Capítulo 03

Meus pés já estavam doendo do salto, minha paciência estava no limite, e tudo que eu queria era sair daquele aeroporto e ir direto para casa. Mas, claro, o universo adorava testar minha sanidade.

Primeiro, a inspeção. Ok, normal. Eu já esperava por isso. Mas a forma como aquele agente me olhava, como se estivesse pronto para me acusar de um crime, estava me tirando do sério.

— Abra sua bagagem de mão, por favor.

Revirei os olhos, mas fiz o que ele pediu. O agente, um moreno alto, de olhar atento e farda impecável, começou a revirar minhas coisas. Pegou minha necessaire, abriu o zíper e tirou um dos meus pós de maquiagem.

Franziu o cenho.

— Cheiro forte.

— É translúcido com fragrância de baunilha, Sherlock. Quer passar no rosto pra testar?

Ele ergueu uma sobrancelha, claramente sem paciência para minhas ironias, mas não disse nada. Apenas passou o frasco para uma mulher que parecia ser da equipe dele. Ela abriu, analisou e, depois de alguns segundos, balançou a cabeça.

— Somente maquiagem.

Soltei um suspiro, cruzando os braços.

— Podemos acabar com isso agora?

O agente parecia prestes a dizer algo, mas, antes que pudesse, outro funcionário apareceu ao lado dele, segurando um papel e olhando diretamente para mim.

— Temos um problema.

Minha espinha gelou.

— Como assim, problema?

Ele mostrou o papel, que parecia ser um relatório de bagagens inspecionadas.

— Encontramos algo suspeito em uma mala despachada no seu nome.

Meu coração disparou.

— Isso é impossível! Minhas coisas estão todas aqui! — apontei para minha bagagem de mão, mas o agente negou com a cabeça.

— Não essa. A mala despachada, com a etiqueta no nome de Bianca Fernandes.

Paralisei.

— Fernandes? Meu sobrenome é Paganini!

O agente trocou um olhar rápido com o parceiro e depois voltou a me encarar com frieza.

— Então sugiro que venha conosco para esclarecer essa confusão.

Foi aí que eu percebi. Alguém tinha trocado a minha mala.

E, pelo jeito, eu estava prestes a me ferrar bonito.

Minha mente trabalhava freneticamente. Ok, meu nome era Bianca Fernandes Paganini, mas eu lembrava perfeitamente que o comprovante de despacho tinha saído como Bianca Paganini. Eu tinha conferido duas vezes!

O ambiente parecia encolher ao meu redor quando o agente abriu a mala e revelou o conteúdo. Tabletes. Vários deles, embalados em plástico.

Meu coração disparou, e um nó se formou no meu estômago. Isso não podia estar acontecendo.

O agente pegou um pequeno frasco com um líquido transparente e rasgou um dos pacotes, recolhendo uma amostra. Ele mexeu o frasco, o líquido ficou azul imediatamente.

Droga. Literalmente.

— Então, senhora, a partir de agora a senhora está presa pela Receita Federal do Brasil. — a voz dele saiu firme, profissional, mas sem um pingo de paciência. — Tem uma série de direitos, incluindo uma ligação. Vamos levá-la até a autoridade policial e sugiro que ligue para alguém que possa te ajudar, porque o dono dessa porcaria aí não tá mais nem aí pra você.

Minha respiração ficou presa na garganta.

— Isso não é meu! Eu juro!

Ele me lançou um olhar cético.

— A mala está no seu nome.

— Mas eu não despachei essa mala!

Falei já com raiva.

— Essa etiqueta está errada! Eu usei meu sobrenome materno na passagem! Essa mala não é minha! — tentei argumentar, mas ele já pegava meu celular da minha mão.

— A partir de agora, seu celular também está retido como elemento de prova, beleza?

Eu quis gritar, xingar, fazer um escândalo, mas algo me dizia que quanto mais eu me exaltasse, pior ia ficar.

Isso era um pesadelo.

Alguém tinha colocado essa droga no meu nome.

E se eu não provasse que era inocente, meu inferno estava só começando.

O agente à minha frente manteve a postura firme, mas pude ver o brilho de irritação em seu olhar quando dei um passo para trás.

— Vou acompanhar você até a Polícia Federal aqui do aeroporto, ok? — Ele falou com calma, como se estivesse lidando com uma bomba-relógio. — E, por questões de segurança sua, nossa e dos demais passageiros, preciso algemar você.

Minha reação foi instantânea.

— Eu não vou a lugar nenhum! — Me soltei bruscamente, recuando um passo.

No mesmo instante, senti a tensão no ar aumentar. Alguns passageiros que ainda estavam por ali olhavam com curiosidade, outros fingiam que não viam nada.

Uma mulher da equipe cruzou os braços, impaciente.

— A senhora tem o direito de permanecer calada. Quer desacato à autoridade na sua ficha também?

Cerrei os punhos, meu sangue fervendo.

— O que eu quero é que vocês resolvam essa merda direito! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, mas já não me importava. — A porra dessa mala NÃO é minha! Eu tenho o comprovante de despacho! Façam o trabalho de vocês direito e me soltem agora!

Apontei um dedo acusador para o agente alto à minha frente, o verdadeiro armário humano de 1,90m.

— E você! Vou processar cada um de vocês, e o primeiro vai ser você.

Ele não se mexeu, nem piscou. Apenas me encarou com aquele olhar frio e analítico, como se estivesse me estudando.

Então, com uma calma irritante, respondeu:

— Que bom que a senhora sabe dos seus direitos. Vai ter bastante tempo para exercê-los. Agora, vira de costas e estende as mãos.

Engoli em seco.

Eu estava realmente ferrada.

O silêncio pesou por um segundo. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar no peito. Cruzei os braços e firmei os pés no chão, recusando-me a ceder.

— Vocês estão cometendo um erro grotesco. Minha mãe é ex-promotora e meu irmão é policial. — Olhei diretamente para o agente à minha frente, desafiadora. — Vocês acham mesmo que vou aceitar isso calada?

O homem continuou impassível, mas percebi que um dos analistas ao lado dele trocou um olhar rápido com a mulher que havia falado comigo antes.

— Que ótimo, então você sabe exatamente como funciona. — O agente finalmente respondeu, o tom carregado de ironia. — Se é inocente, sua mãe e seu irmão vão te ajudar depois que chegarmos à delegacia. Agora, facilita o trabalho e coopera.

Dei um passo para trás.

— Eu não vou a lugar nenhum.

— Senhora, não complique mais a sua situação.

— Ah, me desculpa se eu não estou colaborando com a minha PRISÃO INJUSTA! — soltei, carregada de sarcasmo.

Ele suspirou, como se já esperasse essa reação.

— Última chance. Se recusar a acompanhar voluntariamente, vamos ter que usar força. E, nesse caso, vai responder por resistência à prisão.

Minha mente gritava em alerta. Se eu cedesse, seria como admitir culpa. Mas se resistisse, poderia piorar ainda mais a minha situação.

Minha garganta secou.

— Eu não vou sair daqui até falarem com meu advogado.

Ele deu um passo à frente, me encarando de cima. Parecia uma parede de concreto prestes a desabar sobre mim.

— Advogado você fala na delegacia. Agora, decide: vai andar ou prefere ser levada?

— Eu não sou criminosa! — soltei, a voz firme, mas sentindo o desespero se infiltrar nas minhas palavras.

O agente não demonstrou nenhuma reação além de erguer uma sobrancelha.

— Então colabora.

— Eu quero meu advogado agora! Vocês não podem simplesmente me arrastar pra lá como se eu fosse culpada!

Ele cruzou os braços, a expressão séria.

— Podemos sim. Você está detida em flagrante, o que significa que será conduzida até a Polícia Federal para os procedimentos. Lá, você poderá ligar para um advogado. Agora, se continuar dificultando, posso te enquadrar por resistência à prisão.

Eu sentia um nó se formando no meu estômago. Minha mãe sempre me alertou sobre esse tipo de situação. "Se um dia algo assim acontecer, mantenha a calma e peça um advogado antes de dizer qualquer coisa."

Mas como manter a calma quando eu estava sendo acusada de tráfico de drogas?

— Essa mala não é minha! Eu já disse mil vezes!

O agente suspirou, claramente sem paciência. Então, sem aviso, ele deu um passo à frente e segurou meu braço com firmeza.

— Eu avisei.

Puxei o braço no reflexo.

— Tira a mão de mim!

— Senhora, colabora. Isso já está ruim o suficiente para você.

Antes que eu pudesse reagir, senti o metal frio das algemas se fechando em torno dos meus pulsos.

Meu estômago despencou.

Eu. Algemada.

Meu rosto queimou de raiva e humilhação enquanto sentia os olhares ao meu redor. Algumas pessoas disfarçavam, outras assistiam sem nem tentar esconder a curiosidade.

Minha visão ficou turva por um segundo, e eu engoli em seco, tentando ignorar o nó que se formava na minha garganta. Eu não ia chorar. Não na frente deles.

Respirei fundo e ergui o queixo, encarando o agente nos olhos.

— Você está cometendo um erro gigantesco.

Ele não piscou.

— Se for o caso, a justiça vai corrigir. Agora, vamos.

E assim, sem ter para onde correr, minha vida virou de cabeça para baixo.

.........

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Comments

Dulce Gama

Dulce Gama

eu acho que o Alessandro tem haver com tudo isso com certeza ❤️❤️❤️❤️❤️🎁🎁🎁🎁🎁🌹🌹🌹🌹🌹👍👍👍👍👍

2025-02-12

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