A doida estacionou em frente à propriedade da minha família; já passava da uma da manhã. O silêncio era cortado apenas pelo som da música que liguei enquanto aguardava o táxi confiável que havia chamado. O tempo parecia arrastar-se; trinta minutos depois, vi finalmente os faróis se aproximando. Ela já estava sonolenta, com os olhos meio pesados.
— Até nunca mais! — digo, mas não consigo desviar o olhar do rostinho angelical dela.
Observei cada movimento enquanto saía do meu carro e entrava no táxi. A vergonha me paralisou; temia que meu joelho falhasse na frente dela. No fundo, pensei que tinha sido melhor assim; não saberia como dirigir de volta com a perna dormente.
De repente, o portão se abriu, e minha mãe surgiu. Com um gesto tranquilo, destravei a porta e deixei que ela assumisse o volante. A frente da casa era a extensão do mundo dela; era ali que ela se sentia segura. Desde a morte precoce de Steve, ela lutava contra a síndrome do pânico, e eu sempre respeitei seus limites.
Ao voltar da faculdade, a ideia de morar sozinho passou pela minha cabeça, mas ela me pediu algo especial: que eu construísse um espaço em frente à janela do quarto dela. Assim, ela poderia me vigiar à distância, contando as luzes para saber se eu havia chegado em casa.
Minha casa ficava a cento e cinquenta metros da janela dela, mas isso era suficiente para que ela se sentisse protegida. Provavelmente, ela ainda não havia conseguido dormir; minha luz continuava acesa.
Apertei o controle do portão e vi meu carro entrar lentamente. Minha mãe saiu do veículo e deu a volta, estendendo a mão para me apoiar enquanto atravessávamos juntos o caminho até a porta de casa.
Acomodei-me no sofá, pernas esticadas. Ela entrou na sala com um saco de gelo nas mãos; o barulho do gelo se chocando ecoou enquanto ela se sentava ao meu lado e colocava no meu joelho. Eu estava totalmente focado na tela, onde a energia do jogo pulsava como um coração acelerado. O estádio iluminado vibrava com gritos e aplausos.
— Você não me disse como foi o jogo.
— Fizemos um bom trabalho — pelo menos era o que o vídeo mostrava.
— Você veio dirigindo com o joelho assim?
— Não! — Omiti a parte da confusão com a carinha de anjo. Por algum motivo, preferi deixar esses momentos só para mim.
Ela sorriu, inclinou-se e deitou a cabeça no meu ombro. Estiquei meu braço e a puxei mais para perto.
Kevin, o running back, parecia ter se transformado em um foguete. Cada vez que ele tocava a bola, o chão tremia sob seus pés. Ele recebia meus passes com precisão e, naquele instante, tudo parecia se encaixar: a corrida dele era uma dança perfeita, como se estivesse em sintonia com o próprio jogo. O time inteiro pulsava em harmonia, movendo-se como um ciclone imbatível, deixando os adversários perdidos e confusos atrás.
A torcida vibrava e eu não conseguia conter um sorriso satisfeito enquanto via Kevin brilhar sob os holofotes. A adrenalina corria pelas minhas veias; a cada jogada bem-sucedida, o calor da vitória envolvia a sala. Realmente fui bem; não perfeito, mas o suficiente para me aposentar com dignidade.
— Oi, pai! — entrei na sala de jantar de meus pais.
— Bom dia, querido, como estão os joelhos? — Dou a volta na mesa, me inclino e beijo os cabelos da minha mãe.
— Seu filho é um homem; pare de tratá-lo como uma menina. Lísia. — Resmunga meu pai, não olhando em minha direção.
Ignoro a atitude dele e respondo à minha mãe:
— Estou melhor, sim; estou indo para uma coletiva de imprensa.
— Imerecida, diga isso lá. — resmungou.
— Não fale assim, Maicon — retrucou minha mãe.
Finjo não ter ouvido. Com um gesto automático, retiro o guardanapo da mesa e o arrumo no colo, enquanto o aroma do café quente preenche o ar enquanto despejo na xícara.
— Liguei para o Peter Mandelson. Não vou assinar com o clube nesta nova temporada.
A pergunta vem como um choque.
— Quando você iria me dizer isso? — grita meu pai.
— Penso desde o acidente; porém, a decisão foi apenas esta noite.
A expressão do meu pai se endurece, como se eu tivesse voltado a ser aquela criança de dez anos, sob seu olhar autoritário que não deixava escolhas nem para mim, nem para o meu irmão.
— Não concordo. — Seu tom é firme, mas eu não me deixo abalar.
— Não preciso da sua opinião. Sou um homem de trinta anos — afirmo, controlando a voz para não trair minha determinação.
Ele faz uma pausa, os olhos estreitando-se.
— Depois de tudo que fiz por você — ele disparou, a frustração transbordando de sua voz. As palavras reverberam em minha mente, puxando-me para o passado: as promessas não cumpridas, o brilho nos olhos dele ao sonhar em ser jogador de futebol americano, um futuro arruinado quando minha mãe decidiu engravidar.
— Agradeço, mas… você ficou milionário com isso. E ainda por cima, está onde está graças ao Steve e a mim também.
Um silêncio pesado envolve a sala, como se o ar tivesse sido drenado. Minha mãe, com o rosto pálido e os lábios comprimidos, parece pesar cada palavra que se forma em sua mente antes de finalmente falar.
— Meu filho, você tem certeza?
— Tenho, sim, mãe. Um homem sábio sabe qual é o seu limite — digo, fixando meu olhar no meu pai. Ele se levanta abruptamente, como se uma força invisível o tivesse empurrado, e a mesa vazia se torna um abismo entre nós.
Ele sai sem um adeus. Fico ali por um momento, sentindo o peso da despedida não dita antes de me dirigir ao hotel.
A chegada é tranquila, mas ao avistar meu pai à distância, um instinto me faz desviar para o outro lado.
Quinze minutos depois, estamos sentados diante de um mar de repórteres. O som agudo dos saltos altos ecoa pelo piso liso e faz meu pescoço se virar involuntariamente.
Aí, balanço a cabeça em negativo, como se tentasse afastar a realidade que se aproxima.
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Atualizado até capítulo 51
Comments
Hanna
kkkkkk já tô até vendo.
2025-02-17
1
Hanna
entendi. ele fez da vida do filho aquilo que seria a vida dele...
2025-02-17
7