Caminhei atrás de Kaelion pelos corredores do palácio, mantendo meu ritmo firme, apesar da tensão que começava a se acumular em meus ombros. O silêncio entre nós era quase sufocante, mas eu não tentaria quebrá-lo. Ele estava ali apenas por obrigação, e eu não tinha interesse em puxar conversa com alguém que me enxergava apenas como uma peça descartável no jogo do rei.
O castelo era imenso, e suas paredes altas pareciam engolir qualquer vestígio de liberdade. Mas eu não me deixaria intimidar.
Kaelion guiou-me até um conjunto de portas duplas ornamentadas. Os guardas postados dos dois lados se entreolharam, mas não disseram nada. Com um gesto brusco, ele empurrou as portas, revelando um salão amplo.
E lá estava ele.
O rei sentado no trono, sua presença imponente preenchendo o ambiente. Seu olhar encontrou o meu, avaliando-me com a mesma frieza de sempre.
Engoli em seco, mas mantive a postura.
Kaelion parou ao meu lado e, sem sequer me olhar, disse em um tom seco:
— Ela está aqui.
O rei inclinou-se levemente para frente, um sorriso quase imperceptível surgindo em seus lábios.
— Finalmente — ele murmurou. — Temos muito o que conversar.
Meu coração bateu forte, mas mantive meu rosto impassível.
O jogo realmente tinha começado.
Tentei permanecer calma, mas a ansiedade crescia dentro de mim. O que o rei queria comigo?
O príncipe à minha frente parecia visivelmente irritado. Seu olhar carregava impaciência, como se minha presença ali fosse um incômodo. Quando meus olhos encontraram os de Reagar, sua mandíbula se contraiu. Não havia dúvidas: eles não queriam que eu estivesse ali.
O rei, por outro lado, parecia relaxado em seu trono, observando-me com um olhar avaliador.
— Espero que a espera não tenha sido muito longa — disse ele, a voz carregada de um tom quase divertido.
Cruzei os braços em um gesto controlado, tentando parecer educada, embora, na verdade, estivesse impaciente.
— Foram dias eternos, Vossa Majestade — respondi, mantendo meu tom neutro.
Ele riu baixo, como se tivesse achado graça na minha resposta. Mas, de repente, sua expressão ficou séria.
O ar no salão pareceu ficar mais pesado.
O verdadeiro motivo daquela convocação estava prestes a ser revelado.
— Senhorita, apesar de ser uma prisioneira de guerra, sou um homem cortês e cavaleiro — declarou o rei, inclinando-se levemente para frente, como se quisesse garantir que eu prestasse total atenção a suas palavras.
Mantenho minha postura firme, sem demonstrar submissão nem desafio.
— Então, Vossa Majestade deseja algo de mim? — questionei, minha voz serena, mas carregada de intenção.
O rei sorriu. Não havia humor em sua expressão, apenas um leve traço de diversão, como se achasse graça no fato de eu estar tentando acompanhar o jogo dele. Mas eu não estava perdida. Estava apenas testando meus limites, tentando compreender por que, de repente, estavam me tratando de maneira tão diferente.
Sem prolongar muito o suspense, o rei começou a falar.
— Você sabe que Irantia é um reino grande e poderoso, não sabe?
Assenti.
Sabia. Quando meu mestre tentou aniquilar esse reino, enfrentamos desafios imensos desde o início. Irantia era um dos três reinos mais fortes que existiam, conhecido como o Reino da Espada. Mas algo me intrigava: quando cheguei aqui, não vi apenas soldados — havia magos também.
O rei sorriu, aguardando minha resposta.
— Sim, sei que Irantia é um reino extremamente poderoso — afirmei. — Afinal, vocês conseguiram derrotar meu mestre, a mim e a todo o nosso batalhão. Foram dias de guerra, mas, no fim, vocês venceram. Depois disso, me prenderam.
Ele pareceu satisfeito com minha resposta.
— Perfeito. Já que reconhece nossa atual ascensão no governo mundial, me diga — prosseguiu ele, inclinando a cabeça levemente —, qual é o segundo reino mais poderoso ou igualmente poderoso a Irantia?
Franzi a testa.
Sete anos presa me deixaram desatualizada em relação à política dos reinos. Ri baixo e, sem esconder a ironia, respondi:
— Perdão, Vossa Majestade, mas como posso saber? Estava em um calabouço.
O rei soltou uma risada. Dessa vez, não havia sequer um resquício de simpatia em seu tom — apenas puro desdém.
Ele sabia que eu desconhecia o que havia acontecido fora da minha cela. E agora, parecia ansioso para me contar.
— Ah, é verdade — disse o rei, com um sorriso irônico. — Havia me esquecido desse pequeno detalhe. Mas deixe-me atualizá-la.
Cruzei os braços, mantendo a expressão neutra, enquanto ele continuava.
— Quando seu mestre, o Rei Demônio, foi derrotado, capturamos você e confiscamos seu precioso livro. Tentamos queimá-lo, mas o fogo não o consumia. Pelo contrário, parecia ser protegido por algum tipo de magia.
Minha mente processou rapidamente a informação. É claro, pensei. Eu mesma havia protegido aquele livro de inúmeras formas, tornando-o resistente à magia, ao fogo e até à destruição total. Mesmo que alguém encontrasse o manual de instruções, nunca saberia como desfazê-lo completamente. Mas isso ainda não respondia minha principal dúvida: o que o rei queria comigo?
Ele não me deu tempo para perguntar.
— Há pouco mais de cem meses, Cristália, o segundo reino em poder, quase igualado a Irantia, finalmente inaugurou sua própria academia militar. Começaram a recrutar soldados de todos os países, alegando ser uma instituição independente de influências políticas.
Franzi a testa. Ainda não via a conexão com minha presença ali.
O rei riu, um som carregado de desconfiança.
— Claro que essa história de "independência" é uma grande mentira — disse ele. — Cristália está escondendo algo. Mas a parte interessante vem agora: essa academia foi inaugurada três meses antes do livro desaparecer do nosso cofre real.
Minhas sobrancelhas se ergueram.
— Ele sumiu? — repeti, ainda assimilando a informação.
O rei assentiu, cruzando os dedos sobre a mesa diante dele.
— Simplesmente desapareceu. E logo depois, essa academia começou a operar. Coincidência? Eu acho que não. Desde então, coisas estranhas começaram a acontecer em diversos reinos, principalmente em Irantia. Rebeliões, conspirações, ataques misteriosos... O povo está insatisfeito com a realeza, não apenas aqui, mas em reinos menores como Chrysanthifor também.
Isso, de fato, era suspeito. Mas não havia provas concretas de que Cristália havia roubado o livro.
— E como Vossa Majestade tem tanta certeza de que foi Cristália que pegou o livro? — questionei.
O rei sorriu, inclinando-se na cadeira.
— Não tenho provas diretas, ainda — admitiu. — Mas os eventos que se seguiram à inauguração da academia são... intrigantes. E foi aí que eu pensei em você.
Antes que eu pudesse responder, uma risada debochada veio de trás de mim.
— Olha só, a prisioneira já se achando importante — provocou Reagar, cruzando os braços.
Mantive meu olhar impassível, mas senti o desprezo escorrendo de suas palavras.
Kaelion, por outro lado, permaneceu em silêncio. Apenas tomou um gole de vinho, com um sorriso de puro desdém nos lábios.
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Atualizado até capítulo 50
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