Os guardas me conduziram até a cela, mas quando a porta se abriu, percebi que não era mais a mesma. O ambiente agora parecia mais com um quarto comum: havia um guarda-roupa e até um banheiro. Olhei para os guardas, confusa com a mudança. Fui transferida para um local com mais espaço e conforto, o que era incomum para alguém em minha posição. Minha mão foi automaticamente ao pescoço.
Finalmente, entendi. Agora, eu era como um cão com uma coleira, e o rei, afrouxando as rédeas, queria ver se eu fugiria ou seguiria o acordo. Que jogada inteligente. A proposta do exílio, como se dissesse: "Com este colar, você pode ir até o fim do mundo, mas continuará sendo minha prisioneira." Mas eu me perguntava, por que passei sete anos no calabouço, então?
O guarda fechou a porta atrás de mim, e eu percebi o que estava acontecendo. Eles me colocaram naquele lugar com o intuito de aumentar minha flexibilidade de aceitação. Afinal, quando você tira tudo de alguém e depois oferece um pingo de compaixão, você obtém controle. Uma bela jogada, rei, mas não se gabe muito. Esse colar não vai durar para sempre.
Apertei as mãos com força, mas sabia que, para sair dessa, precisava jogar esse jogo. Minha impotência, de certa forma, me dava uma vantagem. Afinal, se eles pensavam que estavam no controle, eu poderia dar pequenos desvios, sutis o suficiente para que as coisas acontecessem do meu jeito.
Enquanto explorava o lugar, fui pensando. As roupas eram medianas, e o banheiro estava limpo, com uma reserva de água e uma pia. Caramba, o que será que o rei estava aprontando e como isso me envolvia?
Então, lembrei das palavras de meu mestre:
"Sente-se, feche os olhos, coloque o que você sabe numa pequena mesa em sua mente e organize as peças. Se não encontrar a resposta, aproxime-se."
Depois de tantos anos, ainda me lembrava disso? Estava enferrujada, afinal, havia se passado tanto tempo.
Me sentei no chão e comecei a análise.
Primeiro, o segundo príncipe se deu ao trabalho de me ver. Por quê? Ele disse que era por causa do meu mestre, mas se fosse totalmente verdade, ele teria enviado alguém em seu nome. No entanto, não fez isso, ou seja, ele queria me ver. E depois o banho... Não que um banho fosse estritamente necessário; um balde de água teria sido suficiente para amenizar minhas condições. Mas ele queria me interrogar, sem um foco em causar dor, o que indicava que eu era realmente necessária, ou melhor, meu corpo era.
O banho não era só por higiene. Ele queria ver se eu estava saudável? Então, as perguntas sobre o livro do meu mestre... Era óbvio: alguém fora do reino estava com ele.
"Atacar um reino", o rei disse que Reagar queria atacar um reino. Mas por quê?
Mentalmente, eu encarava a mesa onde organizava as peças. Se o rei disse que era ingenuidade, então o reino era poderoso. Se fui requisitada de maneira tão repentina, o livro estava sendo usado em um reino poderoso, onde atacar não era uma opção.
Então, com a respiração acelerada, eu abri os olhos. Eles queriam me usar para recuperar o livro.
Nesse exato momento, a cela se abriu, e Kaelion apareceu.
Kaelion entrou sem dizer uma palavra, mas seus olhos me estudaram com uma intensidade que quase me fez recuar. Ele parecia medir cada movimento meu, como se esperasse que eu fizesse algo. Era claro que ele queria entender qual era o meu jogo, mas eu também estava tentando entender o dele.
"Você tem o dom de fazer os outros ficarem curiosos, não é?" Ele disse, finalmente quebrando o silêncio. Sua voz estava carregada de um tom que misturava ceticismo e algo mais — talvez uma tentativa de dominação.
Eu o encarei com calma, sem ceder à pressão. "Talvez seja apenas o reflexo da curiosidade alheia," respondi, mantendo a postura firme. "Ou será que você está aqui para aprender mais sobre mim? Ou quem sabe, para descobrir o que realmente está acontecendo neste reino?"
Ele deu um leve sorriso, mas não parecia agradado com minha resposta. "Você realmente pensa que tem algum controle aqui?" Ele deu um passo à frente, e eu percebi que estava testando os limites, querendo saber se eu cederia.
"Eu não preciso de controle, Kaelion," disse calmamente, sem me mover. "Acho que você está começando a perceber que as peças desse jogo não são tão fáceis de mover quanto parece."
Ele franziu a testa, e por um momento houve um silêncio tenso entre nós. O que ele não sabia é que eu já estava começando a entender mais sobre ele do que ele imaginava. O segundo príncipe não era um tolo, mas estava jogando um jogo perigoso, e ele ainda não sabia o quanto ele e seu pai estavam jogando com fogo ao me subestimar.
"Você é astuta," ele comentou finalmente, mas seu tom estava mais calculista. "Isso faz você mais perigosa do que pensa."
Eu mantive o olhar fixo nele, sem baixar a guarda. "E o que você vai fazer com isso, Kaelion? Continuar me subestimando, ou perceber que, se me quiserem de volta no jogo, terão que lidar com as minhas condições?"
Kaelion hesitou por um instante, claramente avaliando minha proposta. Então, ele deu uma leve risada, mas não era uma risada amigável. "Você acha que pode impor condições? O rei já fez a sua parte. Se você deseja permanecer viva, melhor que faça o que for pedido."
Eu quase sorri, mas me contive. O rei e seu filho pensavam que me haviam colocado em uma posição de submissão, mas eu sabia que o jogo estava longe de ser concluído. "A questão, Kaelion," disse, "é que você ainda não entendeu que a liberdade pode ser mais valiosa do que a submissão. E às vezes, até mesmo o que é pedido pode não ser o que será feito."
Ele me olhou com mais intensidade, como se estivesse ponderando o que eu acabara de dizer. Mas antes que pudesse responder, ouvi o som de passos se aproximando na direção da cela. Kaelion virou-se para a porta, e seus olhos brilharam com uma mistura de desconfiança e interesse.
"Eu volto depois," ele disse, já se afastando. "Não pense que vai ser fácil, Pérola."
Eu o observei sair e fechei os olhos por um momento. Esse jogo estava apenas começando, e, dessa vez, eu jogaria para ganhar.
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Atualizado até capítulo 50
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