Capítulo 02

Rio de Janeiro.

Aeroportos sempre tinham um cheiro característico. Uma mistura de café, perfume caro e cansaço acumulado. Para a maioria das pessoas, era o cheiro de partidas e chegadas. Para mim, era o cheiro do trabalho.

Caminhei pelo terminal com passos firmes, meu crachá pendurado no pescoço e o olhar atento a qualquer movimentação suspeita. Depois de anos como auditor fiscal da Receita Federal, eu já conhecia bem os padrões. O jeito como certos passageiros evitavam contato visual, o nervosismo ao passarem pela alfândega, os sinais sutis que denunciavam quem tentava esconder alguma coisa.

Ao meu lado, meu parceiro de equipe, Torres, checava as últimas atualizações no tablet.

— Recebemos um alerta sobre um possível carregamento chegando hoje — ele disse, sem tirar os olhos da tela.

— O voo da Europa? — perguntei, já antecipando a dor de cabeça.

Torres assentiu.

— Frankfurt. Chegada prevista para daqui a uma hora. A equipe já está de olho, mas querem que fiquemos atentos a qualquer movimentação estranha.

Passei a mão pelo rosto, sentindo a exaustão se acumular. Trabalhar no combate ao narcotráfico exigia paciência, atenção e um faro apurado para mentiras. Eu já tinha visto de tudo—desde pequenos traficantes tentando passar com drogas escondidas no corpo até esquemas milionários envolvendo bagagens trocadas.

E agora, tudo indicava que mais uma dessas operações estava prestes a cair no nosso colo.

— Alguma informação específica? — perguntei, enquanto pegávamos um café rápido na sala dos agentes.

— Apenas que devemos observar qualquer mala  ou comportamento fora do comum.

Soltei um suspiro. Isso podia significar muita coisa... ou nada.

Peguei meu café e chequei o relógio. Ainda tinha tempo antes da chegada do voo, mas, como sempre, algo me dizia que essa noite estava longe de ser tranquila.

Eu nunca tive um local fixo de trabalho. Uma hora estou em Campinas, outra em São Paulo, depois em Brasília, e assim por diante. Mas, no fim das contas, passo mais tempo no Rio.

Essa rotina instável foi um dos principais motivos pelos quais nunca pude ter a guarda de Luna. Eu não poderia oferecer a ela a estabilidade que uma criança precisa. Por isso, ela mora com a mãe no Canadá, onde tem uma rotina estruturada, escola, amigos e tudo o que precisa.

Mas isso não significa que estamos distantes. Luna vem me visitar pelo menos três vezes por mês, e nos falamos todos os dias. Seja por chamada de vídeo, mensagens ou ligações rápidas entre um voo e outro, faço questão de estar presente na vida dela da melhor forma possível.

Ela é a minha prioridade. Sempre foi. E sempre será.

Poderia ser mais fácil se eu tivesse um trabalho normal, com horários previsíveis e uma rotina estável. Mas minha vida nunca foi assim, e eu aprendi a lidar com isso. O importante era que Luna sabia que podia contar comigo, mesmo à distância.

Quando ela vinha para o Brasil, eu tentava compensar o tempo longe. Fins de semana no parque, idas ao cinema, tardes inteiras montando quebra-cabeças ou cozinhando panquecas que sempre saíam meio tortas, mas que ela insistia que eram as melhores do mundo.

Mas quando ela ia embora… era um vazio difícil de explicar.

— Tá com essa cara de novo, De Angelis? — Torres comentou, me arrancando dos pensamentos.

— Que cara? — resmunguei, levando o café à boca.

— Parece um cachorro abandonado na chuva.

Revirei os olhos.

— Engraçado você.

— Só tô dizendo — ele deu de ombros.

Antes que eu pudesse responder, uma mensagem apareceu no celular. Era da minha ex.

Melissa: Luna quer falar com você antes do voo dela. Pode atender?

Chequei o relógio. Ainda tinha tempo antes do voo de Frankfurt pousar.

Eu: Claro. Liga aí.

Segundos depois, a tela do celular se iluminou com a chamada de vídeo. Atendi no mesmo instante e o rosto sorridente de Luna apareceu.

— Papai! — ela disse animada, os olhos brilhando. — Adivinha? Eu tirei 10 no meu trabalho de ciências!

Sorri, sentindo o peito aquecer.

— Sabia que minha garota ia arrasar! Conta pra mim, como foi?

E, por alguns minutos, todo o resto—trabalho, investigações, aeroportos—simplesmente deixou de existir.

Luna começou a falar empolgada sobre o projeto que tinha feito. Algo sobre o sistema solar e um modelo que ela mesma construiu com isopor e tinta brilhante. Ela gesticulava com as mãos pequenas, os olhos cheios de entusiasmo, e eu não conseguia conter o sorriso.

— Você ia adorar, papai! Meu professor disse que ficou incrível, e a mamãe até ajudou a pintar os anéis de Saturno!

— Claro que ia adorar, minha cientista favorita! — brinquei. — Você precisa me mandar fotos, hein? Quero ver cada detalhe.

— Já mandei! — ela disse orgulhosa. — E da próxima vez que eu for, quero fazer outro com você! A gente pode fazer um modelo da Terra e pintar os oceanos e os continentes, o que acha?

Meu peito apertou. Da próxima vez que eu for. Sempre era assim. Luna contando os dias para nos vermos, e eu tentando ignorar a dor de saber que aqueles momentos nunca eram suficientes.

— Acho uma ideia incrível! Já pode deixar os pincéis preparados.

Ela sorriu ainda mais, mas então a voz de Melissa surgiu ao fundo.

— Luna, amor, precisamos ir pro portão de embarque.

O rostinho dela murchou um pouco, mas assentiu.

— Papai, preciso ir agora…

— Tudo bem, meu amor.

— Te amo muito!

— Também te amo muito, princesa. Manda mensagem quando chegar?

— Prometo!

E com um último aceno animado, a chamada foi encerrada.

Soltei um suspiro e guardei o celular no bolso, tentando afastar aquele aperto familiar no peito. Eu sabia que estava fazendo o melhor que podia, mas, às vezes, a saudade pesava mais do que eu queria admitir.

— Hora de trabalhar, De Angelis. — A voz de Torres me puxou de volta à realidade.

Levantei-me, ajustando o distintivo no pescoço.

— Vamos nessa.

O voo de Frankfurt tinha acabado de pousar, e algo me dizia que a noite estava apenas começando.

— Inspeção de rotina da Receita Federal. Por favor, fiquem desse lado e mantenham o vão central livre.

Ajeitei o distintivo no peito enquanto minha equipe se posicionava. O fluxo de passageiros que desembarcava do voo de Frankfurt começou a diminuir o ritmo, alguns trocando olhares curiosos, outros demonstrando aquele incômodo típico de quem não quer ser incomodado depois de um voo longo.

— Itens de mão, bolsas e mochilas devem ser colocados aqui na frente, por gentileza. O cão de faro vai inspecionar as malas, e nossos agentes farão a inspeção corporal de vocês. Procedimento padrão, sem necessidade de preocupação.

Havia sempre aqueles que reviravam os olhos, como se fosse um absurdo perderem alguns minutos para a fiscalização. Outros ficavam visivelmente tensos, o que nem sempre significava culpa—algumas pessoas simplesmente não sabiam esconder o nervosismo.

Mas eu aprendi a reconhecer a diferença.

E enquanto os agentes começavam a triagem, meu olhar varria os rostos no salão. Foi então que meus olhos encontraram os dela.

E, por um instante, o barulho ao redor pareceu se dissipar.

O cão de faro circulava entre as bagagens, atento a qualquer cheiro suspeito. Então, de repente, ele parou. Sentou-se em frente a uma mala vermelha de rodinhas, sua postura firme indicando o que todos nós já sabíamos: havia algo ilícito ali dentro.

Minha atenção se desviou para a dona da bagagem. Uma mulher loira acabara de adentrar o pequeno vão destinado à inspeção. Ela usava óculos escuros, um blazer elegante sobre um cropped preto e uma calça branca larga que contrastava perfeitamente com seu salto fino. Tinha um porte confiante, mas seu corpo pareceu enrijecer levemente ao notar o cão parado diante da mala.

Sinalizei para Cláudia, que já havia começado a revista corporal nas passageiras, enquanto eu, Torres e mais alguns analistas nos ocupávamos dos homens.

— Senhora, preciso que me acompanhe. — Minha voz saiu firme, mas profissional.

Ela hesitou por um instante antes de tirar os óculos e me encarar diretamente. Olhos claros, intensos. Expressão de desagrado evidente.

— Qual o problema? — a voz dela soou firme, mas havia um leve tom de impaciência.

Apontei para a mala.

— Nosso cão sinalizou algo suspeito. Vamos precisar inspecionar sua bagagem.

Ela franziu o cenho e soltou um suspiro pesado.

— Isso é algum tipo de piada? Eu só quero ir para casa.

Cruzei os braços.

— Então não há com o que se preocupar. Apenas um procedimento de rotina.

Ela me lançou um olhar irritado, mas não discutiu. Apenas assentiu e cruzou os braços, esperando o desenrolar da situação.

Eu já tinha visto muitas reações nesse tipo de abordagem. Algumas pessoas entravam em pânico, outras tentavam argumentar. Mas essa mulher… ela parecia mais furiosa do que assustada.

E isso me dizia duas coisas: ou ela era completamente inocente, ou estava prestes a me dar muito trabalho.

.........

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Comments

Ivanete Rozati

Ivanete Rozati

será que aprontaram com ela

2025-02-12

1

Dulce Gama

Dulce Gama

nossa será que Alessandro colocou droga mala dela não pode ser 👍👍👍👍👍🌹🌹🌹🎁🎁🎁🎁🎁🎁🎁❤️❤️❤️❤️❤️

2025-02-12

1

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