Era sábado à tarde e o sol iluminava a sala enquanto eu estava sentada no tapete, envolta pelo cheiro do esmalte e da azeitona que queimava meu nariz. Com cuidado, aplicava uma nova camada nas unhas dos pés quando meu celular começou a piscar, iluminando o ambiente inesperadamente. Meu coração acelerou ao ver a foto da editora-chefe na tela. Atendi e coloquei em viva voz.
— Olá, Escarlete! O que você precisa? — Um arrepio percorreu minha espinha.
— Estou ligando para saber como estão os preparativos da reportagem. — O tom dela era firme, como se eu já estivesse em apuros antes mesmo de começar.
— Tudo certo. — Eu estava confiante de que tudo estava sob controle.
— Ótimo! Tenho um bom jogo para você — ela disse, mas antes de desligar, uma coragem inesperada me tomou.
— Posso fazer uma pergunta?
— Já não estava fazendo isso? — ela respondeu com sarcasmo.
— Por que Zachary Miller? — A pergunta saiu sem que eu pudesse evitar. Um suspiro pesado veio do outro lado da linha, como se cada palavra sobre ele fosse uma ferida aberta.
— Os atletas, de modo geral, conseguem o que querem; muitas mulheres se atraem por eles apenas por serem quem são. Elas acabam sendo usadas e humilhadas. Zach Miller não é exceção. Eles são devassos e quero que todos vejam esse lado sombrio dele.
As palavras de Escalete eram venenosas; eu podia imaginar o ódio escorrendo de seus lábios. Quando a ligação caiu, fiquei parada, a tela do celular ainda brilhando na minha frente.
A voz de Victoria me fez sobressaltar.
— O que sua chefe tem contra o Zach? — Sua pergunta refletiu meus próprios pensamentos.
— Não sei, mas parece algo pessoal! — Uma revelação me atingiu: estava tão focada em cumprir meu dever que não percebi a carga emocional por trás das palavras dela.
— Será que ela foi uma vítima dele? — perguntei.
— Victoria se jogou no sofá, abraçando uma almofada.
— Talvez! — respondeu animada, seu olhar brilhando com a possibilidade de uma fofoca quente.
Nós quatro: Victoria, Brenda, Jaque e eu — éramos apaixonadas por histórias da vida alheia. Tínhamos até um “cantinho das fofoqueiras”, um banco de jardim que resgatamos do lixo e restauramos com carinho. Era nosso santuário secreto; tudo que era dito ali ficava entre nós. Era o código das meninas, que até hoje funciona.
— Isso justificaria essa obsessão — murmurei pensativa. Mas também me deixava em uma posição complicada; se não encontrasse o tal defeito do “senhor certinho”, estaria em apuros.
Duas horas depois.
— Gente, vamos logo! — disse, andando de um lado para o outro.
— Calma, Jade! Estamos terminando de nos arrumar! — resmungou Brenda, que apareceu vestida com calça jeans, bota, uma camisa dos Eagles e um casaco.
Fiquei com um vestido justo, meia-calça, escarpins pretos e um sobretudo por cima.
Eu me destacaria com essa roupa, mas precisava me sentir como se estivesse em uma missão profissional.
Durante todo o trajeto, só pensava no meu plano: quando faltassem alguns minutos para o jogo acabar, iria para o vestiário. Subornei um funcionário que me informou que, quando ele joga mal, é o último a entrar no vestiário e o último a deixar o estádio. O homem me deu uma chave de um reservado onde ele colocou uma placa escrita “defeito”.
Passei a última hora olhando no relógio e nem consegui prestar atenção no jogo. Levantei-me num pulo.
— Amigas, estou indo, não se preocupem comigo — disse, levantando-me.
— Jade, para onde você está indo? — Jaqueline tentou em vão me fazer desistir.
— Sua louca, volta aqui! — gritou Victoria.
Meus saltos faziam tanto barulho que até pensei em tirá-los; mas pesados, melhor. Posso até pegar uma micose. O cheiro de desinfectante se misturava ao do cachorro-quente que estava sendo vendido do lado de fora.
— Senhora, entre rápido, daqui a pouco isso aqui vai estar cheio de homens.
Me apressei e me escondi no cubículo. Não demorou muito para ouvir o falatório ao longe, que foi aumentando. De repente, o barulho se tornou insuportável. Coloquei meus fones e liguei a música no celular; o barulho diminuiu. Posicionei a câmera e coloquei no modo gravação.
Ainda bem que o iPhone tem dupla função. Fiquei observando e uma mulher loira com um terno branco estava conversando com o treinador Maicon Miller. Deixei gravando; depois era só editar e retirar essa parte. Só tirei o fone quando a mulher ficou a sós com Zach.
Que babado! A tal Lucy estava dando um pé na bunda dele?
A mulher se retirou e ele permaneceu sentado quieto por alguns minutos.
— Que susto! — reclamei, colocando uma mão no peito. Uma barata, justo agora?
— Quem está aí? — ele gritou, sacudindo a porta.
Me encolhi; se ele me pegasse aqui, estaria ferrada. Ele puxou a porta com tanta força que o trinco quebrou.
— Você está brincando, né? — coloquei as mãos na cintura, ameaçando-o, enquanto meu corpo se encolhia no reservado.
— Qual é seu plano agora? — ele pergunta enquanto me levanto da privada. Ter aquele homem enorme acima de mim estava me causando claustrofobia.
— Escutou tudo e agora vai sair espalhando por aí?
— Vamos usar o bom senso e me deixe passar.
— Bom senso? Diz a mulher que passou o último mês me perseguindo e agora está no vestiário masculino escutando minha conversa íntima.
— Estou indo! — minhas pernas falharam; o salto encaixou na fissura do chão e o telefone na minha mão começou a cair. Tentei me equilibrar, mas o salto se soltou e me desequilibrou. O telefone caiu e começou a reproduzir a conversa dele com a namorada. Vi suas mãos se fecharem.
— Você! — ele gritou enquanto tentava pegar o telefone em vão; ele era maior e mais rápido. Em fração de segundos, meu celular estava na privada e ele deu descarga.
Seus olhos encontraram os meus; estavam escuros e brilhantes como os de um lunático.
— Olha o que você fez!
— Você é a única culpada! — ele rosna. — Me deixe em paz, garota.
— Vou descobrir seus segredos sujos e mostrar ao mundo a verdadeira face de Zach Miller.
Continua…
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Atualizado até capítulo 51
Comments
Hanna
pronto. agora podemos dizer que começamos o livro. kkkkkk
2025-02-16
8