Capítulo 20 – A Falência da Esperança
Era 2004, e o cenário que Dante agora se via era uma dura realidade. O bairro em que ele se encontrava, uma favela desolada, parecia refletir o estado de sua própria vida. Ruínas e casas maltratadas, paredes sujas, telhados caindo aos pedaços, e ruas estreitas e lamacentas. O cheiro de sujeira misturado com a fumaça dos barracos e o som distante de gritos e carros passavam como uma constante melodia desesperançosa. O caos e a pobreza eram visíveis em cada esquina, e parecia que Dante havia se encaixado ali, como um fragmento perdido de um mundo onde a desolação era a única coisa real.
Ele caminhava com os ombros caídos, o olhar perdido no vazio, passando pelas ruas esburacadas. A vida o havia desfeito, e não havia mais nada que ele pudesse fazer a não ser se afundar ainda mais nesse abismo. 19 anos, viciado, sem futuro, e com uma história que pesava tanto quanto o concreto em que pisava.
Ele finalmente chegou à casa onde agora morava — se pudesse chamar de "casa". O pequeno barraco era uma miséria, construído com pedaços de madeira e telhas caídas. As janelas estavam quebradas e havia um cheiro forte de mofo no ar. O chão era de terra batida, e o único móvel era uma cama improvisada, empoeirada, onde ele passava seus dias e noites.
Ao entrar na cozinha improvisada, Dante se deparou com Kou, seu ômega namorado. Kou estava deitado no chão, a luz fraca de um lampião pendurado na parede mal iluminando o rosto pálido e magro do jovem de 17 anos. Kou era albino, com a pele clara como neve, os olhos de um tom quase transparente e cabelos brancos que caíam desordenadamente. Ele não parecia mais o mesmo.
Antes, Kou era alguém cheio de amor, gentil e adorável. Seu jeito carinhoso sempre foi o ponto de equilíbrio de Dante, alguém em quem ele podia se apoiar, ainda que não soubesse como cuidar de outra pessoa. Mas agora, a luz em Kou havia se apagado. A depressão o consumia. Ele estava deitado ali, no chão frio da cozinha, bebendo uma garrafa de álcool barato enquanto tentava afogar suas próprias lágrimas. A vida o havia quebrado de uma maneira que Dante não sabia como lidar.
A comida na pequena prateleira estava quase acabando, as latas vazias e o arroz mal cozido no fogão eram os únicos resquícios de uma refeição que havia se tornado rara. Kou não tinha mais forças para lutar, e Dante não se importava mais. O ômega tentava se distrair com a bebida, tentando esquecer a dor da recente descoberta: ele quase não podia ter filhos, uma notícia devastadora que o havia afundado ainda mais na tristeza. A infertilidade o atingira com a força de um soco, roubando o pouco de esperança que ainda restava.
Dante, por sua vez, não era mais o mesmo. O orgulho e a força que ele havia cultivado durante anos estavam se desintegrando em frustrações. Viciado, desempregado, sem ninguém para ajudar, ele era apenas um reflexo da própria miséria. Ele olhou para Kou, mas não sentiu nada. A empatia e o carinho que havia sentido por ele no início de tudo haviam desaparecido. Não era que ele odiasse Kou — ele apenas não se importava mais.
"Por que você não para de beber?" Dante perguntou, tentando manter a voz fria, mas não conseguia esconder o tom de exaustão em suas palavras. Ele sabia que não fazia sentido questionar, mas a dor era tanta que ele precisava gritar de alguma forma. "Não adianta ficar assim. Estamos ferrados, você sabe disso."
Kou levantou o rosto, seus olhos vermelhos de tanto chorar. "Eu... eu sei... Eu só não aguento mais, Dante. Eu... eu não sou nada agora." Sua voz estava quebrada, como se fosse um eco distante, perdido em sua própria tristeza. "Eu sou estéril. Eu não posso... não posso ser o que você precisa. Não posso dar nada a você."
Dante não respondeu imediatamente. A palavra “nada” martelou em sua mente como uma sentença. Ele não sabia o que dizer a Kou, nem sabia o que ele próprio sentia. Ele estava tão perdido, tão sem rumo. E agora Kou, seu único apoio, estava afundado na mesma dor.
O silêncio caiu entre os dois, pesado e sufocante, enquanto Kou tomava outro gole de álcool. O olhar de Dante se perdeu na escuridão da casa. Ele queria gritar, queria se rebelar contra tudo isso. Mas não havia mais forças dentro dele. O desespero tomou conta. Ele não sabia mais o que fazer. Não sabia mais o que havia acontecido com o Dante que uma vez teve controle sobre sua vida.
Com a vida desmoronada, eles estavam ambos presos nessa miséria, tentando sobreviver do jeito que podiam, sem mais esperança, sem mais amor. A tragédia de suas vidas agora estava imortalizada na casa imunda, no silêncio pesado e no vazio que se alastrava.
Capítulo 20 - A Falência da Esperança (Continuação)
O silêncio na casa era sufocante. O som de gotas de chuva batendo no telhado de zinco era o único acompanhamento da respiração de Dante e Kou, enquanto ambos estavam imersos em seus próprios mundos de desespero. A casa, já sem vida, se tornava mais um reflexo daquilo que seus moradores haviam se tornado: vazia, quebrada e esquecida.
A cozinha onde Kou estava deitado parecia uma sombra do que poderia ter sido. O fogão, um velho modelo enferrujado, estava desligado, com uma panela quebrada de arroz queimado. Um prato simples, mas sujo, estava ao lado, e a única fonte de luz era a fraca lâmpada pendurada no teto, piscando a cada momento. Os móveis eram escassos: um banco de madeira quebrado, uma mesa encardida e sem cadeiras, e uma prateleira simples onde descansavam algumas garrafas vazias de álcool e pacotes de macarrão.
Kou se virou para Dante, ainda segurando a garrafa de álcool na mão. Seu olhar estava vazio, um reflexo da dor que ele carregava dentro de si. "Eu pensei que talvez... talvez a gente pudesse ter uma vida melhor, Dante. Eu pensei que poderia ser feliz... com você."
Dante olhou para ele, mas não disse nada imediatamente. Ele estava sentado perto da porta, as costas apoiadas contra a parede. Seus olhos estavam cansados, como se tivesse perdido a capacidade de acreditar em algo, em qualquer coisa. "Eu... também pensei." Sua voz saiu abafada, como se fosse difícil para ele mesmo acreditar no que estava dizendo.
Kou tentou se levantar, mas o esforço parecia ser demais para ele. Ele deixou a garrafa cair no chão, o som do vidro se quebrando se espalhou pela casa vazia. "Eu não consigo mais, Dante. Não aguento isso." Ele olhou para Dante com os olhos cheios de tristeza e desesperança. "O que vamos fazer agora?"
Dante ficou em silêncio por um longo tempo. Ele não sabia o que dizer, ou o que fazer. "Eu não sei, Kou." Suas palavras estavam pesadas, cheias de frustração e vazio. Ele queria ajudar, queria mudar a situação, mas sabia que não era capaz de fazer isso. "Eu... eu não sou mais a pessoa que você achava que eu era." A dor nos seus olhos era clara, mas ele não sabia mais como disfarçar.
Kou, ainda sentado no chão, olhou para ele com uma expressão de desolação. "Eu te amo, Dante." A voz dele estava quebrada, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. "Eu não tenho mais nada, e nem você."
As palavras cortaram Dante como uma faca. "Não." Ele se levantou abruptamente, seu corpo tenso de raiva e frustração. "Você tem... você tem a chance de sair dessa, Kou. Eu... eu não posso te dar isso. Eu não posso fazer mais nada por ninguém." Ele balançou a cabeça, as palavras saindo mais duras do que ele pretendia. "Eu sou uma porcaria."
Kou se levantou também, embora de forma trêmula. "Dante... por favor..." Ele tentava se aproximar, mas Dante deu um passo atrás, afastando-se, como se não quisesse mais estar perto de nada que o fizesse lembrar o que ele se tornara. "Você está me afastando."
"Você não entende..." Dante sussurrou, as palavras quase inaudíveis. Ele fechou os olhos por um momento, tentando organizar os pensamentos. "Eu... eu sou um fracasso. Não sei como chegamos até aqui, mas não tenho forças para mudar. E você... você merece mais."
O ambiente parecia ficar mais escuro à medida que Dante falava. Ele sentia o peso das palavras, como se elas estivessem desmoronando sobre ele. Ele não sabia mais quem ele era, ou como chegar de volta ao que um dia foi. Tudo estava perdido.
Kou não sabia o que responder. Ele sentia o mesmo desespero, mas algo dentro dele ainda queria acreditar. "Dante... por favor, não desista de mim." Seus olhos estavam cheios de dor, mas também de uma esperança que já estava se desvanecendo. "Eu não quero viver assim... Eu só não sei mais o que fazer."
Dante olhou para ele por um momento, e por um breve instante, uma lembrança do passado passou pela sua mente: a primeira vez que Kou sorriu para ele, a primeira vez que Kou acreditou nele, confiou nele. Mas isso parecia tão distante agora.
Ele se aproximou lentamente de Kou, e pela primeira vez em muito tempo, algo dentro dele se rompeu. "Eu também não sei o que fazer." Ele colocou a mão no ombro de Kou, tentando encontrar algum tipo de conforto, mas não era mais o mesmo. "Eu... eu te amo, Kou, mas eu não posso mais ser quem você precisa."
Kou olhou para ele, os olhos cheios de lágrimas. "Eu só queria que as coisas fossem diferentes."
"Eu sei." Dante respondeu suavemente, seu coração apertado. Ele queria ser a pessoa que Kou precisava, mas não sabia mais como ser. A dor de ambos estava no ar, como um peso invisível que os impedia de se libertar.
A chuva continuava a bater na casa, o som suave e constante, como um lembrete cruel da vida que eles tinham. O futuro parecia ainda mais distante do que nunca. Ambos estavam perdidos em um mundo que parecia ter dado as costas para eles.
E então, em silêncio, eles se abraçaram. Mas, mesmo assim, Dante sabia que nada mais seria como antes. A dor de sua vida, de suas escolhas e do que se tornaram juntos, era algo que ele não poderia apagar. E nem Kou.
Era tarde demais para mudar, mas ainda restava um último vestígio de algo. Talvez não fosse o suficiente para salvar um ao outro, mas naquele momento, no calor do abraço, eles ainda eram tudo o que tinham.
Capítulo 20 - A Falência da Esperança (Continuação)
A casa estava sombria, as sombras das paredes pareciam engolir o pouco de luz que entrava pelas frestas da janela. A chuva ainda caía lá fora, forte, como uma cortina de água que parecia separar Dante e Kou do mundo lá fora. O cheiro de mofo e comida velha tomava conta do ambiente, o que antes poderia ter sido um lar agora não passava de uma prisão, de um lembrete da degradação que se instaurou na vida dos dois.
Kou estava no canto da sala, tentando organizar algumas coisas, mas sua expressão cansada denunciava o quanto ele estava além do seu limite. Ele pegava as garrafas vazias e as empilhava sobre a mesa, como se aquilo pudesse aliviar o peso que ele sentia no peito. Dante, por outro lado, limpava a poeira das prateleiras, mas seus movimentos eram descoordenados e vagarosos, como se ele estivesse apenas tentando ocupar a mente.
O silêncio que os envolvia era denso e pesado, mas também carregado de uma estranha cumplicidade. Ambos sabiam que estavam ali apenas por uma questão de sobrevivência, não porque acreditavam que poderiam voltar a ser o que eram.
Kou, com a cabeça baixa, suspirou, quebrando o silêncio. "Dante... lembra como tudo começou?" Sua voz estava rouca, um pouco trêmula, mas havia uma sinceridade profunda em suas palavras. "Eu... eu lembro do primeiro dia que você apareceu na minha vida. Você me deu coragem, me fez sentir que poderia ser mais do que eu era..."
Dante parou por um momento, seu olhar ainda distante. Ele não conseguia mais sentir a mesma esperança que Kou tinha naquele primeiro momento. Ele simplesmente ficou ali, com as mãos nas prateleiras, ouvindo a voz do ômega.
"Eu lembro também." Dante finalmente respondeu, sua voz fria, mas com uma nostalgia que ele tentou esconder. "Mas eu não sou mais aquele cara, Kou. Eu... Eu me perdi." Ele se afastou da prateleira e sentou-se no pequeno sofá, as mãos caindo sobre os joelhos com um peso quase insuportável. "Eu sei o que você está sentindo. Eu sei que eu deveria ser diferente, mas eu não sei mais quem sou."
Kou olhou para ele, os olhos embaçados pelas lágrimas que ele ainda tentava controlar. "Eu só... eu só queria que a gente fosse feliz de novo. Como antes." A voz dele estava quebrada, a dor explícita. "Mas parece que a felicidade nunca foi pra gente."
"Nunca foi, Kou." Dante disse de maneira direta, mas com uma suavidade que, de certa forma, ainda carregava um resquício de afeto. "Nós dois... fizemos escolhas erradas. Eu não sou quem você pensa que sou."
O silêncio caiu de novo. O som da chuva parecia se intensificar, como se o universo estivesse tentando afogar os sentimentos que se misturavam na casa imunda. Dante olhou para o chão, suas mãos apertando os joelhos enquanto sua mente relembrava os erros e as mentiras que haviam os levado até ali. Ele queria tentar, queria se sentir bem de novo, mas a sensação de fracasso estava gravada em sua pele.
Kou, com o olhar fixo no chão, falou novamente, quase como se estivesse falando consigo mesmo. "Eu não sei como você aguenta, Dante. Não sei como... como conseguir continuar assim." Ele levantou o olhar e encarou o namorado com os olhos vermelhos de tanto chorar. "Eu me sinto tão... tão vazio."
"Eu também." Dante respondeu, sua voz um sussurro, quase inaudível. Ele sentiu o peso daquelas palavras no peito. "Eu também me sinto vazio, Kou. Mas é isso que somos agora. Pessoas vazias, vivendo uma vida vazia." Ele se levantou do sofá e caminhou até a janela, olhando para fora. "Eu não posso te dar o que você quer. Não posso ser o que você espera que eu seja."
Kou tentou segui-lo com os olhos, mas a dor que sentia era mais forte que qualquer tentativa de entender a frieza do outro. Ele queria que Dante o olhasse com a mesma devoção de antes, mas sabia que isso era um sonho distante. "Dante..." Ele sussurrou. "Eu não sou forte como você. Eu só queria ser amado."
Dante se virou para ele, suas feições rígidas. "Eu também queria, Kou." A resposta foi simples, mas carregada de um peso profundo, algo que ele nem sabia se poderia suportar. "Mas, o que nós fazemos agora? Ficar aqui e esperar que algo mude? Eu... não sei se consigo fazer isso por mais tempo."
Kou se aproximou lentamente e, dessa vez, sem palavras, colocou a mão na de Dante. Seus olhos ainda estavam úmidos, mas a expressão no rosto dele era diferente. "A gente ainda pode tentar. Talvez a gente não precise mudar tudo, mas... pelo menos tentar." Ele sorriu timidamente, quase como uma súplica silenciosa.
Dante olhou para as mãos de Kou, as palmas abertas, como se pedisse algo que ele não podia dar. O olhar de Dante se suavizou um pouco, mas ele sabia que não tinha mais forças para tentar. A luta dentro de si era constante, mas ele se sentia exausto demais para continuar.
"Eu não sei, Kou." Dante falou em um tom cansado. "Eu não sei mais."
Por um breve momento, eles ficaram ali, em silêncio, os olhos se encontrando, os corações batendo juntos, mas sabendo que cada batida os afastava ainda mais. Eles haviam se perdido, mas o resquício de amor que ainda restava entre eles era a única coisa que os mantinha juntos. Talvez, de alguma forma, isso fosse suficiente.
A chuva continuava a cair lá fora, e dentro daquela casa miserável, o amor ainda existia, mas era um amor dolorido, marcado pelas escolhas que ambos haviam feito.
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Atualizado até capítulo 65
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