Dante
Após nosso momento, observo Júlia. O peito dela subindo e descendo devagar enquanto tenta recuperar o fôlego. O silêncio que nos envolve é pesado, carregado de algo novo e desconhecido. Algo que nem eu, nem ela, sabemos como nomear.
Me viro levemente de lado, apoiando a cabeça na mão, sem tirar os olhos dela. Júlia percebe meu olhar e aperta o lençol contra o peito, como se quisesse se esconder de mim. O gesto me diverte. Ela pode tentar disfarçar, mas o rubor em seu rosto a entrega.
— Você sabe que não adianta, não é? — Minha voz sai rouca, carregada de um tom provocador.
Ela franze o cenho, mas evita me encarar diretamente.
— O quê?
— Se esconder de mim. Depois do que acabou de acontecer... — Me aproximo um pouco mais, puxando o lençol devagar, sentindo a resistência dela.
Júlia aperta os lábios, seu olhar finalmente encontrando o meu. Há algo ali que antes não existia. Algo que a torna ainda mais intrigante.
— Isso foi... — Ela começa a falar, mas hesita.
Arqueio uma sobrancelha.
— Intenso?
Ela revira os olhos, mas não nega.
Sorrio, satisfeito. Meu instinto me diz que nada mais será como antes. Que, de alguma forma, essa garota que eu trouxe para minha casa, que deveria ser apenas um meio para um fim, está se tornando algo mais. Algo que eu ainda não consigo definir.
Ela se senta na cama, ainda envolta no lençol, e seus dedos percorrem lentamente as entalhações na madeira escura da cabeceira. O toque dela é cuidadoso, quase reverente, como se tentasse decifrar algo oculto ali.
— Por que tem lobos entalhados aqui? — Ela pergunta, sua voz carregada de curiosidade. — E lá fora também... as estátuas. Você faz parte de alguma seita? Ou só gosta muito deles?
Seus olhos encontram os meus, buscando respostas.
Sinto uma faísca de diversão surgir dentro de mim diante da suposição ingênua, mas logo se dissipa. Ela não tem ideia do que está perguntando. Do que suas palavras realmente significam.
Minha mandíbula se contrai levemente. E se eu dissesse a verdade? Se revelasse que seu marido não é apenas um homem, mas uma fera à espreita, vivendo entre dois mundos?
Penso na reação dela. No choque, no medo. Porque é isso que normalmente acontece. É isso que sempre acontece.
E, no entanto, uma parte de mim quer testar. Quer ver se ela corre, se se encolhe, ou se continua sentada aqui, me encarando com essa intensidade absurda.
— E se eu dissesse que não é apenas uma questão de gosto? — Provoco, minha voz baixa e carregada de algo que a faz estremecer.
Ela pisca algumas vezes, refletindo sobre minhas palavras, como se tentasse encaixar as peças de um quebra-cabeça invisível.
— Então o quê? Você se sente... conectado a eles de alguma forma?
Uma risada rouca escapa dos meus lábios. Se ela soubesse o quão perto está da verdade.
— Algo assim.
Júlia franze o cenho, sua expressão indecifrável.
— Dante... — Ela começa, como se fosse continuar a perguntar, mas algo no meu olhar a faz hesitar.
Eu me aproximo, eliminando o pouco espaço entre nós, sentindo sua respiração acelerar. Meus dedos traçam um caminho lento por seu braço, subindo até seu ombro nu.
— Quer saber a verdade, querida esposa?
Ela engole em seco.
— Quero.
Me inclino ainda mais, deixando meus lábios perigosamente próximos aos dela.
— Cuidado com o que deseja. Algumas verdades podem ser avassaladoras.
Ela me encara, e eu vejo algo diferente em seus olhos. Não é medo. É curiosidade. E talvez... um toque de fascínio.
Ela não se contém e dispara:
— Aliás, quantos anos você tem?
Penso em responder: "Milhares de anos."
Mas apenas esboço um pequeno sorriso seco e, olhando diretamente para ela, digo:
— Sou mais velho que você. Isso é tudo o que precisa saber.
Júlia estreita os olhos para mim, claramente insatisfeita com minha resposta evasiva.
— Isso não responde minha pergunta, Dante. — Ela cruza os braços, ainda segurando o lençol contra o peito. — Você fala como se fosse um velho de cem anos.
Se ao menos ela soubesse.
Inclino a cabeça de lado, analisando-a. Seu olhar está cravado em mim, inquisitivo, impaciente. Uma parte de mim gosta disso—da forma como ela não aceita respostas superficiais, como tenta me decifrar. Mas outra parte… outra parte sabe que algumas verdades não devem ser reveladas.
— Digamos que eu sou muito mais velho do que aparento.
Ela franze o cenho, processando minhas palavras.
— O que isso significa? Você tem trinta? Quarenta? Você é algum tipo de vampiro agora?
Uma risada rouca escapa da minha garganta.
— Vampiro? Jura?
— Ah, sei lá! — Ela gesticula, frustrada. — Seu jeito misterioso não ajuda em nada!
Me inclino sobre ela, apoiando as mãos ao lado de seu corpo, prendendo-a contra a cabeceira da cama. Seus olhos se arregalam levemente, mas ela não recua.
— E se eu dissesse que sou mais velho que qualquer humano comum? Que vi séculos passarem diante de mim? Que sou mais fera do que homem? — Minha voz sai baixa, intensa, carregada de um desafio silencioso.
Ela me encara por um longo momento, sua respiração acelerada. Seu coração bate forte, e eu consigo ouvir cada pulsação como uma batida ritmada me chamando.
E então, para minha surpresa, ela sorri.
— Eu diria que você está dramatizando demais.
Solto uma risada curta, surpreso pela audácia.
— É mesmo?
— Sim. E também diria que, se quer que eu acredite em algo, vai ter que se esforçar mais do que isso.
Ela me encara com um brilho nos olhos, como se me desafiasse. Como se não tivesse medo de mim.
Eu deveria recuar. Deveria encerrar essa conversa antes que ela vá longe demais.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não quero.
Quero ver até onde minha esposa, Júlia Mildren está disposta a ir. Quero ver se ela continuará me desafiando quando descobrir a verdade.
E, mais do que tudo, quero saber se ela ainda será minha quando souber quem—o que—eu realmente sou.
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Atualizado até capítulo 57
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