O rei queria falar mais sobre os detalhes do plano que ele havia colocado em ação. Mas não parecia ser só isso. Havia algo mais, algo que ele queria me perguntar. Então, ele disse:
— Sei que faz muito tempo, mas quero falar sobre o conflito que ocorreu entre seu mestre e o nosso reino.
O rei fez uma pausa, como se ponderasse suas palavras antes de continuar.
— Por mais que eu tenha investigado diversas vezes, ainda não sei o real motivo de seu mestre se declarar o "Rei Demônio" e depois atacar nossa província em primeiro lugar. Devo admitir que ele era poderoso na época, mas não era tão poderoso assim. Ele morreu, e você simplesmente se rendeu.
Tentei falar com o rei com o mínimo de detalhes possível. Afinal, ele ainda era meu inimigo e eu ainda estava com uma coleira.
Eu sabia para onde aquela conversa estava indo. Ele queria entender por que meu mestre havia atacado o reino dele, mas como eu poderia explicar algo que nem eu mesma entendia completamente? Meu mestre sempre dizia que nossas forças eram fracas e que aquele ataque seria o início de uma nova era. Mas o que isso realmente significava? Ele falhou em alcançar seu objetivo, e eu fui capturada. Eu mesma nunca havia conseguido compreender totalmente suas razões.
Então, fiquei em silêncio, aguardando a próxima pergunta do rei.
Finalmente, o rei perguntou:
— Pérola, qual era o objetivo do seu mestre? Ele queria atacar nosso reino ou destruir o mundo inteiro? Ele nunca deixou isso claro, e essa dúvida tem me atormentado por anos.
Então, eu tentei explicar. Falei:
— Para você entender melhor essa resposta, preciso te contar um pouco mais sobre minha vida.
Ele ficou curioso e fez um gesto para um de seus subordinados, que rapidamente trouxe uma cadeira para que eu me sentasse. Eu me senti como se estivesse em um confessionário, e ele fosse o padre.
Pude perceber a curiosidade nos olhos do rei, o que me surpreendeu. Eu não sabia que ele se importava tanto com minha história. Mas, apesar de sua atenção, eu não iria facilitar tudo de maneira tão simples. Havia detalhes que eu não podia revelar. Detalhes que garantiam a minha segurança. Então, comecei a falar.
— Meu mestre me encontrou quando eu tinha apenas seis anos de idade. Eu era órfã, não conhecia meu pai nem minha mãe.
Fiz uma pausa, observando a reação do rei, que parecia estar absorvendo cada palavra. Ele permaneceu em silêncio, aguardando que eu continuasse.
— Ele me encontrou na cidade de Lorech, no reino de Finder. Meu mestre era um futurista, falava muito sobre magias, encantamentos e outras coisas que pareciam impossíveis para a maioria das pessoas. Ele tinha muitas ideias, mas não sabia como colocá-las em prática, ou melhor, não sabia como fazer com que todos soubessem das ideias que ele tinha.
Fui interrompida por um breve suspiro, mas continuei.
— Então, ele começou a reunir seguidores. Muitos seguidores, que se tornaram, por sua vez, seus subordinados. E depois, ele começou a fazer...
Fiz uma pausa, hesitando. Não sabia como continuar sem expor demais. Meu olhar se desviou momentaneamente, antes de continuar com dificuldade.
— Ele começou a fazer experiências com seus seguidores.
Eu sabia que não podia me expor demais. Mesmo que ele estivesse curioso, eu tinha que manter uma distância segura. Cada palavra que eu dizia poderia ser usada contra mim, então optei por ser cuidadosa, dando respostas vagas, mas que ainda alimentassem a curiosidade do rei.
— Ele começou a reunir mais e mais seguidores, todos com promessas de um futuro melhor, um futuro que ele dizia ser possível por meio de seus conhecimentos e poderes. Mas o que ele realmente queria... Isso ninguém sabia, nem mesmo os mais próximos dele.
O rei me observava atentamente, os olhos brilhando com a busca pela verdade. Eu podia sentir a tensão no ar, como se ele estivesse tentando ver além das minhas palavras, penetrando minha alma em busca de alguma fraqueza.
— Eu não sabia de tudo o que ele planejava — continuei. — Mas algo me dizia que ele estava caminhando por um caminho perigoso. E foi aí que as experiências começaram.
Fiz outra pausa, sem saber até onde poderia ir com aquilo. Eu não queria mostrar vulnerabilidade, mas ao mesmo tempo sabia que manter o rei interessado era necessário.
O rei não disse nada. Apenas aguardou, como se quisesse que eu continuasse. Ele não parecia ter pressa, o que me fazia sentir ainda mais desconfortável. Eu sabia que cada segundo que passava ali poderia mudar o rumo de tudo.
Eu achava que já tinha falado o suficiente. Já era bom o bastante. O rei não precisava saber que eu era uma das experiências do meu mestre, e que, apesar disso, havia dado muito certo. Meu poder ia além do que ele imaginava, e eu tinha o dom de criar objetos encantados. Foi com esse dom que fiz o livro, aquele que meu mestre tanto... tinha zelo. E agora, ele estava nas mãos inimigas. Não podia contar aquilo.
Encerrei a conversa dizendo:
— Ele sucumbiu à própria loucura. Nem ele conseguiu suportar o poder do livro.
Pensei baixinho, para mim mesma:
Ele não conseguiu suportar o poder que eu coloquei no livro, mas não disse isso ao rei. Olhei para ele e o encarei. E, por fim, segui-o durante toda a minha vida. Quando vi que ele caiu, que morreu, e eu não tinha mais um mestre a seguir, apenas aceitei a minha sentença. Mas eu não sabia que vocês iriam me prender por sete anos. Achei que simplesmente me matariam. Eu queria que me matassem.
O rei ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse minhas palavras. Ele me observava com uma expressão difícil de ler. Eu podia ver a curiosidade em seus olhos, mas também uma sombra de desconfiança.
Eu não podia negar que sentia um certo prazer em manter as informações mais cruciais escondidas, mas sabia que não seria fácil continuar assim por muito tempo. O rei me conhecia melhor do que eu gostaria, e suas perguntas poderiam se aprofundar mais do que eu estava disposta a revelar.
Finalmente, ele falou com uma voz grave:
— Não espero que me diga tudo, Pérola. Mas saiba que o que você carrega, o que você tem... pode ser muito mais valioso para mim do que você imagina.
Eu não sabia o que ele queria dizer com isso, mas algo na sua voz me fez sentir uma pontada de alerta. Era como se ele estivesse planejando algo muito maior, algo além do que apenas descobrir a verdade sobre o que aconteceu com o meu mestre.
— O que quer de mim, então? — Perguntei, mantendo o olhar firme, embora meu corpo tivesse uma tensão crescente.
O rei se aproximou, os passos ecoando pela sala vazia, e parou diante de mim. Ele me estudou por alguns segundos, como se decidisse o que dizer.
— Quero ver até onde você está disposta a ir para preservar o que restou. Eu posso ser seu aliado ou seu maior inimigo. Depende de você, Pérola.
Eu não disse mais nada. Sabia que ele estava testando os limites, como sempre fizera com todos que cruzavam seu caminho. Mas agora, estava claro que ele tinha algo em mente. Algo que envolveria muito mais do que uma simples missão ou vingança.
Eu estava prestes a me envolver em algo muito maior do que eu havia imaginado.
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Atualizado até capítulo 50
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