Júlia
Dia Seguinte...
O dia está claro lá fora, e os primeiros raios de sol invadem os corredores frios desta mansão imensa e solitária. Vestida com um simples vestido rosa claro, desço as escadas lentamente, sentindo o contraste entre o tecido leve sobre minha pele e o chão de mármore gelado sob meus pés descalços.
Cada passo é silencioso, como se eu fosse apenas uma sombra flutuando pelo espaço vazio.
Meus dedos deslizam suavemente pelas paredes frias, e uma sensação estranha se espalha pelo meu peito. Algo dentro de mim mudou. A noite anterior não foi apenas um choque, foi uma revelação.
Dante Blackwood… aquele homem que tanto odiei antes mesmo de conhecê-lo… não é o monstro que imaginei.
O olhar dele continua preso em minha mente—não arrogante, não cruel, mas carregado de algo que só agora sou capaz de reconhecer. Dor. Solidão. Um grito silencioso preso dentro de alguém que se fechou ao mundo.
E por que eu não percebi isso antes? Por que só agora vejo com clareza o que estava nítido ali?
Porque, no fundo, sempre fui uma prisioneira. Não apenas dos muros que me cercavam, mas da minha própria visão limitada do mundo.
Meu peito aperta. Sinto um nó na garganta.
Eu fui cruel com Dante. Não apenas com palavras, mas com cada carta que escrevi, com cada pensamento de desprezo que alimentei.
E agora, ao descer essas escadas, sinto como se estivesse me despindo da antiga Júlia. Uma que não quer mais odiar.
Uma que quer entender.
Chego à sala de jantar e encontro a imensa mesa já posta. Tudo impecável. Tudo perfeitamente alinhado. Mas o espaço vazio à minha frente me dá calafrios. Dante não está aqui. O silêncio se arrasta, sufocante.
Onde ele foi?
O som de vozes baixas e risadas discretas vem da direção oposta, acompanhado por um cheiro delicioso que me envolve como um abraço inesperado. Meus pés se movem sozinhos, seguindo o aroma acolhedor até a cozinha.
Assim que entro, vejo uma cena que me surpreende.
Uma senhora de pele morena e olhar caloroso mexe algo em uma panela, cantarolando baixinho. Ela brilha—não de riqueza ou status, mas de uma luz própria, de uma energia que aquece tudo ao redor.
Perto dela, sentados a uma mesa menor, vejo o mordomo, e um jovem que nunca vi antes. Eles compartilham o café da manhã entre sorrisos, a conversa fluindo com naturalidade.
O oposto absoluto da frieza daquela mesa de jantar solitária. Mas assim que o mordomo me vê, ele se levanta rapidamente, ajeitando a postura.
— Senhora Júlia? Precisa de algo? O café já está servido na sala…
Eu hesito por um segundo, antes de soltar um suspiro e dar mais alguns passos.
— Eu vi, obrigada. — Minha voz sai baixa, quase incerta. — Mas… aqui parece ser um lugar melhor para tomar café.
Meus olhos percorrem os rostos deles. Pela primeira vez, estou cercada por pessoas que não me olham como um fardo, como uma peça em um jogo que não escolhi jogar.
— Claro, se vocês não se importarem com a minha companhia.
O mordomo troca um olhar com os outros. Há um breve silêncio antes de ele responder:
— Como desejar, senhora.
Um pequeno sorriso toca meus lábios. Então olho para cada um deles, minha curiosidade crescendo, ao perguntar:
— Posso saber seus nomes?
O mordomo assente com a cabeça.
— Eu sou Albert, o mordomo da família Blackwood há muitos anos. Esse ao meu lado é João, nosso jardineiro mais talentoso. E esta beldade que domina a arte culinária é Joana.
Joana sorri largo para mim, mas sua expressão carrega algo mais… surpresa, talvez?
Albert completa:
— Estamos todos aqui para servi-la, senhora.
O peso das palavras dele me atinge de um jeito estranho. Eles foram ensinados a me servir. Assim como fui ensinada a obedecer.
E, pela primeira vez, percebo o quanto detesto isso.
Respiro fundo antes de dizer, com toda a sinceridade que carrego no peito:
— Eu não quero que vocês me sirvam. Quero que sejam meus amigos. Claro, se quiserem…
Eles me encaram, como se não soubessem como responder.
Meu coração lateja, enquanto digo:
— Se aceitarem minha amizade… serão meus primeiros amigos. Em todos esses dezoito anos da minha vida.
O silêncio que se segue é esmagador.
E, antes que eu possa me conter, as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Mas, dessa vez, não são de tristeza. São de algo novo.
Algo que, pela primeira vez, me faz sentir viva.
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Atualizado até capítulo 57
Comments
Vivi
estória maravilhosa
2025-03-20
1