Capítulo 08

O churrasco já estava rolando há um tempo quando cheguei. Torres estava na churrasqueira, cerveja em uma mão e pinça na outra, virando a carne com a habilidade de quem já tinha feito aquilo mil vezes. Alguns dos nossos amigos estavam acompanhados das esposas ou namoradas, mas Dante, Gustavo e eu ainda estávamos no time dos solteiros.

— Achei que não vinha, De Angelis. — Torres zombou, me entregando uma cerveja.

— Dia de folga, mas fui treinar antes. — Dei de ombros e abri a garrafa. — E cuidar dos peixes da Luna, senão ela me mata.

Dante riu.

— Ela mandou mais alguma foto banguela?

Peguei o celular e mostrei a última mensagem dela, uma selfie com um sorriso sem um dos dentes da frente, usando uma tiara da Disney.

— Ela e a mãe estão em Orlando. Mas em vez de mostrar os brinquedos da Disney, ela só quer saber dos peixes.

— Prioridades. — Gustavo comentou, dando um gole na cerveja.

A conversa continuou leve até que Dante, que estava sentado ao meu lado, me encarou.

— Agora, mudando de assunto… Arthur, preciso saber. O que diabos deu em você pra prender a minha irmã?

Levantei uma sobrancelha.

— Eu só fiz meu trabalho, Dante.

Ele bufou.

— Porra, cara. Minha irmã! Você realmente achou que a Bianca ia se envolver com tráfico?

— Eu não achei nada. O cão de faro sinalizou a mala, abrimos e encontramos droga. Eu segui o protocolo. Já disse.

Dante cruzou os braços.

— E nem pensou em conferir os documentos dela direito?

Fiquei em silêncio por um momento. Esse era o detalhe que estava me incomodando desde aquela noite.

— O nome na etiqueta da mala era Bianca Fernandes. O nome dela na passagem era Bianca Paganini. — Ele continuou. — Se você tivesse conferido, teria evitado tudo isso.

Soltei um suspiro longo.

— Eu sei.

Dante piscou, como se não acreditasse que eu estava admitindo o erro.

— Sabe?

— Sim. E se ela quiser me processar, como prometeu, que faça. Ela tem razão.

Torres e Gustavo observavam a conversa, sem interferir.

— Você pelo menos pediu desculpas? — Dante perguntou.

Passei a mão pelo rosto.

— Ela não me deu chance. Saiu da delegacia cuspindo fogo e jurando que ia me ferrar.

Dante riu.

— Isso é a cara dela.

Torres finalmente se manifestou.

— Mas fala a verdade, Arthur… Você acha mesmo que ela vai te processar?

Dei um gole longo na cerveja antes de responder.

— Se tem uma coisa que aprendi sobre sua irmã, Dante, é que quando ela diz que vai fazer alguma coisa, pode apostar que ela vai.

Torres riu e balançou a cabeça.

— Mas que mulher, hein? Ela te confrontou como se fosse a própria dona da lei.

Gustavo entrou na conversa, curioso.

— E como foi isso?

Torres fez um gesto dramático, como se estivesse encenando.

— Ela olhou bem pra ele, subiu aquele queixo empinado e falou: ‘Primeiro será você’. — Ele riu. — Eu juro que achei que ela ia dar um soco na cara do Arthur ali mesmo!

Todos na roda caíram na gargalhada, até mesmo Dante, que tentava segurar o riso.

— Essa é a Bianca. — Ele comentou. — Se ela falou que vai processar, Arthur, já pode esperar um oficial de justiça batendo na sua porta.

Eu apenas revirei os olhos e tomei mais um gole da cerveja.

— Ótimo. Mais um problema pra minha lista.

Torres continuava rindo.

— Mas e aí, De Angelis… o que achou dela? Além de teimosa e encrenqueira?

Fiquei em silêncio por um segundo antes de responder.

— O tanto que ela tem de linda, tem de teimosa.

Dante revirou os olhos.

— Não começa, Arthur.

— Que foi? Só fiz uma observação.

Torres ergueu as mãos, rindo.

— Observação anotada! Mas, sendo bem sincero, nunca vi você perder a paciência assim com alguém. Bianca conseguiu te tirar do eixo.

— Porque ela não parava de falar! — Exclamei, rindo de leve. — Ela estava com a razão, mas mesmo assim… Deus me livre.

Gustavo bateu no meu ombro.

— Boa sorte, irmão. Porque eu tô achando que essa mulher ainda vai cruzar seu caminho mais vezes.

Dante soltou um suspiro pesado.

— Que Deus me proteja se vocês dois começarem a se estranhar de novo.

Torres gargalhou.

— Estranhar? Sei não, hein… esse embate tá com cara de outra coisa.

Revirei os olhos, mas por dentro, não conseguia ignorar a sensação de que Gustavo estava certo. De algum jeito, Bianca Paganini ainda ia dar trabalho pra mim.

...(...)...

Na manhã seguinte, aproveitei a folga da parte da manhã para visitar meus pais. Fazia algumas semanas que não aparecia, e minha mãe já tinha mandado pelo menos três mensagens reclamando disso.

O caminho até a casa deles era tranquilo, e quando estacionei na frente, minha mãe já estava na porta com os braços cruzados.

— Até que enfim deu o ar da graça, Arthur! — Ela reclamou, mas com um sorriso no rosto.

— Bom dia pra você também, mãe. — Dei um beijo no rosto dela e entrei.

Meu pai estava na sala, lendo o jornal, mas levantou a cabeça ao me ver.

— Filho! Pensei que tinha esquecido da gente.

— Claro que não. Só estive ocupado.

Sentei no sofá e logo minha mãe apareceu com uma xícara de café.

— Ocupado demais pra vir ver os pais, mas não pra prender mulheres inocentes, né?

Quase engasguei com o café.

— O quê?

Ela sorriu de canto e se sentou ao meu lado.

— Dante me ligou ontem. Falou que você prendeu a irmã dele sem motivo.

Soltei um suspiro e passei a mão pelo rosto.

— Ah, ótimo. Agora até você tá sabendo disso.

Meu pai riu, se divertindo com a situação.

— E a moça? Vai te processar mesmo?

— Se depender da raiva dela, sim.

Minha mãe me encarou com curiosidade.

— E como ela é?

Parei por um instante antes de responder.

— Linda. Mas teimosa como o diabo.

Meu pai riu mais alto.

— Isso que dá cutucar onça com vara curta.

Minha mãe me olhou desconfiada.

— E essa história não termina por aqui, né?

Dei de ombros.

— Eu espero que sim. Mas algo me diz que não.

Ela sorriu de leve.

— Talvez seja um castigo do destino por você ainda não ter me dado uma nora.

— Ah, pelo amor de Deus, mãe!

Meus pais riram, e eu apenas balancei a cabeça. Não importava onde eu estivesse, sempre que vinha aqui, minha mãe dava um jeito de me lembrar que eu ainda estava solteiro.

Dante era como um filho para os meus pais. Ele vivia aqui, participava dos almoços de domingo, das festas de família e até já tinha ajudado meu pai a arrumar o telhado uma vez. Minha mãe adorava ele, e meu pai o respeitava como se fosse da família.

O que era estranho agora, porque Dante sempre falava da meia-irmã que morava na Europa, mas eu nunca, nem nos meus piores pesadelos, poderia imaginar que essa irmã fosse a diaba loira que quase me arrancou a cabeça no aeroporto.

Minha mãe interrompeu meus pensamentos.

— Agora que conheceu a Bianca, o que achou dela?

— O que eu achei? — Bufei. — Que se tem alguém no mundo que poderia me dar dor de cabeça, essa pessoa é ela.

Meu pai riu, dobrando o jornal.

— Isso tá me cheirando a implicância demais pra ser só raiva.

— Ah, pronto! — Revirei os olhos.

Minha mãe cruzou os braços e me olhou com aquele olhar que só mãe sabe dar.

— E ela é mesmo inocente?

— Sim. — Respondi sem hesitar. — Ela provou que a mala trocada não era dela. Foi erro da companhia aérea.

Minha mãe soltou um suspiro.

— Então você prendeu a coitada à toa.

— Faz parte do trabalho, mãe. Eu só segui o protocolo.

Ela balançou a cabeça.

— Pois eu, no lugar dela, também estaria furiosa com você.

Meu pai riu de novo e se levantou.

— Bom, eu só digo uma coisa: nunca subestime uma mulher brava. Você pode achar que essa história acabou, mas eu tenho a impressão de que a Bianca ainda vai te dar mais trabalho do que imagina.

Cruzei os braços e encostei no sofá, soltando um suspiro.

Revirei os olhos e terminei meu café, ignorando o tom sugestivo na voz dela. Eu só queria que essa história terminasse logo. Mas, por algum motivo, eu sabia que meu pai estava certo.

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Comments

Dulce Gama

Dulce Gama

os dois ainda vão está junto dos pais dele conversando contando esse episódio KKK👍👍👍👍👍🌹🌹🌹🌹🌹🎁🎁🎁🎁🎁

2025-02-12

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