Dante
A noite já caiu há horas, e o silêncio da casa só é quebrado pelo leve farfalhar das árvores no jardim iluminado. Estou no meu escritório, a meia-luz, apenas o abajur sobre a mesa de mogno projeta um brilho amarelado sobre os papéis espalhados.
A casa inteira parece segurar a respiração desde a discussão no almoço. Júlia se trancou no quarto e não saiu mais. Nem mesmo para o jantar.
Do lado de fora, o jardim se destaca na escuridão, as luzes posicionadas de forma estratégica fazem sombras dançarem sobre as estátuas dos lobos de pedra. Eles parecem me encarar, imóveis, como guardiões de um segredo antigo.
Então ouço a porta do escritório se abrir com discrição. Albert entra, com seu costumeiro ar de compostura. Sua voz soa baixa, respeitosa:
— Pois não, senhor? Mandou me chamar? Deseja algo?
Solto um suspiro, ainda sem encará-lo de imediato. Minhas mãos permanecem nos bolsos da calça enquanto fito o jardim. O festival da lua… Isso nunca deveria ter chegado aos ouvidos de Júlia.
Viro-me para Albert, meu olhar carregado de um peso que ele já conhece bem. Meus dedos se apertam levemente dentro do bolso antes que eu fale, minha voz saindo firme, mas contida:
— Desejo que você não seja tão intrometido, Albert. Você e os outros. — Dou um passo à frente, analisando sua expressão impassível. — Por que foram dizer sobre o festival da lua para minha esposa?
Albert mantém a postura rígida, mas vejo em seus olhos um brilho de desafio contido. Ele sabe que estou irritado. Ele sente isso no ar, na energia que emano, mas, ainda assim, não recua.
— Com todo respeito, senhor Blackwood — ele começa, a voz controlada —, a senhora Júlia é curiosa por natureza. Ela faz perguntas. Eu apenas respondi.
Fecho a mandíbula com força, sentindo um calor de frustração crescer dentro de mim. Caminho até minha mesa e apoio as mãos sobre ela, tentando manter o controle.
— Você sabe que não quero que ela vá.
Albert assente, mas seu olhar permanece impassível.
— Sei. Mas também sei que isso não vai impedi-la.
Solto uma risada seca, sem humor, passando as mãos pelos cabelos.
— Claro. Ela é teimosa feito uma mula.
— Ela é livre, senhor. Algo que talvez o senhor tenha esquecido como é.
Minhas mãos se fecham em punhos. Sei que Albert não me enfrenta por desrespeito. Ele me serve há anos, sabe mais sobre mim do que qualquer um, e por isso mesmo não mede suas palavras. Mas isso não torna mais fácil ouvi-las.
— Não se trata de liberdade. — Minha voz sai baixa, carregada de tensão. — Se trata de segurança.
Albert me observa por um longo momento antes de dar um passo à frente.
— O senhor tem medo do que pode acontecer, ou do que ela pode descobrir?
Seu tom é calmo, mas a pergunta me acerta como uma lâmina afiada. Não respondo de imediato. Apenas o encaro, meu peito subindo e descendo com uma respiração pesada.
— A questão é que ela já decidiu que vai. — Albert continua. — E se o senhor continuar agindo assim, só vai empurrá-la ainda mais para longe.
As palavras dele ficam pairando no ar, ressoando dentro de mim de um jeito que não gosto. Porque, no fundo, sei que ele está certo. Júlia é um espírito livre, e quanto mais eu tentar segurá-la, mais ela vai lutar contra mim.
Eu poderia simplesmente trancá-la aqui. Impedir que saia. Mas... seria isso mesmo o que eu quero?
Fecho os olhos por um instante, soltando um longo suspiro.
— Saia, Albert.
Ele assente, sem questionar, e se retira do escritório, deixando-me sozinho com meus próprios pensamentos.
Olho para a janela novamente, para a lua brilhando lá fora. A festa da Lua.
Se Júlia soubesse o verdadeiro significado desse festival, ela não estaria tão ansiosa para ir.
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Atualizado até capítulo 58
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