Se tem uma coisa que aprendi nesse trabalho, é que aparências enganam. Mas, enquanto conduzia aquela mulher até a delegacia, não pude evitar a sensação de que algo não estava certo.
O tanto que ela tinha de linda, tinha de teimosa. Desde o momento em que encontramos a droga na mala, ela não parou de argumentar, insistindo que era inocente. Todos dizem isso. Mas algo nela era diferente.
Ela não parecia o tipo de pessoa usada como mula. Não tinha o perfil.
Normalmente, os traficantes escolhiam dois tipos: os desesperados ou os desatentos. Ela não parecia nenhum dos dois.
Além disso, eu percebi—e esse detalhe me pegou de surpresa—o quanto a mão dela estava tremendo. Mesmo tentando manter a postura, ela estava apavorada.
Eu já vi criminosos assustados antes, mas o olhar dela não era de culpa, e sim de incredulidade. Ela realmente não acreditava que isso estava acontecendo com ela.
Assim que chegamos à delegacia da Polícia Federal, a levei para a sala de espera, enquanto o delegado de plantão era chamado. Ela continuava de cabeça erguida, mas agora seu olhar estava mais tenso.
Quando a porta se abriu e o delegado entrou, percebi a mudança imediata na expressão dela. E foi recíproco.
— Bianca? — O delegado franziu a testa, claramente surpreso.
Ela soltou um suspiro aliviado, como se finalmente tivesse encontrado um pouco de ar em meio ao caos.
— Paulo, pelo amor de Deus, resolve isso!
Paulo? Ele conhecia ela?
Troquei um olhar com Torres, que também pareceu notar que essa história estava longe de ser um caso comum.
O delegado Paulo cruzou os braços e me lançou um olhar inquisitivo antes de voltar a atenção para a mulher à minha frente.
— O que diabos está acontecendo aqui? — Ele perguntou, a voz carregada de desconfiança.
— Isso que eu queria saber! — Bianca respondeu, a indignação transbordando em cada palavra. — Fui presa injustamente porque essa gente incompetente não sabe nem checar uma droga de comprovante!
Torci levemente os lábios, já sem paciência para a teimosia dela.
— O cão de faro sinalizou a mala, e o teste deu positivo para entorpecente. Isso já é suficiente para a prisão em flagrante.
Ela bufou e, ainda algemada, estendeu as mãos.
— Então me deixa mostrar meu comprovante de despacho! Está na minha bolsa!
Torres olhou para mim, e eu dei um pequeno aceno com a cabeça, sinalizando para liberar a bolsa dela. A mulher mexeu os dedos nervosos até encontrar um papel amassado. Com um movimento rápido, deslizou o comprovante pela mesa em direção a Paulo.
— Aqui! — disse, erguendo o queixo com desafio.
O delegado pegou o papel e estreitou os olhos enquanto analisava as informações. Depois de alguns segundos de silêncio, ele me olhou com um semblante sério.
— Aqui consta que a Bianca Paganini despachou uma mala na Europa. Esse nome bate com os documentos dela?
Torres e eu trocamos um olhar.
— O passaporte dela está como Bianca Fernandes. — respondi, já começando a entender onde isso ia dar.
Bianca bufou novamente, a paciência claramente se esgotando.
— Eu uso o sobrenome do meu pai nos documentos oficiais, mas na passagem e na etiqueta da mala usei o sobrenome da minha mãe. Eu sempre faço isso!
Paulo soltou um suspiro pesado e massageou as têmporas.
— Arthur, me diz que você checou o número da etiqueta da mala.
Minha mandíbula ficou tensa. Eu não chequei. Nenhum de nós checou. Assim que o cão de faro indicou a bagagem, o foco foi no conteúdo e na confirmação da droga, não nos detalhes da etiqueta.
Bianca percebeu minha hesitação e abriu um sorriso cínico.
— Então vocês cagaram no trabalho de vocês e agora eu que sou a criminosa?
Fiquei em silêncio por um momento antes de encará-la diretamente.
— Se a mala não é sua, vamos descobrir. Mas, enquanto isso, você continua detida até esclarecermos tudo.
Ela riu sem humor e balançou a cabeça.
— Eu juro que vou processar todo mundo aqui.
Paulo se recostou na cadeira e soltou um longo suspiro.
— Arthur, eu conheço a Bianca desde que ela era adolescente. Essa mulher pode ser um pé no saco, mas criminosa? Nunca.
Passei a mão pelo rosto, sentindo que aquela situação estava saindo do controle.
— Ótimo. Então vamos verificar as imagens das câmeras para ver quem pegou essa mala e resolver essa bagunça de uma vez.
Eu só queria encerrar aquilo logo. Mas, por algum motivo, uma parte de mim já sabia que essa mulher ainda ia me dar muita dor de cabeça.
Já passava da 1h da manhã, e eu sentia o cansaço pesar nos meus ombros, mas Bianca Paganini continuava ali, sentada à minha frente, com a expressão carregada de indignação e exaustão.
Depois de confirmarmos que o nome no comprovante de despacho realmente batia com o que ela dizia, o próximo passo era verificar as câmeras do aeroporto para entender o que tinha acontecido com essa mala.
Torres voltou à sala depois de alguns minutos ao telefone.
— O pessoal da segurança já está separando as imagens, mas vai levar um tempo.
Bianca soltou um suspiro carregado e recostou-se na cadeira, os olhos escondidos atrás dos óculos escuros que ela se recusava a tirar.
— Ótimo, então vou ter que passar a noite aqui por causa de um erro de vocês.
Cruzei os braços, tentando manter a paciência.
— Você não vai ser liberada enquanto não tivermos certeza de que essa mala realmente não é sua.
Ela riu, um som curto e sem humor.
— Se eu fosse culpada, acha que estaria aqui gastando meu tempo brigando? Eu já teria ligado para um advogado e ficado quieta, esperando a melhor negociação.
— Ou estaria tentando despistar, fazendo cena.
Ela inclinou a cabeça para o lado, me analisando.
— Você realmente acha que eu sou criminosa, não acha?
Fiquei em silêncio por um momento. Não. No fundo, eu não achava. Mas eu não podia deixar que isso influenciasse meu trabalho.
— Eu acho que provas são mais importantes do que discursos. Vamos esperar as câmeras.
Ela bufou e cruzou os braços, olhando para o delegado Paulo.
— Isso é ridículo. Você sabe que eu não faria isso!
Paulo respirou fundo.
— Bianca, você sabe como funciona. O procedimento tem que ser seguido. Mas eu prometo que vamos esclarecer isso.
Ela não respondeu, apenas desviou o olhar, claramente cansada.
Por um momento, minha atenção foi para as mãos dela novamente. Ainda tremiam.
Ela podia ser teimosa, podia ser irritante, mas estava assustada.
E eu começava a ter a sensação de que, antes dessa noite acabar, ainda ia me arrepender de ter me envolvido nisso.
As imagens das câmeras confirmaram o que Bianca vinha repetindo desde o início. A mala não era dela.
O vídeo mostrava uma outra mulher, de estatura parecida, pegando uma mala idêntica à de Bianca e saindo tranquilamente pelo aeroporto. Pouco depois, a mala suspeita com o nome "Bianca Fernandes" foi colocada na esteira. O erro estava evidente: troca de bagagem.
Paulo soltou um longo suspiro antes de olhar para mim.
— Bom, Arthur, parece que você pegou a pessoa errada.
Senti um peso no estômago, mas mantive a expressão neutra. Faz parte do trabalho.
Torres liberou Bianca das algemas novamente, e ela esfregou os pulsos, visivelmente irritada. Seus olhos brilharam de fúria quando se fixaram em mim.
— Eu avisei. Mas não, claro que ninguém quis me ouvir.
— Procedimento padrão. — respondi, cruzando os braços.
— Procedimento padrão uma ova! — ela cuspiu, a voz carregada de raiva. — Você destruiu minha chegada ao Brasil, me fez passar por isso tudo sem sequer checar as informações direito!
Não rebati. Ela tinha razão. Eu deveria ter analisado a etiqueta da mala antes de qualquer coisa.
— Eu espero que tenha gostado dessa experiência, agente Arthur De Angelis, porque eu vou fazer questão de processar você.
Ela falou cada palavra pausadamente, como se quisesse garantir que eu absorvesse cada uma delas.
Um pequeno sorriso puxou o canto da minha boca.
— Fico no aguardo, Bianca Paganini.
Ela estreitou os olhos, claramente irritada com a minha resposta calma, mas não disse mais nada. Apenas pegou seus pertences e saiu da delegacia com o que ainda restava de sua dignidade.
Eu a observei ir embora, sabendo que aquela não era a última vez que veria a mulher mais teimosa que já prendi na vida.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Dulce Gama
caraca e agora Arthur vai ser processado por não verificar direitinho o seu trabalho 👍👍👍👍👍🌹🌹🌹🌹🌹🎁🎁🎁🎁🎁
2025-02-12
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