Dante
A mansão surge diante de mim enquanto o sol da manhã desponta no horizonte. As sombras da noite ainda pesam sobre meus ombros, e meu corpo, exausto da corrida desenfreada pela floresta, carrega os resquícios de minha transformação.
Minha camisa está rasgada, pendendo sobre minha pele como um trapo inútil. Algumas folhas secas e pequenos galhos estão presos em meus cabelos desgrenhados. Minhas calças, embora ainda inteiras, contrastam com a opulência do ambiente ao meu redor.
Eu estou uma bagunça. Um lobo selvagem que não deveria estar aqui, entre essas paredes frias e civilizadas.
Meus passos ecoam pelo mármore do hall de entrada. Minha mente ainda está nublada, girando com a confusão da noite anterior. O calor da pele dela ainda impregna minha memória. Seu olhar, suas palavras, seu toque... tudo reverbera dentro de mim de um jeito que me faz sentir fora de controle.
Eu preciso de um momento. Algo para ancorar minha mente à realidade. Sem pensar muito, sigo até a cozinha. Mas assim que cruzo a soleira da porta, sou atingido por algo inesperado. Risos.
Risos genuínos, leves, despreocupados. Meu corpo se enrijece. Meus olhos percorrem a cena à minha frente.
Albert, sempre tão formal, está relaxado, um meio sorriso nos lábios. João gesticula enquanto conta alguma história, e Joana, a cozinheira, gargalha enquanto mexe em uma panela.
E então há ela. Júlia.
Sentada à mesa com eles, sorrindo de um jeito que nunca vi antes. Seus olhos brilham, sua postura é solta. Ela não parece uma prisioneira. Não parece uma mulher forçada a um casamento que não queria.
Ela parece... parte disso.
Algo em meu peito aperta, um incômodo desconhecido. Então, eles me veem. O silêncio cai como uma lâmina cortante. Os sorrisos desaparecem. Os olhares se arregalam, surpresos com minha aparência desgrenhada.
Mas Júlia é a única que não hesita.
Ela se levanta imediatamente, atravessando o espaço entre nós com passos rápidos.
— Meu Deus, Dante! O que houve com você? Está tudo bem?
Seus olhos percorrem meu rosto, minhas roupas rasgadas, minhas mãos ainda sujas de terra. Há preocupação genuína ali.
Minha mandíbula se contrai.
Ela está perto demais.
O cheiro dela me invade, me desestabiliza. A lembrança de suas palavras na noite anterior retorna como um soco no estômago.
"Eu Júlia Mildren te aceito, Dante Blackwood."
Aceitação. Eu não sei lidar com isso.
Minha respiração se torna pesada, e quando ela tenta dar mais um passo, minha mão se ergue instintivamente, impedindo sua aproximação.
Minha voz sai baixa, carregada de algo que nem eu sei nomear:
— Não ouse dar nem mais um passo.
Júlia para no mesmo instante.
Seus olhos me sondam, buscando algo em meu rosto. Os outros apenas observam, sem ousar intervir.
Por um momento, um longo e pesado momento, ficamos assim—ela tentando atravessar a barreira invisível que ergui entre nós, e eu lutando contra algo que cresce dentro de mim e que eu me recuso a nomear.
Então, sem dizer mais nada, me viro e saio. Preciso de um banho. Preciso me livrar do cheiro de terra, da floresta, dela.
Mas, acima de tudo, preciso escapar do que quer que seja essa coisa estranha que começa a tomar conta de mim sempre que olho para minha esposa.
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Atualizado até capítulo 57
Comments
Paula Ferreira
esse homem deve ser louco...
2025-04-03
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