Júlia
Aqui estamos almoçando. O aroma da comida recém-servida paira no ar, misturado ao leve cheiro amadeirado que sempre parece impregnar esta casa. O sol da tarde entra pelas janelas, projetando sombras suaves sobre a mesa posta com esmero.
Albert, sempre atento, termina de ajeitar os últimos pratos antes de se retirar com sua postura impecável.
Observo suas costas enquanto ele desaparece pela porta, e uma inquietação começa a crescer dentro de mim. Será que ele ouviu nossos gemidos? O calor sobe ao meu rosto ao considerar a possibilidade.
Meu coração dá um pequeno salto de nervosismo, mas logo um sorriso involuntário ameaça se formar em meus lábios. A casa é grande, os corredores longos… talvez o silêncio tenha sido o suficiente para nos proteger.
— O que foi? — A voz de Dante me puxa de volta à realidade.
Pisco algumas vezes antes de encará-lo. Ele segura a taça de vinho com um certo desdém casual, observando-me por cima da borda antes de dar um gole lento. Seu olhar tem um brilho curioso, talvez até avaliativo.
— Nada. — Respondo, tentando soar despreocupada.
Ele não parece convencido, mas não insiste. Volta a atenção ao prato, cortando um pedaço de carne com movimentos meticulosos. O silêncio entre nós é quebrado apenas pelo tilintar discreto dos talheres contra a porcelana.
Então, a lembrança da conversa que tive com Joana, Albert e João volta à minha mente.
— Dante, eu fiquei sabendo que vai haver um festival chamado Festa da Lua aqui em MonteLunar. Parece ser uma tradição importante.
Ele sequer ergue os olhos do prato. Apenas continua mastigando com a mesma indiferença, como se minhas palavras fossem tão banais quanto o vento lá fora.
— E daí? — murmura, levando outro pedaço à boca.
Franzo o cenho, irritada com o desinteresse evidente.
— E daí que eu quero ir. Ou melhor, nós vamos, não é?
Agora, ele me olha. Lentamente, ergue a taça de vinho até os lábios, sem pressa, seus olhos fixos nos meus com uma intensidade que me faz prender a respiração por um instante. Ele bebe um gole, saboreando o vinho como se estivesse degustando o momento antes de me dar uma resposta.
Então, em um tom calmo e definitivo, diz:
— Não.
Franzo ainda mais o cenho, diante de sua resposta curta e direta.
— Como assim, “não”?
Ele pousa a taça de vinho sobre a mesa com calma, seus olhos escuros presos nos meus.
— Significa exatamente o que parece, Júlia. Não vamos.
Sinto a irritação crescer dentro de mim. Eu deveria saber que ele reagiria assim, com esse ar mandão e indiferente, mas isso não significa que eu vá aceitar tão facilmente.
— E por quê não? — Insisto, inclinando o corpo levemente para frente.
Dante suspira, como se estivesse tentando manter a paciência, e repousa os talheres sobre o prato antes de me encarar de forma mais intensa.
— Porque não é um lugar para você.
Solto uma risada sarcástica.
— Ah, é? E por quê? Por acaso o festival tem uma placa escrita “proibido a entrada de Júlia Mildren Blackwood”?
Ele não responde de imediato. Apenas segura sua taça e gira levemente o líquido vermelho dentro dela, parecendo escolher as palavras.
— Não é um evento comum. Há coisas que você não entenderia.
Reviro os olhos, frustrada.
— Sempre esse papo misterioso, sempre essa mania de decidir as coisas por mim!
Ele ergue uma sobrancelha, sua expressão se fechando levemente.
— Eu decido porque sei o que é melhor.
Ah, essa foi a gota d’água.
— Ah, claro! Porque você, Dante Blackwood, sabe tudo!
Ele solta um suspiro exasperado, mas não se dá o trabalho de negar.
Eu o encaro por um momento, minha raiva borbulhando. Então, simplesmente empurro minha cadeira para trás e me levanto, colocando as mãos na mesa e inclinando-me levemente para frente.
— Quer saber? Eu vou de qualquer forma.
Ele se recosta na cadeira, seu olhar predatório fixo em mim. Um canto de sua boca se ergue levemente, mas não é um sorriso divertido—é um aviso.
— Você está testando minha paciência, querida esposa.
Cruzo os braços, mantendo minha postura desafiadora.
— E você está testando a minha.
O silêncio entre nós se alonga, carregado de tensão. Seus olhos continuam me avaliando, e eu me recuso a desviar o olhar.
Finalmente, ele solta um riso baixo e debochado, balançando levemente a cabeça.
— Você realmente não tem medo de mim, não é?
Engulo em seco, porque a verdade é que sim, eu tenho. Mas não do jeito que ele pensa. Não do jeito que deveria.
Aproximo-me mais um pouco, apoiando as mãos na mesa para encará-lo de perto.
— Não, Dante. Eu não tenho.
Seus olhos brilham por um breve instante, como se minha resposta o divertisse e o irritasse ao mesmo tempo. Ele bebe mais um gole de vinho, e então diz, num tom baixo e carregado de significado:
— Vamos ver até quando.
Mas eu não me deixo intimidar. Não dessa vez.
— Ah, claro! — Solto uma risada sarcástica, sentindo a raiva crescer dentro de mim. — Porque tudo tem que ser do jeito que o grande Dante Blackwood quer, não é?
Ele estreita os olhos, me lançando um olhar perigoso, mas continuo antes que ele possa falar:
— Me poupe desse seu teatrinho de superioridade! A verdade é que você não quer que eu vá porque está acostumado a controlar tudo ao seu redor. Mas adivinha só? Eu não sou algo que você pode controlar!
A tensão entre nós é sufocante. Ele se levanta devagar, sua altura e presença dominando o espaço, mas eu me mantenho firme, mesmo quando ele se aproxima.
— Você está pisando em um território perigoso, esposa. — Sua voz sai baixa, carregada de advertência.
Meu coração acelera, mas eu me recuso a recuar.
— E você está pisando na minha paciência.
Ele solta um riso seco, sem humor, passando uma das mãos pelos cabelos em um gesto frustrado.
— Você não entende. — Ele murmura, desviando o olhar por um instante.
E é isso que me irrita ainda mais.
— Então me faça entender, Dante! Porque, por mais que você banque esse homem enigmático e inatingível, eu sei que há algo aí dentro! Sei que há um motivo por trás disso!
Ele me encara, seus olhos carregados de algo intenso, sombrio. Por um momento, penso que ele vai ceder, que finalmente vai me contar o que o incomoda tanto. Mas então ele aperta os lábios, endurecendo ainda mais sua expressão.
— Você não vai. Esse é o fim da conversa.
E então ele simplesmente se vira e sai da sala, deixando-me sozinha, com a raiva borbulhando no peito e as malditas lágrimas queimando meus olhos.
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Atualizado até capítulo 56
Comments
Jane Silva
se ela for escondido e ver vai ser pior
2025-03-13
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