Tentei dormir, mas meu corpo ainda estava inquieto. O peso do que aconteceu naquela noite me deixava em alerta, como se a qualquer momento outra ameaça pudesse surgir. Mas, por mais que minha mente quisesse se manter desperta, o cansaço venceu.
A escuridão do sono me envolveu, e, antes que eu percebesse, fui puxada para um sonho.
Meu mestre estava diante de mim, sentado à beira de uma fogueira. Seu rosto estava parcialmente oculto pela penumbra, mas eu reconheceria aquela presença em qualquer lugar.
— Ainda dorme tão inquieta, Pérola? — Sua voz era profunda, firme, mas carregava aquele tom levemente provocativo de sempre.
Eu queria responder, mas quando tentei falar, minha voz não saiu.
Ele riu baixinho, quase como se soubesse o que eu estava pensando.
— Está com medo?
Minha mandíbula se contraiu. Medo? Sim, eu estava assustada. Mas não queria admitir isso.
Ele inclinou a cabeça, analisando meu silêncio. Depois, pegou um graveto e começou a desenhar algo na terra ao lado da fogueira.
— Você se lembra do que eu te ensinei sobre fraqueza?
Olhei para o desenho que ele fazia. Símbolos, runas… reconheci algumas. Mas a minha atenção se prendeu à última que ele traçou.
A runa da resiliência.
Ele ergueu os olhos para mim.
— Se sente fraca agora porque está olhando para a corrente ao redor do seu pescoço, Pérola. Mas me diga… desde quando você precisou de magia para sobreviver?
Minha garganta se apertou.
Ele largou o graveto e se levantou.
— A magia pode ter sido tirada de você, mas sua mente ainda é sua. Seu corpo ainda é seu. Você não é uma vítima. Nunca foi.
O fogo da fogueira pareceu crescer, e o calor me envolveu. Meu mestre se afastou um passo, a silhueta dele se desfazendo na luz.
— Acorde.
E então, despertei.
Fazia anos que eu não sonhava. Pelo menos, não com algo que não fosse um pesadelo.
Sentei-me na cama, sentindo o suor frio na nuca. Meu coração batia forte, mas não era de medo. Era como se meu corpo tivesse sido relembrado de algo que eu mesma havia esquecido.
As palavras do meu mestre ainda ecoavam na minha mente. "Você não é uma vítima. Nunca foi."
Minhas mãos foram até o colar negro preso ao meu pescoço. Ele ainda estava ali, me lembrando da minha fraqueza, da minha condição de prisioneira. Mas, pela primeira vez desde que me colocaram isso, eu não senti apenas ódio.
Eu senti desafio.
Eu nunca precisei de magia para sobreviver. Meu mestre me treinou para ser mais do que isso. E se aqueles bastardos achavam que me tinham sob controle apenas por me impedirem de usar magia, estavam cometendo um erro grave.
Respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos.
O rei me chamaria hoje. O que ele queria de mim? Eu precisava de um plano.
Levantei-me da cama, sentindo a dor nos músculos pelo treino da noite anterior e do atentado do guarda. Era uma dor familiar. Significava que meu corpo ainda estava respondendo, ainda estava se fortalecendo.
Fui até a bacia de água e lavei o rosto, observando minha própria expressão no espelho. Os castanho e intensos me encaravam de volta, sem o mesmo vazio de antes.
Hoje, eu enfrentaria o rei. E eu faria isso do meu jeito.
Me aprontei sem demora. As empregadas trouxeram meu café da manhã e, mais tarde, meu almoço. No entanto, o rei não deu nenhum sinal.
Será que ele tinha me esquecido? Ou isso era apenas um jogo para me testar?
O tempo passou arrastado, e a incerteza começou a me incomodar. Até que, de repente, a maçaneta girou, e a porta se abriu lentamente.
Meu olhar encontrou o de Kaelion.
Ele entrou no quarto sem cerimônia, sua expressão impassível, mas seus olhos afiados como lâminas.
— Espero que tenha descansado bem — disse ele, cruzando os braços. — O rei quer vê-la.
Levantei-me sem pressa, mantendo minha postura firme e minha expressão fria.
— Ele finalmente decidiu me chamar.
Kaelion arqueou uma sobrancelha, mas não respondeu.
Apenas se virou e fez um gesto para que eu o seguisse.
Respirei fundo e caminhei atrás dele.
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Atualizado até capítulo 50
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