Enviei o texto revisado para Scarlett, a editora-chefe do Filadélfia POST. No cubículo ao lado, a conversa continuava focada no jogo do Super Bowl que aconteceu no último domingo. Um suspiro involuntário saiu dos meus lábios.
O cheiro de lavanda que emanava do difusor preenchia o ar do pequeno espaço sem janelas. Esse era o recurso usado para me acalmar.
A luz artificial do escritório me deixava para baixo, mesmo enquanto meu coração batia forte pela paixão que sempre senti pelo jornalismo, especialmente na área esportiva. No entanto, hoje essa paixão estava ofuscada por uma onda de frustração que dominava aqueles quatro metros quadrados.
Graduada em jornalismo e especializada em esportes, eu havia dedicado os últimos dois anos àquele jornal, investindo cada gota de suor e sangue. Havia sonhado com uma coluna semanal, mas quando finalmente surgiu a oportunidade, a editora lançou um “se” como se fosse a gota d'água num copo já cheio: “Se você conseguir desmascarar o todo certinho Zachary Miller.” A coluna será sua.
As lembranças das semanas passadas surgiram como um filme em minha mente. Um mês seguindo aquele homem, enfrentando situações constrangedoras e embaraçosas, enquanto tentava descobrir suas verdades ocultas. O peso dos últimos três colunistas ainda estava sobre meus ombros — as pesquisas intermináveis, os textos que pareciam nunca ser bons o suficiente, as corridas para pegar cafés e roupas na lavanderia. Tudo isso para ouvir um “SE” em letras maiúsculas.
— AFF, ninguém merece! — exclamei, minha voz carregada de indignação.
Desliguei o computador e apaguei a bendita luz, caminhei para a saída do prédio com tanto desânimo que meus pés pareciam conter chumbo. Senti meu celular vibrar, retirei-o do bolso do casaco, fitando a tela: uma chamada em grupo. Apertei para aceitar.
— Oi, amiga! — ouço as vozes animadas misturadas de Victoria, Brenda e Jaqueline, minhas “best friends”. As duas primeiras desde o primeiro dia na faculdade de jornalismo. E a Jaque, uma brasileira, entrou no bonde no meio do caminho; conheci na especialização. Ela estava grávida e sozinha, e tratei de levá-la para casa e nunca me arrependi
Victoria se especializou em moda, Brenda em rádio e TV, e Jaqueline, como eu, em esportes.
— Temos convites para… — corto na hora, sem deixar que Victoria termine. Com certeza serei a pior companhia nessa noite ou em qualquer outra nos próximos dias, meses e anos, sei lá, talvez para sempre serei uma estagiária fazendo o serviço dos outros.
— Meu humor está péssimo, seja o que for, vão vocês. Só quero ficar sozinha essa noite. — digo teatralmente.
— Mas a senhora Brise aceitou ficar com o Bem… — Jaqueline tenta em vão.
— Vocês sabem que tenho lutado nesses dois anos e nada! — continuei, sentindo a frustração transbordar enquanto olhava a imagem das minhas amigas.
Era difícil não notar como profissionais menos qualificados ocupavam cargos que deveriam ser de outras pessoas verdadeiramente capacitadas, mas a verdade é que estavam se aproveitando do trabalho árduo dos estagiários.
O sangue ferveu em minhas veias. Como o mundo podia ser tão injusto?
— Amiga, não desista! Você vai conseguir! — Jaque me encorajou com um sorriso sólido.
— Sei, mas está cada dia mais difícil — murmurei, entrando no carro. Coloquei a bolsa e a pasta no banco do carona e fixei meu celular no suporte, buscando forças para continuar.
— Talvez o convite que vamos te fazer renove seu ânimo — disse Victoria, fazendo uma dancinha.
— Se não for um encontro com o Zach Miller, não me interessa — resmungo.
— Que pena, ganhei 4 entradas para assistir ao jogo beneficente dos Eagles no sábado. — diz Vic, fingindo decepção.
— Tá de brincadeira? — Meu bom humor voltou com tudo.
— Sério, seríssimo. Lembra do Bob Hudson? — Victoria trabalha em uma agência de propaganda e moda.
— Bob Hudson, o milionário da tecnologia?
— O próprio! Ele comprou quatro ingressos, mas a mãe ficou doente na França e ela me deu os ingressos. — Victoria sacudiu os ingressos em frente à câmera.
— Minha estrelinha voltou a brilhar — a empolgação tomou conta de mim; agora é só planejar bem e tudo dará certo.
No dia seguinte, mal consegui me sentar à mesa e o telefone tocou, cortando o silêncio. Escarlate queria me ver em sua sala.
Os passos vacilantes ecoavam no corredor, e meu coração batia acelerado, como se quisesse escapar do meu peito. A respiração estava entrecortada, e cada movimento parecia um desafio. O peso do futuro pressionava meus ombros, e uma onda de ansiedade me invadia. Se eu falhar naquela entrevista, a ideia de voltar para a casa da tia Edna me assombrava. Lembrei-me dos dias em que me senti. deslocada entre os olhares acusatórios da família, um peixe fora d'água, lutando para encontrar meu lugar em um mundo que não me pertencia.
Levantei o punho e dei dois toques na porta.
— Entre — autorizou, com a voz firme.
Entrei, segurando a respiração. A imagem de Scarlette atrás da mesa imponente me paralisou por um instante. O terninho magenta, impecável, destacava-se como uma armadura. Suas pernas cruzadas balançavam levemente, o pé calçado em um escarpim nude maravilhoso parecia dançar ao ritmo da sua impaciência. O corte de cabelo curto e moderno, com luzes loiras acinzentadas, moldava seu rosto rígido; a expressão dela era de poucos amigos.
— Entre logo, não tenho tempo a perder — ela disse, e eu avancei, mesmo desejando correr na direção oposta.
— Bom dia, senhora! — pensei em como Scarlette Brum era a personificação de uma mulher forte e decidida aos 35 anos; era admirada e temida por todos no jornal.
Ela me encarou com olhos penetrantes.
— Sente-se — ordenou, apontando para a cadeira à sua frente.
— O que você tem pra mim sobre o Zach Miller?
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Hoje?
— Sim, hoje — sua expressão não mudava. — Nada!
Silêncio.
— Como nada? Já passou o prazo que eu te dei!
— Sei… mas.
— Sem “mas”, Jade! Se você não consegue descobrir uma simples falha de um jogadorzinho inútil como o Zach Miller, não serve para trabalhar na nossa empresa.
— Mas estou no caminho! No sábado, ele vai jogar um especial e eu tenho ingresso; é lá que tudo vai acontecer!
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você não está mentindo para mim? Um evento para gente muito rica…
— Sei — respondi rapidamente.
— Minha amiga ganhou do Bob Hudson quatro entradas e uma é minha.
— O cara da tecnologia? — Escarlate apoiou o cotovelo na mesa e descansou o rosto na mão.
— O próprio.
Um brilho de interesse surgiu em seus olhos.
— Interessante…
— Super! Me dê uma chance!
— Tudo bem, vou te dar outra chance — ela concordou.
Um alívio tomou conta de mim.
— Obrigada! Não vou te decepcionar!
— Então, deixarei uma vaga na edição de domingo para minha nova colunista.
Fiquei boquiaberta.
— É sério?
— Mas se falhar, estará na rua. Entendeu?
A determinação se firmou dentro de mim.
— Não vou falhar! Prometo!
Ela apenas assentiu.
— Espero…
Naquela noite, não consegui conter a minha excitação ao relatar as minhas amigas,
sobre o que havia acontecido no escritório. Minha vida dependia daquela oportunidade.
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Atualizado até capítulo 51
Comments
Hanna
pobre prota ... não sabe o que lhe aguarda.....a gente também não. é por isso que estamos aqui ansiosos pelos próximos capítulos kkkkkk
2025-02-14
11
Luiza Oliveira
mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais 😘
2025-02-14
2