Bianca
Ajeitei meu blazer, respirei fundo e encarei meu reflexo no espelho do elevador. Primeiro dia de trabalho. Nova fase. Eu só precisava me concentrar no que realmente importava.
Quando as portas se abriram, caminhei pelo corredor do jornal com passos firmes. O prédio era moderno, com paredes de vidro e um burburinho constante de pessoas falando ao telefone ou digitando freneticamente. Eu gostava desse ambiente dinâmico. Era exatamente o que eu queria.
— Bianca? — Uma mulher morena e elegante se aproximou, com um sorriso cordial. — Sou Mariana Costa, editora-chefe. Seja bem-vinda à equipe.
— Obrigada, é um prazer estar aqui.
Ela me guiou até minha mesa, explicando rapidamente a rotina do jornal. Eu começaria cobrindo matérias menores, mas havia espaço para crescimento. Era exatamente o que eu queria ouvir.
— Seu primeiro artigo será sobre o aumento da fiscalização nos aeroportos internacionais. — Mariana entregou uma pasta com informações. — O governo está intensificando as operações, principalmente depois de alguns incidentes recentes.
Minha mandíbula enrijeceu. Incidentes recentes. Era uma forma sutil de dizer que a Receita Federal andava prendendo pessoas inocentes.
Obrigada, Universo.
— Algo errado? — Mariana me observava com curiosidade.
— Não, só achei interessante o tema.
Respirei fundo e forcei um sorriso. Eu não ia misturar o pessoal com o profissional, mas talvez escrever sobre isso fosse uma forma de extravasar minha frustração.
Abri meu notebook e comecei a pesquisar. No fundo, ainda sentia raiva pelo que aconteceu, mas agora eu tinha um objetivo claro: transformar essa experiência em algo útil.
Arthur De Angelis queria brincar de justiça? Então ele ia ver do que eu era capaz.
Foquei no artigo, mergulhando nos dados que Mariana me entregou. Li sobre os novos protocolos de segurança, os casos de apreensão e até depoimentos de passageiros que passaram por situações semelhantes à minha—mas nenhum deles foi algemado sem provas concretas.
Meu sangue ferveu.
Escrevi com precisão, deixando claro o impacto dessas operações mal executadas. O artigo não era um ataque direto à Receita Federal, mas uma crítica aos excessos e erros que afetavam passageiros inocentes.
— Gostei da abordagem. — Mariana apareceu ao meu lado depois de um tempo, lendo por cima do meu ombro. — Direto ao ponto, mas sem parecer pessoal.
Ela não fazia ideia de como era pessoal.
— Vou finalizar e te envio.
— Ótimo.
Concordei com um aceno e tentei ignorar a ironia do destino.
Mais tarde…
Saí do prédio do jornal com a cabeça cheia. Entre o trabalho e o processo contra Arthur, minha vida estava um verdadeiro turbilhão. Peguei o celular e vi uma mensagem de Manuela.
Manu: Como foi o primeiro dia? Já jogou café em alguém?
Eu: Ainda não, mas dá tempo.
Sorri sozinha e segui até meu carro. O plano era ir para casa, tomar um banho e relaxar, mas um número desconhecido ligou antes que eu pudesse dar a partida.
— Alô?
— Bianca Paganini? — A voz masculina era séria.
— Sim, quem fala?
— Arthur De Angelis.
Minha mão apertou o volante.
— Que honra, o agente da Receita Federal mais incompetente do Brasil me ligando.
Ele suspirou do outro lado.
— Recebi a intimação.
— E queria me parabenizar por isso?
— Queria entender o que você quer com esse processo.
Ri com escárnio.
— Quero justiça, De Angelis. Quero que você aprenda a fazer seu trabalho direito.
— Você quer vingança.
— Chame como quiser. Nos vemos no tribunal.
Desliguei antes que ele respondesse. Meu coração batia acelerado, mas, no fundo, uma pequena parte de mim sentia satisfação.
Arthur De Angelis finalmente ia aprender que eu não era uma mulher fácil de intimidar.
Fiquei encarando a tela do celular por alguns segundos depois de desligar. A ousadia desse homem não tinha limites. Queria entender o que eu queria com o processo? Era óbvio. Ele tinha me algemado sem provas, me humilhado em público e agora queria bancar o injustiçado?
Bufei, jogando o celular no banco do passageiro antes de dar a partida no carro.
No caminho para casa, tentei me concentrar em outra coisa. Pensei no meu novo emprego, nas possibilidades de crescimento, nos próximos artigos que poderia escrever. Mas tudo voltava para aquele desgraçado da Receita Federal.
Cheguei ao apartamento do meu irmão e, assim que abri a porta, o cheiro de comida me atingiu.
— Dante? — chamei, mas foi Manuela que apareceu na cozinha com um sorriso travesso.
— Surpresa! Resolvi cozinhar para você.
— Isso quer dizer que Dante fugiu antes que você colocasse fogo na cozinha?
— Engraçadinha. — Ela revirou os olhos e voltou a mexer algo na panela.
Joguei a bolsa no sofá e fui até a bancada, pegando um pedaço de pão para beliscar.
— Adivinha quem me ligou?
Manuela ergueu uma sobrancelha.
— Arthur De Angelis.
Ela parou o que estava fazendo.
— Sério? O que ele queria?
— Entender por que eu entrei com o processo. — Dei um riso seco. — Como se eu precisasse desenhar.
— E o que você respondeu?
— Que nos vemos no tribunal.
Ela me olhou por alguns segundos e depois sorriu.
— Sabe o que eu acho?
— Nem vem, Manu.
— A tensão entre vocês dois…
— Tensão de ódio.
— Tensão é tensão, amiga.
Revirei os olhos, mas não neguei. O que mais me irritava em Arthur era o fato de que, mesmo com toda a raiva que eu sentia dele, ainda me lembrava da sua postura firme, do olhar penetrante e daquele maldito terno que caía perfeitamente nele.
Suspirei e troquei de assunto.
— E você e meu irmão?
Manuela corou um pouco.
— Estamos bem. Sem rótulos, você sabe.
— Claro, claro. Até ele surtar quando te ver com outro.
Ela riu e voltou a focar na comida.
Joguei a cabeça para trás, soltando um longo suspiro. Eu só queria paz. Mas algo me dizia que, com Arthur De Angelis na minha vida—mesmo que de forma judicial—, isso estava longe de acontecer.
Depois do jantar com Manuela, tomei um banho longo para tentar relaxar. Mas minha mente insistia em voltar para o dia caótico que tive no trabalho. Meu primeiro dia no jornal tinha sido intenso. A redação era um caos organizado, com jornalistas correndo de um lado para o outro, prazos apertados e telefonemas incessantes. Era exatamente o tipo de ambiente que eu gostava.
Depois de secar os cabelos, vesti um pijama confortável e fui para a sala, onde Manuela estava esparramada no sofá mexendo no celular.
— O que você tanto olha aí? — perguntei, me jogando ao lado dela.
— Mensagens do grupo.
— O grupo dos seus amigos ou o grupo dos tarados?
— Os dois são a mesma coisa. — Ela riu e me mostrou a tela.
O grupo onde Arthur, Dante e os outros conversavam estava cheio de piadas internas e provocações. Mas o que me chamou atenção foi uma mensagem de Torres.
Torres: E aí, Arthur, como tá o braço da pequena? Melhorou?
Minha curiosidade foi instantânea.
— O que aconteceu? — perguntei, tentando parecer desinteressada.
Manuela ergueu uma sobrancelha, como se tivesse percebido algo, mas respondeu:
— A filha dele quebrou o braço em Orlando. Parece que ele quase surtou, mas já está melhorando.
Minha boca se abriu em surpresa.
— Ele tem filha?
— Sim, Luna. Ela tem sete anos.
Franzi a testa, sem saber exatamente por que essa informação mexeu comigo.
— A mãe dela mora fora?
— Sim, no Canadá. Ele vê a menina sempre que pode, mas a guarda é da mãe.
Fiquei quieta por um momento. Arthur De Angelis, um fiscal linha-dura, aparentemente sem emoções, era pai.
Talvez eu tivesse julgado ele rápido demais.
Mas então me lembrei do que ele fez comigo no aeroporto e a irritação voltou.
— Enfim, problema dele.
Manuela riu.
— Claro. Problema dele. Mas você perguntou bastante para alguém que não se importa.
Revirei os olhos e peguei o controle remoto.
— Vamos ver um filme? Antes que você comece a criar fanfics na sua cabeça.
— Boa ideia. Mas um aviso: esse seu ódio todo pode acabar em outra coisa.
Bufei, ignorando. Mas, no fundo, um pensamento incômodo me atravessou.
Se Arthur fosse realmente esse monstro que eu queria acreditar, por que a ideia dele como pai dedicado me fez hesitar por um segundo?
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Telma Brito
Já estou vendo a pequena Luna ser a ponte de aproximação desses dois e vai ser td no acaso, Bianca vai conhecê-la sem saber que é filha do Arthur
2025-02-12
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Dulce Gama
essa briga de cão e gata vai dá romance 👍👍👍👍👍🌹🌹🌹🌹🌹🎁🎁🎁🎁🎁❤️❤️❤️❤️🌟🌟🌟🌟🌟
2025-02-12
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