Dante
O barulho do festival vai ficando cada vez mais distante enquanto puxo Júlia pela mão, meu passo firme e apressado. Sua respiração está acelerada, mas ela não oferece resistência.
Algo nela mudou, e eu posso sentir isso—não apenas na forma como me olha, mas na energia que exala.
Chegamos ao carro, e ela entra quase no automático, ainda imersa neste transe. Fecho a porta com mais força do que o necessário e me jogo no banco do motorista.
O silêncio entre nós é sufocante, e por um momento tudo o que se ouve é nossa respiração e os ecos distantes da música e dos tambores do festival.
Mas então Júlia se mexe. Lentamente, ela se vira para mim, e quando seus olhos encontram os meus, um arrepio percorre minha espinha.
— Por quê? — Sua voz sai baixa, quase um sussurro, mas carregada de algo que me faz prender o ar. — Por que não me disse, Dante? Por que não me contou quem realmente é você?
Meu peito aperta, e minha mente dispara em alerta. Meu instinto me diz que algo muito grande acabou de acontecer.
Meus olhos se arregalam, e meu coração parece querer sair pela boca.
— Do que está falando, Júlia? — Minha voz soa mais rouca do que eu gostaria.
Ela não desvia o olhar, e por um momento, sinto como se estivesse sendo despido por seus olhos. Não há mais ingenuidade neles.
— Estou falando da sua linhagem, Dante. — Sua voz não treme, não hesita. — Da sua linhagem lupina.
O ar ao meu redor parece ficar mais pesado.
— Por que não me disse que é um lobisomem? — Ela continua, sua voz carregada de uma mistura de mágoa e frustração. — Nós ficamos juntos... e eu nem sabia que você era um lobo.
Engulo em seco. O fato de ela dizer isso em voz alta torna tudo ainda mais real. Então, sem dizer nada, ligo o carro. O motor ronrona, e sem olhar para ela, dou partida, deixando o festival para trás.
O silêncio entre nós é quase insuportável, mas sei que não vai durar muito.
E, de fato, não dura.
— Aquilo… — Ela murmura, sua voz agora carregada de algo diferente. — Foi aquela coisa que me fez saber sobre sua linhagem, não foi?
Seus olhos continuam cravados em mim, e sei que não há mais volta.
Solto um suspiro pesado, minhas mãos apertando o volante. Então, finalmente, digo em um tom baixo, quase sombrio:
— Sim. Bem-vinda à verdadeira realidade, esposa.
Enquanto isso, o carro corta a estrada escura, os faróis iluminando a névoa fina que paira sobre o asfalto. Meus dedos apertam o volante, meu maxilar está tenso. Não era para ser assim. Eu planejava contar, mas não agora. Não desse jeito.
Júlia mantém o olhar fixo em mim, seus olhos brilham à luz da lua como se refletissem algo além do que posso entender.
— Quando você iria me contar? — Sua voz é firme, mas não agressiva. Apenas… inquisitiva.
— Um dia. — Minha resposta é curta, seca.
Ela solta um riso irônico e cruza os braços.
— Um dia… — repete em um sussurro. — E até lá, eu continuaria vivendo ao lado de uma fera monstruosa sem saber?
Meus olhos se estreitam ao ouvir suas palavras.
— Eu não sou um monstro, Júlia. — Minha voz sai baixa, mas carregada de algo perigoso.
Ela não se intimida. Nunca se intimida.
— Você é uma criatura sobrenatural, Dante. E não me contou. — Ela pausa, sua voz mais controlada. — Se não é um monstro, então me diga… o que mais está escondendo?
Aperto ainda mais o volante, lutando contra a raiva que começa a ferver sob minha pele. Não porque ela está errada, mas porque ela está certa.
Júlia suspira e desvia o olhar para a janela, observando a floresta que margeia a estrada.
— Aquela voz… — Ela murmura.
Minhas sobrancelhas se franzem. Então ela me encara e pergunta:
— O que era aquilo, Dante? Você disse que eu não fazia ideia do que havia despertado. Mas por que aquilo me fez saber a verdade sobre você? Falou coisas estranhas… como a lua ser minha mãe e que eu apenas precisava despertar. O que tudo isso significa? E, por favor, não esconda mais nada de mim.
Solto o ar com força, passando a mão pelo cabelo enquanto faço uma curva na estrada deserta. Olho para ela por um instante antes de responder:
— Ok, Júlia. Aquilo faz parte da sua linhagem. Há muito tempo, em tempos remotos, seres de outros mundos chegaram aqui. A Terra foi colonizada, invadida… e várias facções de raças e espécies se estabeleceram, dividiram territórios, conquistaram. Minha linhagem foi uma delas. Mas a sua… — faço uma pausa, escolhendo bem as palavras — a sua linhagem é uma das mais antigas.
Seus olhos se arregalam levemente, mas permaneço firme enquanto continuo:
— Seu povo detinha um conhecimento avançado. Sua ancestral, uma matriarca lendária, lutou incansavelmente contra várias outras espécies que queriam o domínio absoluto deste mundo. Diversas mitologias falam sobre ela. Em algumas culturas, é venerada como a Deusa da Lua; em outras, como a Deusa da Guerra. Mas ambas são a mesma… apenas nomes diferentes, moldados ao longo do tempo.
Faço uma breve pausa, absorvendo sua expressão, antes de concluir:
— Então, querida esposa, você vem de uma linhagem muito mais antiga do que imagina.
Júlia permanece em silêncio por alguns instantes, assimilando tudo o que acabei de revelar. Seus olhos, antes cheios de confusão, agora brilham com um misto de incredulidade e fascínio.
— Isso é loucura… — ela murmura, desviando o olhar para a janela. — Minha linhagem… minha ancestral… uma deusa?
Solto um pequeno suspiro, mantendo minha atenção na estrada enquanto respondo:
— Não apenas uma deusa, Júlia. Uma entidade poderosa, cujo sangue ainda corre em suas veias.
Ela balança a cabeça, como se tentasse afastar um pensamento impossível.
— E o que isso significa para mim? — Sua voz sai mais baixa agora, quase hesitante. — Se essa linhagem ainda vive em mim… o que eu sou, Dante?
Aperto o volante com mais força. Essa era a pergunta inevitável, aquela que eu sabia que viria assim que ela começasse a juntar as peças.
— Você é herdeira de um poder ancestral — digo, finalmente. — Um poder que, até hoje, se mantinha adormecido. Mas algo aconteceu hoje… aquela entidade tocou em algo dentro de você.
Ela engole em seco, suas mãos se fechando sobre o tecido do vestido.
— E se eu despertar… o que acontece?
Meu maxilar se contrai. Eu poderia mentir. Poderia suavizar a verdade. Mas Júlia já teve mentiras demais em sua vida.
— Se você despertar… o equilíbrio entre as raças pode ser quebrado.
Ela me encara, esperando mais, e então eu acrescento:
— Alguns vão querer te proteger. Outros… vão querer te destruir.
O silêncio se instala entre nós, denso como a névoa que permeia ao longo da estrada. Então, Júlia solta uma risada fraca e sem humor.
— Ótimo. Mais uma razão para você querer me manter presa naquela mansão, não é?
Aperto ainda mais forte o volante, sentindo a frustração crescer dentro de mim.
— Não se trata de te prender, Júlia. Trata-se de te manter viva. Você não faz ideia do que pode estar vindo.
Ela me observa por um longo tempo antes de desviar o olhar de novo para a janela. O reflexo da lua cheia brilha em seus olhos.
E, por um breve momento, algo dentro de mim grita em alerta.
O despertar dela já começou.
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Atualizado até capítulo 55
Comments
joana Almeida lima
E os pais dela também são herdeiros lunares ou nem são os verdadeiros pais?
2025-04-01
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