Capítulo 16

Tentei ignorar a provocação de Reagar. Afinal, a verdadeira questão não era o desprezo dos príncipes, mas sim por que eu estava ali.

Fechei os olhos por um instante, organizando meus pensamentos.

O livro roubado.

A criação da academia.

O segundo maior reino do mundo investindo em algo que já deveria dominar.

Tudo parecia desconexo, mas, no fundo, fazia sentido. Cristália já era um reino poderoso, então por que precisaria do livro? Buscavam mais força? Ou havia algo naquele livro que nem eu havia considerado?

Lembrei-me das escritas futurísticas contidas nas páginas, teorias e feitiços avançados que meu mestre havia registrado. Runas, encantamentos, desencantamentos, quebras de maldições... Era um compilado de séculos de conhecimento, mas também um artefato perigoso.

O próprio livro era amaldiçoado.

Seu conteúdo não poderia ser compreendido por qualquer um. Sem uma mente forte e disciplinada, o leitor se perderia nas palavras, enlouquecendo lentamente. Alguns poderiam até arrastar outros para sua loucura.

A questão real, no entanto, não era o livro.

A questão era eu.

Por que, de repente, minha presença se tornara importante?

Levantei os olhos, analisando cada pessoa na sala. O rei. Os príncipes. A atmosfera tensa entre eles. Então, a resposta veio à minha mente, clara como o dia.

Soltei um pequeno riso e encarei o rei diretamente.

— Vossa Majestade deseja que eu me infiltre no Reino de Cristália?

O silêncio que se seguiu confirmou minha suspeita.

Era lógico. Eu havia sido retirada do calabouço, banhada, vestida decentemente. O rei queria um bode expiatório, alguém descartável, que ele pudesse manipular sem remorso.

E quem melhor do que uma prisioneira de guerra, completamente sob seu controle?

Minha mão instintivamente tocou o colar em meu pescoço. Um lembrete cruel de que minha vida não me pertencia.

O rei sorriu, satisfeito.

— Perfeito. Sabia que você era inteligente.

Um som de irritação rompeu o silêncio.

Olhei para os príncipes.

Reagar me encarava fixamente, seu olhar quase implorando: Negue. Diga que não. Não aceite.

Mas por que eu recusaria?

Pela primeira vez em anos, eu tinha uma chance real de sair daquele lugar.

O rei então continuou:

— Mas, Pérola, não é tão simples assim.

Olhei para ele, curiosa.

— Por que não? Seria um plano perfeito.

Ele inclinou-se ligeiramente para frente em seu trono, os olhos fixos em mim.

— Cristália também está de olho em nós. Eles sabem que achamos estranha essa academia que estão promovendo para todos os reinos.

Fez uma pausa, ajeitando-se no trono antes de prosseguir:

— Eles estão nos analisando minuciosamente, tentando identificar qualquer sinal de hostilidade de nossa parte.

O rei então apontou para Reagar.

— Meu filho tolo queria uma guerra. Mas, dada nossa posição atual, não podemos simplesmente declarar guerra contra um reino poderoso como esse.

Fazia sentido. Cristália era um dos três reinos mais influentes do mundo. Um confronto direto não envolveria apenas Irantia e Cristália, mas, inevitavelmente, arrastaria outros reinos para o conflito.

Permaneci em silêncio por um momento, absorvendo as implicações.

Então, encarei o rei mais uma vez e perguntei:

— Vossa Majestade deseja me usar como bode expiatório?

O rei riu com gosto, sua risada ecoando pelo salão. Havia um humor genuíno em sua reação, e eu apenas esperei pacientemente que o espetáculo terminasse para entender qual era a graça.

Então, ele finalmente falou:

— Sim, Pérola, você seria um bode expiatório… mas também um Cavalo de Troia. Afinal, você é bastante inteligente, não é, menina?

Antes que eu pudesse responder, Kaelion interrompeu seu pai, sua voz carregada de impaciência.

— Pai, eu já disse, não precisamos dela.

Dessa vez, o rei riu sem humor algum.

— Se eu não precisasse, Kaelion, não teria feito tudo isso apenas para trazê-la até mim. Eu precisava ver se essa garota realmente era capaz de aceitar a proposta.

Eu queria ver o circo pegar fogo. Mantive minha expressão firme e determinada, encarando o rei diretamente antes de responder:

— O senhor tem razão, Vossa Majestade. Se deseja garantir o sucesso do seu plano, seja ele qual for, um bode expiatório é essencial. E eu ficarei honrada em assumir esse papel.

Inclinei-me, demonstrando respeito.

Mesmo sem me virar, senti os olhares ardentes dos príncipes sobre mim. Eu sabia que ambos estavam furiosos. Eles não queriam que eu estivesse ali e, muito menos, que o rei depositasse qualquer confiança em mim para essa missão.

O rei sorriu satisfeito.

— Que bom que deseja colaborar.

Levantei os olhos para ele e, com a mesma firmeza, acrescentei:

— Mas saiba, Vossa Majestade, que estou colaborando porque também vejo benefícios nisso para mim.

Ele riu, claramente apreciando minha sinceridade.

Reagar, por outro lado, estava enfurecido. Seu desgosto era evidente e ele não hesitou em expressá-lo:

— Pai, não seja tolo. Na primeira oportunidade, ela vai nos trair!

O rei voltou seu olhar para Reagar, sem pressa, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. Ele suspirou e apoiou o cotovelo no braço do trono, descansando o queixo sobre a mão.

— E se trair? — Ele ergueu uma sobrancelha. — Você acha que eu daria essa chance a ela sem uma boa garantia?

Aquelas palavras me fizeram gelar por um instante. Eu já imaginava que não seria tão simples assim.

— Pérola não vai a lugar algum sem o colar — continuou o rei, tamborilando os dedos no trono. — E se ousar trair Irantia, a punição será imediata.

Meu pescoço pareceu pesar. O colar.

Claro.

Aquele maldito colar preso à minha pele, que limitava minha magia e me mantinha sob controle.

Respirei fundo, engolindo a frustração. Isso não mudava o fato de que, ainda assim, eu teria uma chance de sair daquela cela imunda.

Kaelion soltou uma risada baixa, ainda descrente.

— E o que garante que Cristália irá aceitá-la? — Ele girou o vinho em sua taça antes de dar um gole despreocupado. — Acharão suspeito se uma prisioneira nossa simplesmente aparecer por lá.

O rei sorriu, claramente já prevendo essa objeção.

— Não se preocupe, meu filho. — Ele descruzou as pernas e se inclinou para frente. — Pérola terá uma nova identidade.

Minha expressão se manteve impassível, mas minha mente já trabalhava rapidamente.

— Uma nova identidade? — perguntei, sabendo que qualquer informação seria crucial.

— Exato. — O rei entrelaçou os dedos e apoiou o queixo sobre eles. — Você será uma refugiada, uma guerreira que perdeu tudo em meio aos conflitos recentes. Uma alma errante em busca de propósito. E onde poderia encontrar propósito senão na nova Academia de Cristália?

Reagar bufou, cruzando os braços.

— Ridículo.

— Inteligente — corrigi, olhando diretamente para ele.

Reagar me fuzilou com os olhos, mas o rei riu, satisfeito.

— Viu, Reagar? Ao menos ela reconhece um bom plano quando vê um.

Então, o rei voltou-se novamente para mim, sua expressão agora mais séria.

— Mas antes que aceite oficialmente, saiba que sua missão não será simples. Você não estará apenas infiltrada. Você terá que descobrir o que Cristália está escondendo, o que planejam fazer com o livro… e, se necessário, sabotar seus esforços.

Mantive meu olhar firme.

— E se eu falhar?

O sorriso do rei desapareceu, substituído por uma expressão fria e impiedosa.

— Então sua utilidade terá acabado, e o colar tratará do resto.

Ótimo. Então era isso.

Se eu quisesse continuar viva, teria que ser impecável.

Respirei fundo e ergui o queixo, olhando diretamente para o rei.

— Muito bem. Eu aceito.

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo tilintar da taça de vinho de Kaelion contra a mesa.

Reagar apertou os punhos, visivelmente irritado.

O rei sorriu.

— Excelente. Então, Pérola, seja bem-vinda ao jogo.

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