Júlia
Minha cabeça parece girar.
A sala ao meu redor se fecha, como se as paredes estivessem se aproximando, engolindo tudo. A voz dele ainda ecoa na minha mente, fria, direta, sem nenhum pingo de emoção.
"Você já era minha antes mesmo de pisar aqui."
Meu estômago se revira. Meu coração bate tão forte que posso senti-lo na garganta.
Mas não vou deixar que ele veja isso.
Não vou fraquejar.
Eu me obrigo a respirar fundo. Endireito os ombros, levanto o queixo e caminho até a mesa com a maior pose que consigo. Se ele quer bancar o vilão gostosão, então ele que me aguarde.
Minha bunda mal toca a cadeira e já agarro o guardanapo, chacoalhando-o no ar como se estivesse espantando um fantasma. Mas não um movimento qualquer—eu sacudo o pano com uma força absurda, desnecessária, teatral.
O olhar dele se estreita.
Dante Blackwood me observa com uma expressão impassível, mas noto o sutil franzir de seu cenho. Ele claramente não entende o que diabos eu estou fazendo.
Ótimo.
Confusão é um bom começo.
Ele mantém os olhos fixos em mim. Esse homem tem um jeito estranho de olhar, como se enxergasse muito mais do que deveria, como se estivesse me analisando, me estudando.
Bem, dois podem jogar esse jogo.
Seguro os talheres com calma, alisando o garfo entre os dedos como se fosse uma arma. Então, antes mesmo de tocar na comida, disparo:
— Eu só quero saber… por que eu? — Minha voz sai firme, mas não consigo esconder a pitada de acidez. Meus olhos o desafiam. — Por que me escolheu pra esse seu showzinho de horror?
O silêncio se arrasta entre nós.
Dante não responde de imediato. Ele apenas me encara, como se estivesse decidindo o quanto vale a pena me contar.
Suas mãos pousam sobre a mesa, grandes, fortes, perigosas.
Os dedos longos deslizam lentamente sobre a madeira, como se sentissem sua textura, como se calculassem algo.
Meu peito se aperta.
Ele apenas continua me observando, os olhos sombrios me estudando como se eu fosse um enigma a ser decifrado.
Meus dedos se fecham em torno do garfo.
Eu não gosto disso. Dessa calma controlada, desse jeito dele de me olhar como se já soubesse todas as minhas respostas antes mesmo de eu abri a boca.
Finalmente, ele se inclina levemente para frente. Pouco, mas o suficiente para que eu perceba.
— Por que você? — Ele repete minha pergunta, sua voz baixa, arrastada. Letal.
Eu o encaro, esperando.
— Porque você era a opção mais viável.
Meu estômago se revira.
— "Opção mais viável"? — Repito, rindo sem humor. — Que bonito, senhor Blackwood. Isso foi quase um elogio.
Ele não reage à minha ironia. Apenas continua me encarando, inexpressivo.
— Sua família carrega um sangue antigo. Antigo o bastante para ser compatível com o meu.
Eu me engasgo com o próprio ar.
— Como é que é?
Ele tamborila os dedos contra a mesa.
— Eu precisava de uma esposa. Você foi a escolhida. Simples assim.
As palavras dele me atingem como um tapa.
Sangue antigo? Compatibilidade? Parece que estou no meio de um experimento genético, e não de um casamento.
Sinto uma fúria crescente subir pela minha garganta, quente e corrosiva.
— Você fala como se eu fosse… — Minha voz treme, mas não de medo. De ódio. — Como se eu fosse um animal escolhido para reprodução!
Seus olhos brilham por um instante. Um brilho estranho. Quase predatório.
— Se eu pensasse assim… não estaríamos tendo essa conversa.
O significado por trás das palavras dele arrepia minha pele.
A tensão na sala se torna sufocante.
Dante leva o copo de vinho aos lábios e bebe lentamente, sem pressa. Como se a minha revolta fosse apenas um detalhe insignificante.
Mas eu sei que ele está se divertindo com isso. O desgraçado sabe que está no controle.
E isso só me faz querer provocá-lo ainda mais.
— Bom saber. — Digo, soltando os talheres com um barulho alto contra o prato. — Agora só falta me dizer quantos filhos você quer e em quanto tempo.
Dessa vez, um sorriso pequeno e perigoso surge em seu rosto.
— Muitos.
Meu coração falha uma batida.
— E eu não costumo esperar.
Sinto um arrepio percorrer minha espinha. Eu deveria estar apavorada. Mas tudo o que sinto é raiva.
E um medo que se recusa a me fazer recuar.
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Atualizado até capítulo 56
Comments
Edvania Oliveira da Rocha
interessante início!
2025-03-24
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