto e marcações brilhantes indicando áreas de interesse. Imagens e relatórios giravam no ar, como se fossem feitos de luz sólida.
— Muito bem, pessoal. Esse é o novo plano. — Elias apontou para dois pontos diferentes no mapa. — Lívia, você e eu vamos até aqui, onde a múmia foi vista pela última vez. Vamos investigar qualquer rastro que tenha ficado para trás e, se tivermos sorte, descobrir o que exatamente estamos enfrentando.
Lívia assentiu, o rosto sério e determinado. Ismael percebeu que, apesar do medo que ele sabia que ela sentia, ela mantinha aquela postura firme que o fazia admirar tanto sua força.
— E quanto a nós? — Paulo perguntou, cruzando os braços com expressão desconfiada.
— Você e Jaime vão seguir essa área. — Elias deslizou o dedo sobre o mapa, desenhando um caminho longo pelo deserto. — Caçar aquela mulher. Seja o que for que Neferat está tentando fazer, vocês vão interromper. E se possível, capturá-la.
— Capturar? Tipo... viva? — Jaime perguntou, com as sobrancelhas arqueadas.
— Se possível, sim. Se não, bem... vocês sabem o que fazer. — Elias respondeu de maneira prática, seus olhos frios deixando claro que não tinha problema nenhum em acabar com aquela ameaça de uma vez por todas.
Ismael olhava para os hologramas e para os amigos que estavam sendo enviados para caçar uma mulher com poder suficiente para controlar múmias. Ele estava prestes a argumentar quando Elias virou para ele com um sorriso seco.
— E você, Ismael... vai descansar. Porque da última vez que eu chequei, você foi burro o suficiente para tomar um tiro na perna. E nós não queremos que você tome outro.
— Sério? Vai me deixar fora dessa? — Ismael reclamou, claramente irritado.
— Preciso que você esteja cem por cento. E do jeito que você tá agora, é só um alvo fácil. — Elias rebateu. — Além disso, eu preciso de alguém aqui analisando os dados que chegarmos. A coisa tá feia e vamos precisar de toda a vantagem que pudermos conseguir.
— Ótimo. Ficar sentado em uma cadeira enquanto vocês se divertem. Que maravilha. — Ismael bufou, cruzando os braços.
— Talvez seja a melhor coisa para você. — Lívia colocou a mão no ombro de Ismael, tentando amenizar o golpe. — E enquanto isso, eu cuido para que o nosso chefe não se meta em confusão demais.
Elias deu um último olhar para o grupo, certificando-se de que todos estavam entendendo suas funções.
— Se preparem, nós saímos em trinta minutos.
Trinta minutos depois, o pátio da base fervilhava de atividade. Os motores dos jipes roncavam como feras acordadas de um longo sono, e várias armas de alto calibre estavam organizadas em um banco metálico, brilhando sob o sol do deserto.
Elias estava parado ao lado dos veículos, com seu eterno copo de café na mão, observando os preparativos. Jaime e Paulo caminhavam ao lado dele, os olhos arregalados.
— Isso... é um arsenal de verdade. — Jaime comentou, com um brilho de admiração misturada com apreensão nos olhos. Seu passado como mecânico o fazia admirar a engenharia e potência dos jipes que estavam diante dele.
— Cara, eu pensei que só via esse tipo de coisa em filme. — Paulo disse, dando uma risada de nervosismo e empolgação. — Lá na fazenda, a coisa mais tecnológica que eu usava era um trator velho que nem marchar direito sabia.
— Bem, agora vocês vão andar em algo que faz um trator parecer um brinquedo de criança. — Elias resmungou, sem humor, apontando para os veículos reforçados com pintura camuflada e pneus que poderiam atravessar qualquer tipo de terreno.
Enquanto isso, um pouco mais afastados, Ismael e Lívia trocavam palavras baixas e olhares preocupados. Ela já estava pronta para partir, com sua mochila cheia de suprimentos e sua expressão determinada que Ismael adorava e odiava ao mesmo tempo.
— Promete que vai ficar bem? — Ismael perguntou, o tom quase suplicante, tentando não demonstrar o nervosismo que sentia.
— Eu que deveria dizer isso. — Lívia sorriu e ajeitou os cabelos que o vento insistia em bagunçar. — Mas sim, eu vou ficar bem. E você, vai tentar não fazer besteira enquanto estiver aqui descansando, certo?
Ismael segurou a mão dela com força, os olhos firmes. — Só... não abaixa a guarda perto do Elias, tá? Não sei o que ele sabe, mas tenho certeza que ele não contou tudo.
Lívia hesitou por um segundo antes de concordar com a cabeça. — Eu vou tomar cuidado. Pode deixar.
— E volta inteira. Vou estar aqui te esperando.
Ela deu um beijo suave em seus lábios e um último sorriso encorajador antes de se afastar. Ismael ficou parado ali, observando enquanto Lívia caminhava até Elias, que já dava instruções sobre o trajeto.
Poucos minutos depois, os motores dos jipes rugiram como bestas famintas e avançaram pelo deserto. Ismael ficou ali parado, observando as nuvens de poeira que os veículos deixavam para trás, até que sumiram completamente do seu campo de visão.
Com um suspiro pesado, ele virou as costas e entrou novamente na base.
Assim que chegou ao seu quarto, o peso do corpo parecia maior do que nunca. Ele caiu na cama com um gemido de dor quando a perna ferida foi pressionada contra o colchão.
— Ótimo... aqui estou eu, o grandioso Ismael... inútil e aleijado por enquanto. — Ele resmungou para o teto.
Os olhos foram se fechando lentamente, o cansaço da missão fracassada e a preocupação com Lívia o dominando. No fundo de sua mente, uma dúvida cruel o atormentava: o que realmente estava acontecendo naquele deserto?
Ismael se levantou com esforço, apoiando-se nas muletas com uma careta de dor. Sentado na beira da cama, ele pegou o tablet que estava sobre o criado-mudo. Com um toque na tela, o vídeo ao vivo da casa onde seu filho estava apareceu.
Agentes do FBI estavam responsáveis por cuidar da criança enquanto eles estavam no deserto. A imagem mostrava o pequeno correndo pelo jardim, brincando com um cachorrinho que algum dos agentes havia trazido.
Ismael deu um sorriso verdadeiro, o tipo que era raro ver ultimamente. — Moleque forte... igual ao pai. — murmurou baixinho.
Mas o sorriso não durou muito. Ele sabia que nada naquele lugar era garantido. E se aquele deserto estivesse tão cheio de perigos quanto parecia? Pensar que algo poderia acontecer com o filho dele enquanto ele estava ali, aleijado e sem poder proteger ninguém, era uma ideia que o fazia tremer de raiva e medo.
Ele respirou fundo, largou o tablet na cama e balançou a cabeça. — Parado aqui não vou resolver nada. Melhor começar a andar pela base e descobrir o que diabos eles estão escondendo.
Com dificuldade, Ismael saiu do quarto e começou a explorar os corredores da base, sua mente dividida entre a preocupação com a missão e a segurança de sua família.
Enquanto isso, a dezenas de quilômetros dali, o motor do jipe rugia feito um animal selvagem. Paulo e Jaime estavam praticamente voando pelas dunas, a areia subindo como uma tempestade dourada ao redor deles.
— Cem por hora, garotão! Acho que você tá comendo poeira! — Jaime gritou, os cabelos sendo chicoteados pelo vento, um sorriso genuíno iluminando seu rosto.
— Cem por hora? Tá mais pra cinquenta e olha lá! — Paulo retrucou, pisando no acelerador do seu jipe e se aproximando rapidamente do veículo de Jaime.
Eles estavam apostando corrida, os dois jipes lado a lado enquanto atravessavam o deserto como se fossem parte de alguma competição. A missão quase esquecida na adrenalina do momento.
— Tá com saudade da fazenda, Paulo? Porque se eu te vencer, você pode voltar pra lá agora mesmo! — Jaime provocou, rindo.
— Ah, é? Vamos ver quem vai voltar primeiro! — Paulo riu de volta, a tensão dos últimos dias aparentemente esquecida por um instante.
Foi quando o rádio chiou. A voz de Elias surgiu, fria e impassível: — Chegaram ao ponto marcado? Ou querem que eu mande alguém pra ensinar vocês a dirigir?
A adrenalina se dissipou um pouco e Paulo apertou o botão do rádio. — Sim, senhor. Chegamos. Desculpa a demora, tivemos que desviar de algumas dunas mais complicadas.
— Muito bem. Relatem qualquer coisa estranha e mantenham os rádios ligados. Boa sorte.
O rádio desligou e o silêncio do deserto voltou a reinar. Ambos os homens pararam os jipes lado a lado e olharam ao redor.
— Então... Vamos descobrir o que diabos tá acontecendo aqui? — Jaime disse, o tom mais sério agora.
— Vamos. E dessa vez, sem apostar corrida. — Paulo respondeu, o sorriso desaparecendo de seu rosto enquanto saía do jipe e começava a examinar o terreno.
Paulo e Jaime desceram dos jipes e avançaram pelo terreno árido, mas o que encontraram foi algo completamente surreal.
Diante deles, uma mini floresta crescia em pleno deserto. Árvores robustas, cobertas de vinhas e lodo, se erguiam como uma cicatriz verde e úmida na paisagem seca. O cheiro de terra úmida e folhas apodrecidas era forte, um contraste absoluto com o ar seco e quente ao redor.
— Isso é impossível... — Paulo sussurrou, olhando incrédulo para aquele cenário que parecia saído de um pesadelo verde.
— Estranho? Eu diria que é coisa do outro mundo. — Jaime comentou, passando a mão numa folha coberta de musgo. — Eu tenho lido sobre fenômenos estranhos pelo mundo. Árvores surgindo em ilhas de gelo, como se fossem plantadas por alguma força... E agora isso, no meio do deserto.
— Tem alguém vindo. — Paulo interrompeu, os olhos arregalados enquanto observava o movimento entre as sombras das árvores.
Ambos se esconderam rapidamente atrás de rochas cobertas de musgo. Os jipes estavam visíveis demais, mas já era tarde para tentar escondê-los.
— Merda. Os jipes... — Jaime murmurou, apertando a arma nas mãos.
De repente, uma figura feminina encapuzada surgiu entre as árvores, caminhando lentamente como se estivesse explorando o lugar também. A postura dela era cuidadosa, os olhos varrendo o terreno com atenção.
— Droga... É ela. — Paulo sussurrou. — Aquela mulher da pirâmide... Neferat. Tem que ser.
— Ok. Eu vou pela frente, você pela retaguarda. Vamos pegá-la antes que ela desapareça de novo. — Jaime planejou, com a voz tensa.
Paulo acenou com a cabeça e contornou o local, se aproximando por trás. Ele avançou rápido e, sem hesitar, agarrou o pescoço da mulher e a derrubou no chão com um golpe firme.
— Fica quieta! — Paulo rosnou, mantendo-a presa contra o chão.
Jaime apareceu pela frente, a arma apontada para a cabeça da mulher. — Levanta o rosto, devagar. Qualquer gracinha e eu acabo com você aqui mesmo.
A mulher gemeu de dor e ergueu o rosto lentamente. Quando o capuz escorregou para trás, ambos ficaram chocados. Ela era parecida com Neferat, sim, mas não era ela. Seu rosto era mais jovem, os traços mais delicados. Os olhos dela estavam arregalados de medo.
— Quem é você? E o que está fazendo aqui? — Jaime perguntou, sem abaixar a arma.
— Por favor... Eu... Eu não sei de nada. Eu só estava tentando achar um lugar seguro. — A mulher balbuciou, a voz frágil e desesperada.
— Segura ela, Paulo. — Jaime disse com a voz firme. — Nós vamos descobrir quem você é e o que você tá fazendo aqui.
Paulo manteve o aperto no ombro da mulher, tentando não tremer com o que havia acabado de acontecer. Aquela floresta no deserto, o rosto quase familiar da mulher... Nada fazia sentido.
Paulo e Jaime ficaram paralisados. A mulher, agora de pé, esfregava o pescoço onde os dedos de Paulo a tinham agarrado. Os olhos dela eram intensos, como se carregassem séculos de histórias.
— Minha irmã. É ela que vocês procuram, certo? — A voz dela era calma, mas carregada de algo antigo e poderoso.
Paulo e Jaime trocaram olhares assustados. Paulo foi o primeiro a falar:
— Sua... irmã? Quem é você, afinal?
— Podem sair. — A mulher disse com a voz firme, sem nem olhar para os lados.
Das sombras das árvores, três homens e quatro mulheres surgiram, todos com uma aparência impressionante. As peles variavam de tons quentes e dourados, olhos intensos e trajes que misturavam o antigo e o moderno, como se tivessem adaptado seus estilos ao longo dos séculos. Mas o que mais chamava atenção era a forma como se moviam, elegantes e precisos, como predadores treinados.
— Eu sou Netikerti. Minha irmã é Neferat. E se vocês realmente acreditam que vão pará-la... então vocês são mais tolos do que eu pensava.
— Então, você é uma... múmia também? — Jaime perguntou, ainda com a arma apontada para ela, embora sua mão tremesse levemente.
— Não somos múmias. Somos... sobreviventes. — Netikerti deu um sorriso fraco. — Minha irmã, no entanto... Ela foi consumida pelo poder que tanto buscou. Antes de morrer, realizou um ritual proibido para garantir seu retorno exato cem anos depois de sua morte. Uma vingança contra aqueles que a traíram e contra o mundo que a esqueceu.
Paulo abaixou a arma lentamente. — Então você quer detê-la?
— Querer, eu quero. Poder, é outra história. Eu não tenho o poder que ela alcançou. E esses aqui... — Apontou para os outros que a acompanhavam. — São os últimos dos nossos. Fomos forçados a nos esconder por gerações, amaldiçoados a existir entre o presente e o passado. Minha irmã... ela quer destruir tudo. Mas ela nem sempre foi assim.
Netikerti parecia perdida em pensamentos por um momento, os olhos viajando para um passado distante. — Ela foi uma grande protetora do nosso povo. Justa e piedosa. Mas a sede de poder... isso a destruiu. Ela acreditava que renascer com esse poder a tornaria invencível. E talvez tenha conseguido.
— E por que você está aqui, então? — Jaime perguntou, tentando entender a situação.
— Porque eu quero impedir o que ela planeja. Se não fizer nada, ela destruirá tudo e todos que encontrar. Eu sei que não confiam em mim. E nem deveriam. Mas se quiserem ter alguma chance de sobreviver, vão precisar da minha ajuda. E da ajuda dos meus.
Paulo olhou para Jaime, claramente tentando decidir o que fazer. — Você quer nos ajudar... Então me responde uma coisa. Por que agora?
Netikerti deu um suspiro profundo. — Porque o ritual está quase completo. Ela está mais forte do que nunca e não vai parar até que tudo o que existe seja consumido por sua vingança. Eu só quero salvar o que resta. Mesmo que eu precise me aliar a vocês para isso.
— E por que eu deveria acreditar em você? — Jaime perguntou, ainda com desconfiança na voz.
— Porque eu poderia ter te matado agora mesmo, e escolhi não fazer isso. — Netikerti deu um sorriso triste, seus olhos fixos nos de Jaime. — E porque, como vocês, eu só quero que isso termine.
— Bom, nós não temos escolha, né? — Paulo disse, estendendo a mão para Netikerti. — Se quer mesmo ajudar, então estamos do mesmo lado.
Netikerti aceitou a mão dele, mas seu olhar permanecia sombrio.
O helicóptero pousou com um leve solavanco na areia. As hélices giravam com força, levantando uma tempestade de poeira dourada. Elias pulou para o chão primeiro e estendeu a mão para Lívia, que aceitou a ajuda, mesmo sem precisar.
— Então você largou aquela vida de influenciadora e tudo mais depois de tudo, correto? — Elias disse, com um sorriso que oscilava entre genuíno e provocador. — E ainda teve um filho com o idio... digo, o seu marido. Bem, suponho que você deve ser feliz, né?
Lívia levantou uma sobrancelha, os olhos analisando Elias como se tentasse descobrir suas reais intenções.
— Achei que você não se importava com essas coisas, Elias. — Ela rebateu, o tom casual, mas com uma ponta afiada. — Sim, eu larguei aquela vida. Mas não porque eu era fraca ou cansada, mas porque eu precisava de algo real. Algo que não fosse só números e aparências. Ismael e meu filho... Eles são reais. São minha vida agora.
Elias deu uma risada curta, um som que não transmitia humor genuíno. — Claro, claro. Felicidade doméstica. Acho que todos precisamos de algo pelo que lutar. Mesmo que seja uma ilusão de paz.
— E você? — Lívia retrucou. — Qual é o seu motivo para lutar, Elias? Porque não me parece que é por justiça ou por proteger o mundo. Parece mais... pessoal.
Os olhos de Elias escureceram por um segundo, mas logo o sorriso disfarçado voltou ao rosto dele.
— Digamos que eu tenho meus motivos. E nenhum deles envolve deixar monstros antigos correrem por aí destruindo o mundo. Agora, vamos. Temos que investigar o que quer que tenha saído daquele buraco.
Ambos caminharam lado a lado pelo deserto, os passos afundando na areia enquanto se aproximavam do local indicado. Elias tentava puxar assunto de vez em quando, mas Lívia respondia com monossílabos ou frases curtas, deixando claro que sua paciência estava curta.
Finalmente, chegaram ao local onde os drones haviam captado os sinais da múmia. O chão estava marcado por pegadas que pareciam inexplicavelmente frescas para algo que deveria estar morto há milhares de anos.
— Lívia, temos que ser rápidos e discretos. O que quer que esteja andando por aqui não é apenas uma múmia comum. É algo que não deveria existir. — Elias disse, com a voz grave.
— Então por que não me trouxe reforços?
— Porque reforços atrapalham. E eu precisava da melhor.
Lívia soltou um suspiro impaciente. — Se isso é algum tipo de elogio disfarçado, você precisa melhorar bastante.
Elias riu, mas seu olhar se mantinha fixo nas marcas no chão.
Elias continuava caminhando pelo terreno árido com a confiança de quem já conhecia aquele lugar de olhos fechados. Lívia seguia logo atrás, tentando ignorar a leve dor de cabeça que começava a incomodá-la desde que pousaram ali.
— Então, o que aconteceu? — Lívia perguntou, forçando a voz para parecer casual. — Com o cara de branco.
Elias soltou uma risada curta, amarga.
— Ele aconteceu. Veio pra cima de mim como se fosse dono do lugar. Tive sorte de sair vivo. Ainda vou acertar as contas com aquele desgraçado um dia. — Sua mão inconscientemente tocou a cicatriz no pescoço.
Lívia franziu o cenho. Era estranho ver Elias perder a calma, mesmo que só por um instante. Algo naquele confronto o tinha marcado mais do que apenas fisicamente.
— Bom, pelo menos você tá vivo — comentou ela, tentando aliviar o clima.
— Viver não é o suficiente, Lívia. É preciso deixar a sua marca. Mas e você? — Elias olhou para ela com aquele sorriso calculado. — Ainda acho fascinante como você foi de postar fotos de academia para caçar monstros.
— As prioridades mudam, Elias. Especialmente depois que quase morre várias vezes e... — Ela hesitou. — E agora eu tenho alguém por quem preciso lutar.
Elias ficou em silêncio por um momento. Depois, apontou para frente.
— Nosso destino é ali. Veja as marcas no chão. Isso aqui é recente. Acho que nossa múmia anda se divertindo.
Lívia olhou para as pegadas e marcas arrastadas na areia, todas indo em direção ao interior de um conjunto de ruínas. Uma sensação ruim se alojou em seu peito.
— Acho melhor a gente se preparar.
— Preparado é meu nome do meio — respondeu Elias com um sorriso debochado, mas os olhos frios e atentos.
Lívia e Elias avançavam pelas ruínas até chegarem à entrada de uma caverna semi-oculta por vinhas e pedras desmoronadas. O lugar exalava um odor pútrido e gelado que não combinava com o calor escaldante do deserto.
— Que cheiro é esse? — Lívia perguntou, tentando não torcer o nariz.
— Cheiro de morte. Talvez também seja um pouco da sua querida múmia. — Elias comentou casualmente enquanto acendia uma lanterna. — Vamos lá, Lívia. Quanto mais rápido entrarmos, mais rápido saímos.
Lívia respirou fundo e seguiu Elias para dentro da caverna, onde a escuridão parecia ter uma densidade quase física. Os sons dos próprios passos ecoavam, multiplicados pelo silêncio esmagador ao redor.
— Tá ouvindo isso? — perguntou ela de repente, parando.
— O que exatamente?
— Silêncio. — respondeu ela, os olhos varrendo as sombras. — Esse lugar deveria ter sons, sei lá, de insetos ou... alguma coisa. Mas é só silêncio.
Elias lançou um olhar desconfiado para a escuridão.
— Talvez seja melhor ficarmos em silêncio também, então.
Enquanto isso, na base...
Ismael, mesmo mancando e com o corpo dolorido, não conseguia ficar parado. Lívia e os outros estavam lá fora arriscando a vida, e ele se recusava a ficar deitado como um inválido.
Desafiando os olhares dos guardas e agentes, ele começou a explorar os corredores da base até encontrar uma sala marcada como “Restrições Máximas”.
— Proibido é só um jeito chique de dizer interessante. — Murmurou com um sorriso torto.
Depois de um rápido jogo de palavras com um dos guardas — uma combinação de charme, sarcasmo e pura teimosia — ele conseguiu entrar.
Lá dentro, havia pilhas e pilhas de documentos, monitores piscando com imagens de câmeras térmicas e relatórios que pareciam saídos de um pesadelo.
Ismael mancou até uma mesa central e começou a remexer em pastas. Papéis que falavam sobre anomalias, figuras humanoides correndo sob o solo do deserto, e até mesmo registros do que parecia ser um culto antigo que despertava novamente.
— Mas que diabos... — ele murmurou, os olhos arregalados.
E então, ele encontrou algo que o fez travar. Uma imagem em preto e branco, datada de cem anos atrás, mostrando uma pirâmide semelhante à que ele e Paulo haviam explorado. Na legenda, um único nome: Neferat.
— Então a festa já rola faz tempo, hein? — Ismael comentou, franzindo o cenho.
E ainda havia mais. Relatórios que sugeriam que o governo sabia da existência dessas criaturas e que algo ainda pior poderia estar prestes a acontecer.
Ismael não sabia se ficava com medo ou animado. No fim, decidiu que uma mistura dos dois era o mais saudável.
Mas uma coisa era certa: aquilo mudava tudo.
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Atualizado até capítulo 20
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