Capítulo 20 – O Despertar

Dante

O barulho do festival vai ficando cada vez mais distante enquanto puxo Júlia pela mão, meu passo firme e apressado. Sua respiração está acelerada, mas ela não oferece resistência.

Algo nela mudou, e eu posso sentir isso—não apenas na forma como me olha, mas na energia que exala.

Chegamos ao carro, e ela entra quase no automático, ainda imersa neste transe. Fecho a porta com mais força do que o necessário e me jogo no banco do motorista.

O silêncio entre nós é sufocante, e por um momento tudo o que se ouve é nossa respiração e os ecos distantes da música e dos tambores do festival.

Mas então Júlia se mexe. Lentamente, ela se vira para mim, e quando seus olhos encontram os meus, um arrepio percorre minha espinha.

— Por quê? — Sua voz sai baixa, quase um sussurro, mas carregada de algo que me faz prender o ar. — Por que não me disse, Dante? Por que não me contou quem realmente é você?

Meu peito aperta, e minha mente dispara em alerta. Meu instinto me diz que algo muito grande acabou de acontecer.

Meus olhos se arregalam, e meu coração parece querer sair pela boca.

— Do que está falando, Júlia? — Minha voz soa mais rouca do que eu gostaria.

Ela não desvia o olhar, e por um momento, sinto como se estivesse sendo despido por seus olhos. Não há mais ingenuidade neles.

— Estou falando da sua linhagem, Dante. — Sua voz não treme, não hesita. — Da sua linhagem lupina.

O ar ao meu redor parece ficar mais pesado.

— Por que não me disse que é um lobisomem? — Ela continua, sua voz carregada de uma mistura de mágoa e frustração. — Nós ficamos juntos... e eu nem sabia que você era um lobo.

Engulo em seco. O fato de ela dizer isso em voz alta torna tudo ainda mais real. Então, sem dizer nada, ligo o carro. O motor ronrona, e sem olhar para ela, dou partida, deixando o festival para trás.

O silêncio entre nós é quase insuportável, mas sei que não vai durar muito.

E, de fato, não dura.

— Aquilo… — Ela murmura, sua voz agora carregada de algo diferente. — Foi aquela coisa que me fez saber sobre sua linhagem, não foi?

Seus olhos continuam cravados em mim, e sei que não há mais volta.

Solto um suspiro pesado, minhas mãos apertando o volante. Então, finalmente, digo em um tom baixo, quase sombrio:

— Sim. Bem-vinda à verdadeira realidade, esposa.

Enquanto isso, o carro corta a estrada escura, os faróis iluminando a névoa fina que paira sobre o asfalto. Meus dedos apertam o volante, meu maxilar está tenso. Não era para ser assim. Eu planejava contar, mas não agora. Não desse jeito.

Júlia mantém o olhar fixo em mim, seus olhos brilham à luz da lua como se refletissem algo além do que posso entender.

— Quando você iria me contar? — Sua voz é firme, mas não agressiva. Apenas… inquisitiva.

— Um dia. — Minha resposta é curta, seca.

Ela solta um riso irônico e cruza os braços.

— Um dia… — repete em um sussurro. — E até lá, eu continuaria vivendo ao lado de uma fera monstruosa sem saber?

Meus olhos se estreitam ao ouvir suas palavras.

— Eu não sou um monstro, Júlia. — Minha voz sai baixa, mas carregada de algo perigoso.

Ela não se intimida. Nunca se intimida.

— Você é uma criatura sobrenatural, Dante. E não me contou. — Ela pausa, sua voz mais controlada. — Se não é um monstro, então me diga… o que mais está escondendo?

Aperto ainda mais o volante, lutando contra a raiva que começa a ferver sob minha pele. Não porque ela está errada, mas porque ela está certa.

Júlia suspira e desvia o olhar para a janela, observando a floresta que margeia a estrada.

— Aquela voz… — Ela murmura.

Minhas sobrancelhas se franzem. Então ela me encara e pergunta:

— O que era aquilo, Dante? Você disse que eu não fazia ideia do que havia despertado. Mas por que aquilo me fez saber a verdade sobre você? Falou coisas estranhas… como a lua ser minha mãe e que eu apenas precisava despertar. O que tudo isso significa? E, por favor, não esconda mais nada de mim.

Solto o ar com força, passando a mão pelo cabelo enquanto faço uma curva na estrada deserta. Olho para ela por um instante antes de responder:

— Ok, Júlia. Aquilo faz parte da sua linhagem. Há muito tempo, em tempos remotos, seres de outros mundos chegaram aqui. A Terra foi colonizada, invadida… e várias facções de raças e espécies se estabeleceram, dividiram territórios, conquistaram. Minha linhagem foi uma delas. Mas a sua… — faço uma pausa, escolhendo bem as palavras — a sua linhagem é uma das mais antigas.

Seus olhos se arregalam levemente, mas permaneço firme enquanto continuo:

— Seu povo detinha um conhecimento avançado. Sua ancestral, uma matriarca lendária, lutou incansavelmente contra várias outras espécies que queriam o domínio absoluto deste mundo. Diversas mitologias falam sobre ela. Em algumas culturas, é venerada como a Deusa da Lua; em outras, como a Deusa da Guerra. Mas ambas são a mesma… apenas nomes diferentes, moldados ao longo do tempo.

Faço uma breve pausa, absorvendo sua expressão, antes de concluir:

— Então, querida esposa, você vem de uma linhagem muito mais antiga do que imagina.

Júlia permanece em silêncio por alguns instantes, assimilando tudo o que acabei de revelar. Seus olhos, antes cheios de confusão, agora brilham com um misto de incredulidade e fascínio.

— Isso é loucura… — ela murmura, desviando o olhar para a janela. — Minha linhagem… minha ancestral… uma deusa?

Solto um pequeno suspiro, mantendo minha atenção na estrada enquanto respondo:

— Não apenas uma deusa, Júlia. Uma entidade poderosa, cujo sangue ainda corre em suas veias.

Ela balança a cabeça, como se tentasse afastar um pensamento impossível.

— E o que isso significa para mim? — Sua voz sai mais baixa agora, quase hesitante. — Se essa linhagem ainda vive em mim… o que eu sou, Dante?

Aperto o volante com mais força. Essa era a pergunta inevitável, aquela que eu sabia que viria assim que ela começasse a juntar as peças.

— Você é herdeira de um poder ancestral — digo, finalmente. — Um poder que, até hoje, se mantinha adormecido. Mas algo aconteceu hoje… aquela entidade tocou em algo dentro de você.

Ela engole em seco, suas mãos se fechando sobre o tecido do vestido.

— E se eu despertar… o que acontece?

Meu maxilar se contrai. Eu poderia mentir. Poderia suavizar a verdade. Mas Júlia já teve mentiras demais em sua vida.

— Se você despertar… o equilíbrio entre as raças pode ser quebrado.

Ela me encara, esperando mais, e então eu acrescento:

— Alguns vão querer te proteger. Outros… vão querer te destruir.

O silêncio se instala entre nós, denso como a névoa que permeia ao longo da estrada. Então, Júlia solta uma risada fraca e sem humor.

— Ótimo. Mais uma razão para você querer me manter presa naquela mansão, não é?

Aperto ainda mais forte o volante, sentindo a frustração crescer dentro de mim.

— Não se trata de te prender, Júlia. Trata-se de te manter viva. Você não faz ideia do que pode estar vindo.

Ela me observa por um longo tempo antes de desviar o olhar de novo para a janela. O reflexo da lua cheia brilha em seus olhos.

E, por um breve momento, algo dentro de mim grita em alerta.

O despertar dela já começou.

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Comments

joana Almeida lima

joana Almeida lima

E os pais dela também são herdeiros lunares ou nem são os verdadeiros pais?

2025-04-01

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Capítulos
1 Capítulo 1 – A Gaiola Dourada
2 Capítulo 2 – Sangue e Legado
3 Capítulo 3 – Presa e Predador
4 Capítulo 4 – Brincando com o Perigo
5 Capítulo 5 – Uma Jaula de Luxo
6 Capítulo 6 – O Jogo Começou
7 Capítulo 7 – O Caçador
8 Capítulo 8 – Transformação Letal
9 Capítulo 9 – A Revelação
10 Capítulo 10 – Conflito Interno
11 Capítulo 11 – Momento Decisivo
12 Capítulo 12 – Incandescente
13 Capítulo 13 – Primeira vez, Posse e Reivindicação
14 Capítulo 14 – Verdades Ocultas
15 Capítulo 15 – Entre Almoço e Discussões
16 Capítulo 16 – A Festa da Lua
17 Capítulo 17 – Um Aviso e Uma Provocação
18 Capítulo 18 – Rumo a Festa
19 Capítulo 19 – Chamado Ancestral
20 Capítulo 20 – O Despertar
21 Capítulo 21 – Dor
22 Capítulo 22 – Revelações
23 Capítulo 23 – Fora de Controle
24 Capítulo 24 – Prazer e Entrega
25 Capítulo 25 – karaokê
26 Capítulo 26 – Visitantes Desconhecidos
27 Capítulo 27 – A Comandante
28 Capítulo 28 – Algo está Vindo
29 Capítulo 29 – Missão Terra
30 Capítulo 30 – A Reencarnação da Deusa
31 Capítulo 31 – Vida Passada
32 Capítulo 32 – A Líder
33 Capítulo 33 – Rumo a Londres
34 Capítulo 34 – Enfrentando o Perigo
35 Capítulo 35 – Luz Celestial
36 Capítulo 36 – Jogo de Interesses
37 Capítulo 37 – Doce Provocação
38 Capítulo 38 – Loucos de Paixão
39 Capítulo 39 – Juntos até o Fim
40 Capítulo 40 – A Grande Missão
41 Capítulo 41 – A Batalha
42 Capítulo 42 – Entre Cinzas e Redenção
43 Capítulo 43 – Destinos Opostos
44 Capítulo 44 – Start no Jogo
45 Capítulo 45 – Uma Nova Vida
46 Capítulo 46 – Inquietação
47 Capítulo 47 – Estranha
48 Capítulo 48 – Proteção em Meio ao Caos
49 Capítulo 49 – Avaliados
50 Capítulo 50 – A Preparação da Deusa
51 Capítulo 51 – O Renascer da Deusa
52 Capítulo 52 – Verdade Esmagadora
53 Capítulo 53 – O Preço a se Pagar
54 Capítulo 54 – Jogo Perigoso
55 Capítulo 55 – A Grande Fonte
Capítulos

Atualizado até capítulo 55

1
Capítulo 1 – A Gaiola Dourada
2
Capítulo 2 – Sangue e Legado
3
Capítulo 3 – Presa e Predador
4
Capítulo 4 – Brincando com o Perigo
5
Capítulo 5 – Uma Jaula de Luxo
6
Capítulo 6 – O Jogo Começou
7
Capítulo 7 – O Caçador
8
Capítulo 8 – Transformação Letal
9
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