Dante
Ela fica imóvel por um momento, os olhos cravados nos meus, como se tentasse decifrar cada fragmento do que sou. Seu olhar, antes desafiador, agora carrega algo diferente. Algo mais profundo.
Então, sem aviso, sinto o impacto do seu corpo contra o meu.
O abraço é forte, inesperado. Seu calor me envolve, e a sensação é tão intensa que meu instinto primitivo quase me faz afastá-la. Mas não consigo.
As lágrimas quentes deslizam pelo seu rosto, tocando a minha pele como brasas vivas. Sua respiração é entrecortada, e quando sua voz vem, ela me atinge como um golpe direto no peito.
— Eu sinto muito, Dante Blackwood. — Ela sussurra, e cada palavra penetra fundo. — Sinto muito por tudo que tenha passado. Me desculpe por ter sido tão grosseira. Eu sinto muito... sinto muito por todas as dores que teve que carregar.
Meu corpo enrijece. O que diabos ela está fazendo?
— E aqui e agora — sua voz treme, mas sua convicção não vacila — eu, Júlia Mildren, aceito você, Dante Blackwood, como meu marido e futuro pai dos meus filhos.
O ar me escapa.
Algo dentro de mim, algo que passei anos enterrando, se retorce e desperta com violência.
Meu coração, que por tanto tempo foi uma rocha imóvel, começa a bater em um ritmo caótico, esmagador. Minhas mãos, acostumadas a segurar com firmeza, agora tremem levemente sobre sua pele.
Eu a empurro.
Júlia cai sentada sobre a cama, o olhar arregalado, ainda apenas de roupas íntimas. A cena deveria me inflamar, deveria despertar o predador em mim.
Mas, pela primeira vez, não sinto apenas desejo. Sinto um medo irracional crescendo dentro de mim. Uma vertigem absurda me atinge.
Como se o quarto inteiro estivesse girando ao meu redor.
Ela me olha, tão vulnerável, tão pura nesse momento, que algo dentro de mim se parte.
Abotoo minha calça num movimento brusco, como se precisasse criar uma barreira entre nós. Minha respiração está descompassada, o peito subindo e descendo como se eu tivesse corrido quilômetros.
Preciso sair daqui.
Agora.
Sem olhar para trás, saio do quarto, meus passos firmes ecoando pelo corredor. O ar parece pesado demais, minha mente um caos.
Preciso respirar.
Preciso me recompor.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, não sei se ainda tenho controle sobre mim mesmo.
(...)
Assim que meus pés tocam o chão fora da mansão, sinto o ar frio da noite bater contra minha pele, mas não paro. Meu corpo está tenso, carregado de algo que não sei explicar—algo que me consome de dentro para fora.
Caminho com passos rápidos pelo jardim, os sons da noite preenchendo meus ouvidos, e logo passo pela pequena trilha que liga minha propriedade à imensa floresta. Aqui, cercado pela escuridão e pelo cheiro úmido da terra, finalmente me permito perder o controle.
A transformação começa.
Meu corpo se enrijece enquanto os primeiros espasmos percorrem minha espinha. Ossos se realocam com estalos secos, a dor queimando sob minha pele como brasas vivas. Garras surgem em minhas mãos, rasgando minha pele humana antes de se moldarem completamente. Pelo denso explode pelo meu corpo, e meus sentidos se aguçam até que o mundo ao meu redor se torna mais nítido, mais selvagem.
E então, meu lobo assume. Uma criatura imponente de pelagem escura e olhar predador.
Com um impulso, disparo pela floresta, meus músculos se movendo com precisão e poder. Cada salto é forte, cada passo me leva mais fundo na escuridão, enquanto galhos se quebram sob minhas patas e folhas úmidas se espalham ao meu redor.
Mas, por mais que eu corra, por mais que tente me perder na velocidade, a voz dela ainda me persegue.
"Eu, Júlia Mildren, te aceito, Dante Blackwood."
Rosno alto, o som ecoando entre as árvores.
Não sei se corro para escapar dessa sensação sufocante ou se corro para tentar entendê-la.
O brilho prateado da lua reflete em minha pelagem, iluminando o caminho à minha frente. O vento corta meu rosto, trazendo o perfume das árvores, da terra molhada... e dela.
Júlia.
Meus instintos gritam para voltar. Para reivindicá-la. Para torná-la minha em todos os sentidos.
Mas há algo mais forte. Algo mais perigoso.
Porque, pela primeira vez em anos, sinto algo que sempre temi sentir. E essa sensação pode ser ainda mais letal do que qualquer transformação.
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Atualizado até capítulo 56
Comments
joana Almeida lima
De onde danado saíram essas palavras da Júlia?, ela parecia possuída, não foi uma coisa normal de se falar, ainda que ela estava com raiva também
2025-04-01
1
Edvania Oliveira da Rocha
amor inesperado
2025-03-24
1