Capítulo 10

Meu objetivo era claro: aproveitar ao máximo essa estadia e traçar um plano. Eles queriam o livro do meu mestre, e eu precisava dele para me livrar desse colar amaldiçoado preso ao meu pescoço. Por causa desse artefato, minha magia estava selada. Mas, felizmente, meu mestre sempre me ensinou a nunca depender de uma única coisa. Precisava restaurar minha resistência física, treinar minha mente e me preparar. Eu precisaria de tudo isso para fugir.

Caminhei até o banheiro. Havia um espelho ali, e eu precisava analisar melhor esse colar. Desde o dia em que o colocaram em mim, nunca o tinha visto de perto.

Inclinei-me diante do espelho e observei meu reflexo. O colar era feito de correntes negras e possuía três pedras incrustadas: duas menores nas laterais e uma maior no centro. Toquei as pedras, tentando sentir algo diferente. Nada. Mas, ao deslizar o polegar pela parte inferior da pedra central, senti uma leve textura.

Fiz o mesmo com as outras e percebi que todas tinham algo semelhante. Letras?

Estreitei os olhos. Eu já tinha visto algo assim antes.

Abafei o espelho com a boca, criando uma leve camada de vapor, e usei os dedos para escrever as marcas que senti no colar. Toquei cada pedra, reproduzindo os símbolos no vidro embaçado. Lá estavam elas, uma escrita desconhecida... ou nem tanto.

Algo dentro de mim reconhecia aquelas inscrições.

Fixei os olhos no espelho e tentei memorizar cada detalhe. Usei a técnica de visualização que meu mestre me ensinara, armazenando a imagem na mente como se estivesse gravada em pedra.

Perfeito.

Agora, eu precisava de um espaço para me concentrar.

Voltei para o quarto e me sentei no chão, ao lado da cama, com um joelho dobrado e o outro esticado—exatamente como costumava sentar no calabouço. Para os guardas, isso pareceria apenas desânimo ou resignação, mas na verdade, eu estava me preparando.

Fechei os olhos e visualizei uma mesa imaginária.

Coloquei sobre ela os símbolos que havia encontrado, reorganizando-os da mesma forma como apareciam no colar. Eu costumava criar runas para o meu mestre, mas nunca havia visto esse tipo antes.

Normalmente, runas eram usadas individualmente para propósitos específicos. Uma única runa bastava para ativar um encantamento. Mas esse colar tinha três. Isso não podia ser coincidência.

Lembrei-me das runas de aquecimento que eu costumava gravar em pedras lisas. Era algo simples: uma única runa e a pedra aquecia rapidamente—perfeito para os invernos rigorosos.

Mas essas eram diferentes.

Abri os olhos, sentindo que estava perto das respostas que queria. Meu coração acelerou quando, de repente, uma presença me chamou a atenção.

Não estava dentro do quarto, mas do lado de fora.

Virei o rosto levemente para ver quem era.

Meus olhos se arregalaram.

Era o mesmo guarda que me observou quando tomei banho.

Uma onda de desconforto percorreu minha pele.

Retomei minha posição, olhando para frente, fingindo que não o vi. Mas aquilo me incomodava.

Eu não gostava da forma como ele me olhava.

Tentei me recompor. Afinal, não poderia ser grande coisa, não é?

Que mentira eu estava contando para mim mesma.

Diversas vezes, os guardas tentaram me tocar no calabouço. Mas percebi que, quanto mais suja e fétida eu estava, mais eles se afastavam. Usei o cheiro como uma arma por anos. Agora, porém, essa proteção não existia mais.

E eu conhecia muito bem esse tipo de olhar.

Precisava me preparar.

Respirei fundo, tentando relaxar o corpo para enganar a presença do outro lado da porta. Depois de alguns instantes, percebi que ele já havia ido embora. Meu corpo relaxou um pouco, mas minha mente continuava em estado de alerta.

Não vou mentir… Era bom ser bem tratada depois de tantos anos.

Levantei-me e caminhei até o banheiro. Queria me encarar no espelho.

Assim que meus olhos encontraram meu reflexo, toda a minha camuflagem desapareceu.

Toquei meu rosto.

Eu quase não me reconhecia.

Depois de anos sem me preocupar com vaidade, era estranho me ver assim. Meu cabelo negro caía suavemente ao redor do meu rosto pálido, revelando minhas bochechas levemente arredondadas. Meus olhos, de um formato acentuado e marcante, encaravam a imagem à minha frente com um misto de curiosidade e incredulidade.

Quanto tempo fazia desde que eu me vira assim… tão bonita?

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